Categoria: Sobre álbuns

  • Nortistas castigados pelo calor fazem boa arte — é o que mostram a amazonense Elisa Maia e a banda tocantinense Soprü

    Nortistas castigados pelo calor fazem boa arte — é o que mostram a amazonense Elisa Maia e a banda tocantinense Soprü

    “Sofre bem mais quem sofre ao sol de setembro no Norte, sem mais”, canta Elisa Maia em “Sol de Setembro”. Para quem vive no Norte, a frase dispensa explicação.

    No calendário brasileiro, setembro é o mês em que começa a primavera. Mas nos Estados do Norte, o mês não representa de forma alguma aquele intervalo agradável entre o inverno e o verão que outras regiões podem imaginar.

    Como tocantinense, setembro sempre foi um fantasma. Se julho é temporada de praias de água doce, o tocantinense se banha já se preparando pra caminhar pro corredor da morte: a dobradinha agosto-setembro é cruel, com setembro sendo o auge do calor.

    De uma maneira geral, o tocantinense é monotemático quanto ao calor mesmo: a principal característica que nos descreve e nos marca é o calor. É difícil explicar. “Calor” parece uma palavra comum e uma sensação universal; remete até mesmo a sentimentos celebratórios no Brasil; mas o calor no Tocantins é diferente… sobretudo em setembro.

    Também já virou tradição, marca, o calor de setembro no Tocantins. É um calor seco inflacionado pelas queimadas, que parece atravessar a pele até chegar ao humor. É a pior época. As viroses comem soltas, as pessoas ficam mal de tanto calor. Não é glamuroso.

    Mas recentemente, quando descobri no trabalho da cantora e compositora amazonense Elisa Maia a música “Sol de setembro” (lançada durante a pandemia), foi como sentir uma semiuniversalidade dessa experiência.

    Em entrevista exclusiva ao Musicazia, Elisa contou que já precisou contextualizar o verso quando o cantava em outros Estados. Eu, como tocantinense, apesar da distância homérica entre Palmas e Manaus, senti que a música era sobre a minha terra. Os primeiros versos, sobre alguém que não quer se levantar e ver o sol, parecem tirados de relatos meus de quando morava em Palmas. Eu abria a janela às 7 da manhã e o sol parecia dar um murro na minha cara.

    O calor tocantinense já inspirou alguns escritos artísticos meus, e ainda nessa toada de reconhecer-me na arte de outros nortistas por meio dessa experiência norte-universal, descubro que há mais arte tocantinense inspirada pelo nosso clima.

    É nesse contexto de calor de setembro que sai o álbum da banda tocantinense Soprü, Cidade do Suor (2026), ao qual o Musicazia teve acesso antecipadamente.

    Curiosamente, há no álbum uma música (“Areia no teto”) que fala do mês de agosto (e sua poeira na cidade, folhas no chão”). Gosto de pensar que o setembro tocantinense é tão temido que a banda sequer se atreveu a mencioná-lo; só a preparação para ele já é intensa o suficiente pra render música.

    Se a cantora amazonense Elisa Maia transformou o calor da capital do Amazonas em metáfora para o desgaste das relações, a banda tocantinense faz da capital do Tocantins a matéria-prima de um álbum inteiro.

    O resultado é um disco em que o suor não é apenas aquilo que escorre do corpo sob o sol: é cansaço, desejo, tédio, vontade de fugir, apego ao lugar e, sobretudo, uma maneira de existir no mundo. É um som arrastado, não no sentido de maçante ou de músicas tapa-buraco, mas no sentido de fluidez, de deixar-se levar pela poeira e entregar-se para o mormaço.

    É legal ver o indie pop e rock alternativo como matérias-prima para esses relatos; combinou. A banda goiana Boogarins já havia fundado esse precedente do rock alternativo como linguagem do cerrado. A Soprü caminha nessa mesma terra, com doçura e balanço, e com contexto lírico que justifica a unicidade do Tocantins em comparação com seu vizinho e Estado paridor.

    Há na faixa “Linguagem dos homens” uma metáfora interessantíssima comparando Palmas com Roma e o calor daquela com o incêndio que marcou a história desta. Mas apesar da menção a outra cidade de outro país, o álbum tem um aspecto quase funcional para compor a imagem de Palmas e do pouco conhecido Tocantins no imaginário coletivo do Brasil, e faz isso referenciando o capim dourado (artesanato símbolo do Estado do Tocantins), ao lago de Palmas, às araras e arraias, à poeira, ao barro, entre outros marcadores da experiência local. Cidade do Suor torna Palmas específica o suficiente para que ela se torne reconhecível por quem nunca esteve lá.

    É muito interessante ver esses elementos tão típicos de Palmas funcionando não só como paisagem, mas como ponto de vista. Isso me remete novamente a “Sol de setembro”, de Elisa Maia.

    Quando a entrevistei, ela disse uma coisa brilhante: ela percebeu que falar que estava em Manaus e comentar o calor era também uma forma de mostrar não só do quê, mas de onde ela fala.

    É quase político, ela disse, sobretudo considerando a arte feita por artistas do eixo sudestino — mas em “Sol de setembro”, quando ela subverte a lógica do arquétipo do calor como símbolo de alegria e claridade, ela coloca a sua Manaus, seu Amazonas, sua Amazônia como centro do mundo.

    Elisa disse que o Norte não é usualmente o norte de suas composições, mas em “Sol de setembro”, foi. A música foi escrita pra falar de relações e de solidão, mas o ambiente físico acabou ganhando outra dimensão retrospectivamente: sofrer sob aquele sol extremo também era cantar sobre uma experiência ambiental que o corpo já conhecia. Elisa captou magistralmente a sensação do quanto dói muito mais sofrer sob o sol que, por si só, parece brilhar pra punir e não pra iluminar.

    Porém, intrigantemente, eu não descreveria o som de “Sol de setembro” e nem de nenhuma das faixas de Cidade do Suor como tristes.

    Pelo contrário, são envolventes. “Sol de setembro” é um reggae delicioso; Cidade do Suor tem faixas mais psicodélicas e introspectivas mas algumas até bem alegres. Há até uma certa vivacidade, um sobreviver que quer viver mais e melhor, uma apreciação da estética e do potencial da paleta ocre desbotada de sol ao seu redor.

    É como se o artista nortista, apesar de não conseguir escapar do calor, também não consegue escapar da inebriação de quem é capaz de enxergar a miragem.

    Se você gostou da música dos artistas, encorajamos você a consumir por meio de canais oficiais para que eles possam ser remunerados.

    Projeto: single “Sol de setembro”

    Artista: Elisa Maia

    Lançamento: 24/09/2020

    Disponível em: Spotify, YouTube

    Projeto: álbum Cidade do Suor

    Artista: Soprü

    Lançamento: 22/09/2026

    Disponível em: Spotify

    A entrevista com Elisa Maia foi conduzida em maio de 2026, com foco na obra completa da artista. A conexão com o álbum da banda Soprü é de iniciativa do Musicazia para fins editoriais e não representa vínculo entre os artistas.

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  • O funk bruxaria faz um papel de meio-mensagem em Ornitofagia, disco sinistro em que a DJ Urutau idealiza um apopássarocalipse

    O funk bruxaria faz um papel de meio-mensagem em Ornitofagia, disco sinistro em que a DJ Urutau idealiza um apopássarocalipse

    Se o meio é a mensagem, como disse o teórico da comunicação Marshal McLuhan, então o funk bruxaria já seria, por si só, uma escolha interessante de gênero musical para um projeto musical que pretende apresentar algum futuro distópico.

    Mas a DJ Urutau (codinome usado no novo projeto musical da produtora paulistana Lua Viana) foi além e adicionou algumas camadas simbólicas e estéticas ainda mais interessantes ao subgênero mais sombrios do funk, no seu disco de estreia, Ornitofagia (2026).

    Esse projeto dá continuidade à pesquisa que Lua desenvolve em outros trabalhos (como o Antropoceno) e à ideia de “Futuro Ancestral”, obra do autor indígena Ailton Krenak.

    Ornitofagia parte de uma premissa tão estranha quanto fértil: afetado pelo fenômeno climático El Niño, o pássaro urutau passa a devorar outras aves, incorporando seus cantos, espíritos e conhecimentos, até transformar a destruição ambiental provocada pelos humanos em desejo de vingança.

    Musicalmente, essa narrativa se materializa em uma combinação de sons de cantos de aves, glitch e batidas e elementos de música eletrônica, funk, capoeira e até mesmo referências a gêneros como samba.

    O resultado sonoro é sinistro (adjetivo que uso aqui tanto no seu sentido literal como no sentido de gíria noventista elogiosa), um apocalipse passarinheiro.

    A faixa “Engoli um Bem-te-vi (Na Onda do El Niño)”,por exemplo, parece o som de um mobbing. 

    Ornitofagia é uma obra sobre a crise climática, mas engraçadamente (e esperançosamente não desrespeitosamente) funcionaria como experimentalidade nonsense que tem sido vista por aí em tantos projetos eletrônicos de produtores de funk que bebem da estética da colagem internetesca (como alguns que já resenhamos por aqui:  Quebradeira Pura, de Marcelinho MeteBala; e BRVXARIA CYBERTRONICA 巫师 VOL.1, do BRVXO).

    O funk bruxaria contribui para essa operação não só esteticamente, mas como linguagem também. Ele, por si só, com suas batidas industriais, secas, e elementos estéticos que formam uma atmosfera sombria, funciona como uma boa metáfora para um fim do mundo causado pelas agruras do capitalismo.

    Em vez de funcionar apenas como uma embalagem contemporânea para uma mensagem ambiental, sua estética de distorção, excesso e caos parece oferecer ao álbum uma forma sonora para uma crise que já não cabe em uma linguagem exclusivamente racional ou documental.

    Ainda assim, fora o estético, se nos dedicarmos a explorar as premissas conceituais do álbum, elas podem nos conduzir a pensamentos até mais interessantes.

    Por exemplo: o que acontece quando a antropofagia brasileira deixa de ser uma metáfora para a formação da identidade nacional e passa a ser uma metáfora para a vingança da natureza contra o humano?

    A própria ideia de “ornitofagia” parece deslocar a tradição antropofágica do Modernismo brasileiro (“engolir” a cultura estrangeira dominante e transformá-la em algo genuinamente brasileiro) para uma perspectiva ecológica: em vez de apenas incorporar o outro para produzir algo novo, o sujeito humano se torna ele próprio incorporado pela criatura que inventou.

    É radicalizadora a ideia do pássaro como sujeito “mau”, vingativo.

    Mas os cantos das aves em Ornitofagia também representam memória, conhecimento, identidade e poder.

    Isso permite pensar Ornitofagia como uma experiência de descentralização do humano, enquanto, ao mesmo tempo, inevitavelmente se contradiz ao tentar produzir uma estética não antropocêntrica a partir de uma linguagem criada por humanos.

    E é nessa collab não-fraterna que Ornitofagia brilha, confrontando beleza natural e criatividade humana com sinais trocados, apenas para descobrir que o pássaro também sabe ser feio e que o homem, apesar de tudo, sabe fazer coisas bonitas. (O humano pode até produzir algo criativamente sofisticado, mas no funk bruxaria, cria algo sonoramente “sujo”; enquanto a ave é uma criatura bela e pode cantar belamente, mas sua vocalização em Ornitofagia é transformada em algo incômodo.)

    É beat, tambor e pio de pássaro, tudo no mesmo bolo sonoro, mas com a intenção de deixar claro que não estão todos no mesmo barco, e que, desta vez, é o humano quem vai afundar.

    Se você gostou da música da artista, encorajamos você a consumir por meio de canais oficiais para que ela possa ser remunerada.

    Projeto: álbum Ornitofagia

    Artista: DJ Urutau

    Lançamento: 31/08/2026

    Disponível em: Spotify, YouTube, Soundcloud

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  • Experimentação é uma atitude ou uma estética? 
Mc Luanna e a arte de não levar a sério a arte de não se levar a sério

    Experimentação é uma atitude ou uma estética? Mc Luanna e a arte de não levar a sério a arte de não se levar a sério

    Nessa semana, a rapper Mc Luanna lançou um projeto de arrocha. Ou melhor, de rap versão arrocha.

    Muitos chamaram de forró, piseiro, brega etc… não é nada disso, mas não é nessa intercambialidade que se inicia a minha irritação ainda, pois de fato esses são gêneros musicais e universos culturais conectados (por exemplo, dias atrás li Jonas Medeiros chamando o brega de “língua franca” do Norte e Nordeste, e gostei dessa definição).

    O single é a faixa “Papel de otária”, e seu lançamento tem também um “medley” de raps dela em formato de arrocha daqueles feitos pra tocar em paredão.

    “Papel de otária” começa com a letra “Como se nada”, mas não é que esse EP tenha sido lançado exatamente do nada. Luanna é baiana, terra onde nasceu o arrocha e a pisadinha, e já tinha demonstrado algumas vezes que curtia esses gêneros e queria brincar com eles.

    Pois bem, ela foi lá e fez. E a repercussão tem sido engraçada.

    Muitas pessoas disseram que ficou horrível. Criticaram a qualidade da música e riram do vídeo de “Papel de otária”, em que Luanna aparece com um figurino de cantora de forró pop, e o produtor Mello Santana assume o papel do tecladista, que é basicamente o guitarrista das bandas de forró eletrônico, piseiro etc.

    “Papel de otária” não está muito longe das reais inspirações de Luanna, que parecem ser justamente os “Fulano e os Teclados” da vida, os grupos musicais de forró e brega que às vezes acabam chegando ao status de um Calcinha Preta ou um Barões do Pisadinha, mas na maioria dos casos, seguem sobrevivendo à base de shows enxutos em cidades do interior do Norte e Nordeste ou casas de show periféricas do eixo Rio-SP onde moram pessoas do Norte e Nordeste que ajudaram a colocar o eixo Rio-SP de pé.

    É verdade que o forró e o brega passaram nos últimos ~10 anos por um processo de abraçamento pelo mainstream e pela cultura popular das redes sociais, aculturados sob a bandeira da estética “camp”, ou exaltados por um misto de nostalgia e bandeira identitária dos millenials nortistas e nordestinos que conseguiram vencer nesse Brasil Sudeste-centrado.

    Isso é mérito de muita gente e inclusive do Governo Lula que deu dignidade a muitas dessas pessoas. Artistas como Pabllo Vittar, que prepararam a cama para que Dudas Beats e Marinas Senas pudessem deitar. Mas também de artistas mais underground, como Banda Uó, Gang do Eletro, Luísa e os Alquimistas, que não alcançaram o mesmo nível de reconhecimento, mas que estavam ali bem de boa e consistentes construindo uma estética musical fundada nos seus contextos geográfico-culturais com alguns ganchos que o mid/mainstream conseguiu pegar para transformar em versões mais palatáveis para outros públicos.

    (( Eu me lembro, em 2021, quando fiz pela primeira vez a lista dos 10 Melhores Álbuns Pop Brasileiros da PopMatters, que uma pessoa no Twitter X ironizou a presença do álbum Marmota do Getúlio Abelha, dizendo que não era mainstream pra estar naquela lista. Não consigo achar esse post agora, mas lembro que Getúlio Abelha sabiamente respondeu: “Se você soubesse o quanto o que os artistas underground fazem é importante pro mainstream!”. ))

    Também é verdade que alguns desses gêneros musicais já não são mais tão vistos com aquele olhar elitista e xenofóbico que foram ou seriam no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 (o que diria Ariano Suassuna, que chamou a Banda Calypso de “feia e brega”, sobre João Gomes?). Na verdade, o piseiro já tá quase sendo reconhecido como MPB, sobretudo depois que o Sudeste caiu de amores por João Gomes, o que ele astutamente respondeu com mais e mais piseiro Sudeste-friendly.

    Não faço essas considerações com deboche nem reclamação. A inserção dos gêneros populares do Brasil profundo e periférico no pop é um dos motivos pelos quais o pop brasileiro ganhou mais identidade, cor e tempero nos últimos anos. Vejo zero problema na existência de uma versão gourmet desses gêneros.

    Mas a versão raiz continua existindo, é muito viva e não é só matéria-prima para o gourmet.

    @mcluanna

    PRA BATER NOS PAREDÕES • PRÉVIA PAPEL DE OTÁRIA

    ♬ som original – MC LUANNA

    A Mc Luanna poderia ter feito um arrocha supostamente higienizadinho, mas quis fazer algo mais próximo do que seria se ela realmente tivesse n’um bar do Centro de SP ou de alguma rua perdida de Salvador e tivesse que, ela mesma, Mc Luanna, rapper, improvisar um vocal para um cara que foi ali pra tocar um arrochinha no teclado. Ela optou por não se levar muito a sério, e não se levou mesmo.

    Produtores musicais costumam dizer que o momento de saber que uma faixa está pronta é quando eles simplesmente decidem parar de trabalhar nela. Talvez dê pra dizer que Mc Luanna e Mello Santana pararam cedo. Mas no fim das contas, aventurar-se, brincar, experimentar, era pra ser isso, também.

    É verdade que há algumas estranhezas estéticas em “Papel de otária”: na mixagem, nos vocais. Felipe Maia no Twitter X trouxe para a discussão um comentário pertinente sobre como Mc Luanna usa uma entonação/prosódia muito típica do rap, não seguindo muito a cartilha do estilo forró de cantar. Basicamente: ela termina os versos muito rápido, como rapper mesmo jogando o verso pra você “digerir”, sem melodizar muito os versos e sem conectar os espaços entre um verso e outro. Já estou perdendo a memória da primeira impressão que tive de “Papel de otária” (já ouvi mais de dez vezes), mas lembro de também ter sentido um certo “descasamento” entre o que estava ouvindo e o tipo de vocal que eu esperaria ouvir por cima de um instrumental como aquele. Mas achei que esse seria um charme da faixa também. E é.

    Essa música teria sido mais aceita se tivesse uma produção mais elaborada? Mc Luanna teria sido menos criticada se, em vez desse EP produzido e lançado desse jeito, tivesse feito um verso para uma música do João Gomes ou para um piseiro pop da Duda Beat?

    Tenho certeza que sim.

    E teria soado mais natural?

    Talvez sim, no sentido de ser mais próximo daquilo que esperaríamos do que uma rapper do midstream pra cima faria.

    Ouso dizer que talvez soasse mais natural até para quem é do mundo do forró/brega/arrocha/piseiro/paredão, que teriam curtido o instrumental e melodia mas teriam achado que essa vocalista ainda precisa comer algum feijão com arroz.

    Mas pra quem transita entre esses dois mundos, tenho certeza que soou no mínimo muito ok, e com alguma abertura, extremamente viciante.

    Independente dos vocais e da letra, Mc Luanna usou uma progressão de acordes que não tem erro. Eu tenho uma teoria que defendo há anos, de que existem certas progressões de acordes que conseguem fazer uma música ser no mínimo gostosinha de continuar escutando independente da força da melodia e/ou da letra; e eu sigo firme nessa teoria. Não dá pra não ser grudante com uma progressão de acordes dessa.

    Fora que o instrumental de teclado em “Papel de otária” é muito bom também; ele é o que pretende ser e o que precisa ser pra ser um arrocha. O sintetizadorzinho tá matador.

    Muitas vezes, mesmo quando a gente vê um artista se “aventurando” em estéticas, gêneros, propostas artísticas diferentes sob o argumento de que quer se divertir e não se levar tanto a sério, essa despretensiosidade costuma estar muito mais na proposta inicial do que na execução, né?

    Ou, pior ainda, o conceito de levar a sério muitas vezes é esperado que equivalha a produzir a versão mais sofisticada possível de algo que era pra ser só um experimento divertido. O problema é que a sofisticação muitas vezes é só um eufemismo para mascarar gostos e predileções que são moldados por muitas coisas, inclusive preconceitos.

    No caso da Mc Luanna, deu pra ver que ela realmente quis se divertir e focou nisso e parou nisso, não ficou pirando em buscar uma master perfeita, um vocal cheio de vibrato a la Solange Almeida.

    Ficou levemente tosco, mas não é uma paródia. É, esteticamente, uma v1 (e não a v1_final_FINAL_É ESSAA) de uma gravação de uma rapper cantando arrocha.

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    Projeto: single PAPEL DE OTÁRIA + MEDLEY 4×4 

    Artista: Mc Luanna

    Lançamento: 12/08/2026

    Disponível em: Spotify, YouTube

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  • Que fracas as letras do EQUILIBRIVM II! Ainda bem que letra não é tudo que importa na música. Mas que pena!

    Que fracas as letras do EQUILIBRIVM II! Ainda bem que letra não é tudo que importa na música. Mas que pena!

    Vamos ser sinceros? EQUILIBRIVM II  é uma versão terreiro de “Sabor de mel” da Damares, né?

    Nas letras, parece haver uma obsessão de Anitta com o fato de que há uma obsessão com ela.

    Um hiperfoco em proteção, em ser alvo de mau olhado e se proteger dele etc etc etc, o que é até compreensível para alguém do tamanho da Anitta e que deve lidar com toneladas de inveja diariamente, mas… não havia formas mais criativas de explorar isso?

    “O  que não tem solução, solucionado está“, “O imprevisível é a mãe do improviso“, “Só erra quem tenta“, “Coragem vem de berço“…

    Estou citando frases isoladas, mas é que a ocorrência desse nível de genericidade é grande demais pra não definir a impressão geral que as letras do álbum deixam.

    Mesmo as letras sobre temas não relacionados a espiritualidade, fé e proteção derrapam (“O mar dessa cidade tem um lance, vai fazer você entrar em transe“… sério? “Quem não pega o embalo do som não entendeu a malandragem” — ???).

    É uma pena.

    Ainda bem que letra não é tudo. O álbum tem outros méritos. Mas ainda assim, que pena.

    Eu gostei muito da proposta do projeto EQUILIBRIVM como um todo. Achei o EQUILIBRIVM I muito interessante. Escrevi com muito gosto uma resenha para a PopMatters na qual inclusive o comparo com Ray of Light da Madonna, no sentido de ser um álbum-produto de reflexões profundas de uma pop star que atingiu o patamar de larger than life, que viu de tudo e precisou fortalecer sua relação com a sua espiritualidade, e transformou isso em música.

    Vi muitas críticas a essa comparação e senti que as críticas não conseguem que comparações precisam guardar as devidas proporções. É óbvio que não quis dizer que as artistas estão no mesmo patamar, ou que a musicalidade dos álbuns é parecida. Eu me referi a momentos profissionais e espirituais similares de grandes pop stars que chegaram ao ápice dentro das proporções dos seus respectivos games.

    Mas, enfim…

    Acho sim que o EQUILIBRIVM I é um dos grandes momentos da discografia da Anitta. Tanto que é até triste vê-lo eclipsado, e tão rapidamente (nem 2 meses, meu Deus! Não vi o publi video do Vassao ainda que explica por quê), por um outro que não conseguiu acompanhá-lo.

    Não que todas as letras do I sejam boas – na review da PopMatters eu comentei que a literalidade de “Deus existe” é meio brochante, embora seja uma boa música. Mas no EQUILIBRIVM II  parece que essa mesma trilha de estilo de compor foi mantida para praticamente todas as músicas.

    As letras são monotemáticas. E nem é só esse o problema. Também não vejo problema se esse for um tema recorrente na religião e se há contexto para tudo que está dizendo. A questão é que são fracas mesmo. Abusam de literalidade, clichês, frases feitas, algumas fracas demais até pra serem legendas de Instagram.

    Em alguns aspectos, sobretudo as colaborações e o projeto visual, EQUILIBRIVM II parece até mais grandioso que seu antecessor.

    Mas até as letras dos vocais dos colaboradores do álbum parecem não estar à altura deles.

    Até a frase “remédio pra doido é sempre um doido e meio” parece deslocada no “rap” de Alceu Valença. Esse não é o tipo de frase que ele usaria como um fechamento, como se fosse o ápice do verso; é no máximo algo que ele diria no meio da letra e provavelmente com um pouco mais de criatividade do que simplesmente recitar um bordão. Alceu é um excelente contador de histórias, acho sofrível ouvi-lo abrindo um verso com “Quem muito fala o que quer, ouve o que não quer de volta” .

    Até o rap da KING Saints em “Deus mãe” está muito fraco! Nem se compara com a KING Saints do álbum anterior.

    Há, sim, bons momentos líricos em EQUILIBRIVM II. Eu destacaria “Ponta do pé”, que tem uma construção lírica um pouco mais elaboradinha, com umas repetições fônicas, uma aliteração em tom de brincadeira que dá uma leveza e riqueza ao refrão.

    Mas, por falar em leveza, de uma maneira geral, a impressão que fica sobre as letras do álbum é que elas não acompanham o peso da proposta e dos convidados. Nesse sentido, EQUILIBRIVM II parece estar milkando a temática do I, só que com um grau de criatividade muito menor.

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    Projeto: álbum EQUILIBRIVM II

    Artista: Anitta

    Lançamento: 24/07/2026

    Disponível em: Spotify, Amazon Music, Deezer, Tidal, YouTube

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  • Os 2 melhores álbuns de boybands de música preta baseadas no Rio de Janeiro lançadas no mês de maio de 2026

    Os 2 melhores álbuns de boybands de música preta baseadas no Rio de Janeiro lançadas no mês de maio de 2026

    Ok, eu não fiz um trabalho de mapeamento de todos os grupos masculinos cariocas que lançaram discos de pop preto em maio de 2026; mas achei interessante que dois gostosíssimos álbuns lançados nesse mês tenham vindo de grupos com esse perfil: FORÇA DA JUVENTUDE, segundo álbum de estúdio d’Os Garotin de São Gonçalo, e MOMENTUM, álbum de estreia do grupo Trivia.

    Belo momento para a nossa música e para essas boybands.

    Sobre o termo “boyband”, inclusive, cheguei a entrevistar Os Garotin em 2024, quando eles começaram a fazer posts de brincadeira se descrevendo como “a primeira boyband de MPB”, e achei divertido saber que eles realmente não se importam em serem vistos como boyband, e abraçam esse rótulo com leveza e alegria.

    Na época, eu acabei fazendo uma analogia que não entrou para a versão final do artigo publicado na Remezcla: eles parecem uma boyband de K-pop no sentido de que cada um tem sua “função” na performance, cada um tem sua carreira solo em paralelo com o grupo etc.

    “Boyband” pode até ser um conceito gringo, mas a versão brasileira disso é também muito especial e temperada com coisas que você só encontra no Brasil mesmo – como a marra e o suíngue do Rio de Janeiro, ou a habilidade de misturar percussão baiana com R&B estadunidense com uma naturalidade e romantismo que só quem tem o sangue de Djavan correndo nas veias poderia.

    Vamos aos comentários sobre cada um desses álbuns:

    Os Garotin – FORÇA DA JUVENTUDADE

    Você vai gostar se gosta de: (ah, você não conhece Os Garotin ainda? Mas ok, você vai gostar se gosta de) Seu Jorge, Fat Family, Tim Maia, James Brown, Wilson Simonal

    Eu gosto do título FORÇA DA JUVENTUDE porque é um cafona estilosinho, parece saído de um programa de auditório dos anos 1970, soa como algo que um tio diria sobre jovens talentosos; mas também porque a música do grupo vive exatamente nesse encontro entre frescor e tradição.

    Há também uma coisa meio Wilson Simonal de assumir uma malandragenzinha charmosa de garoto mas fazendo música de gente grande.

    O legal d’Os Garotin é justamente abraçarem a juventude enquanto estado de espírito sem muitas desculpas e sem cair em uma obsessão por parecer futurista ou inovador demais. Dá pra sentir que Os Garotin sempre serão Os Garotin, mesmo quando forem velhin. Há muito suingue novo ali, mas também muito orgulho de soar como quem conhece a história da música preta brasileira, e internacional também.

    Inclusive, a proposta do álbum é basicamente a mesma do álbum anterior (que foi o álbum de estreia do grupo). FORÇA DA JUVENTUDE inova pouco em relação ao som trazido em OS GAROTIN DE SÃO GONÇALO (2024). Mas, honestamente, precisava? Não precisava.

    Os Garotin têm uma energia tão fresca e genuína que acho que vai levar um tempo até eles precisarem se reinventar pra não cair na mesmice. (Ou talvez eu seja culpada pelo meu cérebro condicionado a botar a régua mais baixa para artistas masculinos… mas fico pensando que, por exemplo, se o Vício Inerente fosse pouco diferente do De Primeira, talvez eu tivesse amado igual, de tão apaixonada que fiquei pela originalidade da Marina Sena.)

    O álbum é cheio de R&Bs deliciosinhos, como “Deixa eu te encontrar” e “Calor e arrepio”; algumas baladinhas; alguns momentos de cartão-postal de brasilidade, como a boa dupla “Soul brasileiro” e a faixa-título.

    Tudo é muito bom, mas pra mim o destaque é “Falador”, excelente momento de soul e hip hop (contendo um rap legal do 2ZDinizz). É a mais diferentezinha em termos de temática (talvez a única que não fale de juventude ou de flertes, sexo e romance), mas nem acho que tenha sido esse o mote para a música ter a estrutura e melodias mais empolgantes. As harmonias vocais do refrão e os acordes meio cabulosões fazem a faixa se destacar entre as outras. Mas claro que a letra ajuda sim, é gostoso ouvir uma expressão tão brasileira (“Falador passa mal”) no meio de umas harmonias de igreja.

    O hype d’Os Garotin é totalmente merecido.

    Quem ainda tem birra por achar que eles são mais do mesmo estereótipo carioca & black music brasileira precisa superar. Eles não são a repetição desses clichês; na verdade, eles são o tipo de energia e qualidade que fez esses atributos pegarem tanto a ponto de se tornarem clichês.

    E no ao vivo, são melhores ainda: entregam toda a energia das gravações e muito mais.

    Estou ansiosa pra ouvir algumas desse álbum ao vivo. Tive a oportunidade de vê-los ao vivo no Coolritiba, em 23/05/26 – inclusive em um encontro belíssimo e totalmente sinérgico com as meninas do Fat Family -, e eles cantaram algumas como “Se joga” e “Simples assim”; mas sinto que “Falador” ao vivo vai me ajudar a alcançar níveis mais altos de transcendência e empolgação.

    Trivia – MOMENTUM

    Você vai gostar se gosta de: Ryan Fidelis, Aaliyah, Destiny’s Child, as faixas R&B da Gloria Groove

    O grupo de nepobaby & neponetos do Djavan faz um som interessantíssimo com uma pegada pouco explorada no nicho do pop preto/R&B brasileiros: aquele som mais Missy Elliott/Timbaland-esco que ficou popular com a Aaliyah em One in a Million (1996) e influenciou desde Destiny’s Child a Britney Spears.

    Ok, não é cultura nossa, é cultura estadunidense, mas ainda assim é uma proposta musical interessante que acredito não ter ouvido tanto em artistas brasileiros; e gostei de ouvir com o Trivia.

    Eles soam como se tivessem assinado com a Bad Boy Records no final dos anos 2000.

    (Péssimo timing citar P. Diddy em 2026, eu sei, mas pra quem não sabe, lá pelo final dos anos 1990 e início dos anos 2000, ele chegou a produzir alguns artistas e explorar essa interseção de pop teen + R&B, rendendo alguns trabalhos bem legais, como o Down With Me do grupo de meninas – brancas – P.Y.T. Esse álbum foi a primeira referência que me veio à cabeça logo quando comecei a ouvir o MOMENTUM).

    Mas o álbum também tem umas pegadas mais abrasileiradas, como um ijexá/pagode baiano em “Na beira do mar” (para acompanhar o dendê da Melly, colaboradora da faixa) e o funk Miami Bassi que lembra o funk carioca old school em “Encara”.

    Vi que o álbum foi produzido por um dos membros do Trivia, Gabriel Viana, e também por seu tio Max Viana (filho de Djavan e artista também com extensa obra como a lindíssima “Canções de rei“). Gostei bastante das escolhas de produção do álbum; senti pompa, esforço, ambição.

    Senti um caminho de produção interessantíssimo em “Meu jeito de amar”, tem uma guitarrinha sintetizada ali que quase soa como cordas de berimbau…

    Também gostei bastante das harmonias vocais; percebo muito a vibe de “grupo”, meio diferente d’Os Garotin que parecem mais um encontro de três artistas solo (o que é, inclusive, parte da proposta deles mesmo).

    Tudo no álbum passa a impressão de que foi produzido para artistas que também apostarão em performance, e honestamente, ainda não vi como eles se apresentam ou vão se apresentar; mas de todo modo, vale a pena acompanhar o Trivia.

    Se você gostou da música dos artistas, encorajamos você a consumir por meio de canais oficiais para que eles possam ser remunerados.

    Projeto: álbum FORÇA DA JUVENTUDE

    Artista: Os Garotin

    Lançamento: 15/05/2026

    Disponível em: Spotify, YouTube, Deezer, Amazon Music

    Projeto: álbum MOMENTUM

    Artista: Trivia

    Lançamento: 26/06/2026

    Disponível em: Spotify, YouTube, Deezer

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  • Há crítica musical de álbuns de Bois, ou ainda estamos fingindo que isso não é música pop?

    Há crítica musical de álbuns de Bois, ou ainda estamos fingindo que isso não é música pop?

    Em 2024, tive a oportunidade de cobrir o Festival Psica, em Belém-PA. Entre as centenas de coisas que chamaram a minha atenção, há uma que fogia bastante do lugar-comum de festivais de música como esse: os headliners de um dos palcos da primeira noite do festival não eram cantores, nem bandas, mas sim, os dois bois-bumbás do Festival de Parintins-AM, o Boi Caprichoso e o Boi Garantido (obviamente, acompanhados das suas equipes, cantores e dançarinos).

    Fiquei encantada com a ideia de bois headliners. Nunca tinha pensando nessa possibilidade! O Festival Psica geralmente conta com cortejo e apresentações de grupos de manifestações culturais, mas eu nunca tinha visto isso acontecer no palco, ocupando o mesmo lugar que nomes como João Gomes e Liniker, que também foram headliners do Psica naquele ano.

    Mas fez todo o sentido, e não só pela proposta do Psica (que é de destacar a cultura nortista, amazônica, ribeirinha), mas também, porque o que chamamos de Boi Caprichoso e Boi Garantido também são atos musicais completos, inclusive com obras autorais!

    Os bois têm sua própria identidade sonora, narrativa estética, repertório autoral de toadas (palavra que é, ao mesmo tempo, sinônimo de “canção”, mas também descritiva de gênero musical) lançado anualmente, e uma base de fãs que rivaliza — ou supera — a de muitos artistas do mainstream.

    Ainda assim, existe um ponto cego evidente: por que a produção musical desses bois não entra no radar da crítica musical brasileira?

    Até onde tenho conhecimento e pesquisei para fazer esse texto, não parece haver um movimento de consideração dos álbuns dos Bois para serem resenhados por veículos jornalísticos.

    Existe crítica — mas não “crítica musical”

    É importante reconhecer: o Festival de Parintins é intensamente avaliado. Internamente.

    O Festival tem seus critérios técnicos para determinar a pontuação dos Bois. Há jurados, avaliação técnica, análises detalhadas de desempenho inclusive no que diz respeito às canções — assim como acontece com os sambas-enredo no Carnaval. Existe, inclusive, uma cultura de debate e rivalidade muito forte entre torcidas, cada uma se vangloriando de seu boi ter as melhores toadas.

    Há avaliação técnica musical feita dentro do Festival, mas e fora?

    Fora desse circuito, o que se vê são comentários sobre as músicas dos bois nas redes sociais, “reacts” no YouTube, disputas entre torcedores e algumas iniciativas isoladas de escuta mais atenta. A mídia local reporta o lançamento dos álbuns, mas se limita a isso.

    Recentemente, vi um movimento muito legal do Igor Marques, da página Igoarias Musicais, que promoveu uma audição coletiva em grupo do álbum Criação Cabocla (1996), do Boi Caprichoso, em homenagem aos 30 anos de lançamento do álbum. Não pude participar, mas pude perceber que a audição se dedicava a analisar o álbum enquanto obra musical mesmo, não só por sua história ou pelo que ele representa para o Boi Caprichoso no Festival de Parintins. Inclusive, as divulgações do Grupo mencionavam o álbum como “clássico da música amazonense” que completa 30 anos em 2026″.

    Há também, claro, a dissecação acadêmica da produção musical dos bois, com artigos que analisam a evolução dos padrões de composição, o histórico do lançamento das músicas, entre outros temas e recortes que interessam aos campos da Música, Cultura, Antropologia, História e vários outros campos do saber.

    Tudo isso é muito legal, mas ainda assim, eu me pergunto por que não se consolida uma crítica musical estruturada das toadas dos bois, principalmente fora do Estado do Amazonas e/ou em veículos que não têm um enfoque específico na música do Norte ou música “regional” em geral.

    (Curiosamente, a principal emissora que cobre o Festival de Parintins se chama A Crítica)

    Um álbum pop disfarçado de toada?

    Essa ausência se torna ainda mais intrigante quando você realmente escuta os lançamentos. Inclusive, o último lançamento do Boi Caprichoso, Brinquedo que canta seu chão (2026), é um dos fortes motivos que me leva a escrever esse texto.

    Lançado em 17/04/26, esse álbum é um bom exemplo de como essas obras poderiam — e talvez deveriam — ser analisadas como qualquer outro disco contemporâneo.

    A faixa-título é quase um experimento de música pop. A progressão de acordes se aproxima de estruturas amplamente utilizadas no mercado pop, criando um efeito imediato de familiaridade e adesão. Não é só música “de arena”, é música que funciona fora dela.

    E o próprio boi parece ter entendido isso.

    Tem rolado uma estratégia de divulgação da faixa muito interessante: versões da música “Brinquedo que canta seu chão” em diferentes gêneros (samba, forró, tradicional catarinense etc) reinterpretadas por artistas e influenciadores de várias regiões do Brasil. Uma espécie de validação empírica de que aquela toada já nasce com vocação de circulação nacional. Absolutamente sensacional!

    O fato de a toada ter combinado com todos esses gêneros prova que a sua composição é inteligente, é cancioneira, é universal.

    Arranjos, escolhas e pequenas ousadias

    O álbum Brinquedo que canta seu chão também oferece material suficiente para uma escuta mais minuciosa:

    • “É hoje!” tem um refrão forte, que fala de festa e cerveja, algo que funciona no contexto da celebração do boi, mas que faz todo o sentido no imaginário popular festeiro de qualquer parte do Brasil. Um refrão que funcionaria no sertanejo, no forró, qualquer ritmo dançante;
    • “Filhas de Mani” aposta em uma linha de saxofone marcante, quase hipnótica, que funciona como elemento de fixação melódica —um verdadeiro hook, no linguajar da composição musical;
    • “Cardume de Estrelas” trabalha com variações harmônicas mais frequentes ao longo de uma mesma faixa e, no final, realiza uma mudança de tom para acomodar a entrada de uma voz feminina. Harmonicamente, é a canção mais complexa do álbum;
    • “Tuxauas – Herdeiros de Xibelão” incorpora uma flauta andina, expandindo o repertório tímbrico e sugerindo diálogos com outras sonoridades latinoamericanas e amazônicas;
    • “Vidas Ribeirinhas”, que encerra o álbum, assume o formato de balada: piano, violino e uma construção lírica que se aproxima do lamento social, algo recorrente na tradição do Caprichoso.

    Confesso que não tenho um conhecimento tão aprofundado da discografia dos Bois Caprichoso e Garantido, mas tenho a impressão de que, nos últimos anos, parece haver uma incorporação mais consciente de estruturas do pop contemporâneo.

    Claro que, em todas as canções, há peculiaridades do gênero e que talvez não traduziriam tão perfeitamente em outros gêneros musicais ou contextos (o que não é, de forma alguma, um defeito ou exigência). Mas de uma forma geral, tenho observado “toadas mais pop” nos últimos anos sim.

    Um exemplo é “Tocaia”, que recentemente viralizou nas redes sociais por causa de um vídeo da cunhã-poranga e participante do BBB 26, Marcielle Albuquerque, dançando.

    É realmente hipnotizante ver a Marcielle dançando, ela tem uma presença marcante, gestos limpos e é linda demais. Mas não é só isso que faz “Tocaia” ficar na cabeça após assistir o vídeo: essa toada tem um refrão totalmente pop, desde a escolha dos acordes até a estrutura da melodia que varia entre um binônimo de verso mais arrastado+versos rápidos (estilo que se popularizou no mundo todo após a incorporação de estruturas de hip hop e trap no mundo pop).

    Então por que os veículos de crítica musical não avaliam álbuns dos Bois?

    A resposta não é simples, mas alguns fatores ajudam a explicar:

    1. Regionalização do olhar crítico
    A crítica musical brasileira ainda é fortemente concentrada no eixo Sudeste. O que escapa desse circuito muitas vezes não é ignorado por falta de qualidade, mas por falta de hábito crítico.

    2. A dificuldade da imparcialidade
    Caprichoso e Garantido não são apenas projetos musicais — são identidades culturais profundamente enraizadas. Qualquer análise pode tender a ser imediatamente lida como posicionamento dentro de uma rivalidade histórica. Isso cria um ambiente potencialmente hostil para a crítica.

    Nos últimos anos, acompanhei discussões bastante intensas no jornalismo musical dos Estados Unidos sobre a dificuldade que as culturas digitais de fandom trouxeram para a crítica musical. Eu mesma tenho amigas jornalistas que foram alvo de comportamentos extremamente odiosos e até perigosos por parte de fãs de artistas que elas escreveram a respeito.

    No Brasil, esse debate também existe. Destaco, recentemente, a forma como a jornalista Carol Prado foi ridicularizada por fãs do Matuê, e pelo próprio Matuê, após críticas a ele.

    Não estou aqui dizendo que as torcidas dos Bois agiriam da mesma forma, pois não tenho conhecimento de comportamentos desse nível de odiosidade por parte deles. Mas é certo que o contexto de rivalidade entre Bois já cria um ambiente bastante delicado para críticos musicais fazerem uma avaliação da música lançada por cada um.

    3. Falta de repertório crítico acumulado
    Como não há tradição consolidada de análise desses álbuns, também não há um vocabulário crítico compartilhado.

    A academia até produz estudos sobre ritmo, história, direitos autorais, mas isso raramente transborda para o jornalismo cultural.

    4. O enquadramento como “folclore”
    Talvez o ponto mais estrutural: enquanto os bois forem tratados apenas como manifestação folclórica, e não como produção musical contemporânea, eles continuarão fora das prateleiras da crítica.

    Talvez não exista crítica de álbum de Boi pelo mesmo motivo que não há crítica de samba-enredo fora das ligas carnavalescas cariocas e paulistas, ou crítica de músicas de Carnaval ou regionais de outros Estados… crítica de músicas que se enquadram muito mais como “manifestação cultural” do que música nos moldes da indústria musical mesmo.

    Pequenas fissuras nesse silêncio

    Confesso que sequer sei se é um anseio dos Bois e de suas torcidas terem sua música avaliada dessa forma.

    Mas iniciativas independentes, como a do Igoarias que destaque acima, mostram que há interesse nesse tipo de análise. E mais do que isso, há material suficiente para análise. A produção autoral dos Bois é muito intensa, fora todas as décadas de discografia que ambos acumulam.

    Se esses discos têm composição, arranjo, conceito, estratégia de lançamento e recepção de público, o que exatamente ainda falta para que sejam levados a sério como objetos de crítica musical?

    O que falta, talvez, é um deslocamento de perspectiva: enxergar esses álbuns não apenas como trilha de um espetáculo, mas como obras musicais completas, inseridas (ainda que de forma muito recortada) na indústria fonográfica brasileira.

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  • O sensacional álbum de 2005, 静焔 (Jou En), da banda japonesa 空夜coo:ya, chega ao Spotify no dia 04/05/26, após clamores do nicho de viciados em recomendações “aleatórias” do Youtube

    O sensacional álbum de 2005, 静焔 (Jou En), da banda japonesa 空夜coo:ya, chega ao Spotify no dia 04/05/26, após clamores do nicho de viciados em recomendações “aleatórias” do Youtube

    Existe um prazer quase arqueológico em descobrir álbuns raros, músicas pouco conhecidas, artistas que não chegaram a ter estrela. Nerds de música conhecem bem essa sensação de escavar lojas de discos ou driblar os algoritmos das plataformas de streaming para encontrar alguma coisa fora da curva.

    É um prazer que, nos últimos anos, o YouTube vem reprogramando em escala, transformando achados individuais em fenômenos coletivos aparentemente aleatórios, como no caso de “Plastic Love”, da cantora japonesa Mariya Takeuchi, que desencadeou um novo mini boom de interesse em city pop mais ou menos na época da pandemia, após ter havido um upload da música no YouTube em ~2017.

    Nas últimas semanas, tenho sido abençoada com várias dessas recomendações mágicas do YouTube (mágicas no sentido de serem músicas que realmente evocam sensações quase espirituais de tão interessantes, não mágicas no sentido de coincidência; sabemos que não existe coincidência algorítmica).

    Muita coisa de rock africano, ambient music, música eletrônica e experimental, e também bastante j-rock dos anos 2000.

    Uma delas foi o álbum 静焔 (Jou En), da banda japonesa underground de dream-pop 空夜coo:ya.

    É um álbum de dream-pop com uma vibe meio sombria (a capa, inclusive, é quase macabra, mas é também uma das principais coisas que chamou a atenção de usuários do YouTube para escutar as músicasa). Ele tem alguns respiros de vibe mais positiva, mas no geral, é a atmosfera meio melancólica que o torna legal mesmo.

    O álbum é de 2005, mas a mixagem faz soar até um pouco mais antigo, de um jeito bom.

    Eu não sou tão familiar com dream pop/j-rock dos anos 2000, então algumas coisas, como a engraçadinha “Hungry Girl”, me remeteram um pouco ao indie pop-rock estadunidense dos anos 1990, o tipo que tocaria em algumas cenas de sitcom nova-iorquina em que os personagens estão indo pro trabalho ou pra faculdade, uma coisa meio Jack & Jill, Felicity etc.

    Já a mixagem de algumas faixas, como “ひまわり”, lembra um pouco The Cure, mais especificamente The Cure no álbum de 1992.

    Por volta do final, nas faixas 8 e 9, vêm algumas coisas mais cutecore, estilo moe music.

    É um álbum curto e gostoso de ser ouvido na íntegra. Você ouve e dá vontade de saber mais sobre a coo:ya.

    Ela não está mais ativa, mas seu site oficial ainda está no ar. Nele, é dito que a banda não faz(ia) apresentações ao vivo e só lança(va) algo quando os dois integrantes estão totalmente satisfeitos.

    Extrato do site: 空夜coo:ya Official Web – Profile

    Não fui a única a descobrir essa pérola musical obscura tanto em som quanto em falta de reconhecimento.

    A seção de comentários do upload não oficial do álbum no YouTube estava repleta de pessoas de diversas partes do mundo expressando o mesmo tipo de encantamento e gratidão por terem sido abençoadas pelo algoritmo de recomendação do YouTube — e também questionando por que o álbum não está no Spotify.

    Com base na quantidade de visualizações que o upload tem agora, e no que acompanhei desde que o encontrei, estimo que tenham sido mais de 200 mil visualizações em 2 semanas.

    A comoção fez algumas pessoas procurarem a vocalista e letrista da banda, Miyo, no Twitter X, que aparentemente só então ficou ciente de que alguns dos álbuns da banda não estão no Spotify e outras plataformas de streaming de áudio.

    E ela agiu rápido!

    Outro bom álbum da banda, 上弦の月 (Jougen no Tsuki), de 2002, foi colocado no Spotify essa semana, também após clamores dos novos fãs.

    Já o álbum 静焔 (Jou En), que se tornou o meu preferido, chegou no dia 04/05/2026, conforme ela própria confirmou a usuários que a perguntaram na rede social.

    Bom timing!

    Este é um daqueles casos raros em que a resposta do artista acompanha bem o viral, antes que a magia do momento se perca e o interesse se dissipe. (O que, provavelmente, se deve não só à responsividade da artista mas também por se tratar de uma banda independente, o que permitiu que a artista agisse por conta própria)

    Muitas vezes, a logística da vida real não acompanha tão bem o hype, e o que poderia ter se tornado uma nova fonte de circulação ou até mesmo de consolidação de fãs acaba se tornando só um momento efêmero mesmo.

    Que bom que não é o caso aqui.

    Se você gostou da música do artista, encorajamos você a consumir por meio de canais oficiais para que ele possa ser remunerado.

    Projeto: álbum 静焔

    Artista: coo:ya

    Lançamento: 09/12/2005

    Disponível em: Spotify, Amazon Music

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  • Sawteeth se junta ao BTS no rol de  sul coreanos que lançaram pedradas musicais em 2026 após retornarem do serviço militar obrigatório

    Sawteeth se junta ao BTS no rol de sul coreanos que lançaram pedradas musicais em 2026 após retornarem do serviço militar obrigatório

    Uma coisa que acontece muito no universo das fanfics que são lançadas em partes é que às vezes as autoras não conseguem atualizá-las na mesma velocidade da ânsia dos leitores… e daí quando elas finalmente conseguem publicar o próximo capítulo costuma vir um disclaimer do tipo:

    “Desculpem por ter demorado tanto pra atualizar a fic, eu estava ocupando obtendo meu grau de Doutora e também pari quadrigêmeos e escalei o monte Everest” … e geralmente é tudo verdade e nem demorou tanto assim.

    E aí os leitores pensam: uau, como ela consegue conciliar tudo isso e ainda escrever algo com qualidade melhor do que várias?

    Bom, algumas pessoas simplesmente conseguem.

    Imagine, por exemplo, você passar por uma experiência militar e quando sair dela, ainda ter cérebro e energia pra conseguir produzir, mixar, masterizar um álbum inteiro, sozinho, cheio de pedradas.

    Pelo visto, é o caso do produtor sul coreano Sawteeth.

    Sawteeth é um produtor musical independente e a força criadora da crew Jungle Fatigue, que lança faixas de drum’n’bass e jungle music.

    Aparentemente, ele esteve no Exército, cumprindo o serviço militar obrigatório no seu país, e retornou agora. Segundo o seu próprio depoimento nas páginas de upload do álbum no Bandcamp e YouTube, o período pós-serviço militar tem servido para ele repensar a vida, e nessa toada ele quis produzir música para expressar seus sentimentos. O resultado é seu novo álbum 東風, lançado em 10/03/2026. O álbum é 100% instrumental e eletrônico, com todas as faixas sendo produzidas, mixadas e masterizadas por ele.

    Em primeiro lugar, é impressionante que ele tenha tido cabeça pra produzir um álbum.

    Inevitavelmente, penso no BTS, que nos últimos 3 anos esteve em hiato enquanto seus 7 membros também cumpriam o serviço militar de forma rodiziado.

    Duvidavam que o BTS, logo o BTS, o maior grupo musical do mundo, fosse voltar a fazer música quando todos os membros cumprissem seu período obrigatório no Exército. Pois eles voltaram e não só lançaram um bom álbum, como também estão fazendo aquela que já caminha pra ser uma das maiores turnês musicais deste planeta – e olha que ainda tem muito ARMY (nome dos fãs do BTS) sem conseguir ingresso.

    Mas, com o perdão de todos os trocadilhos, o BTS contava com um exército gigante de compositores, produtores, engenheiros etc pra ajudá-los a lançar um álbum. O som deles ainda é bastante autoral, mas bom, se eles quisessem simplesmente não criar nada e terceirizar tudo, eles poderiam.

    Já o Sawteeth é um cara de 20 anos trabalhando praticamente sozinho, operando uma caralhada de equipamentos que ele mesmo lista nas páginas de upload do álbum no Bandcamp e YouTube:

    • Amiga 1200;
    • Akai S950;
    • Mackie CR-1604;
    • Motu 828;
    • Alesis QuadraVerb;
    • Roland SDE-1000;
    • E-MU Orbit;
    • Roland JV-1080;
    • Roland Alpha Juno 2;
    • Tascam 302;
    • um par de Technics 1200;
    • um monte de discos;
    • o antigo sistema de som de seu pai.*

    *Nota fofa: no upload do álbum do YouTube, há um comentário de um amigo do pai dele encorajando ele e dizendo que torce por ele. Precioso demais.

    E sem IA! Inclusive, o Sawteeth é declaradamente contra música de IA.

    O álbum é de um drum’n’bass etéreo, com sintetizadores que dão um ar mágico, meio ambient house, para a atmosfera das faixas.

    Por volta da metade (mais especificamente, na faixa “Thirty One Flava”), ele vai pro deep house e fica lá por mais 1 faixa, mas logo depois volta pro drum’n’bass/jungle music.

    São ~45 minutos sem perder o fôlego e sempre com os sintetizadores apoiando e mantendo a vibe celestial acelerada.

    Se você gostou da música do artista, encorajamos você a comprar o projeto pelo Bandcamp ou pelo menos consumir por meio de canais oficiais do artista para que ele possa ser remunerado.

    Projeto: álbum 東風

    Artista: Sawteeth

    Lançamento: 10/03/2026

    Disponível em: Bandcamp, YouTube, Spotify, Apple Music

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  • Música multigênero experimental brasileira ? … !

    Música multigênero experimental brasileira ? … !

    Existe uma cena (ou talvez “cena” seja pouco, talvez “ecossistema” seja mais preciso) proliferando de forma orgânica e muito massa no YouTube e no SoundCloud: uma safra de DJs e produtores experimentais que tensionam estruturas da música eletrônica de pista (techno, house, drum’n’bass) a partir de uma lógica profundamente atravessada pela estética e pela linguagem da internet.

    É música eletrônica que funde caoticamente o funk brasileiro, samples de música pop e dance em inglês, com uma ciberestética e ruídos digitais que ao mesmo tempo respondem e aprofundam a própria fragmentação algorítmica das plataformas.

    O resultado de tudo isso é caótico, hiperlocal e, ao mesmo tempo, estranhamente sintonizado com uma sensibilidade globalizada.

    Recentemente, foi destaque aqui no site o Quebradeira Pura, projeto do Marcelinho MeteBala que representa exatamente isso, tendo como principal fundação sonora o tecno e o funk. É um projeto que cristaliza bem esse movimento, empurrando todas essas referências para um território de saturação e excesso.

    Agora, mais especificamente há 3 dias atrás, chegou no YouTube e no SoundCloud BRVXARIA CYBERTRONICA 巫师 VOL.1, álbum do produtor BRVXO (ou BRVXO.wav).

    O BRVXO desativou a possibilidade de reproduzir o upload do YouTube em outros sites, então recomendo ouvir no SoundCloud, mas também assistir o vídeo no YouTube que funciona quase como um visual album e expande a linguagem de colagem internetesca do projeto.

    É um tipo de estética que depende de repertório: uma gramática visual feita de memes, sobreposições e referências que só se revela plenamente para quem é cronicamente online e fluente em memes.

    Ao abrir o vídeo no YouTube, deparei-me com esse rótulo e achei genial:

    Taí. Música multigênero experimental brasileira. É perfeito.

    Claro que é um daqueles nomes que são tão vagos que podem significar e abranger toda e qualquer coisa, e claro que a proposta é essa mesma.

    É uma definição deliberadamente aberta, quase tautológica, que assume sua recusa em se deixar estabilizar.

    Eu até gostaria de algo mais específico, sobretudo algo que mencionasse “eletrônico”. Tenho um certo impulso (talvez crítico, talvez apenas organizacional) de nomear com mais especificidade cenas e gêneros musicais; poder contar com palavras que situem essas produções dentro de um campo reconhecível, que indique suas linhagens, suas afinidades, suas comunidades de escuta. Para esse estilo de música do BRVXO e Marcelinho MeteBala, algo como “underground eletrônico cibermarginal brasileiro” talvez se aproxime desse gesto, ainda que também seja provisório.

    Mesmo assim, achei “música multigênero experimental brasileira” um sinal distintivo muito bom.

    Embora a postura que informa essa cena não seja necessariamente um fenômeno dos novos tempos, penso que a expressão “música multigênero experimental brasileira” descreve bem essa forma de produzir que emerge da pós-multiplicação do funk, atravessa circuitos periféricos e independentes, e se articula como uma espécie de nova onda DIY, menos preocupada com coerência estética e mais interessada em operar no excesso, na colagem e na instabilidade.

    Nesse contexto, “música multigênero experimental brasileira” deixa de soar como uma categoria vaga e passa a funcionar quase como um manifesto.

    Se você gostou da música do artista, encorajamos você a consumir por meio de canais oficiais do artista para que ele possa ser remunerado.

    Projeto: BRVXARIA CYBERTRÔNICA 巫师 VOL.1

    Artista: BRVXO.wav

    Lançamento: 24/04/2026

    Disponível em: YouTube, Soundcloud

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  • É possível não ser conservador e não gostar de putaria music?

    É possível não ser conservador e não gostar de putaria music?

    Eu não odeio putaria music, mas: (1) acho que a pergunta-título desse artigo propõe uma hipótese válida; (2) eu não exatamente me empolguei com as letras do novo álbum da Bia Soull, PORNOGRAFIA AUDITIVA (2026).

    O álbum tem instrumentais fenomenais. É musicalmente ambicioso, bem feito, fresco, original, tem uma produção digna de premiação. A voz e o flow de Bia Soul também estão no ponto. Ironicamente, a parte que menos me excitou foram algumas letras, não por quão diretas e explícitas são, mas pela baixa elaboração. Em alguns pontos, ficou faltando um gesto criativo que transcenda a simples descrição e converta o sexo em experiência simbólica, seja por meio de rimas engenhosas, imagens sugestivas ou percursos melódicos mais sinuosos.

    Isso leva à discussão: quanto de lirismo uma obra musical sobre sexo precisa ter?

    Correndo o risco de soar mais pau mole do que provavelmente você já deve ter pensado que sou por até mesmo entreter a ideia de que falar de sexo de forma literal é entediante, vou propor uma analogia com o Direito Autoral.

    No campo autoral, não se protege a ideia ou a informação em si, mas a forma como ela é expressa. Essa proteção só existe quando há um mínimo de originalidade, isto é, quando o autor faz escolhas criativas que poderiam ter sido diferentes do que uma descrição literal de algo. Um texto que apenas narra fatos de maneira necessária, quase automática, dificilmente atinge esse patamar. É como se a originalidade fosse o erotismo do Direito Autoral. Transcrição de sexo: sem originalidade; adiciona uma poesinhazinha, um erotismo, uma metáfora: tem originalidade.

    E é exatamente essa a minha falta de entusiasmo com parte das letras aqui: não é o tema que as empobrece, mas a execução. Ao optar por uma descrição direta, quase protocolar, abrindo mão de qualquer elaboração estética, há apenas ata de ato sexual. Música pode servir pra isso? Pode, claro. Mas tem apelo artístico?

    Não acho que as letras em PORNOGRAFIA AUDITIVA sejam totalmente descritivas e genéricas (sobretudo na segunda metade do álbum, em que há um storytelling muito mais interessante), mas em muitos momentos, sobretudo os menos melódicos, as letras poderiam ter se beneficiado de mais alternância entre literalidade e poesia. No rap/funk não melódico, é legal ter um temperinho discursivo que te anime a decorar e interpretar junto, é preciso ter um discurso ou figuras de linguagem mais interessante do que algo meramente narrativo/descritivo narração pra ser empolgante.

    Então, talvez a questão seja mais de alinhamento de forma com conteúdo. Por exemplo, em “Malandro touchscreen” as letras de putaria funcionam mais porque estão carregadas por melodia, isso é, é Bia cantando e não fazendo rap, tem uma corzinha sendo adicionada ao conteúdo de teor sexual.

    Isto é dizer que música sobre sexo precisa oferecer algum outro atrativo pra “compensar” o fato de estar descrevendo sexo? Talvez. (Assim como, para muita gente, sexo também precisa de algo a mais pra ser prazeroso, o simples fato de ser sexo não é suficiente.)

    Afinal, é de música que estamos falando, né?… E falar de sexo em música não é errado, mas se não há um esforço lírico ali, então é fala, é narração, não sobra música.

    Eu curtiria mais ouvir repetidamente e cantar as músicas desse álbum se a construção lírica fosse diferente? Certamente.

    As letras tornam o álbum menos interessante? De jeito nenhum.

    Seria conservador da minha parte achar que há um jeito melhor ou pior de falar sexo em música? Talvez sim. Mas talvez mais um purismo musical do que costumes. É sempre legal ver uma mulher sem amarras pra falar de algo que ela é socializada a não verbalizar, mas achar que essa proposta é suficiente seria nivelar por baixo, o que não é necessário porque o que não falta no mundo é mulher que sabe fazer música boa.

    O objetivo de ser explícita ou chocante não é um empecilho pra isso, como diversas outras músicas sobre sexo já lançadas provam*, e como inclusive se nota em algumas do próprio PORNOGRAFIA AUDITIVA.

    *É complicado citar outros exemplos de música de putaria que considero “bem feitas” porque defender que existem jeitos melhores ou piores de cantar sobre sexo corre o risco de ser tão moralizador quanto rejeitar música que fala sobre sexo… mas vou sim citar referências, sim, porque a questão aqui é de forma e não de conteúdo. Vou citar, inclusive, obras que também são de mulheres pretas e/ou do hip hop: a opening line de “Big Mama Thing”, de Lil Kim que pra mim é um dos versos mais inteligentes e fodas da história; e o álbum inteiro Foi eu que fiz (2022) da Deize Tigrona, é bom pra caramba.

    Então, exposto o primeiro ponto, que honestamente nem toma a maior parte do álbum, façamos uma análise menos microscópica do seu principal ponto de aprimoramento. PORNOGRAFIA AUDITIVA é putaria music de finíssima qualidade.

    O álbum já começa se desmentindo de uma forma inteligente: a primeira faixa se chama “Preliminares”, mas a letra já começa falando de sexo oral, provando a sua própria tese de que preliminares não existem, tudo no sexo é sexo. A entonação sussurrada e timbre fininho de Bia Soull evocam a estética do funk mineiro, ao passo em que o instrumental mostra que esse será um álbum de beats igualmente finas.

    E a promessa é cumprida: cada faixa que segue tem uma produção mais sofisticada que a outra, misturando funk (brasileiro e estadunidense), rap, jazz rap, boombap, future bass/R&B, house.

    “Melaço” e “Desgraçadinha” são destaques absolutos, a visão de som é absurda nessas.

    Algumas letras menos elaboradas funcionam bem quando há estão amarradinhas com cadências de repetição formulaicas………., como em “Sinergia”, mas honestamente, tudo fica muito melhor quando a Bia começa a inserir mais contexto nas letras.

    “Boombap puto” é uma excelente …. linha spiritual girl que a Nanda Tsunami. Inclusive, o feat com a Nanda Tsunami (grande mestra do storytelling e que sabe usar erotismo e putaria nas medidas certíssimas) é um acerto gigantesco, as duas estão em perfeita sintonia em “Putinho piru rodado”.

    É possível não ser conservador (isto é, não censurar e odiar putaria music? Claro que é, são duas coisas relacionadas mas não são a mesma coisa. Dito isso, ainda que fosse meu caso, seria muito difícil odiar PORNOGRAFIA AUDITIVA.

    Se você gostou da música da artista, encorajamos você a comprar o projeto pelo Bandcamp ou pelo menos consumir por meio de canais oficiais da artista para que ela possa ser remunerada.

    Projeto: álbum PORNOGRAFIA AUDITIVA

    Artista: Bia Soull

    Lançamento: 16/04/2026

    Disponível em: Youtube, Spotify, Deezer, Apple Music, Amazon Music

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