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  • Chico Balanceado, banda interessante de rock alternativo de Curitiba com potencial pra furar a bolha, debuta Degusto Sessions e fala conosco sobre as dores e delícias de fazer som autoral na cidade

    Chico Balanceado, banda interessante de rock alternativo de Curitiba com potencial pra furar a bolha, debuta Degusto Sessions e fala conosco sobre as dores e delícias de fazer som autoral na cidade

    Pra quem gosta de comprar ações antes da alta, aqui vai uma dica de uma banda que ainda cabe em cafés de Curitiba, mas que não deve demorar a sentar em uma mesa maior: Chico Balanceado.

    Chique e bem posicionado como sempre 😎, o Musicazia esteve presente na gravação da apresentação da banda na Degusto Sessions, uma sessão intimista gravada no Degusto Café, em Curitiba, naquele espírito Tiny Desk mas com uma pegada mais camerística e com holofotes para nomes locais.

    A gravação apenas destacou aquilo que já parece estar bem perto do ponto de ebulição: Chico Balanceado pode até ter nome de sobremesa, mas faz som de prato principal. Falta apenas um grande hit e alguns empurrões.

    Formada por Pedro Koti (Koti), Thiago Oliveira (Thigues) e Rafael Lanzarini, a banda foi formada entre amizades de infância e encontros na cena musical curitibana – cena que, inclusive, eles próprios afirmam ser crucial tanto para a formação quanto para o desenvolvimento da banda.

    “A banda só nasceu porque existiu uma cena curitibana pra apresentar a gente”, disse Thiago em entrevista ao Musicazia antes da gravação da Degusto Sessions.

    Se inicialmente a cena era formada majoritariamente por bandas covers, hoje o espaço para a música autoral é bem maior e proporciona intercâmbios que enriquecem mutuamente os artistas.

    Inclusive, a primeira vez que vi os meninos do Chico Balanceado tocar foi em um mini festival de artistas independentes no bar 92 Graus, nome importante na história da cena underground e autoral da cidade.

    Rolava lá um mini festival formado também por nomes como a Disk Mandy, cantora e compositora que curiosamente eu havia “descoberto” dias atrás ao vê-la destacada por uma colega jornalista da Remezcla.

    Foi engraçado isso: uma artista brasileira fazendo um desvio internacional para atingir alguém da mesma cidade. Mas às vezes é isso mesmo que acontece: um artista precisa de um “selo” vindo de fora pra fazer os seus próximos olharem pra ela.

    (De todo modo, tendo eu descoberto a Disk Mandy pela internet e a Chico Balanceado porque resolvi sair de casa, recomendo os dois métodos.)

    Não que Chico Balanceado seja uma completa desconhecida de Curitiba: a banda é nome forte na cena underground autoral (tanto que foi escolhida pela curadoria do Degusto Sessions). Mas tem potencial pra ir além disso.

    Quando ouvi a Chico Balanceado pela primeira vez, fiquei tentando achar no som a explicação do nome da banda. Achei sim um groove que justificava, mas depois descobri que Chico Balanceado é um doce brasileiro feito com banana.

    Em entrevista ao Musicazia, os meninos contaram que estavam em busca de um nome bem brasileiro para a banda. Chegaram a pensar em Jambu Tônica, drink popular em vários bares de Curitiba mas que não exatamente tenha alguma associação muito direta com a natureza e cultura do Sul.

    Até que um dia a mãe de um deles comentou que iria aproveitar as bananas de casa pra fazer um Chico Balanceado.

    Eles gostaram tanto que o nome ficou.

    Depois disso, começaram a encontrar “Chico Balanceado” em todo lugar, como se o universo tivesse aceitado a escolha e decidido colaborar.

    Musicalmente, eles se definem como rock alternativo com pitadas setentistas e psicodelia.

    Rita Lee (solo e também no contexto d’Os Mutantes) aparece como uma “ref matadora”, nas palavras deles mesmos, mas não seria adequado resumir por comparação.

    O som da Chico Balanceado tem um quê de blues, brasilidade, poesia cotidiana e aquela esquisitice gostosinha que deixa o som potencialmente universal mas ao mesmo tempo tem uma assinatura própria difícil de desassociar da banda.

    Por exemplo, Koti compôs “Jucélia” para ser uma personificação da UFPR, universidade com a qual ele tem uma relação complexa; e “O triste fim de Chico Balanceado” brinca com o próprio nome da banda (essa última eles tocam na Degusto Sessions) e faz um epitáfio precoce para uma banda que certamente ainda sequer teve seu auge.

    São essas pequenas ousadias — o romantismo quase byroniano de transformar uma universidade em musa, a ousadia ou até audácia da metarreferência — que fazem a Chico Balanceado soar como uma banda que já sabe o tipo de música que quer fazer e não está muito a fim de podar essas peculiaridades pra soar mais palatável para os grandes públicos.

    Créditos: Musicazia

    E chegar a esses grandes públicos é uma ambição que a banda tem e não esconde.

    “É uma bolha difícil de furar, mas temos exemplos suficientes de que dá pra furar, como os próprios Jovem Dionísio, Capim Limão etc”, disse-nos o Rafael.

    Deu pra sentir, na entrevista, que os meninos sentem muito orgulho de fazer parte da cena curitibana e reconhecem o quanto devem a ela.

    Eles contaram ter começado a tocar no show da banda curitibana de música instrumental Mumbai Express, e que desde então fizeram vários amigos na cena, sem contar as referências familiares também. Compreendem ainda que as vivências na cidade e na cena moldaram muito quem eles são, e consequentemente, o som que fazem.

    “Nossas músicas falam do nosso cotidiano”, diz Koti; “minhas vivências sendo uma pessoa negra em Curitiba [influenciaram meu som]”, diz Thiago; “ser uma banda autoral dificulta crescer, é uma bênção disfarçada de sina, a gente sofre, mas não quer mudar”, diz Rafael.

    Mas eles são bem honestos e diretos ao dizer que não querem passar a vida toda sendo underground.

    “A gente quer [o sucesso] por nós, mas também pela cena. E a gente acha que a gente merece, e por isso a gente busca isso”, disse Thiago.

    Para nós, parece que é só uma questão de continuar mexendo o doce até o resto do país sentir o cheiro e querer provar também.

    Degusto Sessions #016 – Chico Balanceado

    Gravação e entrevista realizadas em 15/04/2026

    Lançamento: 11/06/2026

    Setlist:

    • Vozes
    • Eles mentiram
    • O triste fim de Chico Balanceado

    Agradecimentos

    Conheça Chico Balanceado:

    Se você gostou da música dos artistas, encorajamos você a consumir por meio de canais oficiais para que eles possam ser remunerados.

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  • O sensacional álbum de 2005, 静焔 (Jou En), da banda japonesa 空夜coo:ya, chega ao Spotify no dia 04/05/26, após clamores do nicho de viciados em recomendações “aleatórias” do Youtube

    O sensacional álbum de 2005, 静焔 (Jou En), da banda japonesa 空夜coo:ya, chega ao Spotify no dia 04/05/26, após clamores do nicho de viciados em recomendações “aleatórias” do Youtube

    Existe um prazer quase arqueológico em descobrir álbuns raros, músicas pouco conhecidas, artistas que não chegaram a ter estrela. Nerds de música conhecem bem essa sensação de escavar lojas de discos ou driblar os algoritmos das plataformas de streaming para encontrar alguma coisa fora da curva.

    É um prazer que, nos últimos anos, o YouTube vem reprogramando em escala, transformando achados individuais em fenômenos coletivos aparentemente aleatórios, como no caso de “Plastic Love”, da cantora japonesa Mariya Takeuchi, que desencadeou um novo mini boom de interesse em city pop mais ou menos na época da pandemia, após ter havido um upload da música no YouTube em ~2017.

    Nas últimas semanas, tenho sido abençoada com várias dessas recomendações mágicas do YouTube (mágicas no sentido de serem músicas que realmente evocam sensações quase espirituais de tão interessantes, não mágicas no sentido de coincidência; sabemos que não existe coincidência algorítmica).

    Muita coisa de rock africano, ambient music, música eletrônica e experimental, e também bastante j-rock dos anos 2000.

    Uma delas foi o álbum 静焔 (Jou En), da banda japonesa underground de dream-pop 空夜coo:ya.

    É um álbum de dream-pop com uma vibe meio sombria (a capa, inclusive, é quase macabra, mas é também uma das principais coisas que chamou a atenção de usuários do YouTube para escutar as músicasa). Ele tem alguns respiros de vibe mais positiva, mas no geral, é a atmosfera meio melancólica que o torna legal mesmo.

    O álbum é de 2005, mas a mixagem faz soar até um pouco mais antigo, de um jeito bom.

    Eu não sou tão familiar com dream pop/j-rock dos anos 2000, então algumas coisas, como a engraçadinha “Hungry Girl”, me remeteram um pouco ao indie pop-rock estadunidense dos anos 1990, o tipo que tocaria em algumas cenas de sitcom nova-iorquina em que os personagens estão indo pro trabalho ou pra faculdade, uma coisa meio Jack & Jill, Felicity etc.

    Já a mixagem de algumas faixas, como “ひまわり”, lembra um pouco The Cure, mais especificamente The Cure no álbum de 1992.

    Por volta do final, nas faixas 8 e 9, vêm algumas coisas mais cutecore, estilo moe music.

    É um álbum curto e gostoso de ser ouvido na íntegra. Você ouve e dá vontade de saber mais sobre a coo:ya.

    Ela não está mais ativa, mas seu site oficial ainda está no ar. Nele, é dito que a banda não faz(ia) apresentações ao vivo e só lança(va) algo quando os dois integrantes estão totalmente satisfeitos.

    Extrato do site: 空夜coo:ya Official Web – Profile

    Não fui a única a descobrir essa pérola musical obscura tanto em som quanto em falta de reconhecimento.

    A seção de comentários do upload não oficial do álbum no YouTube estava repleta de pessoas de diversas partes do mundo expressando o mesmo tipo de encantamento e gratidão por terem sido abençoadas pelo algoritmo de recomendação do YouTube — e também questionando por que o álbum não está no Spotify.

    Com base na quantidade de visualizações que o upload tem agora, e no que acompanhei desde que o encontrei, estimo que tenham sido mais de 200 mil visualizações em 2 semanas.

    A comoção fez algumas pessoas procurarem a vocalista e letrista da banda, Miyo, no Twitter X, que aparentemente só então ficou ciente de que alguns dos álbuns da banda não estão no Spotify e outras plataformas de streaming de áudio.

    E ela agiu rápido!

    Outro bom álbum da banda, 上弦の月 (Jougen no Tsuki), de 2002, foi colocado no Spotify essa semana, também após clamores dos novos fãs.

    Já o álbum 静焔 (Jou En), que se tornou o meu preferido, chegou no dia 04/05/2026, conforme ela própria confirmou a usuários que a perguntaram na rede social.

    Bom timing!

    Este é um daqueles casos raros em que a resposta do artista acompanha bem o viral, antes que a magia do momento se perca e o interesse se dissipe. (O que, provavelmente, se deve não só à responsividade da artista mas também por se tratar de uma banda independente, o que permitiu que a artista agisse por conta própria)

    Muitas vezes, a logística da vida real não acompanha tão bem o hype, e o que poderia ter se tornado uma nova fonte de circulação ou até mesmo de consolidação de fãs acaba se tornando só um momento efêmero mesmo.

    Que bom que não é o caso aqui.

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    Projeto: álbum 静焔

    Artista: coo:ya

    Lançamento: 09/12/2005

    Disponível em: Spotify, Amazon Music

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  • Galinhas de pontinhos: o poá microtonal da banda Angine de Poitrine

    Galinhas de pontinhos: o poá microtonal da banda Angine de Poitrine

    O nome da banda canadense Angine de Poitrine significa, em francês, “angina de peito”. É um nome que já sugere um drama que se sente no corpo, um colapso.

    Mas para nós brasileiros e/ou falantes de português, há um desvio mais interessante aí, já que poitrine quase escorrega para “pontinhos”: uma referência muito mais pronta para a padronagem obsessivamente poá do figurino adotado pela banda. Está muito mais para um capote, ave também conhecida como galinha d’angola – aquela que também tem pelugem em pontinhos, aquela que canta: “Tô fraco, tô fraco”. Fraca como se tivesse uma angina de peito.

    A banda, que tem chamado a atenção em galinheiros do midstream desde uma performance no canal do Youtube da estação de rádio KEXP, publicada em fevereiro de 2026, lançou seu segundo álbum Vol. II em 03/04/26. A faixa de abertura, “Fabienk”, tem uns riffs de guitarra que facilmente se passa por um cacarejo digital mesmo.

    O corpo fraco fala e o som da banda Angine de Poitrine traduz esse colapso não por meio de agudos óbvios, mas com microtons… ou seja, eles se movimentam em uma escala que se fragmenta em intervalos ainda menores, como se houvesse sempre um som possível entre dois sons já dados.

    (Se você não sabe o que é microtonalidade, recomendo ver esse videozinho no Instagram, só pra você se situar mesmo, pois embora teoria musical faça a diferença pra entender o que tá rolando no som da Angine de Poitrine, ela é determinante pra você pode curtir, pois o som é muito divertido.)

    É uma dança estranha entre espaços: espaços entre tons, entre pontinhos.

    Angine de Poitrine opera justamente nesse “entre”, explorando notas que escapam aos intervalos convencionais da música ocidental.

    No caso deles, isso se traduz quase como uma coreografia: uma dança de pontinhos. Cada nota parece procurar outra no espaço mínimo que as separa, como se o ouvido fosse convidado a percorrer visualmente a distância entre um ponto e outro no tecido, como na padronagem de pontinhos vista nas roupas da banda.

    O apelo (ou complemento) estético é 50% da jogada da banda, pois adiciona uma camada a mais de atratividade ao som que, apesar de interessante por si só, talvez não furasse a bolha de quem já se liga em math rock, ou em outras experimentações no rock progressivo, ou até mesmo em outros gêneros e cenas que exploram o recurso da microtonalidade, como há na música indiana ou até mesmo no rock psicodélico turco.

    Inclusive, os dois membros da Angine de Poitrine preferem manter as suas identidades escondidas por trás das máscaras e figurinos de estampa de poá, existindo como padronagens em vez de rostos e corpos identificáveis.

    Mas parece que paciência com o anonimato não é o forte de 2026, ano em que até o Banksy foi desmascarado pela Reuters. Já há gente querendo revelar a identidade dos capotes roqueiros também.

    É o espírito do tempo, são tempos de gente obcecada por chás-revelação, identificação de sample, acusação de falta de originalidade (gente, inclusive, que se revolta com o hype do Angine de Poitrine porque “não é tão original assim como estão dizendo”), gente querendo expor quem é e de onde vem tudo, enfim… gente com tolerância baixa aos intervalos entre um ponto e outro. A autoria, a identidade e a criação são, também, microtonais e cheias de nuances, que às vezes o ser humano fica impaciente para transformar em fórmula pronta; algo em que a provavelmente a Inteligência Artificial vai ajudar.

    O fato é que, seja disfarce ou não, a estética da Angine de Poitrine ilustra o som. O poá não é só um detalhe excêntrico para chamar a atenção; é quase uma tradução gráfica da lógica musical da banda. É difícil separar uma coisa da outra.

    São capotes incorporando Capote em Breakfast at Tiffany’s quando ele escreve, pela voz da personagem Holly: “sou top banana no departamento de choque”.

    Bananas de Pijamas que trocaram as listras pelo poá. Impactante, mas de um jeito quase lúdico.

    Porque realmente é difícil não ver algo de infantil em tudo isso também. Em algum post sobre Angine de Poitrine nas redes sociais, cheguei a ver uma mulher comentando que o filho dela chamava Angine de Poitrine de “a banda dos pontinhos”.

    É de se entender que a combinação de som e estética faça sucesso com crianças e que evoque uma certa alegria inocente apesar da intenção de ser chocante.

    “utzp”, faixa do álbum Vol. II, que conta com uns metais bufões como se fosse de sonoplastia de circo, organiza-se praticamente como uma polca feita para ser dançada alegremente e sem culpa. Ou algo que já foi uma polca; porque a polca, inclusive, é dissolvível. No Brasil, ela se dissolveu: virou/gerou frevo, samba, maxixe. O resultado lembra um prato aparentemente improvável, mas que para muitos brasileiros parece fazer todo o sentido: galinha d’angola cozida com maxixe. Talvez não agrade o paladar, mas não é uma combinação que soa estranha para o Brasil.

    Por volta de 2:44 de “utzp” é que surge uma guitarrinha mais nervosa que te lembra que aquilo é rock de adulto (e depois disso a música vai escalando para ficar cada vez mais agressiva), mas até então, “utzp” quase dá pra ser uma música pra ser tocada em um número de palhaços em uma festa infantil.

    Angine de Poitrine se dizem alienígenas, e se descrevem no Instagram como “Mantra-Rock Dada Pythago-Cubist Orchestra”. Pois eu, que simplesmente amo essas locuções substantivas cheias de hífens e saladas de referências, acho até que a melhor descrição da Angine de Poitrine foi mesmo a da criança que chamou de “a banda dos pontinhos”. Essa descrição sintetiza praticamente tudo que há de legal na banda.

    É claro que a combinação de som e visual esquisitinhos torna Angine de Poitrine a banda perfeita pra viralizar em redes sociais focadas em conteúdo audiovisual, em uma era de nerds de música sedentos pra achar algo que nos mostre que o ser humano ainda consegue fazer coisas que a IA não consegue. Somos capotes cantando “Tô fraco” em busca de um alimento.

    E foda-se, se for pra usar essa banda como token na discussão sobre a supremacia da criatividade humana, que usemos mesmo, estamos precisando e temos que nos agarrar ao que estiver ao nosso alcance.

    Quem sabe, pra trazer de volta a estranheza a muitas coisas que estamos aprendendo a naturalizar, seja legal ouvir e assistir uma banda que nos lembra que há outros intervalos possíveis entre as notas que o ouvido humano aprendeu a tratar como definitivas.

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  • O Cheiro do Queijo vão ser os próximos Mamonas Assassinas?

    O Cheiro do Queijo vão ser os próximos Mamonas Assassinas?

    O show mais punk do Festival MADA 2025 veio de um grupo de palhaços do interior do Ceará que atualiza a fórmula do humor como arma, com uma vestimenta rap-rock-Nordestilatina

    No papel, a proposta d’O Cheiro do Queijo é boa: um “circo rap”, como eles mesmos se definem. Tem humor, tem hip hop, tem palhaçaria.

    No Spotify, o álbum de 2024, Sound Circo, soa divertido: é uma colagem sonora com uma pegada de rádio popular, que remete ao projeto potiguar Pegadinha do Mução e à irreverência do humor nordestino clássico de nomes como Batoré e Tom Cavalcante.

    Mas a coisa muda quando você vê – ou melhor, sente – O Cheiro do Queijo ao vivo. No palco, o conceito toma outra vida. Quem chegou cedo ao segundo dia de Festival MADA em 2025 e escolheu o afastado Palco TIM pôde perceber isso.

    O show d’O Cheiro do Queijo começa como quem não quer ir muito além da proposta circense deles: nariz de palhaço, cambalhotas, brincadeiras, vinhetas absurdas, uma mise-en-scène de picadeiro que a princípio pode parecer apenas lúdica.

    Quando o rap-rock entra, a energia muda. O que parecia apenas bufão revela um discurso feroz. A  mesa de som do DJ do grupo traz os dizeres sound circo (fusão de sound system com circo) e a performance dos vocalistas principais faz jus ao nome: eles sampleiam vinhetas, improvisam, subvertem o próprio papel de artistas. Riem do Brasil, da indústria musical, da plateia, e deles mesmos.

    Assistindo ao show no MADA, a comparação era inevitável: foi como estar posicionado em um show dos Mamonas Assassinas em Guarulhos no início da década de 1990, antes de eles estourarem no Brasil todo. 

    Ao entrevistar os membros d’O Cheiro do Queijo após o show, eles mesmos fizeram menção à banda de Guarulhos mesmo sem eu ter comentado primeiro: “Nós não inventamos nada, o que nós estamos fazendo não é muito diferente do humor que artistas como os Mamonas Assassinas já fizeram, por exemplo”, o palhaço/rapper Abu da Pereba me diz.

    De fato, o espírito escrachado, a zombaria de si e dos outros, o uso do palavrão como catarse, o equilibrismo entre algo infantil e algo proibido para menores – toda essa essência estética dos Mamonas Assassinas está presente n’O Cheiro do Queijo também.

    Mas não é uma cópia. Algumas coisas separam uma banda da outra e são detalhes que fazem toda a diferença.

    Se nos anos 1990, a lucidez em forma de gozação germinou para gerar um fenômeno pop advindo do Sudeste, com os Mamonas Assassinas, é claro que, se houvesse um fenômeno similar hoje, ele não poderia nascer nas mesmas circunstâncias.

    Não seria um grupo de São Paulo, com formação majoritariamente branca, nem seria simplesmente uma repetição do que já existiu.

    O projeto O Cheiro do Queijo nasce em Maracanaú, cidade cearense de pouco mais de 230 mil habitantes. Se os Mamonas Assassinas satirizavam a sátira do Nordeste e do brasileiro pobre em músicas como “Jumento Celestino”, O Cheiro do Queijo é o próprio Nordeste rindo de si, mas acima de tudo, rindo de quem ri do Nordeste.

    Faz todo o sentido. Cada fenômeno geracional adiciona degraus de subversão à subversão já pavimentada pelos seus antecessores. É como se a sucessão inevitável da irreverência pop tivesse encontrado o endereço certo para florescer nos anos 2020.

    Em tempos de artista-empreendedor, música independente cavando seu próprio sucesso no midstream e no mainstream, é óbvio que a crítica social d’O Cheiro do Queijo tem esse quê metalinguístico: sua arte critica “Aburocracia” exigida dos artistas (“Eu só queria ser um artista / Tive que tirar CNPJ / Ter certidão negativa em dias / Emitir nota em cima de nota”), seu show no MADA contém uma parada silenciosa específica em que aparece no telão a mensagem: “O ECAD não autorizou”.

    É palhaçada, mas também manifesto. A música d’O Cheiro do Queijo contém denúncias literais, mas por vezes a denúncia vem apenas na encenação do próprio caos.

    Show d’O Cheiro do Queijo no Festival MADA 2025. Créditos da foto: Ana Clara Ribeiro (esta mesma que vos escreve!)

    Mas não se engane: não é só performance. A música funciona por si só também.

    O rock (em som, mas principalmente em essência) é presença forte, e sua mistura com o forró e o reggae da cultura sound system presente em vários Estados do Nordeste denotam que o rock brasileiro é exatamente isso: é guitarra e espírito, mas tem sotaque daqui.

    A comparação com o BaianaSystem eventualmente também chega – e é validada pela própria banda baiana, que alegadamente se inspira n’O Cheiro do Queijo e colabora musicalmente com eles.

    A verdadeira sensação de apadrinhamento público veio quando o BaianaSystem (que era um dos principais headliners do MADA) os chamou ao palco. Foi um dos pontos altos do festival.

    O BaianaSystem pode estar longe do seu fim, talvez até mesmo do seu auge, mas quando Russo Passapusso chamou os palhaços para apresentar suas próprias composições ao som das batidas e das guitarras de “Balacobaco” em um dos palcos principais do MADA, pareceu um ato de curadoria da próxima geração de rap-rock-“Nordestilatino”.

    A conexão faz todo o sentido. Assim como a crítica social ao neoliberalismo e ao colonialismo, o orgulho nordestino, e a mistura de elementos da cultura hip hop com o espírito punk rock, O Cheiro do Queijo compartilha do mesmo desejo do BaianaSystem de reconectar o Brasil – e em especial, o Nordeste – ao resto da América Latina.

    É preciso reconhecer a sensibilidade do curador do Festival MADA, DJ Val Pescador, que entendeu o diálogo possível entre esses universos e colocou no mesmo evento tanto os mestres quanto seus herdeiros. 

    No show d’O Cheiro do Queijo no MADA, houve até espaço para cumbia. É um gesto político, estético, e uma das pistas do futuro da música brasileira: mostrar com som e mensagem que o Brasil, mesmo falando português, é parte dessa irmandade de resistência e de ritmos mestiços que fluem nos países latinoamericanos de língua espanhola.  

    Em entrevista concedida a mim após o show, os palhaços rappers d’O Cheiro do Queijo resumiram o momento com humor: “Estamos nos sentindo o Chaves em Acapulco.” Difícil achar uma analogia melhor. É a alegria simples de quem, depois de anos de estrada, percebe que a própria sorte pode estar mudando. Mas além da expectativa, o que eles pareciam mesmo eram estar se divertindo à beça com o mero acontecido, ou o mero potencial do que está por vir.  

    Talvez o nome do grupo contenha sua própria metáfora: O Cheiro do Queijo soa infantil, quase ingênuo, como a isca que atrai o rato. Mas por trás da promessa de simplesmente encontrar algo engraçadinho, há armadilha, há caos.

    É isso que faz deles um fenômeno em potencial: por baixo da maquiagem de palhaço, pulsa uma fúria profundamente nordestina, séria em seu deboche, bufônica mas também subversiva – e acima de tudo, irresistível. Não é à toa que, mesmo em um show com público razoavelmente pequeno, o grupo conseguiu entoar uma roda de polga com intensa participação da plateia (quase que ecoando retroativamente a roda de polga que aconteceria mais tarde no show do BaianaSystem em proporções bem maiores).

    Pode ser que tudo isso seja só o riso de um circo que entretém, mexe com a plateia, mas não consegue força suficiente para ocupar espaço fora do picadeiro. Mas também pode ser que estejamos assistindo o nascimento de um novo fenômeno. Por via de dúvidas, vale a pena seguir o rastro do cheiro desse queijo.

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    Show d’O Cheiro do Queijo no Festival MADA 2025. Créditos da foto: Carcará Audiovisual

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