Pra quem gosta de comprar ações antes da alta, aqui vai uma dica de uma banda que ainda cabe em cafés de Curitiba, mas que não deve demorar a sentar em uma mesa maior: Chico Balanceado.
Chique e bem posicionado como sempre 😎, o Musicazia esteve presente na gravação da apresentação da banda na Degusto Sessions, uma sessão intimista gravada no Degusto Café, em Curitiba, naquele espírito Tiny Desk mas com uma pegada mais camerística e com holofotes para nomes locais.
A gravação apenas destacou aquilo que já parece estar bem perto do ponto de ebulição: Chico Balanceado pode até ter nome de sobremesa, mas faz som de prato principal. Falta apenas um grande hit e alguns empurrões.
Formada por Pedro Koti (Koti), Thiago Oliveira (Thigues) e Rafael Lanzarini, a banda foi formada entre amizades de infância e encontros na cena musical curitibana – cena que, inclusive, eles próprios afirmam ser crucial tanto para a formação quanto para o desenvolvimento da banda.
“A banda só nasceu porque existiu uma cena curitibana pra apresentar a gente”, disse Thiago em entrevista ao Musicazia antes da gravação da Degusto Sessions.
Se inicialmente a cena era formada majoritariamente por bandas covers, hoje o espaço para a música autoral é bem maior e proporciona intercâmbios que enriquecem mutuamente os artistas.
Inclusive, a primeira vez que vi os meninos do Chico Balanceado tocar foi em um mini festival de artistas independentes no bar 92 Graus, nome importante na história da cena underground e autoral da cidade.
Rolava lá um mini festival formado também por nomes como a Disk Mandy, cantora e compositora que curiosamente eu havia “descoberto” dias atrás ao vê-la destacada por uma colega jornalista da Remezcla.
Foi engraçado isso: uma artista brasileira fazendo um desvio internacional para atingir alguém da mesma cidade. Mas às vezes é isso mesmo que acontece: um artista precisa de um “selo” vindo de fora pra fazer os seus próximos olharem pra ela.
(De todo modo, tendo eu descoberto a Disk Mandy pela internet e a Chico Balanceado porque resolvi sair de casa, recomendo os dois métodos.)
Não que Chico Balanceado seja uma completa desconhecida de Curitiba: a banda é nome forte na cena underground autoral (tanto que foi escolhida pela curadoria do Degusto Sessions). Mas tem potencial pra ir além disso.
Quando ouvi a Chico Balanceado pela primeira vez, fiquei tentando achar no som a explicação do nome da banda. Achei sim um groove que justificava, mas depois descobri que Chico Balanceado é um doce brasileiro feito com banana.
Em entrevista ao Musicazia, os meninos contaram que estavam em busca de um nome bem brasileiro para a banda. Chegaram a pensar em Jambu Tônica, drink popular em vários bares de Curitiba mas que não exatamente tenha alguma associação muito direta com a natureza e cultura do Sul.
Até que um dia a mãe de um deles comentou que iria aproveitar as bananas de casa pra fazer um Chico Balanceado.
Eles gostaram tanto que o nome ficou.
Depois disso, começaram a encontrar “Chico Balanceado” em todo lugar, como se o universo tivesse aceitado a escolha e decidido colaborar.
Musicalmente, eles se definem como rock alternativo com pitadas setentistas e psicodelia.
Rita Lee (solo e também no contexto d’Os Mutantes) aparece como uma “ref matadora”, nas palavras deles mesmos, mas não seria adequado resumir por comparação.
O som da Chico Balanceado tem um quê de blues, brasilidade, poesia cotidiana e aquela esquisitice gostosinha que deixa o som potencialmente universal mas ao mesmo tempo tem uma assinatura própria difícil de desassociar da banda.
Por exemplo, Koti compôs “Jucélia” para ser uma personificação da UFPR, universidade com a qual ele tem uma relação complexa; e “O triste fim de Chico Balanceado” brinca com o próprio nome da banda (essa última eles tocam na Degusto Sessions) e faz um epitáfio precoce para uma banda que certamente ainda sequer teve seu auge.
São essas pequenas ousadias — o romantismo quase byroniano de transformar uma universidade em musa, a ousadia ou até audácia da metarreferência — que fazem a Chico Balanceado soar como uma banda que já sabe o tipo de música que quer fazer e não está muito a fim de podar essas peculiaridades pra soar mais palatável para os grandes públicos.

E chegar a esses grandes públicos é uma ambição que a banda tem e não esconde.
“É uma bolha difícil de furar, mas temos exemplos suficientes de que dá pra furar, como os próprios Jovem Dionísio, Capim Limão etc”, disse-nos o Rafael.
Deu pra sentir, na entrevista, que os meninos sentem muito orgulho de fazer parte da cena curitibana e reconhecem o quanto devem a ela.
Eles contaram ter começado a tocar no show da banda curitibana de música instrumental Mumbai Express, e que desde então fizeram vários amigos na cena, sem contar as referências familiares também. Compreendem ainda que as vivências na cidade e na cena moldaram muito quem eles são, e consequentemente, o som que fazem.
“Nossas músicas falam do nosso cotidiano”, diz Koti; “minhas vivências sendo uma pessoa negra em Curitiba [influenciaram meu som]”, diz Thiago; “ser uma banda autoral dificulta crescer, é uma bênção disfarçada de sina, a gente sofre, mas não quer mudar”, diz Rafael.
Mas eles são bem honestos e diretos ao dizer que não querem passar a vida toda sendo underground.
“A gente quer [o sucesso] por nós, mas também pela cena. E a gente acha que a gente merece, e por isso a gente busca isso”, disse Thiago.
Para nós, parece que é só uma questão de continuar mexendo o doce até o resto do país sentir o cheiro e querer provar também.
Degusto Sessions #016 – Chico Balanceado
Gravação e entrevista realizadas em 15/04/2026
Lançamento: 11/06/2026
Setlist:
- Vozes
- Eles mentiram
- O triste fim de Chico Balanceado
Agradecimentos
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