Foi uma coincidência engraçada a N.I.N.A. subir ao palco do Lollapalooza 2026 (em 21/03/2026), com uma jaqueta homenageando o Flamengo (por cima de um look estampado pela bandeira do Brasil), enquanto corria nas redes sociais uma polêmica sobre a enteada do Jorginho (jogador do time) ter sido esnobada pela cantora Chappel Roan, que seria headliner da noite.
MINHA ATRIZ DA WEBSÉRIE NO PALCO! Minha quarta graça N.I.N.A subiu no palco do Lolla pra entregar TUDO que ela prometeu (e você com certeza viu aqui nos nossos conteúdos sobre o #LollaBRNaGlobo). É mais talento brasileiro no segundo dia de festival! pic.twitter.com/gkOje3ePGr
Mas o contexto real do look usado no show da rapper é que o último EP lançado por ela, O Jogo Virou, é totalmente inspirado pelo futebol brasileiro, pela relação com dela com o Flamengo, seu time do coração, e com as torcidas organizadas.
O EP é de Outubro de 2025 e o timing para a promoção dele é legal: estamos em ano de Copa do Mundo e tal, e o futebol de Seleção pode não empolgar tanto quanto costumava, mas a relação do Brasil com futebol é um tema que nunca vai envelhecer. Então, mesmo samples repisados como “Baianá” (um clichê moderno da propaganda da alegria e musicalidade brasileiras), que aparece na última faixa do EP (“No campo”), caem muito bem.
A escolha do tema fica ainda melhor quando considerada em um plano discursivo mais amplo e simbólico.
O futebol, assim como o rap, ainda é um meio muito masculino. Em O Jogo Virou, a N.I.N.A. fala sobre ter vencido o desafio de se destacar como rapper, ao mesmo tempo em que se desafia liricamente a usar o máximo de referências possíveis a jogos e jogadores de futebol.
Em todas as faixas, ela se compara com grandes ídolos (homens) do Flamengo, mas com a estrela do futebol feminino Cristiane (também do Flamengo, atualmente) sendo a primeira das referências citadas no EP, na faixa de abertura “Fruto da Várzea”.
Destaque para a sequência “Levantando a taça” (N.I.N.A. rimando por cima de beat de funk ficou ainda melhor que beat de house e drill, outros estilos que aparecem no EP) e “No campo”.
Se você gostou da música da artista, encorajamos você a comprar ou pelo menos consumir por meio de canais oficiais da artista para que ela possa ser remunerada.
Eu sou do time que acha que se alguém já disse algo genial e que eu certamente diria, não há por que eu ficar buscando formas diferentes de dizer a mesma coisa.
Exalto a boa literatura encontrada na Internet por meio do like, repost ou compartilhamento. Faço dos autores os meus procuradores e só me atrevo a coautorar a grande crítica coletiva se eu puder iluminá-la com algo novo, diferente e relevante.
Dito isso, maravilhada que estou com a qualidade do EP/set/megamix/playlist/projeto/obra musical Quebradeira Pura, do carioca Marcelinho MeteBala, e igualmente com a qualidade dos comentários que li no upload da obra feito no YouTube, hoje a crítica musical que me proponho a fazer será uma colagem das melhores críticas curtas que encontrei lá sobre esse que já é, pra mim, o segundo melhor projeto musical brasileiro de 2026, juntamente com o álbum de Criolo, Amaro e Dino.
O negócio é tão bom que despertou um senso artístico igualmente acurado dos seus early adopters no YouTube.
Se Marcelinho MeteBala (seja ele quem for! Quem é? Preciso saber mais) é um grande artista, as pessoas que escreveram os comentários abaixo também são críticos de grande qualidade. Reconhecê-los-ei por meio desta humilde colagem curatorial – à qual, bom, contradizendo-me, não resisti a adicionar alguns comentários também – então vamos chamar de resenha curatorial:
Belíssimo e acurado enquadramento de Quebradeira Pura na linhagem de escolas e movimentos artísticos.
Tal como no dadaísmo, Quebradeira Pura é destrutivo, mas intencional. É ruído mas não apenas pelo ruído. Há um resultado autêntico e esteticamente valoroso per se. É extremamente neurótico e visionário a partir de construções sobre fundações preexistentes.
O projeto se apropria e ao mesmo tempo desconstrói blocos musicais (samples) com inclusão de vocais de funk com letras e melodias que, até onde identifiquei, são inéditas.
Não parece possível traçar um fio lógico condutor entre a escolha dos samples e bases instrumentais e os vocais e letras; sequer um nexo que justifique os diversos samples e blocos musicais que são colocados juntos.
Isso é muito típico de produção de música eletrônica periférica brasileira, como em gêneros como o funk e o tecnobrega.
O Marcelinho MeteBala reproduz essa fórmula para fazer música techno, mas há uma inegável influência do funk também. O funk inclusive aparece mais explicitamente no instrumental de músicas como “Vem Magrinho Sexy” e nos samples dos vocais da cantora Ludmilla em “Trem Bala/Olhei Gostei“.
Mas Quebradeira Pura tem um quê de antropofagia também, porque muitos dos samples são de músicas estrangeiras. “Desce Gstz” fica no hall de melhores apropriações de “Save a Prayer” do Duran Duran, juntamente com “Oração” de Tonny Brasil.
Outra tentativa brilhante de ligar Marcelinho MeteBala aos cânones da arte por meio de atalhos semânticos.
Mais do que um símile elíptico antonomásico, “Salvador Dali só que daqui” é genial não só porque usa de um humor extremamente besta, mas porque, de fato, há um quê de surrealismo daliano em Quebradeira Pura. A comparação não é só um ufanismo de ocasião, ela tem substância.
Se a teoria da Internet morta credita aos bots e IAs o conteúdo que domina a Internet, Quebradeira Pura é extremamente humano até mesmo no seu excesso de tecnologia.
Há um limite pra chamar de “aleatórias” as escolhas musicais das faixas: se fosse de fato aleatório, o resultado seria uma obra musical genérica, ou difícil de digerir. Não é o caso!
Dá pra perceber que há uma mente humana por trás.
O que pode ser completado com o raciocínio abaixo:
“inteligência artificial nunca seria capaz de criar uma obra prima dessa”
Eu até consigo imaginar como seria uma versão IA de um prompt sobre uma megafaixa de techno recheada com samples e vocais de funk, e duvido que sairia tão legal quanto Quebradeira Pura.
Algumas escolhas aqui só poderiam ser ter sido feitas por um humano que domina o seu ofício.
“cara disfarçou puro talento com meme e achou que a gente não ia perceberkkkkkk”
Pois é, Quebradeira Pura beira o nonsense, mas apesar de ser bem humorado, não se propõe a ser exatamente uma piada. É arte!
“imagina mostrar isso pra um plebeu da idade media no século 14 durante ápice da peste bubônica” – autor/usuário: @Leo-ep6zo
“Na epidemia da dança de 1518” – autor/usuário: @satiroxobru5884
Tive que incluir um comentário-resposta porque essa sequência ficou boa demais.
Quebradeira Pura é basicamente um megamix, não há intervalos, e todas as “divisões” (que chamei de “faixas” anteriormente) são dançantes à sua maneira, então de fato a coisa toda parece um grande transe e seria a trilha sonora perfeita para um episódio maníaco e coletivo de dança.
“nascido para ser “enviado à 12 anos atrás” forçado a ser “enviado à 2 dias atrás”
Aqui entra uma reflexão engraçada: Quebradeira Pura tem um quê de EDM do início dos anos 2010 mesmo, mas ao mesmo tempo, é perfeito para a atualidade.
Logo no início, a faixa “Nova Holanda” me lembra vagamente um instrumental acelerado que sempre toca nos ads de jogo de tigrinho quando uso a versão grátis de alguns aplicativos. O que definiria melhor o Brasil de 2026 do que isso?
OBS.: Resenha feita a partir de comentários lidos até 01/03/2026, a maioria deles sendo alguns dos primeiros postados assim que o projeto foi upado no YouTube.
(Título confiante pois quem escreveu esse post é a mesma pessoa que faz a lista da PopMatters, kkkkkkkkkk)
Um dos momentos que mais gosto todo ano é fazer a lista de melhores álbuns pop brasileiros da PopMatters.
Apesar de não ser tão conhecida no Brasil fora do nicho de fãs de Metacritic, a PopMatters é um veículo bastante respeitado no nicho de jornalismo independente, crítica musical e academia nos EUA. É também um dos veículos onde mais me realizei como escritora, pois sempre tive muitas oportunidades por lá e as Editoras sempre deram um espaço muito legal para a música brasileira, inclusive música brasileira nichadíssima, como o brega paraense.
Fiquei muito feliz quando, em 2021, propus a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros como parte do evento anual que são as listas de melhores do ano, e as editoras toparam. Desde então, só não fiz a lista em 2022.
(Sim, existe o lado discutível de se tratar de um veículo estrangeiro querendo dar pitaco sobre o que é o melhor da música brasileira, maaaaaaaaaaaasssssss se quem faz a lista é uma brasileira, então temos legitimidade, não? O veículo é apenas o veículo. Nesse caso, desculpe-me McLuhan, mas o meio é só parte da mensagem. E, se bobear, o fato de eu como brasileira só achar esse espaço em um veículo estrangeiro talvez seja também uma mensagem.)
Senti que 2025 não foi um super ano para o pop no Brasil. Tivemos grandes álbuns de rap, MPB, música alternativa etc.
Mas houve sim algumas iniciativas muito grandiosas, como o Rock Doido da Gaby Amarantos (que eu não só resenhei muito fervorosamente, como também coloquei em #1 na lista anual), e alguns projetos menos ambiciosos que eu torci muito para desembocarem em álbuns, pois tenho certeza que entrariam na lista de álbuns.
Mas não rolou. Muitos desses projetos permaneceram como EPs.
Eu acho que há certo mérito em manter essa hierarquia entre álbuns e EPs sim, sobretudo conforme produtos musicais vão ficando cada vez mais orientados ao lançamento e consumo rápidos; então, nem me passou pela cabeça propor uma lista de EPs ou qualquer coisa do tipo.
Mesmo assim, em 2025 ouvi alguns EPs de música pop (e ritmos e linguagens adjacentes) que são legais demais pra não serem destacados.
Então vou escrever sobre eles aqui.
Tenho certeza que, se esses EPs tivessem virado álbuns ainda em 2025, meu trabalho de fazer a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros da PopMatters teria sido muito mais difícil.
Layse – Música Mundana
Nossa, como eu queria que fosse álbum. Confesso que cheguei a mandar uma DM para a Layse dizendo que daria tempo de fazer isso acontecer e ela arrasar em listas anuais. (Não façam isso que eu fiz! Não estressem o artista. Fui desnecessária, mas é que Música Mundana realmente me empolgou.)
Esse EP é genial! Brega-cult de uma finesse rara.
É coerente, bem amarrado, tem uma produção gostosa que exalra brega e tecnobrega de uma forma interessantemente menos megalomaníaca e estridente. Não que o mérito do EP seja em “suavizar” o brega, mas sim, em fazê-lo de um jeito que a gente não está tão acostumado a ouvir, e que ainda assim soou muito legal, sobretudo porque o timbre e jeito de cantar da Layse são mais puxados pra MPB do que pro pop melódico. É uma voz mais Anna di Oliveira do que Viviane Batidão.
Meu destaque musical vai para “Voando com o J. Som” mesmo; mas meu destaque pessoal vai para “Extrago”. É um brega-bolerinho genial que eu certamente usaria como bio do meu perfil no Orkut, se em vez de “cerveja” a letra falasse em “cachaça”, e se eu bebesse cachaça na época em que ainda existia Orkut. Amei muito a exaltação da mulher poeta que sente prazer na sua própria companhia e se sente vive deliciando a própria companhia na presença de terceiros.
myha e ILLANES – Furduncim
Difícil classificar o(s) gênero(s) musical(is) desse EP, mas super encaixo em pop pois acho que a linguagem como um todo é essa. Esse é um trabalho extremamente interessante e notável de uma dupla de produtores de Minas Gerais, que juntos, criaram fusões muito legais de brega, brega funk, forró, piseiro, pagodão, cantos e cantigas, dub, trance, dance/EDM etc.
Que delícia! Isso é o futuro.
Aliás, já falei bastante desse EP no artigo 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026, e até ilustrei o artigo com a capa desse EP, pois acho que ele reúne tanta coisa legal que eu sinto como elemento estrutural do pop brasileiro contemporâneo e ao mesmo tempo sintomático do que podemos esperar que cresça em um futuro próximo.
O fato de o álbum ser aberto por uma parceria com o divertidíssimo e criativo Cabra Guaraná diz muito, diz tudo. Tem um quê de piada, de vinheta, de versão musical de linguagem de Internet às vezes. Por esse motivo eu inseri esse estilo musical no “gênero” colagem eletrobrega.
Mas sei lá se essa expressão é suficiente, sei lá como definir o som desses caras, só sei que é algo em que devemos prestar atenção e que dá pra curtir horrores.
(E essa capa ótima? Só ela já mereceria estar em uma lista.)
DOUM – DOUM
Não conhecia esse duo de Salvador, mas ando muito entusiasta do que venho chamando de “pop baiano” (e apesar das possíveis limitações do rótulo, eu vou continuar usando porque acho que o pop que tem sido feito por alguns artistas baiano tem peculiariades e um charme específico que merecem sim ser entendidos como um universo à parte), e nesse sentido, adorei o tipo de música que eles fazem.
É quase MPB, mas pop demais pra isso, tem um suíngue próprio (levemente próximos ao hip hop/trap melódico) e elementos de axé.
Mas quem ouvir “Querendo Bis” pode achar que DOUM é uma espécie de versão baiana d’Os Garotin.
Gostem ou não de comparações, meu veredito é que os garotos têm potencial. O EP é uma delícia e cheio de estilo.
Sofia Pitta – Molho
É, mais pop baiano, vou fazer o quê?
Essa cantora é muito boa. Com o crescimento da Rachel Reis e da Melly, acho que um bom espaço pode se abrir pra ela. Não que ela seja uma cópia, mas é certamente do mesmo grupinho. Não é ruim estar em tão boa companhia. Espero que ela saiba explorar isso da melhor forma (pelo que já vi nas redes sociais, ela tem uma forma de se comunicar bem divertida e autêntica).
Enfim, é aquele som praiano e suingado que grita molho baiano (não à toa o EP é aberto por uma faixa chamada “Molho” mesmo), mas com uma pegada mais suavinha na maior parte do tempo, só com um tempero levemente mais rebolativo em “Vixe Maria.”
Como a própria Sofia canta em “Tempo voa”: “Um amor com esse calor só se vê em Salvador”.
Duda Beat – esse delírio vol. 1
A Duda é complicada, não consigo não me interessar por qualquer coisa que ela lance (exceto, talvez, as “versões”, como a que ela lançou recentemente de “Messy” da Lola Young). Ela, a Pabllo e a Marina são meu sonho de princesa de fã de música pop nacional. É sempre muito difícil não incluir projetos da Duda em listas de melhores porque sempre se destacam entre os demais. São bem feitos, têm personalidade, têm proposta, tem execução legal, têm melodias e letras muito autênticas que não só caminham bem na linha tênue entre alternativo e mainstream: elas desfilam, rebolam, fazem performance sensual nessa linha.
Esse EP ficou muito bom, traz uma Duda mais próxima àquele lounge pop psicodélico que fez o álbum de estreia dela render comparações com Kali Uchis. Não à toa, tem até collab com a banda de rock psicodélico Boogarins.
Muita gente achou “Casa” pretensiosa. Eu não achei (mas certamente ainda teria amado se fosse, curto pretensões musicais se o artista pesquisa e sustenta). Eu amei. Amo a Duda experimental.
O fato de o título do EP mencionar “vol. I” já me deixa feliz. Quero muito conferir o Vol. II e/ou o projeto completo.
Minha experiência de resenhar o álbum Lux, da Rosalía, para a PopMatters
OBS.: Esse “artigo” é uma adaptação de uma legenda de um post do Instagram pessoal da escritora, de 13 de novembro de 2025.
Às vezes, eu me pergunto se um escritor só pode ser tão bom quanto o objeto de sua escrita.
Quase sempre concluo que não. Já li textos que achei brilhantes sobre obras que achei medíocres, por exemplo (e o contrário também).
Mas pra quem escreve sobre música, alguns artistas, álbuns, músicas nos inspiram de uma forma diferente. Os textos que nascem daí acabam se tornando alguns dos nossos preferidos.
~La Rosalía~ tem sido uma dessas artistas pra mim; e o Lux, último álbum dela, despertou essa vontade gostosa de criar uma obra sobre uma obra, como se o próprio fato de essa obra despertar vontade de escrever sobre ela já fosse, sozinha, uma prova de que é uma obra muito interessante.
Na verdade, é mais que isso: é também uma ânsia de caçar palavras para tentar criar uma obra brilhante sobre uma obra brilhante.
Pode ser que o meu texto sobre o Lux, último álbum dela, seja mais um texto medíocre sobre uma obra brilhante também.
Isso não importa muito.
Mais importam pra mim esses momentos em que algo nos desafia a ter algo relevante a dizer – algo que já não foi dito ou que não seja meramente descritivo; ou, pior ainda, algo que não se resuma a recorrer ao “indescritível”. “Indescritível” é uma expressão quase criminosa para ser usada por uma escritora.
Por isso, escrevemos.
Escrever é ser arrogante o suficiente para contrariar o lugar-comum de que algumas coisas não precisam ser explicadas e apenas sentidas. A crítica musical é arrogante, e é por isso que, mesmo perdendo relevância, ela não morre.
A crítica musical é, por natureza, egocêntrica. É escolher a voz de outra pessoa para poder ter voz.