Categoria: Sobre eventos, fatos e fenômenos

  • Qual é o som do Tocantins?

    Qual é o som do Tocantins?

    Apresentação do projeto Vereda no Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnaval do Tocantins. Créditos da imagem: @cyberj0n


    Costumo dizer que ser tocantinense é ser oficialmente nortista, com origem centro-oestina e comumente confundido com nordestino.

    Pra falar a verdade, o Tocantins é um pouco de tudo isso aí mesmo. Talvez, justamente por isso, nunca seja entendido por inteiro – isso quando é lembrado! Dizem que o Acre é o Estado mais misterioso do Brasil, mas ele pelo menos é lembrado por ser esquecido; e quem se lembra, costuma saber que ele fica no Norte do Brasil. Já o Tocantins…

    … é Estado pequeno, jovem, ainda tentando aprender a se narrar. Centrado no mapa do Brasil, e ainda assim, parece passar despercebido.

    Vou passar a falar na primeira e na terceira pessoa do plural.

    É difícil descrever nossa cultura porque ela não se encaixa confortavelmente no ideário de nenhum dos muitos Estados com que faz fronteira (Goiás, Mato Grosso, Pará, Bahia, Maranhão, Piauí).

    Não somos meros reprodutores da cultura goiana, Estado de onde veio nosso terreno.

    Também não temos muito a ver com os demais Estados da região Norte – na verdade, somos os esquisitões da região; nossa cultura, nossas paisagens e até nosso sotaque não se parecem com os do Pará, do Amazonas, do Amapá, de Rondônia, de Roraima ou do Acre.

    Somos sertanejos, indígenas, quilombolas. Somos herdeiros do cerrado, mas com cuscuz no prato; e entoamos gírias e expressões que carregam o humor e a prosódia paraense, maranhense, baiana.

    Cena capturada no Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnaval do Tocantins. Créditos da imagem: @cyberj0n

    Gosto de como a nossa identidade vem sendo descrita por produtores culturais da nova geração: cerrado-amazônica. A Amazônia é, sim, parte da nossa paisagem (sobretudo no norte do Tocantins) e nossa posição geopolítica nos coloca nesse contexto.

    Mas a nossa relação com a identidade nortista é complicada.

    Os belíssimos rios do Tocantins são de um azul e verde bastante diferentes da paleta amazônica. Por aqui, não há aquele ventinho úmido nem aquela atmosfera ribeirinha que combina tão bem com as levadas de guitarra do brega saudade. Aqui, há poeira e secura em vez da umidade amazônica; e a tropicalidade é de um calor pesado, quase punitivo. O sol que entra pela janela parece disposto a quebrar as barreiras da sua alma e se alojar dentro de você. Os ipês parecem florescer apesar em vez de por causa. Os pés de manga fornecem sombra que não é exatamente fresca, mas é sombra.

    Fico pensando em como tudo isso pode se refletir na arte tocantinense.

    Para mim, é quase inevitável a relação entre o nosso clima, a nossa paisagem e a nossa arte.

    Aliás, qual é a nossa arte? Qual é o som do Tocantins? Quem sabe que tipo de música é feita no Tocantins?

    Na verdade, talvez nem o próprio Brasil saiba o quanto o Brasil ouve o Tocantins. Do Tocantins vêm os artistas mais ouvidos do país: Henrique & Juliano. Eles colecionam bilhões de streams e há muitos anos lideram paradas de sucesso. Em 2025, foram os artistas mais ouvidos no Spotify Brasil.

    Do Tocantins também vem o duo pop Anavitória, que no início da carreira se descreviam como “pop rural”, uma definição que combina com essa melancolia ensolarada, com esse romantismo de estrada quente e horizontes largos do interior daqui.

    No Tocantins, naturalmente, também há várias outras duplas e sertanejas. (Quando fui digitar essa frase, sem querer escrevi “certanejas”. O que parecia só um erro ortográfico tosco acabou virando uma pista: esse sertanejo que nasce no cerrado tem mesmo algo de certão, de chão rachado, de sobrevivência, do C que crava, não do S sinuoso e leve.)

    Hoje, o Tocantins já tem sua própria cena pop também, com artistas como a Duda Ruas.


    Mas o Tocantins “raiz”, os gêneros genuinamente tocantinenses (como a suça, ou súcia/sussa/tão diversamente grafada quanto unicamente nossa), o Tocantins negro, o Tocantins quilombola, por exemplo, talvez só tenha chegado ao radar nacional agora, para quem presta atenção em nomes como o Paulo Vieira, que falou de tudo isso ao participar do podcast do Mano Brown e da Semayat Oliveira, e que incluiu a canção “Nóis é jeca mais é joia“, de Juraildes da Cruz (gravada por Genésio Tocantins), na série do Globoplay Pablo e Luisão.

    Essa música é genial. Seu arranjo traz essa mistura caipira e forrozesca que situam bem o Tocantins como coração-eixo do cerrado e agreste. Já a letra caçoa de quem caçoa da suposta baixa intelectualidade do indivíduo do interior:

    “Andam falando que nóis é caipora
    Que nóis tem que aprender inglês
    Que nóis tem que fazê sucesso fora
    Deixe de bestagem, nóis nem sabe o português

    […] Se farinha fosse americana

    [se] mandioca [fosse] importada,

    banquete de bacana era farinhada”.

    O eu-lírico de “Nóis é jeca mais é joia” se descreve como “caipira pop”.

    É isso: o tradicional pode ser pop.

    Aliás, “o tradicional é pop” foi um dos slogans do Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnaval do Tocantins, evento realizado pelo coletivo de produção cultural Amo Meu Bloco.

    Crédito da foto: Ana Clara Ribeiro

    Foi pensando em tudo isso que escrevi acima que compareci a esse festival, no dia 6 de dezembro de 2025, no Espaço Cultural, em Palmas, capital do Tocantins.

    A programação contava com 12 atrações, entre grupos de suça, capoeira e bandas. Embora eu não tenha conseguido assistir a todas as apresentações, saí de lá com uma proposta interessante de arquétipo para o som do Tocantins.

    O som do Tocantins tem um quê agresteiro. É cru. Tem cantos retos, pouca firula, muito corpo, muito pé no chão. Tem muitos batuques e cordas que parecem mais talhadas do que lapidadas, como se o som viesse direto da madeira, da terra, do couro esticado no limite.

    Pode não parecer que faça sentido nessa descrição escrita, mas o som do Tocantins me lembra muito mais o Mangue Beat do que o caipiresco clássico do Centro-Oeste ou a melodicidade rebolante da lambada e do brega do Pará. Existe algo de experimental, de rústico.

    Não é à toa que um dos momentos mais interessantes da noite foi a colaboração da bateria Boto Fé Nesse Carna com o coletivo Masterholic, à base de maracatu.

    Bateria Boto Fé nesse Carna e Masterholic (ao fundo) em uma colaboração envolvendo maracatu, rap e bateria carnavalesca. Créditos da imagem: @cyberj0n

    Outra coisa muito interessante que aconteceu no Festival foi quando a bateria Boto Fé Nesse Carna tocou aquilo que chamou de “suçamba”: a fusão da suça com samba. Combinou muito. Provou que tudo dialoga: o genuíno e ancestral do Tocantins negro com o genuíno e ancestral do Brasil negro. Nesse momento, ficou muito evidente que o Tocantins carrega algo de profundamente próprio, mesmo que ainda em processo de reconhecimento; e que o samba, já consagrado como ouro do Brasil, nasce da mesma lógica de chão, corpo, sol, matriz africana; tem a mesma musicalidade de acordes pouco adocicados mas musicados e letrados com alegria e sabedoria. Quando a suça e o samba se encontraram, houve reconhecimento e uma harmonia de naturalidade quase óbvia.

    Já o coletivo Masterholic fez uma apresentação que misturava hip hop com reggae, mas com um espírito meio punk rock. Não era um rap feito pra pular de mão erguida, era um rap de quem está fincado no chão, com o pé na terra rachada, mas vivo o bastante pra insistir em brotar e romper a terra seca. Eles se descrevem como “do cerrado” e têm uma atitude bem lama ao caos. Não os conhecia. Gostei muito do som e da proposta. Quero vê-los indo longe.

    Por outro lado, apesar da relação ambígua com a identidade nortista e da baixa proximidade cultural com o vizinho Pará, a banda Moiacumbia, já um dos expoentes da música alternativa tocantinense, traz esse tempero latino-amazônico que funciona, que encaixa, que amplia o horizonte sem apagar o chão. A música deles é uma delícia e insere o Tocantins no circuito de uma cena que eu acredito que vai crescer muito nos próximos anos: a cumbia brasileira.

    No Festival, também teve forró, gênero que sempre caiu bem ao gosto do tocantinense, talvez porque combine com o calor que não dá trégua e com essa necessidade de dançar para sobreviver e escapar ao maçante.

    No mesmo festival, ouviu-se sanfona e também a viola de buriti, um dos símbolos mais bonitos do Tocantins.

    Teve roda de capoeira e apresentações de grupos de suça. Se a suça é a expressão principal da identidade afrotocantinense, a capoeira conectou o Tocantins a uma paisagem maior da cultura negra brasileira.

    Grupo Sussa Tia Ângela. Crédito da imagem: @cyberj0n

    Teve o tambor e dança do grupo Congos e Taieiras, representando a cultura de Monte Carmo do Tocantins. É um misto de cortejo com performance que remonta há muito mais tempo do que os poucos 37 anos do Estado do Tocantins e tem raízes religiosas.

    Foi bastante bonita a apresentação do Lindô, comunidade quilombola do Cocalinho, que fica no Município de Santa Fé do Araguaia. A dança deles é dinâmica; homens e mulheres se cruzam e se encontram seguindo um ritmo marcado por cantos de melodia não-melismática.

    Não pude deixar de apreciar as cores da estampa das saias das mulheres e das camisas dos homens do Lindô: tinham o vermelho e amarelo-amarronzado que são muito presentes na paleta da paisagem tocantinense, e o azul profundo da bandeira do Estado. Não deve ter sido intencional, mas a possível coincidência só reforça a ideia de quando tudo brota da mesma terra, as cores acabam se reconhecendo.

    Lindô. Crédito da imagem: @cyberj0n

    Não parece acaso que tantos símbolos do Tocantins tenham cores que pertencem ao mesmo espectro: a guitarra de buriti, o capim-dourado, o pequi, o caldo do chambari, a fava de bolota. O Tocantins é ocre. É marrom. É um amarelo manga escuro.

    O som do Tocantins tem essa mesma paleta. Enquanto cena musical e identidade nacionalmente reconhecida, tudo isso ainda está em formação; mas tem raiz, e já tem suas próprias cores.

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  • A estética da vergonha da mulher hetero

    A estética da vergonha da mulher hetero

    Esse post inicialmente se chamaria “Quando o pop feminino ficou tão macho-centrado?”. O gatilho para ele foi uma semana em que “Man I need” da Olivia Dean e “Where is my husband” da Raye foram as duas músicas mais ouvidas do mundo. Duas músicas que falam sobre querer um homem, que centralizam homens até no título.

    Historicamente, a maioria das canções de amor cantadas por mulheres são sobre relacionamentos com homens, assim como os homens cantavam e ainda cantam sobre mulheres. O pop sempre foi heteronormativo, nada de novo por aí.

    Mas quando foi que palavras como “baby”, “lover”, “love” passaram a dar lugar para “boy”, “boyfriend”, “man”, “husband” nas letras das divas pop tanto quanto hoje?

    A ênfase hoje parece estar no homem, em vez do próprio desejo romântico. Até mesmo títulos de álbuns, como Man’s Best Friend de Sabrina Carpenter, sinalizam essa orientação centrada no masculino. Um boom de afirmação de heterossexualidade no pop mainstream.

    TOp 40 UK chart from Official Singles Chart Top 40 on 03/10/2025. Fonte: | Official Charts
    TOp 40 UK chart from Official Singles Chart Top 40 on 05/9/2025. Fonte: | Official Charts

    Seria patético, se ao mesmo tempo não estivesse coexistindo com outro fenômeno: algo que eu vou chamar de estética da vergonha da mulher hetero.

    Recentemente, viralizou na imprensa gringa um artigo da Vogue, de autoria de Chanté Joseph, chamado “Is having a boyfriend embarrassing now?” (que eu traduziria como “Ter um namorado se tornou constrangedor?”). O artigo começa falando sobre como mulheres não precisam mais de namorados pra reafirmar sua mulheridade e fala até sobre influencers que perderam seguidores quando assumiram um namorado.

    Mas o ponto mais interessante do artigo é a defensividade das mulheres em relação ao potencial de constrangimento que um relacionamento com um homem traz.

    Uma das entrevistadas diz: “Homens vão te fazer passar vergonha de qualquer forma, então assumi-los é patético.” Melhor se poupar e manter o parceiro no off.

    Ou seja: o artigo basicamente é uma versão-reportagem da música “Please, please, please” da Sabrina Carpenter:

    Uma coisa é o coração partido,

    outra coisa é o meu ego

    Eu te imploro, não me faça passar vergonha.

    (trecho da letra do refrão de “Please, please, please”)

    Basicamente, o que o artigo da Chanté Joseph e a música da Sabrina dizem é: mulheres têm relutado em expor seus namorados porque sabem que a qualquer momento eles podem fazer coisas que vão colocá-las em posição de otária.

    Tenho visto muitos posts de homens que criticam essa postura das mulheres: criticam o fato de os relacionamentos terem virado performance social — Adriana Ventura há de concordar que não “viraram”; sempre foram –, dizem que isso é desculpa de mulheres depravadas pra justificar poligamia; e (como sempre!) colocam a culpa nas mulheres pelo “fim do amor”. Um monte de pataquada — isso não importa para a discussão que estou propondo aqui.

    Falar sobre essas situações enquanto cantora pop é uma escolha que diz muita coisa sobre o que é ser uma mulher que se relaciona com homens atualmente, mas também é uma escolha comercial.

    A “vergonha hetero” vira capital de identificação, mas ela coexiste com a afirmação do desejo hetero.

    A mesma Raye que se pergunta por que o homem dos sonhos dela não chega logo pra casar com ela (em “Where is my husband”) é a que expõe um ex mentiroso e que tenta desmontar seu ego fazendo chacota da sua estatura (em “Oscar Winning Tears”).

    A mesma Sabrina Carpenter que parece que só sabe falar de homem é a que zomba de si mesmo por querê-los.

    A estética da vergonha da mulher hetero funciona por causa dessas contradições. A música pop vira o espaço para negociar esse paradoxo: “homens são patéticos; tem um aí pra mim?”.

    Sempre se cantou sobre decepção amorosa, mas nunca houve tanta ênfase na superação do coração partido por meio do contraste da sabedoria feminina com a idiotice masculina.

    Shakira transformou a traição sofrida em 2 dos maiores hits de sua carreira (“BZRP Music Sessions #53“, colaboração com Bizarrap; e “TQG”, colaboração com Karol G). Rosalía, dentro de um álbum majoritariamente desenhado para destacar espiritualidade, inseriu uma música com teor de gozação sobre seu ex (“La Perla”).

    A confissão do desejo pelo homem e a confissão da vergonha causada por ele não são produtos diferentes; fazem parte do mesmo pacote de consumo emocional.

    Talvez essa seja a única forma de fazer a heterossexualidade funcionar na música pop atual mesmo.

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  • Flora Matos e a desvantagem do piloto

    OBS.: Esse artigo foi originalmente publicado no meu blog Monoideia, em 21 de setembro de 2025.

    No mundo da inovação, existe um paradoxo tão antigo quanto a própria ideia de tentar introduzir algo novo no mundo: nem sempre o pioneiro é aquele que surfa a onda da tendência que ele mesmo cria.

    É o que a literatura de inovação denomina First Mover Disadvantageou “desvantagem do pioneiro”: nem sempre o pioneiro é quem mais sai ganhando com a sua própria inovação.

    Comumente, alguma empresa que chega depois acaba se saindo melhor — seja porque tem melhores condições de desenvolver e propagar aquela inovação, seja porque ficou na cômoda posição de aprender com os erros e acertos de quem veio primeiro.

    Enquanto eu estudava essa teoria nas disciplinas do meu Mestrado em Propriedade Intelectual e Inovação e lia David J. Teece mencionando empresas como Apple e IBM, o que me veio à cabeça não foi nenhuma outra empresa de tecnologia, mas a rapper e produtora Flora Matos.

    Foi uma feliz serendipidade: o timing dos meus estudos cruzou com uma toada de dias em que Flora lotava o feed da rede social X com reflexões sobre como sua experimentação musical na música “Piloto” começava a ecoar em produções de artistas africanos.

    Uma sincronicidade quase conspiratória, porque sempre enxerguei Flora como uma dessas “artistas-antena” que se orienta com coragem e ousadia a partir desse acesso à gênese do zeitgeist.

    Em certo sentido, parece até místico. Mas meu cérebro ficou feliz ao encontrar nome e base teórica para desenvolver esse raciocínio por uma perspectiva mais mercadológica.

    Na minha jornada profissional que envolve pesquisa e diversas atividades em Cultura, Comunicação e Propriedade Intelectual, muito do que faço ou tento fazer também está relacionado com essa cartografia de primeiros sinais de novos movimentos. Eu escrevo para alguns sites de jornalismo musical e frequentemente gosto de propor artigos sobre fatos e padrões novos ou recorrentes que merecem alguma atenção, seja pelo seu potencial de crescimento ou por refletirem alguma situação mais macro que já está posta.

    Sinto que o jornalista cultural também é uma espécie de analista e documentador de tendências (estou tentando me desprender do termo coolhunter), alguém que tem como missão documentar pequenas cenas e fenômenos incipientes antes que eles estourem a bolha. Em uma metaperspectiva, entendo que ser um explorador e analista de tendências também envolve mapear quem é capaz de criar e influenciar essas tendências.

    Para mim, a Flora sempre foi uma dessas pessoas.

    Ela faz rap, canta, compõe, produz, mas acima de tudo, ela testa e incorpora ritmos, batidas e elementos melódicos com a liberdade de quem não deve satisfações a gravadoras; mas contraditoriamente, também com a vulnerabilidade de quem dificilmente será incluída na propaganda da vanguarda.

    Como muitos artistas independentes, Flora influencia o mainstream, mas não consegue se posicionar na crista de clímaxes culturais que ajudou a prever ou moldar.

    Nem é preciso ter muito faro para identificar essa característica nela, porque ela mesma se autoproclama assim.

    Flora costuma bradar e fazer alarde nas redes sociais sobre ser copiada e ver sua estética e ideias reaparecerem em obras de artistas muito maiores que ela. Ela já chegou a dizer, literalmente, que vem sendo “roubada há pelo menos 15 anos”, que seus dados são “transferidos para algum lugar onde eles aproveitam tudo e transformam em produtos e marcas caras”, e que todas as suas ideias legais “viram produtos antes mesmo que eu conclua e faça o registro da patente”.

    (Como advogada de Propriedade Intelectual, vou perdoar o uso equivocado do termo “patente” aqui, porque como pesquisadora e escritora musical, estou mais interessada em outra coisa nessa fala da Flora.)

    Em um dos episódios mais controversos dessa narrativa repetida, Flora afirmou que Beyoncé teria se inspirado em sua música “Piloto” para criar “Bodyguard”. A ideia foi tratada com ironia por muitos, como se fosse impossível que uma superstar sequer soubesse da existência de uma artista brasileira independente.

    Mas não é improvável.

    Beyoncé é conhecida por pesquisar profundamente referências e trabalha com equipes de produtores e compositores diversos que podem, sim, ter cruzado com o trabalho de Flora.

    Isso não necessariamente prova que há alguma relação entre “Piloto” e a criação de “Bodyguard”— e mesmo que houvesse, não necessariamente caracterizaria plágio.

    Mesmo assim, é interessante pensar em como ideias presentes em “Piloto” podem ter inspirado a criação de outra canção que voou muito mais longe justamente porque já nasceu em melhores condições de decolagem. (Será que esse foi um jogo de palavras digno da Flora Matos?)

    E o potencial de “Piloto” de inspirar outras criações pode ir muito além das melodias que se assemelham a “Bodyguard”, como percebi durante minha epifania nos estudos sobre Inovação.

    No último fim de semana de Julho/2025, Flora Matos lançou uma série de posts no X sobre “a evolução da quebradeira no Amapiano, lá do outro lado do oceano”, explicando como ela explorou a célula rítmica da quebradeira (variante do pagode baiano) em “Piloto”; como disseram que ela estava sendo experimental demais ao fazer isso; e como isso agora está se refletindo no mundo.

    No Instagram, ela chegou a postar alguns Stories com referências de músicas de Amapiano que exemplificavam essa situação. Não tive a destreza de tirar prints desses Stories para poder analisar mais a fundo essas referências, mas pelo menos tive o estalo de que essa poderia ser mais uma tendência que Flora teria criado ou antecipado e que valeria a pena registrar para a posterioridade.

    Pensando nisso, quis conversar com Flora para escrever um artigo a respeito.

    A similaridade, ou influência, da cadência da quebradeira baiana em gêneros musicais de outros países poderia ser o início de algo muito interessante. Eu queria que existisse alguma publicação sobre essa ideia ainda em fase embrionária. Seria uma forma de fazer com que mais pessoas se atentassem para essa possibilidade, de fazer com que Flora fosse desde já entendida como uma possível pioneira, ou até mesmo de que esse artigo servisse de registro histórico quando/se essa tendência evoluísse.

    Fui atrás da assessoria de imprensa de Flora e propus uma entrevista sobre o assunto.

    Deixei bastante claro que o foco da entrevista seria a experimentação de Flora com elementos da quebradeira e sobre estilos musicais africanos nos quais esses mesmos elementos estão começando a aparecer. Fui categórica em dizer que não precisaríamos antecipar nada sobre o novo álbum ou tocar em qualquer outro assunto além desse se Flora não quisesse. O foco seria exclusivamente criar um artigo que firmasse um precedente sobre essa possível nova tendência.

    Recebi uma negativa.

    Como todo jornalista que leva um não, eu inicialmente entendi essa postura como uma perda de oportunidade para a Flora. Só que nesse caso, pareceu uma perda de oportunidade ainda mais ilógica e irônica. Qual o sentido de reclamar que as pessoas não a dão o devido crédito, se quando surge uma iniciativa para tentar firmar o nome dela como pioneira, ela recusa?

    Talvez, na estratégia de conceder entrevistas apenas quando fosse lançado o novo álbum, o “não” foi proferido no “piloto” automático. Talvez Flora não quisesse expor a tendência antes da hora. Ou talvez ela, como muitos pioneiros, já tivesse aprendido que pioneirismo não garante reconhecimento; e que não valia a pena investir energia nisso.

    A literatura de inovação fala tanto da vantagem quanto da desvantagem daquele que dá o primeiro passo.

    O “primeiro a se mover” teria a vantagem competitiva de lançar algo que chama a atenção por oferecer uma alternativa diferente, impensada, o que se refletiria na percepção de inovação que a marca alcança na mente do público, e possivelmente, em uma fidelidade.

    Mas infelizmente, também existem as desvantagens de ser o primeiro a se mover, sobretudo se a inovação for fácil de copiar e se o inovador não tem acesso e domínio de todos os ativos complementares de que precisa para que sua inovação deslanche. Quem chega depois e detém mais recursos, tem melhores chances.

    Essas teorias não foram necessariamente pensadas para a indústria de bens culturais, mas exemplos como o da possível apropriação das melodias de “Piloto” pelos compositores e produtores de “Bodyguard” da Beyoncé mostram como isso também ocorre nesse segmento.

    Mesmo que a inspiração tenha realmente ocorrido, Beyoncé ocupa um patamar muito acima de Flora. Beyoncé tem mais fãs e mais dinheiro para investir na produção e no marketing de seus álbuns. Ao lançar uma música supostamente inspirada na de Flora, Beyoncé alcança mais pessoas e fica com o mérito de ter uma música com uma melodia incrível — que, supostamente, foi Flora quem criou.

    É claro que o sucesso de uma música de Beyoncé que “copia” uma música de Flora não necessariamente “rouba” os ouvintes da música de Flora; mas priva Flora de ter o crédito (não só o autoral, mas também o social) e receitas geradas a partir da performance comercial da música.

    O que artistas como Flora vivem não é apenas um caso de injustiça cultural e uma ilustração (ainda que grosseira e merecedora de várias ressalvas) de teorias comprovadas por estudiosos da Inovação, mas um fenômeno estrutural.

    Também é verdade que, em alguns casos, para quem tem dom para criar e abrir caminhos, a recompensa de ser o piloto de tendências está apenas no mero prazer e possibilidade de pilotar. Não parece ser o caso de Flora, que frequentemente denuncia as apropriações de que é vítima. Mesmo assim, independente de ela algum dia conseguir o crédito que deseja e merece, é difícil imaginar que isso a impediria de seguir criando e inovando.

    Veremos se estive certa ao tentar cravar que a influência da base rítmica que ela explorou em “Piloto” alcançará muito mais artistas e gêneros musicais do Brasil e do mundo.

    Se permanecer no radar de quem busca identificar inovadores é alguma forma de reconhecimento para-autoral, Flora continuará tendo o meu e o de muitos.

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  • A escrita sobre música. Há futuro para a escrita sobre música?

    Quem escreve e quem lê textos sobre música faz isso porque se importa com música em um nível a mais do que apenas curtir a experiência de escutar.

    Esse tipo de interesse sempre vai existir, mas será que ele justifica a existência de escrita sobre música?

    Não me refiro só à crítica de música.

    Acho que está mais do que óbvio que crítica de música hoje em dia não tem a mesma força e mesma relevância que já teve.

    Se um dia, o crítico de música era um formador de opinião e as críticas eram um mix de curadoria com tentativa de controle de acesso e de gosto, hoje a crítica musical serve muito mais para tentar legitimar e manter viva uma indústria de jornalismo musical que luta pra sobreviver – e, sejamos sinceros, também serve pra fomentar rivalidade de fãs que se gabam de “critical acclaim” e monitoram rankings de Metacritic como se fossem charts comerciais.

    Essas coisas fazem sentido? Justificam? Por que ainda escrevemos sobre música?

    No livro “A Escrita. Há Futuro Para a Escrita?”, do filósofo (brasileiro, inclusive) Vilem Flusser discute se a justificativa da existência do texto ainda se sustenta.

    Um ponto interessante é que ele discute inclusive a “supremacia” do texto sobre outros símbolos, como a imagem. Flusser acha que o texto olha de cima pra baixo para a imagem, por exemplo.

    Não é exatamente isso que nós, escritores e críticos de música, fazemos? “Olhamos” para a música de cima pra baixo, como se ela não merecesse apenas existir e mover as pessoas pelo som, e merecesse ser analisada e dissecada via texto?

    Sim, é isso que eu acho. Há uma certa arrogância nisso, uma arrogância muito humana, de quem quer existir no mundo, de quem quer colocar a própria subjetividade para dialogar com a subjetividade de outra pessoa.

    Um lugar-comum que se firmou na cultura popular sobre crítica musical é que todo crítico é um músico frustrado.

    (Particularmente, eu sou os dois sim: uma pessoa que escreve sobre música e que não conseguiu o que queria enquanto compositora musical. No meu caso, uma coisa não teve nada a ver com a outra. Mas não ligo de acharem que possa ter. E daí se tivesse?)

    E se for verdade que todo crítico realmente use a crítica pra dar vazão à frustração de não conseguir fazer ou viver de música? E daí?

    Se o músico pode beber do repertório da humanidade para fazer música, por que o crítico não poderia beber da música dele para fazer texto?

    A crítica musical não é uma correção da arte — é uma continuação. É uma resposta. É um desdobramento.

    A quem estamos querendo legitimar quando escrevemos sobre música: a música ou a nós mesmos? Talvez ambos. A escrita sobre música é uma forma de estar vivo diante do que se escuta; é firmar um ponto no mundo a partir do ponto firmado por outra pessoa. Se isso é pretensão, que continue sendo.

    Um pouco de contexto e desabafo

    Sendo profundamente honesta, eu criei esse site pra reclamar.

    Não sou uma pessoa azeda e não garanto que meu lado mais diplomático não vá florescer por aqui…

    … mas o Musicazia nasceu do meu ressentimento de não conseguir espaço nos veículos brasileiros de música (ou, pelo menos, não tanto espaço quanto eu queria — tive sim algumas oportunidades muito legais e pelas quais sou muito grata!)

    Rosto retendo as lágrimas

    Construí uma carreira até bastante respeitável no jornalismo musical do exterior, enquanto no meu próprio país, ninguém me conhece e minhas abordagens não funcionam.

    Fui publicada pela Rolling Stone da Coreia do Sul e entrevistada pela Rolling Stone dos Estados Unidos enquanto levava ghosting de editores da Rolling Stone Brasil.

    Eu escrevo sobre as maravilhas da música brasileira para uma audiência internacional enquanto sou ignorada por esse mesmo Brasil que eu enuncio.

    É quase como se esse Brasil que eu vendo como cool pro exterior fosse mesmo tão cool que talvez nem eu seja cool o suficiente pra trabalhar no jornalismo musical dele.

    Pode parecer que isso é recalque meu. Talvez seja mesmo.

    Pode parecer audácia minha achar que eu merecia um espaço nesses veículos – eu, que nem fiz faculdade de Jornalismo, que nunca entrei n’uma redação. Eu nunca “roubei” a vaga de ninguém – eu fui atrás de preencher e criar espaços que ainda não existiam, propor pautas que ainda não eram cobertas (suficientemente ou de qualquer forma).

    Só nunca entendi por que essas características e atitudes me renderam boas oportunidades no jornalismo de fora e não surtiram o mesmo efeito no meu próprio país.

    Sejam quais forem os motivos que fizeram isso acontecer, o fato é que no peito de alguém que ama falar de música, sempre vai faltar espaço pra falar de tudo que queremos falar, ou pelo menos, no tom que queremos falar.

    A escrita enquanto digestão

    Tenho a impressão que esses temas e sentimentos represados geram um escoamento que tem um poder ainda mais forte de justificar a existência e a força da crítica musical.

    Para de fazer sentido a crítica que contém apresentação e informação sobre a obra; faz mais sentido a descrição do efeito da música. A crítica que fala mais sobre o estômago do crítico do que sobre o criticado.

    (Há quem possa me rebater dizendo que a crítica musical sempre foi designada pra ser isso. Mas não tem sido, e também não tem sido percebida assim.)

    (Já cheguei a ler posts de fãs retaliando críticos com comentários do tipo: “Se você não gostou do álbum, você não tem que dizer que é ruim, apenas diga que não é do seu gosto…” … Francamente…)

    Independente do quanto veículos de música podem e querem ou não absorver esses escoamentos, eu me pergunto se a única escrita sobre música capaz de realmente atravessar pessoas é essa: a que reclama, que confessa, que mistura, ou que no mínimo, a que expõe algo maior sobre o mundo (seja o mundo interior do próprio escritor ou o mundo que o cerca).

    E por que na escrita? Ou, por que *ainda* na escrita?

    Porque escrever é digerir. O ato de escolher palavras e transformá-las em algo que se fixa no mundo de modo mais palpável do que a fala exige, no fundo, parar e sentir o que está acontecendo no estômago.

    O texto pode ser o arroto, mas até o arroto presume a digestão.

    A materialização da escrita (seja no papel ou no digital) nos força a um contato mais intenso tanto com o que se passa dentro de nós quanto com o mundo ao nosso redor.

    A crítica musical não precisa sempre nascer da azia, mas tem que nascer pelo menos da digestão, e não só da enumeração dos ingredientes do prato.

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