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  • Há crítica musical de álbuns de Bois, ou ainda estamos fingindo que isso não é música pop?

    Há crítica musical de álbuns de Bois, ou ainda estamos fingindo que isso não é música pop?

    Em 2024, tive a oportunidade de cobrir o Festival Psica, em Belém-PA. Entre as centenas de coisas que chamaram a minha atenção, há uma que fogia bastante do lugar-comum de festivais de música como esse: os headliners de um dos palcos da primeira noite do festival não eram cantores, nem bandas, mas sim, os dois bois-bumbás do Festival de Parintins-AM, o Boi Caprichoso e o Boi Garantido (obviamente, acompanhados das suas equipes, cantores e dançarinos).

    Fiquei encantada com a ideia de bois headliners. Nunca tinha pensando nessa possibilidade! O Festival Psica geralmente conta com cortejo e apresentações de grupos de manifestações culturais, mas eu nunca tinha visto isso acontecer no palco, ocupando o mesmo lugar que nomes como João Gomes e Liniker, que também foram headliners do Psica naquele ano.

    Mas fez todo o sentido, e não só pela proposta do Psica (que é de destacar a cultura nortista, amazônica, ribeirinha), mas também, porque o que chamamos de Boi Caprichoso e Boi Garantido também são atos musicais completos, inclusive com obras autorais!

    Os bois têm sua própria identidade sonora, narrativa estética, repertório autoral de toadas (palavra que é, ao mesmo tempo, sinônimo de “canção”, mas também descritiva de gênero musical) lançado anualmente, e uma base de fãs que rivaliza — ou supera — a de muitos artistas do mainstream.

    Ainda assim, existe um ponto cego evidente: por que a produção musical desses bois não entra no radar da crítica musical brasileira?

    Até onde tenho conhecimento e pesquisei para fazer esse texto, não parece haver um movimento de consideração dos álbuns dos Bois para serem resenhados por veículos jornalísticos.

    Existe crítica — mas não “crítica musical”

    É importante reconhecer: o Festival de Parintins é intensamente avaliado. Internamente.

    O Festival tem seus critérios técnicos para determinar a pontuação dos Bois. Há jurados, avaliação técnica, análises detalhadas de desempenho inclusive no que diz respeito às canções — assim como acontece com os sambas-enredo no Carnaval. Existe, inclusive, uma cultura de debate e rivalidade muito forte entre torcidas, cada uma se vangloriando de seu boi ter as melhores toadas.

    Há avaliação técnica musical feita dentro do Festival, mas e fora?

    Fora desse circuito, o que se vê são comentários sobre as músicas dos bois nas redes sociais, “reacts” no YouTube, disputas entre torcedores e algumas iniciativas isoladas de escuta mais atenta. A mídia local reporta o lançamento dos álbuns, mas se limita a isso.

    Recentemente, vi um movimento muito legal do Igor Marques, da página Igoarias Musicais, que promoveu uma audição coletiva em grupo do álbum Criação Cabocla (1996), do Boi Caprichoso, em homenagem aos 30 anos de lançamento do álbum. Não pude participar, mas pude perceber que a audição se dedicava a analisar o álbum enquanto obra musical mesmo, não só por sua história ou pelo que ele representa para o Boi Caprichoso no Festival de Parintins. Inclusive, as divulgações do Grupo mencionavam o álbum como “clássico da música amazonense” que completa 30 anos em 2026″.

    Há também, claro, a dissecação acadêmica da produção musical dos bois, com artigos que analisam a evolução dos padrões de composição, o histórico do lançamento das músicas, entre outros temas e recortes que interessam aos campos da Música, Cultura, Antropologia, História e vários outros campos do saber.

    Tudo isso é muito legal, mas ainda assim, eu me pergunto por que não se consolida uma crítica musical estruturada das toadas dos bois, principalmente fora do Estado do Amazonas e/ou em veículos que não têm um enfoque específico na música do Norte ou música “regional” em geral.

    (Curiosamente, a principal emissora que cobre o Festival de Parintins se chama A Crítica)

    Um álbum pop disfarçado de toada?

    Essa ausência se torna ainda mais intrigante quando você realmente escuta os lançamentos. Inclusive, o último lançamento do Boi Caprichoso, Brinquedo que canta seu chão (2026), é um dos fortes motivos que me leva a escrever esse texto.

    Lançado em 17/04/26, esse álbum é um bom exemplo de como essas obras poderiam — e talvez deveriam — ser analisadas como qualquer outro disco contemporâneo.

    A faixa-título é quase um experimento de música pop. A progressão de acordes se aproxima de estruturas amplamente utilizadas no mercado pop, criando um efeito imediato de familiaridade e adesão. Não é só música “de arena”, é música que funciona fora dela.

    E o próprio boi parece ter entendido isso.

    Tem rolado uma estratégia de divulgação da faixa muito interessante: versões da música “Brinquedo que canta seu chão” em diferentes gêneros (samba, forró, tradicional catarinense etc) reinterpretadas por artistas e influenciadores de várias regiões do Brasil. Uma espécie de validação empírica de que aquela toada já nasce com vocação de circulação nacional. Absolutamente sensacional!

    O fato de a toada ter combinado com todos esses gêneros prova que a sua composição é inteligente, é cancioneira, é universal.

    Arranjos, escolhas e pequenas ousadias

    O álbum Brinquedo que canta seu chão também oferece material suficiente para uma escuta mais minuciosa:

    • “É hoje!” tem um refrão forte, que fala de festa e cerveja, algo que funciona no contexto da celebração do boi, mas que faz todo o sentido no imaginário popular festeiro de qualquer parte do Brasil. Um refrão que funcionaria no sertanejo, no forró, qualquer ritmo dançante;
    • “Filhas de Mani” aposta em uma linha de saxofone marcante, quase hipnótica, que funciona como elemento de fixação melódica —um verdadeiro hook, no linguajar da composição musical;
    • “Cardume de Estrelas” trabalha com variações harmônicas mais frequentes ao longo de uma mesma faixa e, no final, realiza uma mudança de tom para acomodar a entrada de uma voz feminina. Harmonicamente, é a canção mais complexa do álbum;
    • “Tuxauas – Herdeiros de Xibelão” incorpora uma flauta andina, expandindo o repertório tímbrico e sugerindo diálogos com outras sonoridades latinoamericanas e amazônicas;
    • “Vidas Ribeirinhas”, que encerra o álbum, assume o formato de balada: piano, violino e uma construção lírica que se aproxima do lamento social, algo recorrente na tradição do Caprichoso.

    Confesso que não tenho um conhecimento tão aprofundado da discografia dos Bois Caprichoso e Garantido, mas tenho a impressão de que, nos últimos anos, parece haver uma incorporação mais consciente de estruturas do pop contemporâneo.

    Claro que, em todas as canções, há peculiaridades do gênero e que talvez não traduziriam tão perfeitamente em outros gêneros musicais ou contextos (o que não é, de forma alguma, um defeito ou exigência). Mas de uma forma geral, tenho observado “toadas mais pop” nos últimos anos sim.

    Um exemplo é “Tocaia”, que recentemente viralizou nas redes sociais por causa de um vídeo da cunhã-poranga e participante do BBB 26, Marcielle Albuquerque, dançando.

    É realmente hipnotizante ver a Marcielle dançando, ela tem uma presença marcante, gestos limpos e é linda demais. Mas não é só isso que faz “Tocaia” ficar na cabeça após assistir o vídeo: essa toada tem um refrão totalmente pop, desde a escolha dos acordes até a estrutura da melodia que varia entre um binônimo de verso mais arrastado+versos rápidos (estilo que se popularizou no mundo todo após a incorporação de estruturas de hip hop e trap no mundo pop).

    Então por que os veículos de crítica musical não avaliam álbuns dos Bois?

    A resposta não é simples, mas alguns fatores ajudam a explicar:

    1. Regionalização do olhar crítico
    A crítica musical brasileira ainda é fortemente concentrada no eixo Sudeste. O que escapa desse circuito muitas vezes não é ignorado por falta de qualidade, mas por falta de hábito crítico.

    2. A dificuldade da imparcialidade
    Caprichoso e Garantido não são apenas projetos musicais — são identidades culturais profundamente enraizadas. Qualquer análise pode tender a ser imediatamente lida como posicionamento dentro de uma rivalidade histórica. Isso cria um ambiente potencialmente hostil para a crítica.

    Nos últimos anos, acompanhei discussões bastante intensas no jornalismo musical dos Estados Unidos sobre a dificuldade que as culturas digitais de fandom trouxeram para a crítica musical. Eu mesma tenho amigas jornalistas que foram alvo de comportamentos extremamente odiosos e até perigosos por parte de fãs de artistas que elas escreveram a respeito.

    No Brasil, esse debate também existe. Destaco, recentemente, a forma como a jornalista Carol Prado foi ridicularizada por fãs do Matuê, e pelo próprio Matuê, após críticas a ele.

    Não estou aqui dizendo que as torcidas dos Bois agiriam da mesma forma, pois não tenho conhecimento de comportamentos desse nível de odiosidade por parte deles. Mas é certo que o contexto de rivalidade entre Bois já cria um ambiente bastante delicado para críticos musicais fazerem uma avaliação da música lançada por cada um.

    3. Falta de repertório crítico acumulado
    Como não há tradição consolidada de análise desses álbuns, também não há um vocabulário crítico compartilhado.

    A academia até produz estudos sobre ritmo, história, direitos autorais, mas isso raramente transborda para o jornalismo cultural.

    4. O enquadramento como “folclore”
    Talvez o ponto mais estrutural: enquanto os bois forem tratados apenas como manifestação folclórica, e não como produção musical contemporânea, eles continuarão fora das prateleiras da crítica.

    Talvez não exista crítica de álbum de Boi pelo mesmo motivo que não há crítica de samba-enredo fora das ligas carnavalescas cariocas e paulistas, ou crítica de músicas de Carnaval ou regionais de outros Estados… crítica de músicas que se enquadram muito mais como “manifestação cultural” do que música nos moldes da indústria musical mesmo.

    Pequenas fissuras nesse silêncio

    Confesso que sequer sei se é um anseio dos Bois e de suas torcidas terem sua música avaliada dessa forma.

    Mas iniciativas independentes, como a do Igoarias que destaque acima, mostram que há interesse nesse tipo de análise. E mais do que isso, há material suficiente para análise. A produção autoral dos Bois é muito intensa, fora todas as décadas de discografia que ambos acumulam.

    Se esses discos têm composição, arranjo, conceito, estratégia de lançamento e recepção de público, o que exatamente ainda falta para que sejam levados a sério como objetos de crítica musical?

    O que falta, talvez, é um deslocamento de perspectiva: enxergar esses álbuns não apenas como trilha de um espetáculo, mas como obras musicais completas, inseridas (ainda que de forma muito recortada) na indústria fonográfica brasileira.

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  • Galinhas de pontinhos: o poá microtonal da banda Angine de Poitrine

    Galinhas de pontinhos: o poá microtonal da banda Angine de Poitrine

    O nome da banda canadense Angine de Poitrine significa, em francês, “angina de peito”. É um nome que já sugere um drama que se sente no corpo, um colapso.

    Mas para nós brasileiros e/ou falantes de português, há um desvio mais interessante aí, já que poitrine quase escorrega para “pontinhos”: uma referência muito mais pronta para a padronagem obsessivamente poá do figurino adotado pela banda. Está muito mais para um capote, ave também conhecida como galinha d’angola – aquela que também tem pelugem em pontinhos, aquela que canta: “Tô fraco, tô fraco”. Fraca como se tivesse uma angina de peito.

    A banda, que tem chamado a atenção em galinheiros do midstream desde uma performance no canal do Youtube da estação de rádio KEXP, publicada em fevereiro de 2026, lançou seu segundo álbum Vol. II em 03/04/26. A faixa de abertura, “Fabienk”, tem uns riffs de guitarra que facilmente se passa por um cacarejo digital mesmo.

    O corpo fraco fala e o som da banda Angine de Poitrine traduz esse colapso não por meio de agudos óbvios, mas com microtons… ou seja, eles se movimentam em uma escala que se fragmenta em intervalos ainda menores, como se houvesse sempre um som possível entre dois sons já dados.

    (Se você não sabe o que é microtonalidade, recomendo ver esse videozinho no Instagram, só pra você se situar mesmo, pois embora teoria musical faça a diferença pra entender o que tá rolando no som da Angine de Poitrine, ela é determinante pra você pode curtir, pois o som é muito divertido.)

    É uma dança estranha entre espaços: espaços entre tons, entre pontinhos.

    Angine de Poitrine opera justamente nesse “entre”, explorando notas que escapam aos intervalos convencionais da música ocidental.

    No caso deles, isso se traduz quase como uma coreografia: uma dança de pontinhos. Cada nota parece procurar outra no espaço mínimo que as separa, como se o ouvido fosse convidado a percorrer visualmente a distância entre um ponto e outro no tecido, como na padronagem de pontinhos vista nas roupas da banda.

    O apelo (ou complemento) estético é 50% da jogada da banda, pois adiciona uma camada a mais de atratividade ao som que, apesar de interessante por si só, talvez não furasse a bolha de quem já se liga em math rock, ou em outras experimentações no rock progressivo, ou até mesmo em outros gêneros e cenas que exploram o recurso da microtonalidade, como há na música indiana ou até mesmo no rock psicodélico turco.

    Inclusive, os dois membros da Angine de Poitrine preferem manter as suas identidades escondidas por trás das máscaras e figurinos de estampa de poá, existindo como padronagens em vez de rostos e corpos identificáveis.

    Mas parece que paciência com o anonimato não é o forte de 2026, ano em que até o Banksy foi desmascarado pela Reuters. Já há gente querendo revelar a identidade dos capotes roqueiros também.

    É o espírito do tempo, são tempos de gente obcecada por chás-revelação, identificação de sample, acusação de falta de originalidade (gente, inclusive, que se revolta com o hype do Angine de Poitrine porque “não é tão original assim como estão dizendo”), gente querendo expor quem é e de onde vem tudo, enfim… gente com tolerância baixa aos intervalos entre um ponto e outro. A autoria, a identidade e a criação são, também, microtonais e cheias de nuances, que às vezes o ser humano fica impaciente para transformar em fórmula pronta; algo em que a provavelmente a Inteligência Artificial vai ajudar.

    O fato é que, seja disfarce ou não, a estética da Angine de Poitrine ilustra o som. O poá não é só um detalhe excêntrico para chamar a atenção; é quase uma tradução gráfica da lógica musical da banda. É difícil separar uma coisa da outra.

    São capotes incorporando Capote em Breakfast at Tiffany’s quando ele escreve, pela voz da personagem Holly: “sou top banana no departamento de choque”.

    Bananas de Pijamas que trocaram as listras pelo poá. Impactante, mas de um jeito quase lúdico.

    Porque realmente é difícil não ver algo de infantil em tudo isso também. Em algum post sobre Angine de Poitrine nas redes sociais, cheguei a ver uma mulher comentando que o filho dela chamava Angine de Poitrine de “a banda dos pontinhos”.

    É de se entender que a combinação de som e estética faça sucesso com crianças e que evoque uma certa alegria inocente apesar da intenção de ser chocante.

    “utzp”, faixa do álbum Vol. II, que conta com uns metais bufões como se fosse de sonoplastia de circo, organiza-se praticamente como uma polca feita para ser dançada alegremente e sem culpa. Ou algo que já foi uma polca; porque a polca, inclusive, é dissolvível. No Brasil, ela se dissolveu: virou/gerou frevo, samba, maxixe. O resultado lembra um prato aparentemente improvável, mas que para muitos brasileiros parece fazer todo o sentido: galinha d’angola cozida com maxixe. Talvez não agrade o paladar, mas não é uma combinação que soa estranha para o Brasil.

    Por volta de 2:44 de “utzp” é que surge uma guitarrinha mais nervosa que te lembra que aquilo é rock de adulto (e depois disso a música vai escalando para ficar cada vez mais agressiva), mas até então, “utzp” quase dá pra ser uma música pra ser tocada em um número de palhaços em uma festa infantil.

    Angine de Poitrine se dizem alienígenas, e se descrevem no Instagram como “Mantra-Rock Dada Pythago-Cubist Orchestra”. Pois eu, que simplesmente amo essas locuções substantivas cheias de hífens e saladas de referências, acho até que a melhor descrição da Angine de Poitrine foi mesmo a da criança que chamou de “a banda dos pontinhos”. Essa descrição sintetiza praticamente tudo que há de legal na banda.

    É claro que a combinação de som e visual esquisitinhos torna Angine de Poitrine a banda perfeita pra viralizar em redes sociais focadas em conteúdo audiovisual, em uma era de nerds de música sedentos pra achar algo que nos mostre que o ser humano ainda consegue fazer coisas que a IA não consegue. Somos capotes cantando “Tô fraco” em busca de um alimento.

    E foda-se, se for pra usar essa banda como token na discussão sobre a supremacia da criatividade humana, que usemos mesmo, estamos precisando e temos que nos agarrar ao que estiver ao nosso alcance.

    Quem sabe, pra trazer de volta a estranheza a muitas coisas que estamos aprendendo a naturalizar, seja legal ouvir e assistir uma banda que nos lembra que há outros intervalos possíveis entre as notas que o ouvido humano aprendeu a tratar como definitivas.

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  • A genial composição e produção de “Sonho Lindo”, de Armandinho e os Rubis da Princesa

    A genial composição e produção de “Sonho Lindo”, de Armandinho e os Rubis da Princesa

    Uma progressão de acordes rara, recursos de melodic answering, e uma melodia quase ostinástica fazem de “Sonho Lindo” um lambadão de composição e produção extremamente inteligentes e elegantes.

    A música “Sonho Lindo”, da banda baiana de lambadão Armandinho e os Rubis da Princesa, sempre me fascinou desde que a ouvi pela primeira vez na coletânea Cabaré da Marcinha, em meados de 2003/2004. (Essa coletânea, lançada pelo DJ Luciano em Gurupi, Tocantins – cidade na qual cresci e passei a maior parte da minha vida – merece um estudo e registro próprios. Além de ter feito muito sucesso, apresentou muitas músicas e artistas de forró e brega a Gurupi e região, moldando a cultura popular por bastante tempo no início dos anos 2000. Algum ainda eu ainda vou escrever sobre o Cabaré da Marcinha aqui no Musicazia)

    Havia algo muito simplístico na composição dela que sempre me intrigou. Sabe aquela simplicidade que engana? Aquela sofisticação de quem não quer mostrar que é sofisticado, pelo contrário, até quer que você ache que é simples e “fácil”.

    Mas não é tanto assim. Há algumas pegadas muito inteligentes na composição e produção dessa música, embora ela pareça básica sob os aspectos melódico e lírico, e pareça de produção pouco elaborada.

    Aparentemente, “Sonho Lindo” (assim como boa parte da obra da banda) só chegou às plataformas de streaming em 2020, então você deve achá-la por aí como tendo sido lançada nesse ano, mas não, ela é do início dos anos 2000, provavelmente de 2002 ou 2003, e foi lançada no álbum Vol. 3 de Armandinho e os Rubis da Princesa.

    Legal saber que discos como esse, de alcance majoritariamente regional em uma época em que música digital ainda engatinhava, não estão se perdendo; mas nesse processo de “transição”, perdemos algumas informações mais precisas.

    Mas segundo o Spotify, e essa informação parece congruente com a história da banda, o compositor de “Sonho Lindo” é Armando Custódio, o próprio “Armandinho” que dá nome à banda. Ele é um dos grandes homenageados desse texto.

    Ouvi muito essa música na minha adolescência: o Cabaré da Marcinha fez muito sucesso em Gurupi e a música “Sonho Lindo” era simplesmente a música de abertura de um de seus volumes. Então, quando ela começava a tocar, era como o anúncio do começo de uma festa: a gente já sabia que viria muita coisa legal depois; e eu, inclusive, até decorava a sequência das músicas.

    Já mais velha, redescobrindo a música, comecei a pensar em como a melodia dela me lembra as melodias de Rod Stewart, como “I don’t wanna talk about it”. Tem um quê das melodias e estruturas de músicas dos Carpenters também.

    Acho que a parte de “Sonho Lindo” da letra “Então vem viver comigo esse sonho lindo” (em 1:27) lembra muito a parte da letra “I can tell by your eyes” (0:14) de “I don’t wanna talk about it”, escute:

    Mas “Sonho Lindo” difere dessa pela falta de um refrão bem marcado e de motivos diferentes nas seções. “Sonho Lindo” tem uma certa linearidade, quase um ostinato.

    Além disso, há algo menos óbvio na harmonia (que é, basicamente, o “conjunto” de acordes musicais usados na música) de “Sonho Lindo” do que em “I don’t wanna talk about it” do Rod Stewart.

    A progressão de acordes de “Sonho Lindo” é formada pelos acordes: C – Dm – F, isto é, Dó maior – Ré menor – Fá maior.

    (Especialistas poderão defender outras “versões” dessa progressão, em outras nomenclaturas desses acordes – enarmonia” – ou em outros tons; mas eu sou bem básica quando o assunto é teoria musical, então vou considerar essa, porque foi o que eu consegui tirar de ouvido no teclado, e quando toco esses acordes no teclado, soa exatamente como a progressão de “Sonho Lindo”. E é o que importa para aqui).

    Esta é uma versão reduzida da popular progressão C – Dm – F – G (Dó maior – Ré menor – Fá maior – Sol maior), mas que elimina justamente o último acorde que “resolve” a progressão. Isto é o que se pode chamar de “unresolved chord progression”, ou progressão de acordes não resolvida.

    Essas progressões musicais comuns na música popular costumam usar uma estrutura que conduz a um ponto de resolução – geralmente por meio da função dominante (V) —, criando uma expectativa de “conclusão”, “fechamento”. Mas em “Sonho Lindo”, essa expectativa é deliberadamente suspensa. Depois do acorde F (Fá maior), que leva a expectativa lá pro alto, a música volta pro primeiro acorde, C (Dó maior).

    Há várias implicações aí.

    Primeiro, o fato de a progressão não terminar em um acorde G (Sol maior) a torna rara. Não consegui pensar, e ao pesquisar tampouco encontrei, músicas que usem a progressão formada apenas por C – Dm – F.

    Em uma pesquisinha básica usando a modalidade gratuita do site Chord Genome, não achei nada também, achei apenas algumas variações dela, mas nada igual:

    A segunda implicação da escolha dessa progressão de acordes para “Sonho Lindo” tem a ver com a sua produção.

    A produção é totalmente eletrônica, formada basicamente por:

    • um beat básico de lambadão eletrônico que se repete durante toda a música;
    • uma guitarrinha sintetizada que sola algumas vezes, mas que também aparece no “fundo” da música enquanto há vocais;
    • e um timbre de brass usado para algumas melodias bem pontuais que aparecem sobretudo nos “espaços vazios” quando não há vocais.

    Esse brass tem um papel bem importante no storytelling de “Sonho Lindo”: ele complementa as melodias e “anuncia” pequenos clímaxes da letra.

    Ou seja: a harmonia de “Sonho Lindo” pode não ter um acorde que “resolva” a progressão, mas as melodias tocadas no brass sintetizado cumpre esse papel de “fechar” clímaxes.

    Esses fillers tocados com sintetizadores em momentos de silêncio ou transição são uma técnica chamada de “melodic answering”, e é muito encontrado em músicas do ABBA e outros grupos de europop; e claro, reproduzido em outros gêneros e por outros artistas.

    O melhor exemplo desse “melodic answering” em “Sonho Lindo” é quando ele canta:

    Desde quando eu te vi… [BRASS ANUNCIANDO QUE UMA GRANDE NOTÍCIA VAI CHEGAR] eu me apaixonei“.

    É muito bom. Ouça em 0:28:

    Mas o mais legal é que o “Eu me apaixonei” não é cantado de forma triunfal, pelo contrário, a música retorna pro primeiro acorde, C, com a mesma melodia do começo. O brass faz esse papel mais eloquente, extravagante, para que o cantor siga tranquilo e calmo contando sua história.

    E de fato há um compromisso de que a história da música seja contada de forma tranquila.

    Quando a vocalista mulher entra na música, cantando “Eu também estou feliz“, ela canta com um calma quase contraditória com o que está sendo contado. Não há euforia na melodia quando cada cantor está contando sua versão da história. A euforia só vem ao final quando eles cantam juntos: “E viva o amor… E viva o nosso amor…” … mas ainda assim mantendo os mesmos acordes. Não é aquela resolução formulaica brega de “ah, agora vamos subir o tom e colocar uma acorde triunfal para celebrar o amor”. Segue calmo, tranquilo.

    Simplesmente incrível. Nenhuma Inteligência Artificial faria algo assim.

    (Mas você esperaria menor criatividade de uma banda chamada Armandinho e os Rubis da Princesa? Nunca peguei essa referência do que seriam esses rubis da princesa)

    Se você gostou da música do artista, encorajamos você a comprar o projeto pelo Bandcamp ou pelo menos consumir por meio de canais oficiais do artista para que ele possa ser remunerado.

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  • Resenha curatorial das melhores críticas curtas sobre Quebradeira Pura de Marcelinho MeteBala no YouTube

    Resenha curatorial das melhores críticas curtas sobre Quebradeira Pura de Marcelinho MeteBala no YouTube

    Eu sou do time que acha que se alguém já disse algo genial e que eu certamente diria, não há por que eu ficar buscando formas diferentes de dizer a mesma coisa.

    Exalto a boa literatura encontrada na Internet por meio do like, repost ou compartilhamento. Faço dos autores os meus procuradores e só me atrevo a coautorar a grande crítica coletiva se eu puder iluminá-la com algo novo, diferente e relevante.

    Dito isso, maravilhada que estou com a qualidade do EP/set/megamix/playlist/projeto/obra musical Quebradeira Pura, do carioca Marcelinho MeteBala, e igualmente com a qualidade dos comentários que li no upload da obra feito no YouTube, hoje a crítica musical que me proponho a fazer será uma colagem das melhores críticas curtas que encontrei lá sobre esse que já é, pra mim, o segundo melhor projeto musical brasileiro de 2026, juntamente com o álbum de Criolo, Amaro e Dino.

    O negócio é tão bom que despertou um senso artístico igualmente acurado dos seus early adopters no YouTube.

    Se Marcelinho MeteBala (seja ele quem for! Quem é? Preciso saber mais) é um grande artista, as pessoas que escreveram os comentários abaixo também são críticos de grande qualidade. Reconhecê-los-ei por meio desta humilde colagem curatorial – à qual, bom, contradizendo-me, não resisti a adicionar alguns comentários também – então vamos chamar de resenha curatorial:

    Projeto: Quebradeira Pura

    Artista: Marcelinho MeteBala

    Lançamento: 10/02/2026

    Disponível em: Bandcamp, Soundcloud, YouTube

    “dadaismo musical brasileiro de qualidade”

    (autor/usuário: @Lenny-qy3zt)

    Belíssimo e acurado enquadramento de Quebradeira Pura na linhagem de escolas e movimentos artísticos.

    Tal como no dadaísmo, Quebradeira Pura é destrutivo, mas intencional. É ruído mas não apenas pelo ruído. Há um resultado autêntico e esteticamente valoroso per se. É extremamente neurótico e visionário a partir de construções sobre fundações preexistentes.

    O projeto se apropria e ao mesmo tempo desconstrói blocos musicais (samples) com inclusão de vocais de funk com letras e melodias que, até onde identifiquei, são inéditas.

    Não parece possível traçar um fio lógico condutor entre a escolha dos samples e bases instrumentais e os vocais e letras; sequer um nexo que justifique os diversos samples e blocos musicais que são colocados juntos.

    Isso é muito típico de produção de música eletrônica periférica brasileira, como em gêneros como o funk e o tecnobrega.

    O Marcelinho MeteBala reproduz essa fórmula para fazer música techno, mas há uma inegável influência do funk também. O funk inclusive aparece mais explicitamente no instrumental de músicas como “Vem Magrinho Sexy” e nos samples dos vocais da cantora Ludmilla em “Trem Bala/Olhei Gostei“.

    Mas Quebradeira Pura tem um quê de antropofagia também, porque muitos dos samples são de músicas estrangeiras. “Desce Gstz” fica no hall de melhores apropriações de “Save a Prayer” do Duran Duran, juntamente com “Oração” de Tonny Brasil.

    “Salvador Dali só que daqui”

    (autor/usuário: @theopsoares)

    Outra tentativa brilhante de ligar Marcelinho MeteBala aos cânones da arte por meio de atalhos semânticos.

    Mais do que um símile elíptico antonomásico, “Salvador Dali só que daqui” é genial não só porque usa de um humor extremamente besta, mas porque, de fato, há um quê de surrealismo daliano em Quebradeira Pura. A comparação não é só um ufanismo de ocasião, ela tem substância.

    “Teoria da internet viva”

    (autor/usuário: @mcgubert)

    Se a teoria da Internet morta credita aos bots e IAs o conteúdo que domina a Internet, Quebradeira Pura é extremamente humano até mesmo no seu excesso de tecnologia.

    Há um limite pra chamar de “aleatórias” as escolhas musicais das faixas: se fosse de fato aleatório, o resultado seria uma obra musical genérica, ou difícil de digerir. Não é o caso!

    Dá pra perceber que há uma mente humana por trás.

    O que pode ser completado com o raciocínio abaixo:

    “inteligência artificial nunca seria capaz de criar uma obra prima dessa”

    (autor/usuário: @Leo-ep6zo)

    Não mesmo!

    Eu até consigo imaginar como seria uma versão IA de um prompt sobre uma megafaixa de techno recheada com samples e vocais de funk, e duvido que sairia tão legal quanto Quebradeira Pura.

    Algumas escolhas aqui só poderiam ser ter sido feitas por um humano que domina o seu ofício.

    “cara disfarçou puro talento com meme e achou que a gente não ia perceberkkkkkk”

    (autor/usuário: @randymoneymaker)

    Pois é, Quebradeira Pura beira o nonsense, mas apesar de ser bem humorado, não se propõe a ser exatamente uma piada. É arte!

    “imagina mostrar isso pra um plebeu da idade media no século 14 durante ápice da peste bubônica” – autor/usuário: @Leo-ep6zo

    “Na epidemia da dança de 1518” – autor/usuário:
    @satiroxobru5884

    Tive que incluir um comentário-resposta porque essa sequência ficou boa demais.

    Quebradeira Pura é basicamente um megamix, não há intervalos, e todas as “divisões” (que chamei de “faixas” anteriormente) são dançantes à sua maneira, então de fato a coisa toda parece um grande transe e seria a trilha sonora perfeita para um episódio maníaco e coletivo de dança.

    nascido para ser “enviado à 12 anos atrás” forçado a ser “enviado à 2 dias atrás”

    (autor/usuário: @CaiqueDeQueiroz)

    Aqui entra uma reflexão engraçada: Quebradeira Pura tem um quê de EDM do início dos anos 2010 mesmo, mas ao mesmo tempo, é perfeito para a atualidade.

    Logo no início, a faixa “Nova Holanda” me lembra vagamente um instrumental acelerado que sempre toca nos ads de jogo de tigrinho quando uso a versão grátis de alguns aplicativos. O que definiria melhor o Brasil de 2026 do que isso?

    OBS.: Resenha feita a partir de comentários lidos até 01/03/2026, a maioria deles sendo alguns dos primeiros postados assim que o projeto foi upado no YouTube.

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  • 5 EPs que teriam entrado na lista da PopMatters de Melhores Álbuns Pop Brasileiros de 2025 se fossem álbuns

    5 EPs que teriam entrado na lista da PopMatters de Melhores Álbuns Pop Brasileiros de 2025 se fossem álbuns

    (Título confiante pois quem escreveu esse post é a mesma pessoa que faz a lista da PopMatters, kkkkkkkkkk)

    Um dos momentos que mais gosto todo ano é fazer a lista de melhores álbuns pop brasileiros da PopMatters.

    Apesar de não ser tão conhecida no Brasil fora do nicho de fãs de Metacritic, a PopMatters é um veículo bastante respeitado no nicho de jornalismo independente, crítica musical e academia nos EUA. É também um dos veículos onde mais me realizei como escritora, pois sempre tive muitas oportunidades por lá e as Editoras sempre deram um espaço muito legal para a música brasileira, inclusive música brasileira nichadíssima, como o brega paraense.

    Fiquei muito feliz quando, em 2021, propus a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros como parte do evento anual que são as listas de melhores do ano, e as editoras toparam. Desde então, só não fiz a lista em 2022.

    (Sim, existe o lado discutível de se tratar de um veículo estrangeiro querendo dar pitaco sobre o que é o melhor da música brasileira, maaaaaaaaaaaasssssss se quem faz a lista é uma brasileira, então temos legitimidade, não? O veículo é apenas o veículo. Nesse caso, desculpe-me McLuhan, mas o meio é só parte da mensagem. E, se bobear, o fato de eu como brasileira só achar esse espaço em um veículo estrangeiro talvez seja também uma mensagem.)

    Senti que 2025 não foi um super ano para o pop no Brasil. Tivemos grandes álbuns de rap, MPB, música alternativa etc.

    Mas houve sim algumas iniciativas muito grandiosas, como o Rock Doido da Gaby Amarantos (que eu não só resenhei muito fervorosamente, como também coloquei em #1 na lista anual), e alguns projetos menos ambiciosos que eu torci muito para desembocarem em álbuns, pois tenho certeza que entrariam na lista de álbuns.

    Mas não rolou. Muitos desses projetos permaneceram como EPs.

    Eu acho que há certo mérito em manter essa hierarquia entre álbuns e EPs sim, sobretudo conforme produtos musicais vão ficando cada vez mais orientados ao lançamento e consumo rápidos; então, nem me passou pela cabeça propor uma lista de EPs ou qualquer coisa do tipo.

    Mesmo assim, em 2025 ouvi alguns EPs de música pop (e ritmos e linguagens adjacentes) que são legais demais pra não serem destacados.

    Então vou escrever sobre eles aqui.

    Tenho certeza que, se esses EPs tivessem virado álbuns ainda em 2025, meu trabalho de fazer a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros da PopMatters teria sido muito mais difícil.

    Layse – Música Mundana

    Nossa, como eu queria que fosse álbum. Confesso que cheguei a mandar uma DM para a Layse dizendo que daria tempo de fazer isso acontecer e ela arrasar em listas anuais. (Não façam isso que eu fiz! Não estressem o artista. Fui desnecessária, mas é que Música Mundana realmente me empolgou.)

    Esse EP é genial! Brega-cult de uma finesse rara.

    É coerente, bem amarrado, tem uma produção gostosa que exalra brega e tecnobrega de uma forma interessantemente menos megalomaníaca e estridente. Não que o mérito do EP seja em “suavizar” o brega, mas sim, em fazê-lo de um jeito que a gente não está tão acostumado a ouvir, e que ainda assim soou muito legal, sobretudo porque o timbre e jeito de cantar da Layse são mais puxados pra MPB do que pro pop melódico. É uma voz mais Anna di Oliveira do que Viviane Batidão.

    Meu destaque musical vai para “Voando com o J. Som” mesmo; mas meu destaque pessoal vai para “Extrago”. É um brega-bolerinho genial que eu certamente usaria como bio do meu perfil no Orkut, se em vez de “cerveja” a letra falasse em “cachaça”, e se eu bebesse cachaça na época em que ainda existia Orkut. Amei muito a exaltação da mulher poeta que sente prazer na sua própria companhia e se sente vive deliciando a própria companhia na presença de terceiros.

    myha e ILLANES – Furduncim

    Difícil classificar o(s) gênero(s) musical(is) desse EP, mas super encaixo em pop pois acho que a linguagem como um todo é essa. Esse é um trabalho extremamente interessante e notável de uma dupla de produtores de Minas Gerais, que juntos, criaram fusões muito legais de brega, brega funk, forró, piseiro, pagodão, cantos e cantigas, dub, trance, dance/EDM etc.

    Que delícia! Isso é o futuro.

    Aliás, já falei bastante desse EP no artigo 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026, e até ilustrei o artigo com a capa desse EP, pois acho que ele reúne tanta coisa legal que eu sinto como elemento estrutural do pop brasileiro contemporâneo e ao mesmo tempo sintomático do que podemos esperar que cresça em um futuro próximo.

    O fato de o álbum ser aberto por uma parceria com o divertidíssimo e criativo Cabra Guaraná diz muito, diz tudo. Tem um quê de piada, de vinheta, de versão musical de linguagem de Internet às vezes. Por esse motivo eu inseri esse estilo musical no “gênero” colagem eletrobrega.

    Mas sei lá se essa expressão é suficiente, sei lá como definir o som desses caras, só sei que é algo em que devemos prestar atenção e que dá pra curtir horrores.

    (E essa capa ótima? Só ela já mereceria estar em uma lista.)

    DOUM – DOUM

    Não conhecia esse duo de Salvador, mas ando muito entusiasta do que venho chamando de “pop baiano” (e apesar das possíveis limitações do rótulo, eu vou continuar usando porque acho que o pop que tem sido feito por alguns artistas baiano tem peculiariades e um charme específico que merecem sim ser entendidos como um universo à parte), e nesse sentido, adorei o tipo de música que eles fazem.

    É quase MPB, mas pop demais pra isso, tem um suíngue próprio (levemente próximos ao hip hop/trap melódico) e elementos de axé.

    Mas quem ouvir “Querendo Bis” pode achar que DOUM é uma espécie de versão baiana d’Os Garotin.

    Gostem ou não de comparações, meu veredito é que os garotos têm potencial. O EP é uma delícia e cheio de estilo.

    Sofia Pitta – Molho

    É, mais pop baiano, vou fazer o quê?

    Essa cantora é muito boa. Com o crescimento da Rachel Reis e da Melly, acho que um bom espaço pode se abrir pra ela. Não que ela seja uma cópia, mas é certamente do mesmo grupinho. Não é ruim estar em tão boa companhia. Espero que ela saiba explorar isso da melhor forma (pelo que já vi nas redes sociais, ela tem uma forma de se comunicar bem divertida e autêntica).

    Enfim, é aquele som praiano e suingado que grita molho baiano (não à toa o EP é aberto por uma faixa chamada “Molho” mesmo), mas com uma pegada mais suavinha na maior parte do tempo, só com um tempero levemente mais rebolativo em “Vixe Maria.”

    Como a própria Sofia canta em “Tempo voa”: “Um amor com esse calor só se vê em Salvador”.

    Duda Beat – esse delírio vol. 1

    A Duda é complicada, não consigo não me interessar por qualquer coisa que ela lance (exceto, talvez, as “versões”, como a que ela lançou recentemente de “Messy” da Lola Young). Ela, a Pabllo e a Marina são meu sonho de princesa de fã de música pop nacional. É sempre muito difícil não incluir projetos da Duda em listas de melhores porque sempre se destacam entre os demais. São bem feitos, têm personalidade, têm proposta, tem execução legal, têm melodias e letras muito autênticas que não só caminham bem na linha tênue entre alternativo e mainstream: elas desfilam, rebolam, fazem performance sensual nessa linha.

    Esse EP ficou muito bom, traz uma Duda mais próxima àquele lounge pop psicodélico que fez o álbum de estreia dela render comparações com Kali Uchis. Não à toa, tem até collab com a banda de rock psicodélico Boogarins.

    Muita gente achou “Casa” pretensiosa. Eu não achei (mas certamente ainda teria amado se fosse, curto pretensões musicais se o artista pesquisa e sustenta). Eu amei. Amo a Duda experimental.

    O fato de o título do EP mencionar “vol. I” já me deixa feliz. Quero muito conferir o Vol. II e/ou o projeto completo.

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  • 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026

    13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026

    (Capa do EP Furduncim, de myha e ILLANES, lançado em 2025. Escolhi essa capa para ilustrar o artigo sobretudo porque há ma música nesse EP que sinto que sintetiza vários elementos que mapeio nesse artigo: forró, reggae, cantos e cantigas, eletrônico etc… É a “Trem de Dub”)

    Eu adoro previsões e mapeamento de tendências!

    Claro que nem sempre acerto (e claro que esse tipo de análise sempre é um pouco enviesada), mas gosto do exercício. Gosto de tentar captar sinais ainda difusos que parecem dialogar com algo maior e tentar entender quais ideias estão mais propícias a germinar em determinado momento. Já falei sobre isso no meu artigo Flora Matos e a desvantagem do piloto.

    Ao longo de 2025 e também nesses primeiros dias de 2026, mapeei alguns caminhos que me parecem especialmente promissores para a música brasileira nesse ano.

    Quis, especificamente, identificar gêneros “novos” ou emergentes — a ideia aqui não foi dizer que o funk, o pagode etc vão continuar em alta, mas sim, tentar identificar coisas razoavelmente novas que podem começar a crescer, mesmo que não atinjam seu ápice em 2026.

    Ao organizá-los, notei várias interseções e pontos em comum, tanto que tive dificuldade de separar alguns. O acordeão do batidão gaúcho e os sintetizadores do noia dance têm a ver com o tribal guarachero; o reggae e suas vertentes aparecem como pano de fundo ou beat principal tanto do arrocha reggae quanto do funkhall etc. Elementos como esses aparecem de formas diferentes nos gêneros que selecionei.

    Após o exercício de identificar, separar gêneros que compartilham elementos em comum, “nomear” , cheguei a 13 gêneros.

    O que vem abaixo não é um ranking nem uma profecia cravada: é só um retrato possível de um momento em formação.

    Seguem meus palpites sobre 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer em 2026, sem ordem particular de “relevância”, preferência, nem nada:

    1. Noia dance
    2. Arrocha reggae / Seresta reggae
    3. Manguebeat (revival contemporâneo) / tecnocangaço
    4. Funkhall / Funk dancehall
    5. Art pop / Art pop folk
    6. Brega latino
    7. Tribal guarachero (talvez com outro nome)
    8. Colagem eletrobrega
    9. Slow deconstructed funk (algum nome mais interessante e original deve surgir)
    10. Cumbia brasileira
    11. Cantos ancestrais e/ou tradicionais no pop
    12. Batidão gaúcho
    13. House mandinga / Afro-lounge brasileiro

    Vamos conhecer melhor cada um deles.

    Noia dance

    O que é:

    Música eletrônica que mistura dutch house, funk e até alguns elementos de moonbathon e outros gêneros urbanos de inspiração afrolatinas.

    Costuma ter uma melodia de buzininha ou um hook feito com algum tipo de sintetizador (Na primeira vez que escutei noia dance, a primeira coisa que essas melodias das buzininhas me trouxeram à mente foi o hookzinho de guitarra que o Pharell Williams colocou no instrumental do remix de Boys que ele fez para a Britney Spears).

    Onde surgiu:
    Criado nas periferias de Porto Velho, Rondônia, no Norte do Brasil, na década de ~2010, mas ganhando maior relevância por volta de 2024.

    Onde já está rolando:
    Forte em Porto Velho-RO e começando a ganhar outros Estados por meio do TikTok. Apesar de ainda estar muito abaixo do radar nacional, o noia dance já circula amplamente no ambiente digital.

    Além disso, segundo reportagem do G1 Rondônia, em 2025 o noia dance chegou a mais de 150 países, um dado que diz muito sobre como cenas periféricas conseguem hoje furar fronteiras sem necessariamente passar pelo centro do mercado brasileiro.

    Em quem prestar atenção:
    Zequinha Oliveira, Felipe Morais, Yuri Lorenzo e outros DJs do Canal Remix

    Quem pode levar adiante essa tendência para o resto do Brasil:
    Naturalmente, os DJs e produtores rondonienses — mas além deles, acredito que outros DJs de fora do Estado que estão em nichos parecidos têm potencial. O DJ Guuga, por exemplo, tocou noia dance quando se apresentou em Porto Velho em 2025 e aparentemente já está lançando coisas nesse estilo:

    Também aposto que o DJ Lorran sustentaria um noia dance.

    E claro, quando o ritmo começar a estourar a bolha, deve chegar ao Pedro Sampaio, haha

    Projeções abertas e comentários finais:

    Se 2025 foi marcado pelo destaque da música eletrônica periférica paraense (sobretudo o tecnobrega e o rock doido), 2026 pode ser o ano em que o Brasil passe a reconhecer também criações eletrônicas periféricas vindas de outros estados da região Norte.

    O noia dance é muito divertido e dialoga muito bem com vertentes mais lúdicas e despretensiosas do funk brasileiro — especialmente aquelas ligadas à zoeira, ao humor etc, como o passinho do romano do Rio de Janeiro; ou ao funk MTG de Minas Gerais. Acho que tem um potencial bem grande de fazer sucesso no Brasil todo.

    Essa é uma oportunidade excelente de Rondônia lançar para o Brasil uma tendência cultural pra chamar de sua — e uma chance para o Brasil finalmente conhecer algo da região Norte que não seja Pará nem Amazonas.

    Arrocha reggae / Seresta reggae

    O que é:

    Arrocha, seresta, brega etc com influências bem marcadas de reggae e cultura rasta no canto e nas letras, não só nas batidas.

    Onde surgiu:

    É razoável cravar a bandeira no interior da Bahia, mais especificamente em Feira de Santana, porque é de lá que vem o projeto Seresta do Rasta, protagonista do estilo.

    Aliás, a Bahia também é a terra onde nasceu o arrocha, então faz sentido.

    Onde já está rolando:
    No Nordeste, em zonas onde forró, arrocha, seresta e reggae convivem há décadas.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O próprio Seresta do Rasta, Nadson Ferinha, Cleiton Rasta, Bruxo

    Quem pode levar adiante essa tendência:

    Artistas que têm transitado bem na seresta e no arrocha-brega romântico, como Klessinha e Yasmim Sensação.

    Em um nível mais mainstream, achei que o ritmo tem a leveza e bom humor que artistas como o Nattan e Grelo sustentariam bem, e talvez o próprio João Gomes, que já está conversando um pouco com reggae.

    Projeções abertas e comentários finais:

    O arrocha reggae ou seresta reggae é uma mistura que conecta pontos extremos do Nordeste: o reggae que faz sucesso no + o arrocha da Bahia, mas que tem tudo pra ganhar o Brasil.

    Com certeza pode crescer ainda mais no no Pará, onde o reggae já é abraçado e o brega já é um estilo de vida: vai casar perfeitamente.

    Forró, piseiro e arrocha são vetores naturais dessa fusão, especialmente por sua força no interior do país; mas acredito que o gênero também tem um potencial “praiano” muito forte e pode extrapolar o litoral nordestino.

    Manguebeat (revival contemporâneo) / tecnocangaço

    O que é:

    Versões contemporâneas do manguebeat e até infusionadas com elementos de outras regiões agrésticas do manguebeat, como o tecnocangaço, termo criado pelo produtor Limaothesound.

    Onde surgiu:
    O manguebeat surgiu em Pernambuco, nos anos 1990, com Chico Science & Nação Zumbi. Mas nos últimos anos,

    Onde já está rolando:
    Pernambuco e Alagoas, mais como chamado simbólico do que como cena consolidada.

    Em 2025, surgiram lançamentos que retomam o espírito do manguebeat sob uma ótica contemporânea, misturando referências originais com pop e produção atual, como o álbum de estreia dos pernambucanos Barbarize, que reimagina o manguebeat à luz do funk, dance, reggaeton etc.

    Além disso, o alagoano Limaothesound criou a sua própria versão contemporânea da mistura do tropical com agreste: “tecnocangaço”.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O duo pernambucano Barbarize, o produtor alagoano Limaothesound, o coletivo tocantinense Masterholic.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Os artistas acima, e além disso, o próprio Nação Zumbi, que tem promovido ativamente o aniversário de 30 anos do álbum Da Lama ao Caos, inclusive com João Gomes, que tem incorporado homenagens a Chico Science na medida em que se consolida como novo ídolo popular do Estado do Pernambuco.

    Projeções abertas e comentários finais:

    O manguebeat pode ressurgir não apenas como um resgate nostálgico, mas como uma nova cara da música nordestina (e adjacentes — já que citei o Tocantins) que mantém vivo seu passado de disrupção musical e inovação vinda do sertão, ao mesmo tempo em que dá a tudo isso uma nova cara.

    Funkhall / Funk dancehall

    O que é:

    Autoexplicativo: é a fusão do nosso funk brasileiro com batidas de dancehall (gênero jamaicano).

    Onde surgiu:
    Em São Paulo, mas como fusão digital e transnacional também. Pioneirizado pelo Pump Killa, que é um dos principais nomes do dancehall no Brasil e se define hoje como “Soldado do Funkhall.

    A fusão de funk & dancehall enquanto um gênero só ganhou maior destaque agora no ano de 2025, sobretudo a partir do lançamento da mixtape Funkhall Vol. 1, da Rua B Records.

    Onde já está rolando:
    Entre os principais ouvintes da Rua B Records estão São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba.

    Mas por meio do YouTube, Spotify, TikTok, o funkhall já até extrapolou as fronteiras brasileiras. Alguns estrangeiros o chamam de brazilian dancehall funk.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência
    Yuri Redicopa, DJ Seth, e claro, Pump Killa

    Quem pode levar adiante essa tendência
    Artistas de pop e funk que transitam bem entre esses territórios do funk brasileiro e gêneros de origem jamaicana.

    Em um âmbito mais mainstream, apostaria no Mc Cabelinho, que inclusive já está abertamente se dedicando ao reggae, com o lançamento de “Rastafari” em 2025.

    O funkhall também tem muito potencial no pop (pense em algo do tipo “Pon de Replay” da Rihanna mas mais puxado pro funk), por meio de artistas como a POCAH (que inclusive aparece no EP Funkhall Vol. 1, na faixa “Lindo com dinheiro”) e a IZA, que sempre foi influenciada pelo reggae e aparentemente o terá como inspiração principal em seu próximo álbum.

    Projeções abertas e comentários finais:

    Acho que podemos ver coisas muito interessantes vindas de produtores de funk atentos às tendências globais e artistas que já dialogam com reggae e dancehall.

    Mais uma vez, o reggae aparece como matriz que se infiltra e gera novos híbridos.

    Art pop / Art pop folk

    O que é:

    Estética musical da música pop com uma ambição de experimentação artística.

    Onde surgiu:
    Artistas como a Duda Beat já têm trabalhado essa proposta desde sempre, com destaque para o álbum Te Amo Lá Fora (2022). Em 2025, álbuns internacionais como Lux (da espanhola Rosalía) e Elíade (da chilena Javiera Electra) podem ser referências.

    Onde já está rolando:
    No Brasil, ainda aparece mais como intenção estética do que como “gênero” ou cena consolidada.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência

    • Duda Beat (já é o principal nome do gênero/movimento, na minha opinião);
    • Gaby Amarantos, Urias (o álbum Purakê de 2021 da Gaby, e o álbum Carranca de 2025 da Urias, já são um pouco disso);
    • Liniker (está n’um momento de consolidação como estrela pop e já se provou como excelente compositora; não me espantaria se quisesse sofisticar também as suas produções cada vez mais ou torná-las mais experimentais);
    • Julia Mestre, Ana Frango Elétrico (embora sejam um pouco mais indie, já trabalham com essa proposta também, e podem crescer).

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Artistas pop midstream e mainstream interessados em sofisticar arranjos, melodias e conceitos visuais, aproximando a música pop de uma lógica mais contemplativa, quase museológica.

    Sobretudo, e com certeza, a Duda Beat.

    Projeções abertas e comentários finais:

    Essa é uma aposta ainda preliminar, mas coerente com o momento de refinamento pelo qual passa o pop brasileiro. Nos últimos anos, tivemos álbuns pop brasileiros bastante ambiciosos e glamurosos; e é natural esperar que artistas que lançaram esses álbuns queiram “subir cada vez mais o nível”.

    Brega latino

    O que é:

    Híbrido que explora conexões entre ritmos brasileiros de “sofrência” e dança a dois (como o brega, arrocha, sertanejo, piseiro) e ritmos latinoamericanos de estética similar (como bachata, corrido, reggaeton), inclusive podendo conter letras em espanhol.

    Onde surgiu:

    Sobretudo no Norte, Nordeste e Centro Oeste, os gêneros locais sempre se fusionaram com outros ritmos de países sulamericanos, caribenhos e mexicanos:

    • o Pará e o Amapá ouvem cumbia, bachata, salsa, merengue;
    • o Maranhão ouve reggae;
    • a axé music bebe da rumba;
    • o arrocha baiano se assemelha à bachata;
    • o sertanejo abraçou a bachata e tem raízes na guarania e na música urbana mexicana.

    De 2022 pra cá, sinto que esse intercâmbio Brasil+outros países latinos está se intensificando, somado a uma narrativa de que o Brasil está se redescobrindo como parte da América Latina. Isso está se refletindo na música.

    Onde já está rolando:
    Nas regiões citadas acima: no arrocha, no brega contemporâneo, em versões latinas de músicas brasileiras como as que têm feito as venezuelanas Estefany e Gabriely.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência
    Di Paulla El Nuevo (tocantinense que faz uma mistura muito interessante e bem humorada de piseiro, salsa, reggaeton, brega); Lucas LM (brasileiro que canta em espanhol); as venezuelanas Estefany e Gabriely (que fazem versões interessantes de músicas sertanejas e bregas brasileiras em espanhol, mas também cantam originais em português); MC Papo e Dedé Santaklaus (que em 2025 lançaram um álbum que se propõe a reunir o funk mineiro com os corridos mexicanos e o sertanejo brasileiro, Modão Malado).

    Interessante acompanhar como isso pode se manifestar também no pagode e outros gêneros menos obviamente conectados com a música dos nossos hermanos.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    No pop: Pablo Vittar, Anitta, Marina Sena, Leoa, que já bebem muito de fontes latinas

    No brega paraense/tecnobrega: praticamente todo e qualquer artista, né? Pois “brega” e “latino” já são parte estrutural da música feita lá.

    No pagode: Menos é Mais, que recentemente lançou versões de sucesso de músicas latinas como “UN X100TO” (do mexicano Grupo Frontera com participação de Bad Bunny) e o clássico “Corazón partío”.

    No axé/pagodão baiano: Ivete Sangalo, Psirico, Tony Salles (que inclusive lançou muito recentemente uma faixa que interpola o clássico cubano “Guantanamera”)

    No sertanejo: Ana Castela (que já faz uma ponte interessante, apesar de esporádica, com o reggaeton e a guarania paraguaia), Zé Felipe (que vai lançar uma música com a colombiana Karol G em breve), Gusttavo Lima (que, de certa forma, já faz isso)… mas honestamente, qualquer outro artista sertanejo que fizer bem feito também tem potencial. O sertanejo é um dos ritmos que mais efetivamente absorve e amplifica esse tipo de fusão (o que foi provado com a expansão da bachata por meio do Gusttavo Lima), e ele guarda uma conexão e ponte muito orgânica com alguns desses gêneros, como a música mexicana, por exemplo. (Fico triste pensando no quanto a Marília Mendonça poderia ter sido gigante no México)

    No forró/arrocha/piseiro: Mari Fernandez, Felipe Amorim, Natanzinho Lima, Henry Freitas. Essa mistura vai combinar muito. Um exemplo que gostei muito foi a música abaixo (e que inclusive está entre as 50 mais viralizadas em Portugal no momento em que escrevo esse artigo, em 11/01/26):

    Projeções abertas e comentários finais:

    Aqui eu vou ter que me conter pra não escrever demais. Sou uma grande entusiasta das misturas de gêneros latinos de língua espanhola com os gêneros nascidos no Brasil, sobretudo os gêneros populares do Norte e Nordeste. Inclusive, em 2023, escrevi um artigo chamado 9 ideas to break Spanish-language music in Brazil, e uma dessas 9 ideias era explorar essa conexão entre gêneros desses locais.

    Acho que está começando a rolar.

    Também não posso deixar de analisar essa tendência sob o aspecto sociopolítico também.

    De um lado, a fusão de gêneros musicais brasileiros com gêneros latinos de países de língua espanhola tem um viés muito impulsionado por artistas e fãs de música associados a uma discurso mais progressista sobre latinidade, irmandade latinoamericana e decolonialidade.

    Mas o potencial da fusão é tão grande que provavelmente pode ser impulsionada até mesmo por artistas e fãs que não compartilham desse discurso.

    Como eu disse acima, o sertanejo, que não é exatamente um aliado progressista, tem um poder enorme de furar bolhas e já tem um histórico de intercâmbio com gêneros latinos.

    Tribal guarachero (talvez até mesmo com outro nome)

    O que é:

    Música eletrônica com elementos de gêneros musicais locais de origem indígena e afro.

    Onde surgiu:
    Na América Latina, a partir da mistura de guaracha, cumbia e música eletrônica, tendo como ápice músicas como “Pepas” do Farruko.

    Onde já está rolando:
    Fora do Brasil, especialmente em cenas eletrônicas latinas; e gradualmente crescendo na cena eletrônica do Brasil também.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    João Lágrima de Ouro, mary d

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Produtores e DJs brasileiros que saibam incorporar instrumentos e referências locais e criando uma versão genuinamente brasileira dessa estética.

    Acredito que há potencial de muitos hits grudentos do tipo “Stereo Love” se soubermos fazer isso de um jeito bem brasileiro.

    No tribal guarachero feito na Colômbia, por exemplo, o acordeão (que também é típico do europop, dance romeno etc) da cumbia fez bastante sentido.

    Será que no Brasil faríamos algo com o acordeão do forró, por exemplo? Ou talvez algo no estilo do “Movimento da Sanfoninha” da Anitta mas mais puxado pro dance music? Ou talvez as metaleiras dos paredões de forró, piseiro, quebradeira?

    Projeções abertas e comentários finais:

    Certa vez, no Trends Brasil Conference 2023, ouvi o compositor Pablo Bispo dizer uma coisa que me marcou: “o Brasil sempre vai passar a sua régua (sobre tendências e estilos de fora)”. Quando o Brasil absorve algo de fora, faz do seu próprio jeito. Estou curiosa para ver como o tribal guarachero pode passar por esse processo por aqui.

    Embora alguns DJs brasileiros já trabalhem usando essa expressão, acredito que novos nomes podem surgir para o tribal guarachero no Brasil.

    Colagem eletrobrega

    O que é:

    Mistura de brega, tecnobrega, forró, piseiro, pagodão etc com batidas de dance music, house music e letras e samples puxadas para a comicidade e malandragem.

    Seria um eletrobrega mais debochado, com influências de cultura de Internet, uma estética desconstruída feita de colagens (vinhetas, samples, ou simples inserções de hooks que soam “aleatórios”), com pegada bem-humorada das letras e da proposta de fazer um certo tipo de piada ou deboche.

    Onde surgiu:
    O eletrobrega é presente há anos no Pará e no Nordeste, em versões híbridas, consolidados por nomes como a Banda Uó, Gang do Eletro etc.

    Mas a vertente que prevejo agora é menos melodicizada, com menos estrutura de composiçã pop, com uma proposta mais recortada, com colagens, vocais não cantados.

    Onde já está rolando:
    Em cenas de festas com proposta brega, brasilidade profunda e bem humorada, como a festa Baile da Cabra e a festa Furduncim.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O DJ Cabra Guaraná e o duo myha & ILLANES.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Artistas pop com identidade regional forte e gêneros populares dispostos a absorver novas influências.

    Certamente, Pabllo Vittar, Viviane Batidão e Gaby Amarantos são bons nomes; elas já exploram esses ritmos e têm lançado letras cada vez mais bem humoradas, irreverentes e debochadas que casam com essa proposta.

    Projeções abertas e comentários finais:

    O eletrobrega ao qual me refiro aqui é aquele tipo que parece ter nascido como mero mashup de Internet feito pra causar riso, mas acaba virando música legal de verdade.

    As produções do DJ Cabra Guaraná são exatamente isso, mas ele está ficando cada vez melhor.

    No EP Furduncim (2025) dos produtores myha e ILLANES, eu vejo uma proposta musical menos voltada para o humor, mas que eu também não encaixaria em outros gêneros mapeados aqui. Inclusive, “Trem de dub” sintetiza várias das tendências que mapeio nesse artigo: forró com reggae, cantos e cantigas, acordeão de guarachero etc… Mas há sim um certo humor, deboche, nas letras das faixas que têm vocais.

    De uma forma geral, esse eletrobrega explora a raiz eletrônica de muitos gêneros populares (como o brega, arrocha etc tocados em teclado) mas puxam suavemente para a dance music de pista.

    O risco desse gênero é não ser tão evergreen; as vinhetas e colagens das faixas, que conversam muito com cultura de Internet, podem não se sustentar bem no médio e longo prazo. Mas no presente, são um retrato muito legal de um Brasil que não relega esse tipo de música à categoria de guilty pleasure.

    Slow deconstructed funk (algum nome mais interessante e original deve surgir)

    O que é:

    Funk mineiro e/ou funk com batidas desmontadas em um bpm mais lento e vocais emo. Algo como a faixa “Baile do Bruxo”, do EP financiado por Ronaldinho Gaúcho, mas talvez mais lento.

    Onde surgiu:
    Não é um gênero consolidado ainda, é muito mais um caminho que visualizo que pode ser traçado e que tem origens no funk mineiro, funk MTG e no Brazilian phonk.

    Onde já está rolando:
    Minas Gerais e fora do Brasil também… Curiosamente, o DJ e produtor da faixa que linkei acima, 4kbatu, é turco.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    DJ WS da Igrejinha; DJs e MCs mineiros e do funk underground de São Paulo.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Acho que o Mc Livinho se daria super bem, tem os vocais adequados pra isso.

    Projeções abertas e comentários finais:

    Sendo bem sincera, o universo do funk é tão grande que às vezes me perco; são tantas variantes, subgêneros, nichos que é difícil acompanhar.

    Mas para essa possível tendência, em especial, estou apostando nas versões mais lentas desse estilo de funk levemente melódico e sombrio que se popularizou em Minas Gerais, e que tenho ouvido se propagar em versões lentas:

    Cumbia brasileira

    O que é:

    Não há muito o que dizer. É a cumbia nascida na Colômbia, mas feita com o tempero brasileiro.

    Onde surgiu:
    Já se faz cumbia no Brasil há algum tempo, sobretudo no Pará. Também se destaca a banda pernambucana Academia da Berlinda, cuja “Cumbia da Praia” (2011) é um dos exemplares brasileiros mais populares do gênero; e o BaianaSystem, que mistura a cumbia com guitarra baiana, rock e outros gêneros.

    Onde já está rolando:
    Em cenas regionais no Norte e Nordeste (com foco no Pará, Bahia e Pernambuco) e em festas e eventos do nicho de cumbia que têm crescido em São Paulo e em todo o Brasil.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O Cheiro do Queijo, Leoa, Felipe Cordeiro, Saulo Duarte, Felix Robatto, Mari Jasca, Amanda Magalhães, Samuca e a Selva, Moiacumbia.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Obviamente, BaianaSystem e artistas paraenses que já têm ou estão alcançando renome nacional, como Gaby Amarantos e Joelma.

    Para um vetor mais pop, artistas mais abertos a latinidades, como a Marina Sena e Rachel Reis.

    E eu não me espantaria de ouvir cumbia no sertanejo também (Marilia Mendonça já regravou “Cumbia do amor”…) ou na fusão com MPB por meio de artistas como o Seu Jorge (cujo último álbum, Baile à Baiana, bebeu bastante dessas latinidades dançantes como o merengue e a rumba) ou Luedji Luna (que flertou com esse estilo em “Banho de folhas”).

    Projeções abertas e comentários finais:

    Em 2024 e 2025, países sulamericanos como Colômbia e Peru se agarraram à cumbia quase que como um manifesto tanto de resgate quanto de propagação.

    Alguns nichos até espalharam a frase “cumbia is the new punk”, puxados pela música de mesmo título, da banda Son Rompe Pera.

    Outro grande marco desse novo mini boom da cumbia foi a inclusão dos pioneiros da cumbia amazônica, os peruanos Los Mirlos, no festival Coachella em 2025, que impulsionou a carreira da banda entre novas gerações e gerou colaborações com Adidas e Johnnie Walker.

    Com essa cena crescendo em âmbito macro, vi algo similar ocorrendo no Brasil: mais pessoas se interessando por cumbia, mais DJs e festas de cumbia surgindo (destaco a festa Cumbieros, em Curitiba), e artistas incluindo isso no seu som também.

    Acho que a tendência é crescer, com cada vez mais nuances de brasilidade — o que, entre artistas baianos, eu já vejo por meio da agregação da guitarra baiana. Estou curiosa para ver o que outros artistas vão incorporar também.

    Cantos ancestrais e/ou tradicionais no pop

    O que é:

    Melodias dos cantos e cantigas oriundos de tradições e/ou religiões populares do Brasil sendo usados, como sample ou parte estrutural da composição, em músicas de artistas pop.

    São cantos agrícolas, cantos religiosos (como pontos de umbanda), cantos de aboio, cantos indígenas, cantos de boiadeiro etc… Ou seja: cantigas que vêm do sertão, da fazenda, da floresta, do terreiro, que representam o Brasil profundo, e que não têm necessariamente uma destinação performática específica ou uma autoria rastreável, e que são marcados por vocais mais retos, não melismáticos.

    Onde surgiu:
    Eu traçaria essa tendência de volta até o álbum de 2022 da Duda Beat, Te amo lá fora, que é aberto por uma faixa que segue essa proposta: “Tu e eu”, influenciada por coco e que conta inclusive com Cila do Coco como colaboradora.

    Onde já está rolando:
    Em 2025, destaco o álbum do pernambucano Gomes e a faixa “Ai Ai, meu Deus”, em colaboração com As Ceguinhas de Campina Grande.

    De certa forma, dá pra destacar também o remix “Copo de Veneno”, da DJ Meury, que usa vocais de um ponto de umbanda para fazer uma produção de tecnobrega. A ideia é essa mesmo: usar esses vocais mais retos, não essencialmente cancioneiros, em produções pop.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O pernambucano Gomes, DJs e artistas experimentais atentos ao folclore e à ancestralidade.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Artistas pop mainstream ou alternativos que já dialogam com tradição popular, como Duda Beat, Juliette, Kaê Guajajara, Gaby Amarantos, Daniela Mercury.

    Projeções abertas e comentários finais:

    Esse movimento dialoga com uma tendência global de resgate folclórico reinterpretado à luz do presente.

    Gostaria de destacar esse comentário da artista Irene Atienza que vi em um post no perfil do Instagram @f.eio, justamente em um post que dizia que “a próxima tendência da música pop brasileira é o nacionalismo”:

    “É uma tendência global, na Espanha por exemplo tem um movimento muito forte de folclore regional trazido aos dias de hoje, muitos grupos: o galego Baiuca, o asturiano Rogrigo Cuevas, os cántabros Casapalma, muitos grupos em Castilla e muitos na Andalucía e por todo o território, fazendo música contemporânea com seus próprios folclores. É muito interessante e no caso do Brasil vai ser incrível, com essa riqueza cultural inmensa!” – @ireneatienza_musica (sic)

    Concordo que há uma tendência de resgate do tradicional e que isso pode influenciar cada vez mais nossa música pop.

    (Curiosamente, o primeiro programa do Globo Rural exibido nesse ano de 2026 foi justamente sobre cantos de trabalho e cantorias agrícola do interior do Brasil; e quando assisti, pareceu uma validação dessa tendência que estava intuindo.)

    Batidão gaúcho

    O que é:

    Mistura de música tradicional gaúcha com dance music e diversas vertentes da música eletrônica.

    Esse comentário aqui do YouTube no vídeo linkado acima trouxe uma definição engraçadíssima: “Uma mistura de Gaúcho da fronteira com Genival Lacerda no ritmo DJ Malboro

    Onde surgiu:
    Rio Grande do Sul, em uma tentativa de fazer música gaúcha que chegasse também a jovens, crianças, e com uma pegada bem humorada.

    Onde já está rolando:
    Em todos os Estados da região Sul do Brasil, e também em São Paulo.

    A música “Mega Répi do Guasca”, do Xirú Missioneiro, viralizou no TikTok e no Youtube (onde acumulou mais de 3 milhões de visualizações em 1 mês); já extrapolou as fronteiras do Rio Grande do Sul, chegando inclusive a Portugal.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O próprio Xirú Missioneiro.

    Quem pode levar adiante essa tendência:

    Duplas sertanejas do Rio Grande do Sul, DJs e artistas gaúchos.

    Projeções abertas e comentários finais:
    Esse gênero me parece o que teria ocorrido se o “Ai se eu te pego” de Michel Teló tivesse encontrado exatamente o tipo de EDM que fazia sucesso na época em que ela estourou.

    Acho que tem um potencial interessante para a região Sul, toda a região comum da cultura pampa do Cone Sul, e até algumas interseções com o vaneirão e sertanejo.

    (Interessantemente, quando ouvi o “Mega Répi do Guasca” me lembrei um pouco de “Descer pra BC”, acho que são estilos que conversam.)

    House mandinga / Afro-lounge brasileiro

    O que é:

    Diálogo entre ritmos de origem africana, música eletrônica minimalista e estética lounge. Talvez uma versão mais chill daquilo que muita gente já chama de “afrobeat brasileiro”.

    Onde surgiu:
    Tenho sentido isso mais forte agora na década de 2020, com o surgimento de artistas como a Melly, Yan Cloud e Rachel Reis, que transitam entre o R&B e o afrobeat, pagodão baiano, ijexá etc.

    Onde já está rolando:
    Bahia e Rio de Janeiro, principalmente.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O grupo Mandinga Beat.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Aposto muito na Flora Matos como possível exploradora desse território. Ela já é bastante ligada em afrobeat, amapiano, pop e R&B afro, e faz conexões bastante interessante desses gêneros com gêneros baianos e percussão afro.

    Acho que Deepkapz também tirariam de letra.

    Projeções abertas e comentários finais:

    Esse estilo mais chill lounge, lentinho, suave, como pano de fundo para estilos musicais bastante característicos de uma região já é uma tendência mundial.

    Vejo isso no afrobeat (músicas calminhas como “Dream Girl” e “Slow Down”, que foram sucesso mundial) e também no hip dut (gênero indonésio que mescla o bedroom trap com o dandgut, gênero tradicional do país). Em menor escala, sinto que isso também está acontecendo ou em vias de acontecer com o gênero plena, que teve um boom em 2025 por causa do álbum DtMF do Bad Bunny e das músicas do colombiano Béele.

    Com certeza, a “versão brasileira” disso teria um pezinho no terreiro, nos elementos musicais das religiões de matriz africana, e nas percussões de gêneros da negritude, como o axé, o pagodão etc. Pensei em algo como uma versão ainda mais lenta e minimalista de “Praia do Futuro” do BaianaSystem com Seu Jorge.

    Bônus: 2 gêneros que *não* são emergentes mas que podem ter um boom em 2026

    Reggae


    Tudo indica que pode viver um novo pico de relevância em 2026, seja como gênero principal, seja como matriz de fusões (como de fato é em vários dos gêneros mapeados que identifiquei acima).

    Alguns sinais apontam para isso:

    • Em 2025, o reggae voltou a ganhar força em lineups de festivais de música e no pop mainstream, impulsionado tanto por artistas consagrados do gênero (como Edson Gomes e Núbia) quanto por cantores populares que passaram a flertar com sua batida;
    • Inclusive no mercado latino fora do Brasil, o reggae tem sido motor de alguns hits: enquanto escrevo esse artigo, a música “La Villa” (colaboração de Kapo e Ryan Castro que enfatiza o reggae de REGGAEton) está em #1 no Spotify da Colômbia;
    • No Brasil, artistas como IZA e Mc Cabelinho lançaram projetos de reggae em 2025. A IZA, em especial, continua investindo no gênero e tudo indica que seu próximo álbum terá esse foco;
    • Segundo o Spotify Brasil, o Brasil foi o segundo país do mundo que mais ouviu reggae em 2025, somando mais de 5,5 bilhões de streams por aqui; com um aumento especial entre junho a novembro, de 41%,;
    • Esse aumento cria terreno fértil não só para o próprio gênero em vertentes mais puras brilhar ainda mais; mas também para se mesclar e informar outras variantes. Aliás, como meu amigo Julio Aguiar bem humoradamente me lembrou (de uma forma despretensiosa, mas que eu enxergo como pedacinho de sinal), a colaboração entre IZA e João Gomes no show da virada 2025/2026 em Copacabana já sinaliza um possível caminho que vem sendo confirmado por outros lançamentos e movimentos: a união do reggae com o forró, piseiro etc. Não à toa, mapeei o seresta reggae/arrocha reggae como tendência.
    • Um outro sinalizador que vejo como potencializador do crescimento do reggae é o potencial turístico de São Luís, capital do Maranhão onde o reggae é um dos gêneros reis. Vejo um movimento interessante de conhecimento e interesse nessa cidade, e não me espantaria se em breve ela tivesse um mini hype similar ao que Belém do Pará vem tendo.

    Dance / EDM melódico

    “2026 é o novo 2016”, muita gente tem dito. É engraçado ouvir esse tipo de coisa: há algum tempo, o EDM e dance music de 2010-2016 eram certo motivo de piada, considerado “farofa”, cafona etc. Hoje, existe uma certa nostalgia por esse tipo de música.

    Acredito que o momento é propício para um revival desse tipo de música eletrônica com estrutura de canção pop, algo no estilo David Guetta mas com uma pegada brasileira.

    De certa forma, alguns dos gêneros que mapeei acima já respondem a isso (tribal guarachero, eletrobrega etc).

    E de certa forma, o Pedro Sampaio já faz algo assim também. Mas também acredito que a “volta” desse dance e EDM com canção pop seria algo mais puxado para o Alok do que para o funk.

    Ou talvez seja um dance com conversas mais orgânicas com outros gêneros brasileiros que já são mais próximos dele, como o tecnomelody. Acredito que a cantora paraense Carol Lyne possa representar algo assim.

    Já tivemos divas pop que tentaram emplacar esse tipo de EDM pop por aqui e não deu tãoooooo certo, mas acho que com um toque mais particular, mais abrasileirado de uma forma natural, como as músicas da Carol Lyme, pode vingar.

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  • Qual é o som do Tocantins?

    Qual é o som do Tocantins?

    Apresentação do projeto Vereda no Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnaval do Tocantins. Créditos da imagem: @cyberj0n


    Costumo dizer que ser tocantinense é ser oficialmente nortista, com origem centro-oestina e comumente confundido com nordestino.

    Pra falar a verdade, o Tocantins é um pouco de tudo isso aí mesmo. Talvez, justamente por isso, nunca seja entendido por inteiro – isso quando é lembrado! Dizem que o Acre é o Estado mais misterioso do Brasil, mas ele pelo menos é lembrado por ser esquecido; e quem se lembra, costuma saber que ele fica no Norte do Brasil. Já o Tocantins…

    … é Estado pequeno, jovem, ainda tentando aprender a se narrar. Centrado no mapa do Brasil, e ainda assim, parece passar despercebido.

    Vou passar a falar na primeira e na terceira pessoa do plural.

    É difícil descrever nossa cultura porque ela não se encaixa confortavelmente no ideário de nenhum dos muitos Estados com que faz fronteira (Goiás, Mato Grosso, Pará, Bahia, Maranhão, Piauí).

    Não somos meros reprodutores da cultura goiana, Estado de onde veio nosso terreno.

    Também não temos muito a ver com os demais Estados da região Norte – na verdade, somos os esquisitões da região; nossa cultura, nossas paisagens e até nosso sotaque não se parecem com os do Pará, do Amazonas, do Amapá, de Rondônia, de Roraima ou do Acre.

    Somos sertanejos, indígenas, quilombolas. Somos herdeiros do cerrado, mas com cuscuz no prato; e entoamos gírias e expressões que carregam o humor e a prosódia paraense, maranhense, baiana.

    Cena capturada no Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnaval do Tocantins. Créditos da imagem: @cyberj0n

    Gosto de como a nossa identidade vem sendo descrita por produtores culturais da nova geração: cerrado-amazônica. A Amazônia é, sim, parte da nossa paisagem (sobretudo no norte do Tocantins) e nossa posição geopolítica nos coloca nesse contexto.

    Mas a nossa relação com a identidade nortista é complicada.

    Os belíssimos rios do Tocantins são de um azul e verde bastante diferentes da paleta amazônica. Por aqui, não há aquele ventinho úmido nem aquela atmosfera ribeirinha que combina tão bem com as levadas de guitarra do brega saudade. Aqui, há poeira e secura em vez da umidade amazônica; e a tropicalidade é de um calor pesado, quase punitivo. O sol que entra pela janela parece disposto a quebrar as barreiras da sua alma e se alojar dentro de você. Os ipês parecem florescer apesar em vez de por causa. Os pés de manga fornecem sombra que não é exatamente fresca, mas é sombra.

    Fico pensando em como tudo isso pode se refletir na arte tocantinense.

    Para mim, é quase inevitável a relação entre o nosso clima, a nossa paisagem e a nossa arte.

    Aliás, qual é a nossa arte? Qual é o som do Tocantins? Quem sabe que tipo de música é feita no Tocantins?

    Na verdade, talvez nem o próprio Brasil saiba o quanto o Brasil ouve o Tocantins. Do Tocantins vêm os artistas mais ouvidos do país: Henrique & Juliano. Eles colecionam bilhões de streams e há muitos anos lideram paradas de sucesso. Em 2025, foram os artistas mais ouvidos no Spotify Brasil.

    Do Tocantins também vem o duo pop Anavitória, que no início da carreira se descreviam como “pop rural”, uma definição que combina com essa melancolia ensolarada, com esse romantismo de estrada quente e horizontes largos do interior daqui.

    No Tocantins, naturalmente, também há várias outras duplas e sertanejas. (Quando fui digitar essa frase, sem querer escrevi “certanejas”. O que parecia só um erro ortográfico tosco acabou virando uma pista: esse sertanejo que nasce no cerrado tem mesmo algo de certão, de chão rachado, de sobrevivência, do C que crava, não do S sinuoso e leve.)

    Hoje, o Tocantins já tem sua própria cena pop também, com artistas como a Duda Ruas.


    Mas o Tocantins “raiz”, os gêneros genuinamente tocantinenses (como a suça, ou súcia/sussa/tão diversamente grafada quanto unicamente nossa), o Tocantins negro, o Tocantins quilombola, por exemplo, talvez só tenha chegado ao radar nacional agora, para quem presta atenção em nomes como o Paulo Vieira, que falou de tudo isso ao participar do podcast do Mano Brown e da Semayat Oliveira, e que incluiu a canção “Nóis é jeca mais é joia“, de Juraildes da Cruz (gravada por Genésio Tocantins), na série do Globoplay Pablo e Luisão.

    Essa música é genial. Seu arranjo traz essa mistura caipira e forrozesca que situam bem o Tocantins como coração-eixo do cerrado e agreste. Já a letra caçoa de quem caçoa da suposta baixa intelectualidade do indivíduo do interior:

    “Andam falando que nóis é caipora
    Que nóis tem que aprender inglês
    Que nóis tem que fazê sucesso fora
    Deixe de bestagem, nóis nem sabe o português

    […] Se farinha fosse americana

    [se] mandioca [fosse] importada,

    banquete de bacana era farinhada”.

    O eu-lírico de “Nóis é jeca mais é joia” se descreve como “caipira pop”.

    É isso: o tradicional pode ser pop.

    Aliás, “o tradicional é pop” foi um dos slogans do Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnaval do Tocantins, evento realizado pelo coletivo de produção cultural Amo Meu Bloco.

    Crédito da foto: Ana Clara Ribeiro

    Foi pensando em tudo isso que escrevi acima que compareci a esse festival, no dia 6 de dezembro de 2025, no Espaço Cultural, em Palmas, capital do Tocantins.

    A programação contava com 12 atrações, entre grupos de suça, capoeira e bandas. Embora eu não tenha conseguido assistir a todas as apresentações, saí de lá com uma proposta interessante de arquétipo para o som do Tocantins.

    O som do Tocantins tem um quê agresteiro. É cru. Tem cantos retos, pouca firula, muito corpo, muito pé no chão. Tem muitos batuques e cordas que parecem mais talhadas do que lapidadas, como se o som viesse direto da madeira, da terra, do couro esticado no limite.

    Pode não parecer que faça sentido nessa descrição escrita, mas o som do Tocantins me lembra muito mais o Mangue Beat do que o caipiresco clássico do Centro-Oeste ou a melodicidade rebolante da lambada e do brega do Pará. Existe algo de experimental, de rústico.

    Não é à toa que um dos momentos mais interessantes da noite foi a colaboração da bateria Boto Fé Nesse Carna com o coletivo Masterholic, à base de maracatu.

    Bateria Boto Fé nesse Carna e Masterholic (ao fundo) em uma colaboração envolvendo maracatu, rap e bateria carnavalesca. Créditos da imagem: @cyberj0n

    Outra coisa muito interessante que aconteceu no Festival foi quando a bateria Boto Fé Nesse Carna tocou aquilo que chamou de “suçamba”: a fusão da suça com samba. Combinou muito. Provou que tudo dialoga: o genuíno e ancestral do Tocantins negro com o genuíno e ancestral do Brasil negro. Nesse momento, ficou muito evidente que o Tocantins carrega algo de profundamente próprio, mesmo que ainda em processo de reconhecimento; e que o samba, já consagrado como ouro do Brasil, nasce da mesma lógica de chão, corpo, sol, matriz africana; tem a mesma musicalidade de acordes pouco adocicados mas musicados e letrados com alegria e sabedoria. Quando a suça e o samba se encontraram, houve reconhecimento e uma harmonia de naturalidade quase óbvia.

    Já o coletivo Masterholic fez uma apresentação que misturava hip hop com reggae, mas com um espírito meio punk rock. Não era um rap feito pra pular de mão erguida, era um rap de quem está fincado no chão, com o pé na terra rachada, mas vivo o bastante pra insistir em brotar e romper a terra seca. Eles se descrevem como “do cerrado” e têm uma atitude bem lama ao caos. Não os conhecia. Gostei muito do som e da proposta. Quero vê-los indo longe.

    Por outro lado, apesar da relação ambígua com a identidade nortista e da baixa proximidade cultural com o vizinho Pará, a banda Moiacumbia, já um dos expoentes da música alternativa tocantinense, traz esse tempero latino-amazônico que funciona, que encaixa, que amplia o horizonte sem apagar o chão. A música deles é uma delícia e insere o Tocantins no circuito de uma cena que eu acredito que vai crescer muito nos próximos anos: a cumbia brasileira.

    No Festival, também teve forró, gênero que sempre caiu bem ao gosto do tocantinense, talvez porque combine com o calor que não dá trégua e com essa necessidade de dançar para sobreviver e escapar ao maçante.

    No mesmo festival, ouviu-se sanfona e também a viola de buriti, um dos símbolos mais bonitos do Tocantins.

    Teve roda de capoeira e apresentações de grupos de suça. Se a suça é a expressão principal da identidade afrotocantinense, a capoeira conectou o Tocantins a uma paisagem maior da cultura negra brasileira.

    Grupo Sussa Tia Ângela. Crédito da imagem: @cyberj0n

    Teve o tambor e dança do grupo Congos e Taieiras, representando a cultura de Monte Carmo do Tocantins. É um misto de cortejo com performance que remonta há muito mais tempo do que os poucos 37 anos do Estado do Tocantins e tem raízes religiosas.

    Foi bastante bonita a apresentação do Lindô, comunidade quilombola do Cocalinho, que fica no Município de Santa Fé do Araguaia. A dança deles é dinâmica; homens e mulheres se cruzam e se encontram seguindo um ritmo marcado por cantos de melodia não-melismática.

    Não pude deixar de apreciar as cores da estampa das saias das mulheres e das camisas dos homens do Lindô: tinham o vermelho e amarelo-amarronzado que são muito presentes na paleta da paisagem tocantinense, e o azul profundo da bandeira do Estado. Não deve ter sido intencional, mas a possível coincidência só reforça a ideia de quando tudo brota da mesma terra, as cores acabam se reconhecendo.

    Lindô. Crédito da imagem: @cyberj0n

    Não parece acaso que tantos símbolos do Tocantins tenham cores que pertencem ao mesmo espectro: a guitarra de buriti, o capim-dourado, o pequi, o caldo do chambari, a fava de bolota. O Tocantins é ocre. É marrom. É um amarelo manga escuro.

    O som do Tocantins tem essa mesma paleta. Enquanto cena musical e identidade nacionalmente reconhecida, tudo isso ainda está em formação; mas tem raiz, e já tem suas próprias cores.

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  • A crítica musical é arrogante

    A crítica musical é arrogante

    Minha experiência de resenhar o álbum Lux, da Rosalía, para a PopMatters

    OBS.: Esse “artigo” é uma adaptação de uma legenda de um post do Instagram pessoal da escritora, de 13 de novembro de 2025.

    Às vezes, eu me pergunto se um escritor só pode ser tão bom quanto o objeto de sua escrita. 

    Quase sempre concluo que não. Já li textos que achei brilhantes sobre obras que achei medíocres, por exemplo (e o contrário também). 

    Mas pra quem escreve sobre música, alguns artistas, álbuns, músicas nos inspiram de uma forma diferente. Os textos que nascem daí acabam se tornando alguns dos nossos preferidos.

    ~La Rosalía~ tem sido uma dessas artistas pra mim; e o Lux, último álbum dela, despertou essa vontade gostosa de criar uma obra sobre uma obra, como se o próprio fato de essa obra despertar vontade de escrever sobre ela já fosse, sozinha, uma prova de que é uma obra muito interessante.

    Na verdade, é mais que isso: é também uma ânsia de caçar palavras para tentar criar uma obra brilhante sobre uma obra brilhante.

    (Acho que ainda gosto mais do texto que fiz para a PopMatters sobre Motomami, o álbum anterior da Rosalía… não pela pretensa intelectualidade da “tese” maior que estruturou o texto, mas porque o álbum me fez enxergar uma, espontaneamente, nas escolhas criativas da Rosalía.)

    Pode ser que o meu texto sobre o Lux, último álbum dela, seja mais um texto medíocre sobre uma obra brilhante também.

    Isso não importa muito.

    Mais importam pra mim esses momentos em que algo nos desafia a ter algo relevante a dizer – algo que já não foi dito ou que não seja meramente descritivo; ou, pior ainda, algo que não se resuma a recorrer ao “indescritível”. “Indescritível” é uma expressão quase criminosa para ser usada por uma escritora.

    Por isso, escrevemos. 

    Escrever é ser arrogante o suficiente para contrariar o lugar-comum de que algumas coisas não precisam ser explicadas e apenas sentidas. A crítica musical é arrogante, e é por isso que, mesmo perdendo relevância, ela não morre. 

    A crítica musical é, por natureza, egocêntrica. É escolher a voz de outra pessoa para poder ter voz.

    É egocêntrica como esse post, inclusive.

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  • A escrita sobre música. Há futuro para a escrita sobre música?

    Quem escreve e quem lê textos sobre música faz isso porque se importa com música em um nível a mais do que apenas curtir a experiência de escutar.

    Esse tipo de interesse sempre vai existir, mas será que ele justifica a existência de escrita sobre música?

    Não me refiro só à crítica de música.

    Acho que está mais do que óbvio que crítica de música hoje em dia não tem a mesma força e mesma relevância que já teve.

    Se um dia, o crítico de música era um formador de opinião e as críticas eram um mix de curadoria com tentativa de controle de acesso e de gosto, hoje a crítica musical serve muito mais para tentar legitimar e manter viva uma indústria de jornalismo musical que luta pra sobreviver – e, sejamos sinceros, também serve pra fomentar rivalidade de fãs que se gabam de “critical acclaim” e monitoram rankings de Metacritic como se fossem charts comerciais.

    Essas coisas fazem sentido? Justificam? Por que ainda escrevemos sobre música?

    No livro “A Escrita. Há Futuro Para a Escrita?”, do filósofo (brasileiro, inclusive) Vilem Flusser discute se a justificativa da existência do texto ainda se sustenta.

    Um ponto interessante é que ele discute inclusive a “supremacia” do texto sobre outros símbolos, como a imagem. Flusser acha que o texto olha de cima pra baixo para a imagem, por exemplo.

    Não é exatamente isso que nós, escritores e críticos de música, fazemos? “Olhamos” para a música de cima pra baixo, como se ela não merecesse apenas existir e mover as pessoas pelo som, e merecesse ser analisada e dissecada via texto?

    Sim, é isso que eu acho. Há uma certa arrogância nisso, uma arrogância muito humana, de quem quer existir no mundo, de quem quer colocar a própria subjetividade para dialogar com a subjetividade de outra pessoa.

    Um lugar-comum que se firmou na cultura popular sobre crítica musical é que todo crítico é um músico frustrado.

    (Particularmente, eu sou os dois sim: uma pessoa que escreve sobre música e que não conseguiu o que queria enquanto compositora musical. No meu caso, uma coisa não teve nada a ver com a outra. Mas não ligo de acharem que possa ter. E daí se tivesse?)

    E se for verdade que todo crítico realmente use a crítica pra dar vazão à frustração de não conseguir fazer ou viver de música? E daí?

    Se o músico pode beber do repertório da humanidade para fazer música, por que o crítico não poderia beber da música dele para fazer texto?

    A crítica musical não é uma correção da arte — é uma continuação. É uma resposta. É um desdobramento.

    A quem estamos querendo legitimar quando escrevemos sobre música: a música ou a nós mesmos? Talvez ambos. A escrita sobre música é uma forma de estar vivo diante do que se escuta; é firmar um ponto no mundo a partir do ponto firmado por outra pessoa. Se isso é pretensão, que continue sendo.

    Um pouco de contexto e desabafo

    Sendo profundamente honesta, eu criei esse site pra reclamar.

    Não sou uma pessoa azeda e não garanto que meu lado mais diplomático não vá florescer por aqui…

    … mas o Musicazia nasceu do meu ressentimento de não conseguir espaço nos veículos brasileiros de música (ou, pelo menos, não tanto espaço quanto eu queria — tive sim algumas oportunidades muito legais e pelas quais sou muito grata!)

    Rosto retendo as lágrimas

    Construí uma carreira até bastante respeitável no jornalismo musical do exterior, enquanto no meu próprio país, ninguém me conhece e minhas abordagens não funcionam.

    Fui publicada pela Rolling Stone da Coreia do Sul e entrevistada pela Rolling Stone dos Estados Unidos enquanto levava ghosting de editores da Rolling Stone Brasil.

    Eu escrevo sobre as maravilhas da música brasileira para uma audiência internacional enquanto sou ignorada por esse mesmo Brasil que eu enuncio.

    É quase como se esse Brasil que eu vendo como cool pro exterior fosse mesmo tão cool que talvez nem eu seja cool o suficiente pra trabalhar no jornalismo musical dele.

    Pode parecer que isso é recalque meu. Talvez seja mesmo.

    Pode parecer audácia minha achar que eu merecia um espaço nesses veículos – eu, que nem fiz faculdade de Jornalismo, que nunca entrei n’uma redação. Eu nunca “roubei” a vaga de ninguém – eu fui atrás de preencher e criar espaços que ainda não existiam, propor pautas que ainda não eram cobertas (suficientemente ou de qualquer forma).

    Só nunca entendi por que essas características e atitudes me renderam boas oportunidades no jornalismo de fora e não surtiram o mesmo efeito no meu próprio país.

    Sejam quais forem os motivos que fizeram isso acontecer, o fato é que no peito de alguém que ama falar de música, sempre vai faltar espaço pra falar de tudo que queremos falar, ou pelo menos, no tom que queremos falar.

    A escrita enquanto digestão

    Tenho a impressão que esses temas e sentimentos represados geram um escoamento que tem um poder ainda mais forte de justificar a existência e a força da crítica musical.

    Para de fazer sentido a crítica que contém apresentação e informação sobre a obra; faz mais sentido a descrição do efeito da música. A crítica que fala mais sobre o estômago do crítico do que sobre o criticado.

    (Há quem possa me rebater dizendo que a crítica musical sempre foi designada pra ser isso. Mas não tem sido, e também não tem sido percebida assim.)

    (Já cheguei a ler posts de fãs retaliando críticos com comentários do tipo: “Se você não gostou do álbum, você não tem que dizer que é ruim, apenas diga que não é do seu gosto…” … Francamente…)

    Independente do quanto veículos de música podem e querem ou não absorver esses escoamentos, eu me pergunto se a única escrita sobre música capaz de realmente atravessar pessoas é essa: a que reclama, que confessa, que mistura, ou que no mínimo, a que expõe algo maior sobre o mundo (seja o mundo interior do próprio escritor ou o mundo que o cerca).

    E por que na escrita? Ou, por que *ainda* na escrita?

    Porque escrever é digerir. O ato de escolher palavras e transformá-las em algo que se fixa no mundo de modo mais palpável do que a fala exige, no fundo, parar e sentir o que está acontecendo no estômago.

    O texto pode ser o arroto, mas até o arroto presume a digestão.

    A materialização da escrita (seja no papel ou no digital) nos força a um contato mais intenso tanto com o que se passa dentro de nós quanto com o mundo ao nosso redor.

    A crítica musical não precisa sempre nascer da azia, mas tem que nascer pelo menos da digestão, e não só da enumeração dos ingredientes do prato.

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