A escrita sobre música. Há futuro para a escrita sobre música?

Quem escreve e quem lê textos sobre música faz isso porque se importa com música em um nível a mais do que apenas curtir a experiência de escutar.

Esse tipo de interesse sempre vai existir, mas será que ele justifica a existência de escrita sobre música?

Não me refiro só à crítica de música.

Acho que está mais do que óbvio que crítica de música hoje em dia não tem a mesma força e mesma relevância que já teve.

Se um dia, o crítico de música era um formador de opinião e as críticas eram um mix de curadoria com tentativa de controle de acesso e de gosto, hoje a crítica musical serve muito mais para tentar legitimar e manter viva uma indústria de jornalismo musical que luta pra sobreviver – e, sejamos sinceros, também serve pra fomentar rivalidade de fãs que se gabam de “critical acclaim” e monitoram rankings de Metacritic como se fossem charts comerciais.

Essas coisas fazem sentido? Justificam? Por que ainda escrevemos sobre música?

No livro “A Escrita. Há Futuro Para a Escrita?”, do filósofo (brasileiro, inclusive) Vilem Flusser discute se a justificativa da existência do texto ainda se sustenta.

Um ponto interessante é que ele discute inclusive a “supremacia” do texto sobre outros símbolos, como a imagem. Flusser acha que o texto olha de cima pra baixo para a imagem, por exemplo.

Não é exatamente isso que nós, escritores e críticos de música, fazemos? “Olhamos” para a música de cima pra baixo, como se ela não merecesse apenas existir e mover as pessoas pelo som, e merecesse ser analisada e dissecada via texto?

Sim, é isso que eu acho. Há uma certa arrogância nisso, uma arrogância muito humana, de quem quer existir no mundo, de quem quer colocar a própria subjetividade para dialogar com a subjetividade de outra pessoa.

Um lugar-comum que se firmou na cultura popular sobre crítica musical é que todo crítico é um músico frustrado.

(Particularmente, eu sou os dois sim: uma pessoa que escreve sobre música e que não conseguiu o que queria enquanto compositora musical. No meu caso, uma coisa não teve nada a ver com a outra. Mas não ligo de acharem que possa ter. E daí se tivesse?)

E se for verdade que todo crítico realmente use a crítica pra dar vazão à frustração de não conseguir fazer ou viver de música? E daí?

Se o músico pode beber do repertório da humanidade para fazer música, por que o crítico não poderia beber da música dele para fazer texto?

A crítica musical não é uma correção da arte — é uma continuação. É uma resposta. É um desdobramento.

A quem estamos querendo legitimar quando escrevemos sobre música: a música ou a nós mesmos? Talvez ambos. A escrita sobre música é uma forma de estar vivo diante do que se escuta; é firmar um ponto no mundo a partir do ponto firmado por outra pessoa. Se isso é pretensão, que continue sendo.

Um pouco de contexto e desabafo

Sendo profundamente honesta, eu criei esse site pra reclamar.

Não sou uma pessoa azeda e não garanto que meu lado mais diplomático não vá florescer por aqui…

… mas o Musicazia nasceu do meu ressentimento de não conseguir espaço nos veículos brasileiros de música (ou, pelo menos, não tanto espaço quanto eu queria — tive sim algumas oportunidades muito legais e pelas quais sou muito grata!)

Rosto retendo as lágrimas

Construí uma carreira até bastante respeitável no jornalismo musical do exterior, enquanto no meu próprio país, ninguém me conhece e minhas abordagens não funcionam.

Fui publicada pela Rolling Stone da Coreia do Sul e entrevistada pela Rolling Stone dos Estados Unidos enquanto levava ghosting de editores da Rolling Stone Brasil.

Eu escrevo sobre as maravilhas da música brasileira para uma audiência internacional enquanto sou ignorada por esse mesmo Brasil que eu enuncio.

É quase como se esse Brasil que eu vendo como cool pro exterior fosse mesmo tão cool que talvez nem eu seja cool o suficiente pra trabalhar no jornalismo musical dele.

Pode parecer que isso é recalque meu. Talvez seja mesmo.

Pode parecer audácia minha achar que eu merecia um espaço nesses veículos – eu, que nem fiz faculdade de Jornalismo, que nunca entrei n’uma redação. Eu nunca “roubei” a vaga de ninguém – eu fui atrás de preencher e criar espaços que ainda não existiam, propor pautas que ainda não eram cobertas (suficientemente ou de qualquer forma).

Só nunca entendi por que essas características e atitudes me renderam boas oportunidades no jornalismo de fora e não surtiram o mesmo efeito no meu próprio país.

Sejam quais forem os motivos que fizeram isso acontecer, o fato é que no peito de alguém que ama falar de música, sempre vai faltar espaço pra falar de tudo que queremos falar, ou pelo menos, no tom que queremos falar.

A escrita enquanto digestão

Tenho a impressão que esses temas e sentimentos represados geram um escoamento que tem um poder ainda mais forte de justificar a existência e a força da crítica musical.

Para de fazer sentido a crítica que contém apresentação e informação sobre a obra; faz mais sentido a descrição do efeito da música. A crítica que fala mais sobre o estômago do crítico do que sobre o criticado.

(Há quem possa me rebater dizendo que a crítica musical sempre foi designada pra ser isso. Mas não tem sido, e também não tem sido percebida assim.)

(Já cheguei a ler posts de fãs retaliando críticos com comentários do tipo: “Se você não gostou do álbum, você não tem que dizer que é ruim, apenas diga que não é do seu gosto…” … Francamente…)

Independente do quanto veículos de música podem e querem ou não absorver esses escoamentos, eu me pergunto se a única escrita sobre música capaz de realmente atravessar pessoas é essa: a que reclama, que confessa, que mistura, ou que no mínimo, a que expõe algo maior sobre o mundo (seja o mundo interior do próprio escritor ou o mundo que o cerca).

E por que na escrita? Ou, por que *ainda* na escrita?

Porque escrever é digerir. O ato de escolher palavras e transformá-las em algo que se fixa no mundo de modo mais palpável do que a fala exige, no fundo, parar e sentir o que está acontecendo no estômago.

O texto pode ser o arroto, mas até o arroto presume a digestão.

A materialização da escrita (seja no papel ou no digital) nos força a um contato mais intenso tanto com o que se passa dentro de nós quanto com o mundo ao nosso redor.

A crítica musical não precisa sempre nascer da azia, mas tem que nascer pelo menos da digestão, e não só da enumeração dos ingredientes do prato.

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