Categoria: Sobre álbuns

  • A sina de Luísa

    A sina de Luísa

    O último grande “hit” de Luísa Sonza foi “A sina de Ofélia”, uma versão em português do sucesso de Taylor Swift “The fate of Ophelia”, feita com Inteligência Artificial por um DJ que não pediu autorização para emular a voz de Luísa (ou de Dilsinho, que “faz feat” com Luísa na música).

    Achei a versão boa, e parece que Luísa também achou, pois ela própria chegou a promovê-la de certa forma, em posts nas redes sociais.

    Mas não deixa de ser curioso que Luísa caiu nas graças do povo justamente com uma faixa que não foi feita ou idealizada por ela, e que, apesar do consentimento posterior tácito, não foi feita com ciência ou autorização dela.

    Na versão, “Luísa” canta: “Eu vou ser sempre real”… ao passo que, nas músicas escritas e cantadas pela verdadeira Luísa, as pessoas não sentem essa verdade que a Inteligência Artificial cantou e que agradou a tantos.

    Já faz algum tempo que o nome Luísa Sonza atrai atenção muito mais pelos eventos da sua vida pessoal, pela forma como ela dança e se veste (ou não se veste), do que pela sua música. O fato de ela ter hitado com uma música que lhe arrancou a voz e não lhe consultou é intrigante, quase violento.

    Se tivesse sido iniciativa da Luísa fazer uma versão da música da Taylor Swift, ela certamente seria zoada. Usariam isso como (mais uma?) evidência de que ela só copia gringos e não tem personalidade.

    É a sina de Luísa.

    É como se houvesse algo na ~ideia Luísa Sonza~ que é capaz de atrair atenção, mas que quando a própria Luísa executa, não agrada.

    Até onde se sabe e se percebe, Luísa tem relativa liberdade e autonomia criativas, mesmo tendo contratos com gravadoras e agências de imprensa de grande escalão. Então é possível partir da premissa que o que vemos e ouvimos de Luísa Sonza é fruto da mente e vontade dela, inclusive porque ela mesma costuma afirmar isso. E é quase como se isso fosse o problema mesmo. Parece que muita gente já se decidiu que não vai gostar do que Luísa decide criar e fazer.

    Nos últimos anos, Luísa tem tentado muito mostrar que é artista de verdade e isso parece que irrita ainda mais as pessoas. Seja pela postura em si, seja por ela achar que é merecedora desse status, seja porque isso supostamente contradiz a sua “outra” persona artística que canta sobre ficar de quatro e faz performances ilustrativas dessas letras.

    O problema não é que ela não sustenta essa postura da artista que diz ser; o problema é que ela exagera no quanto tem que sustentar; porque será que se ela fosse tudo isso, precisaria sustentar tanto?

    Em geral, autoafirmações quase sempre soam como necessidade de convencer sobre algo que não está totalmente evidente, mas soa menos pedante quando a realidade sustenta o que está sendo dito. Por exemplo, quando Marina Sena canta “o meu jeito é totalmente natural”, soa natural mesmo. Quando Luísa canta “eu tenho número e ainda sou artista”, como soa?

    Mas crença de quem é simplesmente é e não precisa provar que é, é às vezes uma armadilha. Essa armadilha também faz parte da sina da Luísa.

    Será que Luísa precisaria tanto gritar pro mundo que é artista de verdade se já não houvesse tantas vozes falando alto ao mesmo tempo que ela não é? Seja porque foi apresentada ao mundo como namorada do Whinderson, ou porque começou a carreira com músicas mais dançantes e despretensiosas sem grandes lapsos de criatividade ou ambição, Luísa tem sempre que lutar contra si mesma e com tudo que ela construiu, ou deixou construir, ou teve que ver ser construído, sobre si mesma.

    É a sina de Luísa.

    Não me irrita o desejo de Luísa de “ser artista”. Esse desejo quase me emociona, na verdade. Fico esperançosa em saber que saber compor, escrever e conhecer os cânones da música ainda tenha algum poder simbólico (é quase o mesmo que senti quando Jade Picon saiu do Big Brother Brasil e se mostrou super empenhada em estudar dramaturgia, querer um papel de protagonista em novela da TV Globo etc… ela já era rica da moeda corrente que é muito mais poderosa do que qualquer contrato com a TV Globo hoje em dia: marca pessoal forte e sucesso nas redes sociais. Uma mulher jovem e linda que já tem isso iria querer ser atriz da Globo por quê? Porque isso ainda tem status).

    O que pode incomodar mais é que Luísa pensa já ter chegado mais longe do que chegou como criativa e criadora.

    Mas até isso tem sua graça.

    Aparentemente de forma não intencional, Luísa tem feito desse quase-lugar um lugar per se, um que tem suas particularidades toscas, mas também interessantes, deliciosas. Quase uma quase-arte, mas como arte não tem definição nem estágio, é arte também.

    Isso se viu, sobretudo, no seu antepenúltimo álbum, Escândalo Íntimo (2023), que contou com diversas referências a MPB, Cazuza, Rita Lee etc. Quase um TCC pra mostrar que ela estudou direitinho o pop-rock brasileiro mas que também sabe criar algo e não só fazer citações.

    Escândalo Íntimo também foi o álbum em que Luísa deixa claro que ela já encontrou o lugar que quer ocupar na prateleira musical: o arquétipo do artista perturbado porém genial, uma Jack Kerouac pop star brasileira, ou uma Rita Lee que gosta de funk.

    As letras do álbum resumem quem ela quer que todos saibam que ela é:

    • “eu tenho número e ainda sou artista“;
    • “eu meto o louco“;
    • “eu acho legal essa coisa de artista“;
    • “se me der o palco pra eu cantar, desmonto e derrubo todo esse lugar“

    Luísa sampleando Rita Lee em “Lança menina”, com o áudio da famosa crítica feita a uma moça “toda boazinha” e “chata pra ca[ralho]“, fez dela a própria chata pra caralho, excessivamente preocupada em não querer ser vista como a mocinha boazinha e “tão galera”. Sou tão porra louca e perturbada e tão genial, ui.

    (Como alguém que cresceu vendo Sandy ser colocada em um lugar de castidade e boa-mocice pela mídia e vendo esse estereótipo desmoronar na medida em que performar empoderamento focado em liberdade sexual se tornou quase requisito para ser mulher artista pop de sucesso, acho quase engraçado ver Luísa tão preocupada em deixar claro que não é santinha. Não tínhamos Sandys na cultura pop dos anos 2020, Luísa estava lutando contra o quê? Mas eu também não contava a com a “volta” do conservadorismo, da romantização das trad wifes e toda essa cultura de demonização do feminismo que tomou ainda mais fôlego com a ascensão do neopentecostalismo e do bolsonarismo no Brasil. Então, acho que a postura de Luísa até faz mais sentido nesse contexto.)

    É meio demais, mas é divertido, mais pela experiência de ver a artista se justificando do que pelo mérito artístico. Tenho a impressão de que Luísa assume o risco de gerar tipos de entretenimento que não são exatamente o que ela pretende.

    Mas mesmo assim… o que sai disso não é exatamente, ou de todo, ruim…

    Luísa sabe estudar o modelo de arte que quer fazer, consegue replicar a “fórmula”, só que às vezes sai sem alma, sem muito brilho, mas ainda assim bom. Não é mal feito o suficiente pra você dizer que tá mal feito, só não conquista muito. Mas às vezes conquista sim…

    A bossinha “Chico” me parece uma amostra muito boa disso. É uma prova muito clara de que o desejo de Luísa de ser bossa nova era maior do que qualquer inclinação natural dela para isso. Mas, veja bem, não ficou ruim, viu? É talvez a minha faixa preferida de Escândalo Íntimo. O desejo de ser artista encontrou a paixão pelo Chico Moedas e rendeu algo muito bom.

    Talvez seja, também, a sina de Luísa, a mesma de Picasso: se ela se mantiver se forçando a ser artista o tempo todo, eventualmente a inspiração encontrará essa forçação de barra e juntas elas terão filhos mestiços bem bonitos.

    Não deixa de ser algo interessante de assistir.

    Ou será que teria Luísa nascido pra ser unicamente intérprete, mas insiste em uma sina de compositora? Seriam todas as suas tentativas mal sucedidas de convencer a todos que ela é uma artista genial meras consequências da sua insistência em lutar contra esse destino? Não sei, mas caso ela tivesse acatado esse suposto determinismo de não tentar ser uma gênia, acho que teríamos perdido coisas interessantes.

    Com o lançamento de Brutal Paraíso (2026), essa discussão continua. Luísa segue usando de referências do pop-rock brasileiro para firmar seu próprio estilo a partir dele, dessa vez também bebendo da bossa nova.

    De certa forma, Brutal Paraíso parece uma boa continuação de Escândalo Íntimo. Dá até pra ignorar que há um outro álbum entre os dois: Bossa Sempre Nova (2026) não é ruim, mas é desnecessário. A Luísa Bossa Nova que deveria ter estado ali é a que está nas primeiras faixas de Brutal Paraíso: uma que faz um pop bossa nova autoral, com traços de hip hop.

    “Amor, que pena!” é uma boa faixa: Luísa achou nela um método bom pra colocar a fundação instrumental da bossa nova a serviço das melodias de pop contemporâneo e hip hop melódico. Deu certo. “E agora” já não é tão bem executada, mas ainda funciona. Ela começa bem, o pré-refrão ilude de que vai continuar no mesmo tom acertado ou talvez melhorar, mas quando chega a interpolação de “Você não me ensinou a te querer” com beat eletrônica, fica meio brega (mas antes essa breguice autoral do que se ela tivesse feito um remix de Tom Jobim, por exemplo).

    Quando o álbum chega em “Loira Gelada”, a Luísa Bossa Nova faz um pausa pra chamar a Luísa Manequim, isto é, a persona da gostosa que sabe (ou jura) que dá um chá que ninguém consegue esquecer (essa persona já aparecia em músicas como o remix “sentaDONA (Remix) s2”, de 2022, mas achei que ela se solidificou mesmo foi em “Luísa Manequim”, de 2023). O rock’n’roll deu uma licença poética interessante para extravasar esse lado e gerar letras do tipo que o povo ama odiar: “eu tô por cima / Me chama logo de tua linda / (…) eu sou o amor da tua vida / Tua paixão mal resolvida”.

    Eu gostei bastante do sample de “Louras Geladas” do RPM em “Loira Gelada”, achei o momento da inserção do sample muito inteligente, pouco óbvio, e de bom gosto. Há algo de muito interessante na escolha de samplear RPM, pois consigo ver a Luísa ao mesmo tempo como a persona perfeita de várias músicas da banda, mas também como um certo contraponto a algumas delas.

    “Loira Gelada” acaba com um pós-lúdio que traz a bossa nova de novo, antes de transicionar para mais uma faixa de pop rock, “Santa imaculada”, que depois transiciona para outra que começa como bossa nova e depois fica pop-rock de novo, “Diferentemente”.

    Até aqui, o álbum anda bem.

    “Sempre você” dá uma quebrada no fluxo, mas não fica exatamente descolada. É uma baladinha ligeiramente menos empolgante e bem menos liricamente caprichada que “Iguaria” (de Escândalo Íntimo), mas segue a mesma linha “eu quero a sorte de um amor tranquilo” e ocupa um papel importante inclusive para começar um novo bloco de Brutal Paraíso que segue outros rumos.

    A partir daí, o que vem é um bloco de músicas mais pop-funk, marcadas por letras em inglês e espanhol, com collabs e sonoridades obviamente pensadas para a carreira internacional de Luísa. Não é a parte mais interessante do álbum, mas provê um material legalzinho para Luísa apresentar ao vivo com coreografias.

    “Interlúdio – Piedade” marca mais um novo bloco no álbum, o último.

    As músicas do bloco final são um pouco mais melodramáticas, e devo admitir que mesmo quando há alguns momentos piegas, a canceriana Luísa brilha nessa faceta teatral. “Que o amor morra” é uma composição boa, um instrumental mais envolvente talvez a desse um apelo maior para ser hit. “Quando” é a “Outra vez” de Brutal Paraíso. “Depois do fim” é uma sofrência pop imensamente melhor que “Penhasco pt. 2” (de Escândalo Íntimo), por exemplo.

    O álbum acaba mal com a longa e pouco interessante faixa-título. Luísa já tem anos de carreira que justificam uma faixa confessional como essa, então a proposta até que faz sentido. “Brutal Paraíso” se encaixa de forma natural em Brutal Paraíso, que até aqui, já não perde muito por ter uma faixa de mais 7 minutos, porque quem chegou até a última faixa do álbum certamente não é alguém que está com pressa (Brutal Paraíso tem 23 faixas e mais de 1 hora, o que é raro para um long play hoje em dia). O problema da de “Brutal Paraíso” nem é a extensão, é não ter um arco melódico ou lírico cativante mesmo.

    Fico com a impressão de que há menos músicas marcantes em Brutal Paraíso que em Escândalo Íntimo, mas algumas até o superam. É um álbum legal, assim como Escândalo Íntimo também é. O processo criativo de Escândalo Íntimo me intrigou mais. Em Brutal Paraíso, estou mais intrigada pela própria pessoa da Luísa e de como isso se desdobra na faceta compositora, do que pela Luísa compositora mesmo. Não à toa, escrevo esse texto.

    Mantive a comparação entre os dois álbuns ao longo do texto porque acho que eles marcam o encontro de Luísa com um som e proposta que combinam bem o que parece ser o personagem que ela finalmente definiu pra si: essa persona de artista perturbada que compõe pop inspirado em MPB fodona mas que também curte fazer funk e música pra rebolar. Alguns temas líricos também se repetem entre os álbuns, sobretudo a antítese “sagrado/profano” (que intitula uma faixa de Escândalo Íntimo e aparece em “Quando” de Brutal Paraíso).

    Basicamente, todos esses elementos já apareciam de forma mais ou menos explícita em obras anteriores dela, como se a cada álbum ela fosse adicionando mais reforços pra consolidar essa estética e proposta.

    Em Brutal Paraíso, por exemplo, ela adicionou a camada reggaeton e a camada bossa nova, que, se formos justos, já estavam sendo construídas desde Doce 22 (“Anaconda”) e Escândalo Íntimo (“Chico”), respectivamente.

    No fim das contas, a bagunça de Luísa sempre teve alguma coerência, mas ela teve o azar de viver em uma era em que as pessoas caracterizam essas bagunças como versatilidade ou falta de personalidade de acordo com critérios que podem oscilar bastante.

    Particularmente, sou do time que não consegue encaixar multiplicidade musical excessiva na caixinha da versatilidade, por isso me agrada ver que Luísa está começando a fechar o combo de sabores da sua identidade musical. A inserção mais recente da bossa nova pareceu uma ameaça a essa possível/suposta/almejável harmonia e identidade, mas eu consigo desculpar porque achei genuína a forma como ela se instalou (acho de verdade que “Chico” foi um momento muito legal na carreira dela, musicalmente).

    Mas provavelmente, para Luísa, essas referências todas devem ser ancoradas em outros eventos da história de vida dela. O fato de ela ter cantado em banda de baile no início da carreira, por exemplo, costuma ser um coringa para ela justificar sua conexão com todo e qualquer ritmo musical. Até faz sentido, mas eventualmente acaba parecendo subjetividade a serviço da dispersão. Não a ouvi até agora dando essa cartada pra falar de nada do Brutal Paraíso, e espero não ouvir.

    Se é a sina de Luísa ser odiada por se sentir incompreendida, enquanto os outros insistem que não há tanto nela a ser compreendido, então talvez sua redenção esteja em não fazer tanta questão de ser compreendida mesmo.

    E digo mais: acho que Brutal Paraíso vai envelhecer bem. Acho que daqui alguns anos, quando conseguirem ouvir sem ranço, vão achar algumas coisas legais. E nesse dia, Luísa vai achar que teve o seu momento “aha” e se sentir validada na sua crença de que o público iria levar anos para entender uma artista tão genial quanto ela. E nesse dia, ela vai estar errada. Assim como talvez alguns de nós estejamos por odiá-la hoje.

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  • [ENTREVISTA] Ouvimos o novíssimo do Edgar, REWIND, e falamos com ele sobre reggae, andanças pelo Brasil e pelo mundo, violência policial, texto e intuição artística

    [ENTREVISTA] Ouvimos o novíssimo do Edgar, REWIND, e falamos com ele sobre reggae, andanças pelo Brasil e pelo mundo, violência policial, texto e intuição artística

    Foto: Vicente Otávio

    Agradecimentos a Assessoria Bianco pela coordenação da entrevista com Edgar

    O Edgar é um daqueles artistas que vive o sonho do millennial multipotencial porém medroso (ou cansado): ele escuta todas, ou no mínimo várias, vozes da cabeça dele. Faz muita coisa e faz todas bem: é cantor, rapper, compositor, poeta, artista plástico, performer, designer de moda…

    São tantos talentos e canais que até as personas se transpõem às vezes – afinal, o nome artístico é Edgar ou Novíssimo Edgar?

    Para o trabalho musical, é Edgar mesmo, foi confirmado a nós pelo próprio.

    E, bom, aqui no Musicazia nós falamos sobre música, pelo menos como ponto de partida para outras discussões; e o próximo álbum do Edgar, REWIND (que nós pudemos ouvir antecipadamente), tem muita coisa interessante pra ser ouvida e pensada. De novíssimo, tem pouco, apesar de soar refrescante e em sintonia com o presente – é, na realidade, um álbum que viaja fundo nas raízes de Edgar.

    REWIND é um projeto focado em reggae e dub, o que parece se conectar com o zeitgeist do underground que talvez já esteja beirando o mainstream (como nós falamos no artigo 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026) – mas que, para o Edgar, nasce muito mais de um desejo de rewind mesmo do que de seguir ou liderar uma tendência.

    “É um trabalho de muito tempo“, “em nenhum momento eu pensei em tendência“, ele nos contou em uma entrevista que nos deu em 03/04/26, a 4 dias do lançamento de REWIND.

    Os traços conceituais e estéticos do reggae e dub sempre estiveram presentes na produção das músicas do Edgar, seja pela forma de manipulação da voz, o uso de delays, reverbs… de tal forma que, Edgar nos conta, quando ele falou do REWIND para o curador Chico Dub, a reação dele foi: “Como assim? Pra mim, o que você faz sempre foi dub”.

    Mas esse é certamente o projeto que abraça esses gêneros e cenas, o que para Edgar tem um significado bastante pessoal.

    O sound system – mais especificamente o Djanguru, em Guarulhos -SP, cidade natal do Edgar – foi a cena que deu a ele as primeiras oportunidades de se apresentar, “de segurar um mic”, como ele mesmo nos contou.

    E foi para essa cena que ele se voltou após lidar com problemas relacionados a contratos com gravadoras, e após experimentações com música eletrônica e harpa japonesa junto à multi-instrumentista Lorena Hollander com o projeto Hotel Shiva, e até mesmo com uma certa decepção com o colapso ideológico da cena do rap e trap (“as pessoas se esqueceram que rap é compromisso”), gêneros que informavam a maior parte da música de Edgar.

    “Eu sempre falei que o reggae era meu professor, mas o rap foi meu empresário.”

    Foi após um reencontro com Jamil (fundador do Djanguru) em que Edgar mostrou músicas suas, e mediante acompanhamentos vocais com Laylah Arruda (figura também importante na cena sound system brasileira), que o REWIND começa a se desenhar melhor.

    Quando lanço Universidade Favela [em 2024], eu já estou nesse processo de dizer “tchau, um abraço” [para esse lado da carreira de rap]

    Entre diversas parcerias – inclusive com o próprio Jamil, e também com DJ Kazvmba e a cantora Matilde -, REWIND ficou pronto em julho de 2025.

    Foi uma germinação ainda discreta de um trabalho desenvolvido há algum tempo e que guardava sementes de trabalhos mais antigos ainda, como a música “Zum Zum Zum”, escrita na adolescência de Edgar.

    REWIND foi mote para diversas conversas interessantes que conseguimos ter com Edgar. Abaixo, alguns destaques:


    Guarulhos, Paris, Maranhão, Pará

    Em REWIND, Edgar anda e bebe de vários lugares e culturas, como a jamaicana e a maranhense.

    No Brasil, reggae, dub e sound system são ícones da cultura maranhense, o que me lembrou inclusive da apresentação de Edgar no Festival MADA, em 2025, em Natal-RN (show que destaquei em minha cobertura do MADA para a PopMatters), na qual ele usava uma camisa do Sampaio Correia, time de futebol do Maranhão.

    “Eu já fui pro Maranhão umas 3 vezes, lá tem algo, uma musicalidade, que sempre me chama“, Edgar nos conta, dizendo que, inclusive, “REWIND tem vários sotaques de reggae.”

    Mas boa parte das composições do REWIND nascem também de sua infância e adolescência em Guarulhos e da época em que morou na França: “Os jogos silábicos da letra de Zum Zum Zum vem de uma brincadeira de falar de trás pra frente, algo que existia em várias quebradas em Guarulhos e que depois percebi que existia na França também.”

    A faixa “Comme une flèche” (que Edgar descreve como “um dub mais soft, praticamente uma cantiga de ninar”) nasceu enquanto ele tocava violão no Rio de Janeiro, mas ao mesmo tempo, segue “um raciocínio jamaicano que quase negocia com o europeu“.

    Edgar cita a influência de Horace Andy, ícone do reggae roots jamaicano e integrante da banda de trip hop inglesa Massive Attack, na faixa “Jah Alone”; e cita a influência do francês Manu Chao em “Baila Loco”.

    Essa última influência vem n’um misto da ideia do vínculo com a língua francesa flertando com a latinidade, e ao mesmo tempo, pelo fato de “Baila Loco” ser uma paródia estética do reggae/dub cantado em espanhol assim como Manu Chao faz. “[Baila Loco] é uma sátira dessa ideia de a América Latina degringolando e a gente dançando.”

    No meio de tudo isso, Edgar nos conta, inclusive, que está de mudança para o oeste do Pará com sua companheira.

    A mudança não é aleatória: ritmos do Pará, como a cumbia e carimbó, já influenciam um pouco experimentações musicais dele; e claro, lá ele também já teve encontros com o reggae por meio de algumas bandas. “A música no Pará se demonstrou de forma bem fértil para mim. Além disso, é um lugar relativamente novo onde posso experimentar um outro jeito de fazer música, sem tanta pretensão mercadológica. Será muito mais um estudo de vida.” Entre os elementos da musicalidade paraense que o atraem, Edgar cita o carimbó, a guitarra e o saxofone.

    Mas talvez não seja só a música que o leva para lá. “A cidade grande tem me afetado de uma maneira estranha”, ele diz, enquanto falamos sobre um dos principais efeitos colaterais que a vida nas cidades trouxe a ele:

    Violência policial: o inimigo invisível em várias músicas de Edgar

    Um dos trabalhos mais recentemente lançados de Edgar é seu episódio no Goma Sessions (de março/2026), projeto de sessões musicais do diretor Gabriel Cupaiolo no qual Edgar participou juntamente a Sthe e Pancho Trackman, fazendo um freestyle.

    Nesse freestyle, noto notas relacionados a violência policial e conecto com o título da faixa “Cops with guns”, de REWIND.

    Pergunto a Edgar sobre a recorrência desses temas na obra dele, e a reação dele foi muito interessante:

    “Você é a primeira pessoa que identificou isso – na verdade, a segunda; a primeira fui eu. Eu também identifiquei isso, de Universidade Favela (2024) a 10 Gramas (2025).

    Até mesmo no REWIND, ainda há resquícios de um inimigo invisível; um inimigo militar, racista, [resquícios de] um pós-bolsonarismo ou talvez até mesmo de um pré-bolsonarismo… uma repressão silenciosa.

    É como se [esse inimigo invisível] estivesse me cercando. Isso é algo que eu sinto no corpo também. É como um easter egg em obras minhas… Bem louco, esse é um tema que dá até pra levar para terapia, inclusive.

    Faz tempo que não tenho problemas com a polícia, mas esses gatilhos ainda existem, talvez pelo alarme da pele escura.”

    O palavra e o texto como formas

    A obra escrita é veículo fácil para tornar mais claros eixos temáticos como esse que comentamos acima.

    Edgar é um artista de diversas mídias e formas, mas como compositor, rapper e poeta, o texto exerce papel primordial:

    “Tudo nasce do texto. Desenho e texto são muito correlacionados pra mim. O que eu não consigo dizer, escrever, eu desenho. Mas às vezes, até um desenho eu consigo escrever. Eu parto da palavra, e [escrever] às vezes é a mesma dor de um parto.”

    Essa importância é notável em REWIND, como quando Edgar cita a “escrevivência” de Conceição Evaristo na faixa “Mão pro alto”; ou até mesmo na forma de brincar com as palavras em “Zum Zum Zum”, sobre a qual já comentamos anteriormente.

    “Esse jogo silábico [de “Zum Zum Zum”], esse refrão de trás pra frente, vem de quando eu e meu irmão falávamos assim de propósito para nossa mãe não nos entender, mas nessa música, isso age como um lugar seguro de linguagem para as pessoas ouvirem fumando um beck.”

    Foi interessante quando, na entrevista, Edgar citou a fase de sua vida em que se dedicou ao projeto de música instrumental Hotel Shiva, e mencionou ter encontrado em seu contrato com uma gravadora até mesmo uma amarração para esse tipo de música.

    “Quando vi isso, eu pensei: Como eu fico? Eu não escrevo? Não tenho voz? Escrevo pra outra pessoa?” Edgar citou “A voz do dono e o dono da voz”, de Chico Buarque, para descrever o que sentiu nessa época.

    Interessante notar como a privação da palavra afeta até mesmo um artista que se expressa por tantos outros canais.

    Mas em REWIND, Edgar volta a explorar o potencial da palavra de forma mais livre, inclusive em diversas línguas: português, inglês, espanhol, francês; mas nem por isso mais afoita.

    REWIND é um álbum tranquilo, de escuta fácil, com poucos momentos de explosão – como em “Beija e abraça”, momento de pausa no dub para uma ida ao funk -, com melodias e letras que passeiam pela energia dos instrumentais sem muita pretensão de roubar a cena.

    Em sessão-teaser de lançamento de REWIND, disponibilizada em 17/03/26, Edgar apresenta as faixas “Je suis défoncé” e Comme une flèche”, do novo álbum

    “O artista tem uma seta”

    Quando ouvi REWIND, não pude deixar de lembrar do possível crescimento do reggae como tendência que mapeamos para 2026.

    Mas também ficou muito claro que para Edgar, a escolha do reggae para esse projeto brotava de algo muito mais orgânico.

    “REWIND é uma assinatura que poderia ter saído há muito tempo atrás, mas que sai no melhor momento. É um momento mais maduro pra mim e para as parcerias que fazem esse lançamento. Em momento nenhum eu pensei em tendência. E foi engraçado ver o reggae alcançando o zeitgeist, voltando. Isso é importante pra perceber que às vezes, pensar demais no público só atrapalha. O artista tem um faro [no qual] ele precisa acreditar.”

    REWIND é descrito pelo próprio Edgar como um refresh pra si mesmo, mas que, ou pelo menos assim nos pareceu no nosso papo com ele, propicia mensagens que ele deixa para outros artistas também.

    Edgar cita seu amigo Renan Soares, artista visual com quem já trabalhou várias vezes, que diz que “o artista escuta uma música que só ele escuta“.

    E ele replica dizendo:

    “O artista enxerga uma seta que só ele enxerga.”

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  • [Resenha] N.I.N.A. mostra porque é  jogadora cara do rap nacional em O Jogo Virou

    [Resenha] N.I.N.A. mostra porque é jogadora cara do rap nacional em O Jogo Virou

    Foi uma coincidência engraçada a N.I.N.A. subir ao palco do Lollapalooza 2026 (em 21/03/2026), com uma jaqueta homenageando o Flamengo (por cima de um look estampado pela bandeira do Brasil), enquanto corria nas redes sociais uma polêmica sobre a enteada do Jorginho (jogador do time) ter sido esnobada pela cantora Chappel Roan, que seria headliner da noite.

    Mas o contexto real do look usado no show da rapper é que o último EP lançado por ela, O Jogo Virou, é totalmente inspirado pelo futebol brasileiro, pela relação com dela com o Flamengo, seu time do coração, e com as torcidas organizadas.

    O EP é de Outubro de 2025 e o timing para a promoção dele é legal: estamos em ano de Copa do Mundo e tal, e o futebol de Seleção pode não empolgar tanto quanto costumava, mas a relação do Brasil com futebol é um tema que nunca vai envelhecer. Então, mesmo samples repisados como “Baianá” (um clichê moderno da propaganda da alegria e musicalidade brasileiras), que aparece na última faixa do EP (“No campo”), caem muito bem.

    A escolha do tema fica ainda melhor quando considerada em um plano discursivo mais amplo e simbólico.

    O futebol, assim como o rap, ainda é um meio muito masculino. Em O Jogo Virou, a N.I.N.A. fala sobre ter vencido o desafio de se destacar como rapper, ao mesmo tempo em que se desafia liricamente a usar o máximo de referências possíveis a jogos e jogadores de futebol.

    Em todas as faixas, ela se compara com grandes ídolos (homens) do Flamengo, mas com a estrela do futebol feminino Cristiane (também do Flamengo, atualmente) sendo a primeira das referências citadas no EP, na faixa de abertura “Fruto da Várzea”.

    Destaque para a sequência “Levantando a taça” (N.I.N.A. rimando por cima de beat de funk ficou ainda melhor que beat de house e drill, outros estilos que aparecem no EP) e “No campo”.

    Se você gostou da música da artista, encorajamos você a comprar ou pelo menos consumir por meio de canais oficiais da artista para que ela possa ser remunerada.

    Projeto: EP O Jogo Virou

    Artista: N.I.N.A.

    Lançamento: 24/10/2025

    Disponível em: Soundcloud, YouTube, Spotify, Apple Music

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  • Resenha curatorial das melhores críticas curtas sobre Quebradeira Pura de Marcelinho MeteBala no YouTube

    Resenha curatorial das melhores críticas curtas sobre Quebradeira Pura de Marcelinho MeteBala no YouTube

    Eu sou do time que acha que se alguém já disse algo genial e que eu certamente diria, não há por que eu ficar buscando formas diferentes de dizer a mesma coisa.

    Exalto a boa literatura encontrada na Internet por meio do like, repost ou compartilhamento. Faço dos autores os meus procuradores e só me atrevo a coautorar a grande crítica coletiva se eu puder iluminá-la com algo novo, diferente e relevante.

    Dito isso, maravilhada que estou com a qualidade do EP/set/megamix/playlist/projeto/obra musical Quebradeira Pura, do carioca Marcelinho MeteBala, e igualmente com a qualidade dos comentários que li no upload da obra feito no YouTube, hoje a crítica musical que me proponho a fazer será uma colagem das melhores críticas curtas que encontrei lá sobre esse que já é, pra mim, o segundo melhor projeto musical brasileiro de 2026, juntamente com o álbum de Criolo, Amaro e Dino.

    O negócio é tão bom que despertou um senso artístico igualmente acurado dos seus early adopters no YouTube.

    Se Marcelinho MeteBala (seja ele quem for! Quem é? Preciso saber mais) é um grande artista, as pessoas que escreveram os comentários abaixo também são críticos de grande qualidade. Reconhecê-los-ei por meio desta humilde colagem curatorial – à qual, bom, contradizendo-me, não resisti a adicionar alguns comentários também – então vamos chamar de resenha curatorial:

    Projeto: Quebradeira Pura

    Artista: Marcelinho MeteBala

    Lançamento: 10/02/2026

    Disponível em: Bandcamp, Soundcloud, YouTube

    “dadaismo musical brasileiro de qualidade”

    (autor/usuário: @Lenny-qy3zt)

    Belíssimo e acurado enquadramento de Quebradeira Pura na linhagem de escolas e movimentos artísticos.

    Tal como no dadaísmo, Quebradeira Pura é destrutivo, mas intencional. É ruído mas não apenas pelo ruído. Há um resultado autêntico e esteticamente valoroso per se. É extremamente neurótico e visionário a partir de construções sobre fundações preexistentes.

    O projeto se apropria e ao mesmo tempo desconstrói blocos musicais (samples) com inclusão de vocais de funk com letras e melodias que, até onde identifiquei, são inéditas.

    Não parece possível traçar um fio lógico condutor entre a escolha dos samples e bases instrumentais e os vocais e letras; sequer um nexo que justifique os diversos samples e blocos musicais que são colocados juntos.

    Isso é muito típico de produção de música eletrônica periférica brasileira, como em gêneros como o funk e o tecnobrega.

    O Marcelinho MeteBala reproduz essa fórmula para fazer música techno, mas há uma inegável influência do funk também. O funk inclusive aparece mais explicitamente no instrumental de músicas como “Vem Magrinho Sexy” e nos samples dos vocais da cantora Ludmilla em “Trem Bala/Olhei Gostei“.

    Mas Quebradeira Pura tem um quê de antropofagia também, porque muitos dos samples são de músicas estrangeiras. “Desce Gstz” fica no hall de melhores apropriações de “Save a Prayer” do Duran Duran, juntamente com “Oração” de Tonny Brasil.

    “Salvador Dali só que daqui”

    (autor/usuário: @theopsoares)

    Outra tentativa brilhante de ligar Marcelinho MeteBala aos cânones da arte por meio de atalhos semânticos.

    Mais do que um símile elíptico antonomásico, “Salvador Dali só que daqui” é genial não só porque usa de um humor extremamente besta, mas porque, de fato, há um quê de surrealismo daliano em Quebradeira Pura. A comparação não é só um ufanismo de ocasião, ela tem substância.

    “Teoria da internet viva”

    (autor/usuário: @mcgubert)

    Se a teoria da Internet morta credita aos bots e IAs o conteúdo que domina a Internet, Quebradeira Pura é extremamente humano até mesmo no seu excesso de tecnologia.

    Há um limite pra chamar de “aleatórias” as escolhas musicais das faixas: se fosse de fato aleatório, o resultado seria uma obra musical genérica, ou difícil de digerir. Não é o caso!

    Dá pra perceber que há uma mente humana por trás.

    O que pode ser completado com o raciocínio abaixo:

    “inteligência artificial nunca seria capaz de criar uma obra prima dessa”

    (autor/usuário: @Leo-ep6zo)

    Não mesmo!

    Eu até consigo imaginar como seria uma versão IA de um prompt sobre uma megafaixa de techno recheada com samples e vocais de funk, e duvido que sairia tão legal quanto Quebradeira Pura.

    Algumas escolhas aqui só poderiam ser ter sido feitas por um humano que domina o seu ofício.

    “cara disfarçou puro talento com meme e achou que a gente não ia perceberkkkkkk”

    (autor/usuário: @randymoneymaker)

    Pois é, Quebradeira Pura beira o nonsense, mas apesar de ser bem humorado, não se propõe a ser exatamente uma piada. É arte!

    “imagina mostrar isso pra um plebeu da idade media no século 14 durante ápice da peste bubônica” – autor/usuário: @Leo-ep6zo

    “Na epidemia da dança de 1518” – autor/usuário:
    @satiroxobru5884

    Tive que incluir um comentário-resposta porque essa sequência ficou boa demais.

    Quebradeira Pura é basicamente um megamix, não há intervalos, e todas as “divisões” (que chamei de “faixas” anteriormente) são dançantes à sua maneira, então de fato a coisa toda parece um grande transe e seria a trilha sonora perfeita para um episódio maníaco e coletivo de dança.

    “nascido para ser “enviado à 12 anos atrás” forçado a ser “enviado à 2 dias atrás”

    (autor/usuário: @CaiqueDeQueiroz)

    Aqui entra uma reflexão engraçada: Quebradeira Pura tem um quê de EDM do início dos anos 2010 mesmo, mas ao mesmo tempo, é perfeito para a atualidade.

    Logo no início, a faixa “Nova Holanda” me lembra vagamente um instrumental acelerado que sempre toca nos ads de jogo de tigrinho quando uso a versão grátis de alguns aplicativos. O que definiria melhor o Brasil de 2026 do que isso?

    OBS.: Resenha feita a partir de comentários lidos até 01/03/2026, a maioria deles sendo alguns dos primeiros postados assim que o projeto foi upado no YouTube.

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  • 5 EPs que teriam entrado na lista da PopMatters de Melhores Álbuns Pop Brasileiros de 2025 se fossem álbuns

    5 EPs que teriam entrado na lista da PopMatters de Melhores Álbuns Pop Brasileiros de 2025 se fossem álbuns

    (Título confiante pois quem escreveu esse post é a mesma pessoa que faz a lista da PopMatters, kkkkkkkkkk)

    Um dos momentos que mais gosto todo ano é fazer a lista de melhores álbuns pop brasileiros da PopMatters.

    Apesar de não ser tão conhecida no Brasil fora do nicho de fãs de Metacritic, a PopMatters é um veículo bastante respeitado no nicho de jornalismo independente, crítica musical e academia nos EUA. É também um dos veículos onde mais me realizei como escritora, pois sempre tive muitas oportunidades por lá e as Editoras sempre deram um espaço muito legal para a música brasileira, inclusive música brasileira nichadíssima, como o brega paraense.

    Fiquei muito feliz quando, em 2021, propus a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros como parte do evento anual que são as listas de melhores do ano, e as editoras toparam. Desde então, só não fiz a lista em 2022.

    (Sim, existe o lado discutível de se tratar de um veículo estrangeiro querendo dar pitaco sobre o que é o melhor da música brasileira, maaaaaaaaaaaasssssss se quem faz a lista é uma brasileira, então temos legitimidade, não? O veículo é apenas o veículo. Nesse caso, desculpe-me McLuhan, mas o meio é só parte da mensagem. E, se bobear, o fato de eu como brasileira só achar esse espaço em um veículo estrangeiro talvez seja também uma mensagem.)

    Senti que 2025 não foi um super ano para o pop no Brasil. Tivemos grandes álbuns de rap, MPB, música alternativa etc.

    Mas houve sim algumas iniciativas muito grandiosas, como o Rock Doido da Gaby Amarantos (que eu não só resenhei muito fervorosamente, como também coloquei em #1 na lista anual), e alguns projetos menos ambiciosos que eu torci muito para desembocarem em álbuns, pois tenho certeza que entrariam na lista de álbuns.

    Mas não rolou. Muitos desses projetos permaneceram como EPs.

    Eu acho que há certo mérito em manter essa hierarquia entre álbuns e EPs sim, sobretudo conforme produtos musicais vão ficando cada vez mais orientados ao lançamento e consumo rápidos; então, nem me passou pela cabeça propor uma lista de EPs ou qualquer coisa do tipo.

    Mesmo assim, em 2025 ouvi alguns EPs de música pop (e ritmos e linguagens adjacentes) que são legais demais pra não serem destacados.

    Então vou escrever sobre eles aqui.

    Tenho certeza que, se esses EPs tivessem virado álbuns ainda em 2025, meu trabalho de fazer a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros da PopMatters teria sido muito mais difícil.

    Layse – Música Mundana

    Nossa, como eu queria que fosse álbum. Confesso que cheguei a mandar uma DM para a Layse dizendo que daria tempo de fazer isso acontecer e ela arrasar em listas anuais. (Não façam isso que eu fiz! Não estressem o artista. Fui desnecessária, mas é que Música Mundana realmente me empolgou.)

    Esse EP é genial! Brega-cult de uma finesse rara.

    É coerente, bem amarrado, tem uma produção gostosa que exalra brega e tecnobrega de uma forma interessantemente menos megalomaníaca e estridente. Não que o mérito do EP seja em “suavizar” o brega, mas sim, em fazê-lo de um jeito que a gente não está tão acostumado a ouvir, e que ainda assim soou muito legal, sobretudo porque o timbre e jeito de cantar da Layse são mais puxados pra MPB do que pro pop melódico. É uma voz mais Anna di Oliveira do que Viviane Batidão.

    Meu destaque musical vai para “Voando com o J. Som” mesmo; mas meu destaque pessoal vai para “Extrago”. É um brega-bolerinho genial que eu certamente usaria como bio do meu perfil no Orkut, se em vez de “cerveja” a letra falasse em “cachaça”, e se eu bebesse cachaça na época em que ainda existia Orkut. Amei muito a exaltação da mulher poeta que sente prazer na sua própria companhia e se sente vive deliciando a própria companhia na presença de terceiros.

    myha e ILLANES – Furduncim

    Difícil classificar o(s) gênero(s) musical(is) desse EP, mas super encaixo em pop pois acho que a linguagem como um todo é essa. Esse é um trabalho extremamente interessante e notável de uma dupla de produtores de Minas Gerais, que juntos, criaram fusões muito legais de brega, brega funk, forró, piseiro, pagodão, cantos e cantigas, dub, trance, dance/EDM etc.

    Que delícia! Isso é o futuro.

    Aliás, já falei bastante desse EP no artigo 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026, e até ilustrei o artigo com a capa desse EP, pois acho que ele reúne tanta coisa legal que eu sinto como elemento estrutural do pop brasileiro contemporâneo e ao mesmo tempo sintomático do que podemos esperar que cresça em um futuro próximo.

    O fato de o álbum ser aberto por uma parceria com o divertidíssimo e criativo Cabra Guaraná diz muito, diz tudo. Tem um quê de piada, de vinheta, de versão musical de linguagem de Internet às vezes. Por esse motivo eu inseri esse estilo musical no “gênero” colagem eletrobrega.

    Mas sei lá se essa expressão é suficiente, sei lá como definir o som desses caras, só sei que é algo em que devemos prestar atenção e que dá pra curtir horrores.

    (E essa capa ótima? Só ela já mereceria estar em uma lista.)

    DOUM – DOUM

    Não conhecia esse duo de Salvador, mas ando muito entusiasta do que venho chamando de “pop baiano” (e apesar das possíveis limitações do rótulo, eu vou continuar usando porque acho que o pop que tem sido feito por alguns artistas baiano tem peculiariades e um charme específico que merecem sim ser entendidos como um universo à parte), e nesse sentido, adorei o tipo de música que eles fazem.

    É quase MPB, mas pop demais pra isso, tem um suíngue próprio (levemente próximos ao hip hop/trap melódico) e elementos de axé.

    Mas quem ouvir “Querendo Bis” pode achar que DOUM é uma espécie de versão baiana d’Os Garotin.

    Gostem ou não de comparações, meu veredito é que os garotos têm potencial. O EP é uma delícia e cheio de estilo.

    Sofia Pitta – Molho

    É, mais pop baiano, vou fazer o quê?

    Essa cantora é muito boa. Com o crescimento da Rachel Reis e da Melly, acho que um bom espaço pode se abrir pra ela. Não que ela seja uma cópia, mas é certamente do mesmo grupinho. Não é ruim estar em tão boa companhia. Espero que ela saiba explorar isso da melhor forma (pelo que já vi nas redes sociais, ela tem uma forma de se comunicar bem divertida e autêntica).

    Enfim, é aquele som praiano e suingado que grita molho baiano (não à toa o EP é aberto por uma faixa chamada “Molho” mesmo), mas com uma pegada mais suavinha na maior parte do tempo, só com um tempero levemente mais rebolativo em “Vixe Maria.”

    Como a própria Sofia canta em “Tempo voa”: “Um amor com esse calor só se vê em Salvador”.

    Duda Beat – esse delírio vol. 1

    A Duda é complicada, não consigo não me interessar por qualquer coisa que ela lance (exceto, talvez, as “versões”, como a que ela lançou recentemente de “Messy” da Lola Young). Ela, a Pabllo e a Marina são meu sonho de princesa de fã de música pop nacional. É sempre muito difícil não incluir projetos da Duda em listas de melhores porque sempre se destacam entre os demais. São bem feitos, têm personalidade, têm proposta, tem execução legal, têm melodias e letras muito autênticas que não só caminham bem na linha tênue entre alternativo e mainstream: elas desfilam, rebolam, fazem performance sensual nessa linha.

    Esse EP ficou muito bom, traz uma Duda mais próxima àquele lounge pop psicodélico que fez o álbum de estreia dela render comparações com Kali Uchis. Não à toa, tem até collab com a banda de rock psicodélico Boogarins.

    Muita gente achou “Casa” pretensiosa. Eu não achei (mas certamente ainda teria amado se fosse, curto pretensões musicais se o artista pesquisa e sustenta). Eu amei. Amo a Duda experimental.

    O fato de o título do EP mencionar “vol. I” já me deixa feliz. Quero muito conferir o Vol. II e/ou o projeto completo.

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  • A crítica musical é arrogante

    A crítica musical é arrogante

    Minha experiência de resenhar o álbum Lux, da Rosalía, para a PopMatters

    OBS.: Esse “artigo” é uma adaptação de uma legenda de um post do Instagram pessoal da escritora, de 13 de novembro de 2025.

    Às vezes, eu me pergunto se um escritor só pode ser tão bom quanto o objeto de sua escrita. 

    Quase sempre concluo que não. Já li textos que achei brilhantes sobre obras que achei medíocres, por exemplo (e o contrário também). 

    Mas pra quem escreve sobre música, alguns artistas, álbuns, músicas nos inspiram de uma forma diferente. Os textos que nascem daí acabam se tornando alguns dos nossos preferidos.

    ~La Rosalía~ tem sido uma dessas artistas pra mim; e o Lux, último álbum dela, despertou essa vontade gostosa de criar uma obra sobre uma obra, como se o próprio fato de essa obra despertar vontade de escrever sobre ela já fosse, sozinha, uma prova de que é uma obra muito interessante.

    Na verdade, é mais que isso: é também uma ânsia de caçar palavras para tentar criar uma obra brilhante sobre uma obra brilhante.

    (Acho que ainda gosto mais do texto que fiz para a PopMatters sobre Motomami, o álbum anterior da Rosalía… não pela pretensa intelectualidade da “tese” maior que estruturou o texto, mas porque o álbum me fez enxergar uma, espontaneamente, nas escolhas criativas da Rosalía.)

    Pode ser que o meu texto sobre o Lux, último álbum dela, seja mais um texto medíocre sobre uma obra brilhante também.

    Isso não importa muito.

    Mais importam pra mim esses momentos em que algo nos desafia a ter algo relevante a dizer – algo que já não foi dito ou que não seja meramente descritivo; ou, pior ainda, algo que não se resuma a recorrer ao “indescritível”. “Indescritível” é uma expressão quase criminosa para ser usada por uma escritora.

    Por isso, escrevemos. 

    Escrever é ser arrogante o suficiente para contrariar o lugar-comum de que algumas coisas não precisam ser explicadas e apenas sentidas. A crítica musical é arrogante, e é por isso que, mesmo perdendo relevância, ela não morre. 

    A crítica musical é, por natureza, egocêntrica. É escolher a voz de outra pessoa para poder ter voz.

    É egocêntrica como esse post, inclusive.

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