Uma progressão de acordes rara, recursos de melodic answering, e uma melodia quase ostinástica fazem de “Sonho Lindo” um lambadão de composição e produção extremamente inteligentes e elegantes.
A música “Sonho Lindo”, da banda baiana de lambadão Armandinho e os Rubis da Princesa, sempre me fascinou desde que a ouvi pela primeira vez na coletânea Cabaré da Marcinha, em meados de 2003/2004. (Essa coletânea, lançada pelo DJ Luciano em Gurupi, Tocantins – cidade na qual cresci e passei a maior parte da minha vida – merece um estudo e registro próprios. Além de ter feito muito sucesso, apresentou muitas músicas e artistas de forró e brega a Gurupi e região, moldando a cultura popular por bastante tempo no início dos anos 2000. Algum ainda eu ainda vou escrever sobre o Cabaré da Marcinha aqui no Musicazia)
Havia algo muito simplístico na composição dela que sempre me intrigou. Sabe aquela simplicidade que engana? Aquela sofisticação de quem não quer mostrar que é sofisticado, pelo contrário, até quer que você ache que é simples e “fácil”.
Mas não é tanto assim. Há algumas pegadas muito inteligentes na composição e produção dessa música, embora ela pareça básica sob os aspectos melódico e lírico, e pareça de produção pouco elaborada.
Aparentemente, “Sonho Lindo” (assim como boa parte da obra da banda) só chegou às plataformas de streaming em 2020, então você deve achá-la por aí como tendo sido lançada nesse ano, mas não, ela é do início dos anos 2000, provavelmente de 2002 ou 2003, e foi lançada no álbum Vol. 3 de Armandinho e os Rubis da Princesa.
Legal saber que discos como esse, de alcance majoritariamente regional em uma época em que música digital ainda engatinhava, não estão se perdendo; mas nesse processo de “transição”, perdemos algumas informações mais precisas.
Mas segundo o Spotify, e essa informação parece congruente com a história da banda, o compositor de “Sonho Lindo” é Armando Custódio, o próprio “Armandinho” que dá nome à banda. Ele é um dos grandes homenageados desse texto.
Ouvi muito essa música na minha adolescência: o Cabaré da Marcinha fez muito sucesso em Gurupi e a música “Sonho Lindo” era simplesmente a música de abertura de um de seus volumes. Então, quando ela começava a tocar, era como o anúncio do começo de uma festa: a gente já sabia que viria muita coisa legal depois; e eu, inclusive, até decorava a sequência das músicas.
Já mais velha, redescobrindo a música, comecei a pensar em como a melodia dela me lembra as melodias de Rod Stewart, como “I don’t wanna talk about it”. Tem um quê das melodias e estruturas de músicas dos Carpenters também.
Acho que a parte de “Sonho Lindo” da letra “Então vem viver comigo esse sonho lindo” (em 1:27) lembra muito a parte da letra “I can tell by your eyes” (0:14) de “I don’t wanna talk about it”, escute:
Mas “Sonho Lindo” difere dessa pela falta de um refrão bem marcado e de motivos diferentes nas seções. “Sonho Lindo” tem uma certa linearidade, quase um ostinato.
Além disso, há algo menos óbvio na harmonia (que é, basicamente, o “conjunto” de acordes musicais usados na música) de “Sonho Lindo” do que em “I don’t wanna talk about it” do Rod Stewart.
A progressão de acordes de “Sonho Lindo” é formada pelos acordes: C – Dm – F, isto é, Dó maior – Ré menor – Fá maior.
(Especialistas poderão defender outras “versões” dessa progressão, em outras nomenclaturas desses acordes – “enarmonia” – ou em outros tons; mas eu sou bem básica quando o assunto é teoria musical, então vou considerar essa, porque foi o que eu consegui tirar de ouvido no teclado, e quando toco esses acordes no teclado, soa exatamente como a progressão de “Sonho Lindo”. E é o que importa para aqui).
Esta é uma versão reduzida da popular progressão C – Dm – F – G (Dó maior – Ré menor – Fá maior– Sol maior), mas que elimina justamente o último acorde que “resolve” a progressão. Isto é o que se pode chamar de “unresolved chord progression”, ou progressão de acordes não resolvida.
Essas progressões musicais comuns na música popular costumam usar uma estrutura que conduz a um ponto de resolução – geralmente por meio da função dominante (V) —, criando uma expectativa de “conclusão”, “fechamento”. Mas em “Sonho Lindo”, essa expectativa é deliberadamente suspensa. Depois do acorde F(Fá maior), que leva a expectativa lá pro alto, a música volta pro primeiro acorde, C (Dó maior).
Há várias implicações aí.
Primeiro, o fato de a progressão não terminar em um acorde G (Sol maior) a torna rara. Não consegui pensar, e ao pesquisar tampouco encontrei, músicas que usem a progressão formada apenas por C – Dm – F.
Em uma pesquisinha básica usando a modalidade gratuita do site Chord Genome, não achei nada também, achei apenas algumas variações dela, mas nada igual:
A segunda implicação da escolha dessa progressão de acordes para “Sonho Lindo” tem a ver com a sua produção.
A produção é totalmente eletrônica, formada basicamente por:
um beat básico de lambadão eletrônico que se repete durante toda a música;
uma guitarrinha sintetizada que sola algumas vezes, mas que também aparece no “fundo” da música enquanto há vocais;
e um timbre de brass usado para algumas melodias bem pontuais que aparecem sobretudo nos “espaços vazios” quando não há vocais.
Esse brass tem um papel bem importante no storytelling de “Sonho Lindo”: ele complementa as melodias e “anuncia” pequenos clímaxes da letra.
Ou seja: a harmonia de “Sonho Lindo” pode não ter um acorde que “resolva” a progressão, mas as melodias tocadas no brass sintetizado cumpre esse papel de “fechar” clímaxes.
Esses fillers tocados com sintetizadores em momentos de silêncio ou transição são uma técnica chamada de “melodic answering”, e é muito encontrado em músicas do ABBA e outros grupos de europop; e claro, reproduzido em outros gêneros e por outros artistas.
O melhor exemplo desse “melodic answering” em “Sonho Lindo” é quando ele canta:
“Desde quando eu te vi… [BRASS ANUNCIANDO QUE UMA GRANDE NOTÍCIA VAI CHEGAR] eu me apaixonei“.
É muito bom. Ouça em 0:28:
Mas o mais legal é que o “Eu me apaixonei” não é cantado de forma triunfal, pelo contrário, a música retorna pro primeiro acorde, C, com a mesma melodia do começo. O brass faz esse papel mais eloquente, extravagante, para que o cantor siga tranquilo e calmo contando sua história.
E de fato há um compromisso de que a história da música seja contada de forma tranquila.
Quando a vocalista mulher entra na música, cantando “Eu também estou feliz“, ela canta com um calma quase contraditória com o que está sendo contado. Não há euforia na melodia quando cada cantor está contando sua versão da história. A euforia só vem ao final quando eles cantam juntos: “E viva o amor… E viva o nosso amor…” … mas ainda assim mantendo os mesmos acordes. Não é aquela resolução formulaica brega de “ah, agora vamos subir o tom e colocar uma acorde triunfal para celebrar o amor”. Segue calmo, tranquilo.
(Mas você esperaria menor criatividade de uma banda chamada Armandinho e os Rubis da Princesa? Nunca peguei essa referência do que seriam esses rubis da princesa)
Se você gostou da música do artista, encorajamos você a comprar o projeto pelo Bandcamp ou pelo menos consumir por meio de canais oficiais do artista para que ele possa ser remunerado.
Fonte das reproduções/imagens usadas acima:Matéria G1: “Briga entre rato e caranguejo é flagrada em Boa Viagem“; capas de álbuns de Nação Zumbi & Chico Science, e Mundo Livre S/A; reproduções dos perfis no Tik Tok @danilonjr10; @meninodorato; @riccioofc01
Foi inevitável, para mim, assistir a essa cena como uma síntese de duas manifestações culturais produzidas por Recife: o manguebeat e a cultura ratosa.
(Inclusive porque a matéria é de 2025 e foi também em 2025 que a cultura ratosa ganhou certa repercussão para além das fronteiras pernambucanas)
A cultura ratosa é uma cena de MCs, dançarinos e agregados que se reúnem em um esgoto de uma região periférica de Recife para fazer festas e performances de brega funk. O ponto ficou conhecido como Ratos Bar.
Esse grupo representa a si mesmo pela figura do rato. Os participantes se chamam de ratos (ou “ratosos”) também.
Influenciadores e moradores de Recife transformaram um canal de esgoto a céu aberto em ponto de encontro para festas e eventos, denominado “Ratos Bar”.#noticiastiktok#noticias#viral#ratosbar#recife
É de um nível de insalubridade que só pode ser feito de genialidade. Fétido, perigoso, mas também peculiar e criativamente clubístico como a realidade de boa parte dos brasileiros.
Quase dá alegria ver cenas culturais tão particulares e originais surgindo nessa época onde parece que a régua da criatividade só se mede pela capacidade de recombinar o que já foi criado.
Ok, isso que eu acabei de dizer, se tomado literalmente, não é exatamente característico dos tempos atuais; toda cultura ou novidade artística sempre partiu de um repertório anterior.
E inclusive, esse próprio movimento dos ratos também não foge dessa lógica de remixagem e aproveitamento do que já existe por aí, sobretudo no plano musical, já que o gênero musical que domina a cultura ratosa é o brega funk (grande destaque da cultura contemporâneo do Pernambuco).
E ok, é fácil admirar tudo isso à distância, sem precisar pisar no esgoto que sustenta essa cena, quase que como os gringos exoticizam favela e baile funk.
Mas é difícil não se render ao carisma e oportunismo criativo dos ratosos. Há algo artisticamente poderoso nisso tudo.
A imagética dos esgotos e ratos informa todo o lifestyle deles. Eles usam ratos de pelúcia e miniatura nas performances, nas roupas das dançarinas. Eles têm seus próprios códigos culturais usados para demarcar os limites da cena: suas próprias gírias, seus estilos de penteados, e claro, o seu próprio “território”, um bar localizado no esgoto.
Vai além de reciclagem estética.
O fedor, a sujeira e o risco de contaminação deixam de ser apenas contexto e passam a operar como linguagem: uma denúncia das condições precárias de saneamento básico nos territórios onde essas performances acontecem e, ao mesmo tempo, uma afirmação de uma lógica já conhecida nas culturas de favela — a de criar a partir do que se tem, transformando limitação em estética e identidade.
Isso tudo emerge na mesma cidade que, nos anos 1990, deu origem ao Manguebeat, um dos movimentos musicais mais relevantes da história da música brasileira, e por muitos ainda apontado como o último grande movimento musical brasileiro, considerando o sentido mais amplo do termo “movimento”, abrangendo conceito, som, estética e mensagem.
O eixo conceitual do Manguebeat se firmava na figura do caranguejo, figura profundamente ligada aos mangues de Recife.
Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.
(Trecho do manifesto “Caranguejos com Cérebro”, de 1992, texto fundador do movimento Manguebeat, de autoria de Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A)
No Manguebeat, a lama era usada como metáfora para uma inteligência e criatividade que brotavam daquilo que, à primeira vista, parece estagnação.
É, em outra época, outro contexto (embora na mesma cidade), e com outra iconografia, também uma manifestação sobre a capacidade do ser humano – ou, mais especificamente, do recifense – de criar e resistir no meio à sujeira e à falta de fé e de cuidado.
Caranguejos no mangue. Ratos no esgoto. Recife negligenciada mas nunca impotente.
Vejo de novo a reportagem sobre a briga entre o rato e caranguejo e não consigo deixar de achar graça, lembrando do trecho de “Da lama ao caos”, faixa-título do icônico álbum de 1994 de Chico Science e Nação Zumbi:
Vi um caranguejo andando pro sul Saiu do mangue e virou gabiru
(Gabiru é outro nome dado para rato)
Isso não é uma comparação sob o aspecto da qualidade ou potencial representativo.
Até onde sei, a cultura ratosa não chegou pra suceder nem reivindicar nenhum lugar específico entre os panteões da já riquíssima cultura de Recife.
Quando vi o rato e o caranguejo brigando, não pensei em movimentos culturais recifenses tensionados, talvez nem mesmo em uma passagem de linguagem. Quando li sobre o rato querendo comendo comer o caranguejo, pensei muito mais em uma Recife que se alimenta de si mesma.
É uma amálgama da capacidade de Recife de encenar a si mesma por meio de símbolos da sua natureza, e da sua capacidade de gerar cenas artísticas e culturais tão particulares e que, ao mesmo tempo, representam tantas características da vida brasileira que encontramos para além do Pernambuco, inclusive.
Foi uma coincidência engraçada a N.I.N.A. subir ao palco do Lollapalooza 2026 (em 21/03/2026), com uma jaqueta homenageando o Flamengo (por cima de um look estampado pela bandeira do Brasil), enquanto corria nas redes sociais uma polêmica sobre a enteada do Jorginho (jogador do time) ter sido esnobada pela cantora Chappel Roan, que seria headliner da noite.
MINHA ATRIZ DA WEBSÉRIE NO PALCO! Minha quarta graça N.I.N.A subiu no palco do Lolla pra entregar TUDO que ela prometeu (e você com certeza viu aqui nos nossos conteúdos sobre o #LollaBRNaGlobo). É mais talento brasileiro no segundo dia de festival! pic.twitter.com/gkOje3ePGr
Mas o contexto real do look usado no show da rapper é que o último EP lançado por ela, O Jogo Virou, é totalmente inspirado pelo futebol brasileiro, pela relação com dela com o Flamengo, seu time do coração, e com as torcidas organizadas.
O EP é de Outubro de 2025 e o timing para a promoção dele é legal: estamos em ano de Copa do Mundo e tal, e o futebol de Seleção pode não empolgar tanto quanto costumava, mas a relação do Brasil com futebol é um tema que nunca vai envelhecer. Então, mesmo samples repisados como “Baianá” (um clichê moderno da propaganda da alegria e musicalidade brasileiras), que aparece na última faixa do EP (“No campo”), caem muito bem.
A escolha do tema fica ainda melhor quando considerada em um plano discursivo mais amplo e simbólico.
O futebol, assim como o rap, ainda é um meio muito masculino. Em O Jogo Virou, a N.I.N.A. fala sobre ter vencido o desafio de se destacar como rapper, ao mesmo tempo em que se desafia liricamente a usar o máximo de referências possíveis a jogos e jogadores de futebol.
Em todas as faixas, ela se compara com grandes ídolos (homens) do Flamengo, mas com a estrela do futebol feminino Cristiane (também do Flamengo, atualmente) sendo a primeira das referências citadas no EP, na faixa de abertura “Fruto da Várzea”.
Destaque para a sequência “Levantando a taça” (N.I.N.A. rimando por cima de beat de funk ficou ainda melhor que beat de house e drill, outros estilos que aparecem no EP) e “No campo”.
Se você gostou da música da artista, encorajamos você a comprar ou pelo menos consumir por meio de canais oficiais da artista para que ela possa ser remunerada.
Eu sou do time que acha que se alguém já disse algo genial e que eu certamente diria, não há por que eu ficar buscando formas diferentes de dizer a mesma coisa.
Exalto a boa literatura encontrada na Internet por meio do like, repost ou compartilhamento. Faço dos autores os meus procuradores e só me atrevo a coautorar a grande crítica coletiva se eu puder iluminá-la com algo novo, diferente e relevante.
Dito isso, maravilhada que estou com a qualidade do EP/set/megamix/playlist/projeto/obra musical Quebradeira Pura, do carioca Marcelinho MeteBala, e igualmente com a qualidade dos comentários que li no upload da obra feito no YouTube, hoje a crítica musical que me proponho a fazer será uma colagem das melhores críticas curtas que encontrei lá sobre esse que já é, pra mim, o segundo melhor projeto musical brasileiro de 2026, juntamente com o álbum de Criolo, Amaro e Dino.
O negócio é tão bom que despertou um senso artístico igualmente acurado dos seus early adopters no YouTube.
Se Marcelinho MeteBala (seja ele quem for! Quem é? Preciso saber mais) é um grande artista, as pessoas que escreveram os comentários abaixo também são críticos de grande qualidade. Reconhecê-los-ei por meio desta humilde colagem curatorial – à qual, bom, contradizendo-me, não resisti a adicionar alguns comentários também – então vamos chamar de resenha curatorial:
Belíssimo e acurado enquadramento de Quebradeira Pura na linhagem de escolas e movimentos artísticos.
Tal como no dadaísmo, Quebradeira Pura é destrutivo, mas intencional. É ruído mas não apenas pelo ruído. Há um resultado autêntico e esteticamente valoroso per se. É extremamente neurótico e visionário a partir de construções sobre fundações preexistentes.
O projeto se apropria e ao mesmo tempo desconstrói blocos musicais (samples) com inclusão de vocais de funk com letras e melodias que, até onde identifiquei, são inéditas.
Não parece possível traçar um fio lógico condutor entre a escolha dos samples e bases instrumentais e os vocais e letras; sequer um nexo que justifique os diversos samples e blocos musicais que são colocados juntos.
Isso é muito típico de produção de música eletrônica periférica brasileira, como em gêneros como o funk e o tecnobrega.
O Marcelinho MeteBala reproduz essa fórmula para fazer música techno, mas há uma inegável influência do funk também. O funk inclusive aparece mais explicitamente no instrumental de músicas como “Vem Magrinho Sexy” e nos samples dos vocais da cantora Ludmilla em “Trem Bala/Olhei Gostei“.
Mas Quebradeira Pura tem um quê de antropofagia também, porque muitos dos samples são de músicas estrangeiras. “Desce Gstz” fica no hall de melhores apropriações de “Save a Prayer” do Duran Duran, juntamente com “Oração” de Tonny Brasil.
Outra tentativa brilhante de ligar Marcelinho MeteBala aos cânones da arte por meio de atalhos semânticos.
Mais do que um símile elíptico antonomásico, “Salvador Dali só que daqui” é genial não só porque usa de um humor extremamente besta, mas porque, de fato, há um quê de surrealismo daliano em Quebradeira Pura. A comparação não é só um ufanismo de ocasião, ela tem substância.
Se a teoria da Internet morta credita aos bots e IAs o conteúdo que domina a Internet, Quebradeira Pura é extremamente humano até mesmo no seu excesso de tecnologia.
Há um limite pra chamar de “aleatórias” as escolhas musicais das faixas: se fosse de fato aleatório, o resultado seria uma obra musical genérica, ou difícil de digerir. Não é o caso!
Dá pra perceber que há uma mente humana por trás.
O que pode ser completado com o raciocínio abaixo:
“inteligência artificial nunca seria capaz de criar uma obra prima dessa”
Eu até consigo imaginar como seria uma versão IA de um prompt sobre uma megafaixa de techno recheada com samples e vocais de funk, e duvido que sairia tão legal quanto Quebradeira Pura.
Algumas escolhas aqui só poderiam ser ter sido feitas por um humano que domina o seu ofício.
“cara disfarçou puro talento com meme e achou que a gente não ia perceberkkkkkk”
Pois é, Quebradeira Pura beira o nonsense, mas apesar de ser bem humorado, não se propõe a ser exatamente uma piada. É arte!
“imagina mostrar isso pra um plebeu da idade media no século 14 durante ápice da peste bubônica” – autor/usuário: @Leo-ep6zo
“Na epidemia da dança de 1518” – autor/usuário: @satiroxobru5884
Tive que incluir um comentário-resposta porque essa sequência ficou boa demais.
Quebradeira Pura é basicamente um megamix, não há intervalos, e todas as “divisões” (que chamei de “faixas” anteriormente) são dançantes à sua maneira, então de fato a coisa toda parece um grande transe e seria a trilha sonora perfeita para um episódio maníaco e coletivo de dança.
“nascido para ser “enviado à 12 anos atrás” forçado a ser “enviado à 2 dias atrás”
Aqui entra uma reflexão engraçada: Quebradeira Pura tem um quê de EDM do início dos anos 2010 mesmo, mas ao mesmo tempo, é perfeito para a atualidade.
Logo no início, a faixa “Nova Holanda” me lembra vagamente um instrumental acelerado que sempre toca nos ads de jogo de tigrinho quando uso a versão grátis de alguns aplicativos. O que definiria melhor o Brasil de 2026 do que isso?
OBS.: Resenha feita a partir de comentários lidos até 01/03/2026, a maioria deles sendo alguns dos primeiros postados assim que o projeto foi upado no YouTube.
Tenho visto um monte de discussão sobre a reconciliação do Brasil com sua condição de país latinoamericano e o papel que a música tem desempenhado em tudo isso. Esse tema já é objeto de meus escritos para blogs pessoais, Remezcla e PopMatters há um bom tempo, então vou evitar me repetir a respeito.
Mas queria contribuir com uma nova camada às discussões sobre latinidade & música, jogando na roda um gênero musical brasileiro que não tenho visto ser muito citado nelas.
Um pouco de contexto:
Um dos temas mais recorrentes sobre os quais tenho escrito para a Remezcla e a PopMatters desde ~2023 é como o Brasil raramente se considera um país latino, mas também, como isso pode estar mudando lentamente.
Mas com a apresentação do Bad Bunny no SuperBowl, em fevereiro/2026, e mais especificamente com os 2 shows que ele fez em São Paulo nos dias 20 e 21 de fevereiro, podemos dizer que atingimos um novo pico do hype dele no Brasil.
Como desdobramento disso, temos visto uma série de reportagens e conteúdos sobre o impacto que o artista está tendo sobre essa nova onda de reconhecimento do brasileiro enquanto parte da América Latina. “O Bad Bunny fez o Brasil se reconhecer latino“, “Não, não foi o Bad Bunny, mas ele escancarou isso“, “Não, o Norte do Brasil já sabia que era latino muito antes” etc.
Até aí, ok. Nenhuma dessas matérias traz novidades para quem já era fã de música latina em Espanhol. Talvez as matérias que falam das fusões da música caribenha e amazônica estrangeira com a música feita em alguns locais do Norte do Brasil (sobretudo no Estado do Pará) sejam as que mais estejam abrindo alguns olhos de quem já não era atento às cenas musicais desses locais.
Mas o que tem chamado minha atenção são alguns desdobramentos dessas discussões na rede social X, em que se fala sobre outras representações de latinidade menos populares, tais como: a latinidade andina, a cultura do Cone Sul etc. De fato, parece que a latinidade ainda está no imaginário coletivo como associada a sazón, vestido vermelho, flor no cabelo, camisa aberta, dança de par, praia, comida apimentada.
Existem outras representações de cultura latina, e elas podem não se enquadrar tanto assim nesses arquétipos de sensualidade e tropicalidade, porém, nem por isso são menos latinas.
Eu gostei dessas discussões que li no X e gosto da ideia de ampliarmos o escopo do que é ou não entendido como cultura latina.
Então, acho que estamos prontos pra conversar especificamente sobre aspectos da “latinidade brasileira” que não conversam tão bem com o ideal progressista vivido pelos entusiastas da ideia de Brasil latino… (E isso está longe de isso ser um shade; inclusive, eu sou uma dessas entusiastas) …
… como, por exemplo, a latinidade da música sertaneja.
Hype do discurso da latinidade = coisa de esquerda?
Se sob o aspecto estético não é difícil entender os links entre música sertaneja brasileira e outros gêneros latinos (dos quais o de conexão natural mais fácil talvez seja a música urbana mexicana – um brasileiro que gosta de sertanejo certamente vai se sentir “em casa” ouvindo Grupo Frontera, por exemplo), essa discussão pode incomodar um pouco sob o aspecto ideológico.
Obviamente, a identidade latina enquanto objeto de discussão e de estudos não é nem um pouco recente; mas o “hype” (que inclusive já está sendo capturado por marcas e corporações) é ligeiramente recente e é sim uma construção muito fundada em interesses de quem está do lado mais vermelho da força, e está associado com lutas decoloniais, antiimperalistas, e de resistência contra ideais mais conservadores sobre gênero, sexualidade e cultura.
De outro lado, a música sertaneja é frequentemente associada a uma identidade neoliberal, heteronormativa e conservadora, o que o torna quase um tabu em algumas discussões progressistas sobre a cultura brasileira.
Se podemos cravar a “coincidência” temporal de o Brasil estar começando a se entender um pouco mais como um país latino com o terceiro mandato do Presidente Lula, não é coincidência que os movimentos que têm levado a esse entendimento são sim associados à ideia de uma América Latina progressista que luta por retirar a centralidade da cultura europeia e do imperialismo estadunidense.
Mas ideologias à parte, convenhamos: entre todos os gêneros musicais brasileiros que conversam com gêneros criados e popularizados em países latinos de língua espanhola, o sertanejo talvez seja um dos que conversa de forma mais natural e mais ampla com gêneros musicais latinos feitos fora do Brasil. Além de que, em sua essência, ele também guarda elementos em comum e influências de vários desses gêneros.
Isso não é uma defesa nem crítica de nada nem ninguém, é apenas uma constatação que eu faço e quero destrinchar.
As origens do sertanejo falam Espanhol
O bolero e a música ranchera mexicana tiveram um papel relevantíssimo na gênese da música caipira brasileira. Diversas duplas sertanejas começaram cantando esse tipo de música antes de comporem ou gravarem suas próprias “modas”. Sobre isso, destaco um interessante artigo de Danilo Cymrot chamado “Disseram que eu voltei mexicanizado: sertanejo raiz e a incorporação da canção rancheira“;
O sertanejo “popular” nasceu da guarânia paraguaia. A vertente que hoje chamamos de “modão” nada mais é que a guarânia;
Até hoje, a guarânia e o bolero são homenageados na cultura sertaneja quase que como uma reverência às origens.
Para Allan de Paula, a mistura da música sertaneja com gêneros musicais estrangeiros – principalmente o bolero, a rancheira, a guarânia, o rasqueado e a polca – iniciou-se na segunda metade dos anos 1930, intensificou-se na década de 1940 e “tornou-se extremamente visível a partir de 1950”, a ponto de considerar a música sertaneja historicamente “um dos gêneros da música brasileira mais relacionado com elementos estrangeiros” (OLIVEIRA, 2009, p. 296-297). Rosa Nepomuceno descreve a música sertaneja do final dos anos 1950 como uma “confusão de mariachis, sanfonas e violas” (NEPOMUCENO, 1999, p. 147-148).
(CYMROT, 2017, p. 70)
O sertanejo “moderno” conversa com gêneros latinos de língua espanhola de forma muito natural
O sertanejo pós-universitário absorveu a bachata de tal forma que se tornou uma das estéticas mais usadas por artistas do gênero. Não só isso, como se associou à bachata tal forma que Gusttavo Lima (principal expoente do sertanejo bachata) já chegou a ser condecorado pela Embaixada da República Dominicana por promover o gênero no Brasil;
Algumas das primeiras tentativas de reggaeton no Brasil vieram no sertanejo também: Luan Santana colaborando com Enrique Iglesias em “Bailando” (2014), Simone & Simaria colaborando com Sebastian Yatra em “No Llores Más” (2021)…
O cantor Gusttavo Lima recebendo uma condecoração da Embaixada da República Dominicana por propagar a bachata no Brasil. Créditos: Augusto Albuquerque/Divulgação
Então… O sertanejo é o mais latino dos gêneros brasileiros?
Quando uso “latino” como adjetivo para falar de algo brasileiro, não pretendo colocar o Brasil em uma posição de alteridade em relação à América Latina, mas me refiro a um “ideal de latinidade” que parece nortear o nosso imaginário.
Quanto a esse ideal, talvez o sertanejo não seja tão visto como latino quanto a lambada e outros gêneros dançantes paraenses, ou como o samba ou o forró ou outros gêneros “calientes”.
Mas se formos falar de latinidade enquanto conexão, de muitas maneiras, o sertanejo é sim um dos gêneros mais “latinos” que o Brasil já produziu, seja pelas influências de origem, seja pela forma como seguiu incorporando influências conforme se desenvolveu, adaptou e desdobrou em subgêneros e variações.
Em essência, o sertanejo é tão rancheiro e caipira, quanto diversos gêneros latinos profundos mais tradicionais (bolero, guarânia, música mexicana). Em evolução e cooptação industrial, também tem laços e semelhanças com o que se vê na música de banda e regional urbana do México, o vallenato da Colômbia, a bachata da República Dominicana, entre outros exemplos.
A conexão do Brasil com países latinos de língua espanhola, muitas vezes negligenciada ou pouco visibilizada, está evidente em um gênero musical que o país simultaneamente abraça e rejeita.
Faz todo o sentido criticar a lógica comercial que estrutura a indústria musical sertaneja hoje em dia e até mesmo as ideologias sustentadas de forma mais ou menos explícita pelo movimento sertanejo como um todo.
Mas gostem ou não, o sertanejo, em suas contradições e fluidez, nos convida a repensar o que achamos que sabemos sobre a música brasileira e sobre a própria América Latina.
Em entrevista ao PodPah nessa semana, a rapper Nanda Tsunami comentou sobre homens que não escutam músicas dela e de outras rappers mulheres porque “não se identificam” com as letras.
Essa fala despertou reações e discussões muito interessantes que tenho visto nas redes sociais sobre como mulheres sempre ouviram rap masculino falando de traição, ostentação, crime, desejo sexual masculino etc, e nunca exigiram identificação literal para legitimar a escuta.
A discussão sobre quem ocupa o lugar de “sujeito universal” na sociedade é antiga. Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, dizia que o homem é entendido como o humano padrão (neutro, geral, representativo), enquanto a mulher aparecia como o “outro”: específica demais, corporal demais, emocional demais.
Ok, eu entendo que um homem/pessoa sem xota não vai se identificar literalmente com versos sobre xota, menstruação ou mística feminina (e nem precisaria pra curtir a música, mas vou falar disso mais adiante). Mas e quando as minas falam de amor? De rejeição? De insegurança? De esperar mensagem que não chega? Desde quando isso virou assunto exclusivo de mulher?
Quando um homem diz que não se identifica com letras assim, ele não está apenas falando de gosto musical: está delimitando o que considera universal. Essa discussão tem muito a ver com a obra da Nanda Tsunami porque o rap dela está impregnado de temas que são associados majoritariamente à experiência feminina, o que ouvi com muita força no último álbum dela, É disso que eu me alimento (2025).
NandaTsunami ontem no Podpah falou sobre os homens que não escutam rappers mulheres por que “não se identificam” com as letras pic.twitter.com/S4SDczsZ0D
Já fazia tempo que eu queria escrever sobre essa característica de letras de rappers como a Nanda e a Flora Matos, inclusive porque acho que essa foi a tônica do rap feminino em 2025. [Vou tomar um certo cuidado ao expor características gerais do rap e rap feminino para explorar o conteúdo e as nuances do tipo de música que analisarei aqui, porque meu local de fala aqui é limitado – mas de uma maneira geral, excetuadas algumas peculiaridades, muito do que falarei a seguir sobre rap e rap feminino se aplicam a música e arte em geral também.]
Gosto muito do fato de que o rap de artistas como a Nanda e a Flora fala de amores, dores, carências, “assuntos de mulherzinha” mesmo (expressão machista que eu estou usando de forma deliberada justamente pra fazer referência aos temas que acabam caindo na conta das mulheres).
Pode parecer um take meio clichê dizer que as mulheres do rap nacional desafiam padrões quando contrapõem a ideia de vulnerabilidade como fraqueza. E é, mas: (1) é um clichê que vale a pena repetir; (2) abre margem para uma outra discussão sob outro ângulo: a distribuição de sentimentos entre gêneros que ocorre na nossa cultura e o peso simbólico que certos afetos carregam quando associados ao feminino, e como essa associação rebaixa mulheres na hierarquia cultural das emoções, mantendo com os homens o monopólio da neutralidade e das experiências lidas como universais.
PinkPrints e o ano das líricas
[Se você odeia comparações em crítica musical, te peço só um pouco de paciência. Comparar não é reduzir; às vezes, é iluminar. E, quando falamos de hip hop, vejo a comparação como um recurso ainda mais defensável: bem ou mal, o gênero nasceu nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo preservando a lógica da cultura de lá como referência.
Então vamos lá.]
Quando a Nicki Minaj lançou The Pinkprint, em 2014, achei muito foda. Até hoje, é meu álbum preferido dela.
Ressalve-se: é meio problemática a visão da Nicki de sempre se colocar como a versão feminina de algum homem foda (por exemplo, quando ela se chama de “the female Jay” em “Pinkprint Freestyle“). Mas conceitualmente, é extremamente foda a ideia de o álbum ser uma contrapartida feminina do álbum Blueprint (2011) do Jay-Z.
O PinkPrint assumidamente incorpora ou dialoga com vários elementos que são associados ao imaginário feminino ou criticados pela sua mera associação com isso: a cor rosa, as letras sobre amor, relacionamentos etc. É um álbum forte em que a Nicki toca (de maneiras às vezes mais e às vezes menos explícitas) em temas como maternidade, traição, fim de relacionamento, medo de ter seu coração partido, entre outros temas.
Ser mulher não se resume a essas coisas, mas pode envolvê-las sim, e é legal quando uma mulher não tem medo de abraçar esse lado.
Essa abordagem rompe um padrão histórico dentro do rap, em que as mulheres precisavam reforçar a postura “braba” para serem respeitadas e não caírem no estereótipo da mulher “sentimental”. As brabas também amam, sofrem, e são ainda mais brabas por assumir tudo isso.
Se The Blueprint do Jay-Z era quase um manual de grandeza sob códigos masculinos, o The Pinkprint parecia perguntar: e se o blueprint incluir o rosa, o drama, o amor, o sofrimento feminino?
Quando eu ouvi É disso que eu me alimento da Nanda Tsunami, logo o entendi como uma espécie de PinkPrint brasileiro: um álbum que assume corajosamente o papel de protagonista de algumas histórias de amor romântico em que a personagem se fode muito, e que não se esquiva de envelopar tudo isso em uma estética bastante feminina.
Talvez o Eletrocardiograma (2017) de Flora Matos seja um álbum mais adequado para caber nessa comparação. Não só porque veio antes. No Eletrocardiograma, a Flora se expõe até mais que a Nanda, abordando de forma mais alongada e detalhada o seu storytelling sobre amor romântico em que a mulher fica na pior simplesmente por assumir seu desejo.
Maru2D, inclusive, dando ao seu EP o título Bandidas também falam de amor.
Em uma cena em que tantas vezes as mulheres precisaram se masculinizar ou esconder suas vulnerabilidades e seus gostos de “mulherzinha” pra ganharem respeito, quase n’uma postura que mira no empoderamento e acerta no reforço da misoginia, ver essas artistas usando o hip hop pra falar de amor, dor & romance é muito, muito foda.
A Flora é uma das poucas rappers que têm um público masculino razoavelmente expressivo mesmo falando de amor romântico, de vulnerabilidade e adotando uma estética lírica meio exotérica com grande naturalidade.
E o que a Nanda entregou em músicas como “Pq vc não me liga?” foram crônicas íntimas que poderiam estar nas páginas de uma revista feminina como Claudia ou Capricho; e falo isso sem o menor pudor de estereotipar um ou outro. É texto sobre vivência feminina, feito pra mulher ouvir e se identificar.
Confesso que eu teria gostado ainda mais de “Pq vc você não me liga?” se a narrativa tivesse permanecido na dor crua, sem precisar escorregar para o empoderamento pobre do Rule Number 2 to be a boss ass bitch.
Tudo bem que é um storytelling que prende, e musicalmente, é bem feito: a mudança do beat é muito legal e o verso final inacabado é genial. Mas conceitualmente, a música já estava muito forte enquanto retratava “apenas” os questionamentos do eu-lírico.
Longe de isso ser uma crítica à Nanda, porque o impulso da vingancinha é sentimento muito genuíno que muitas mulheres têm quando são sacaneadas pelos caras. Mas no fundo, eu ainda queria muito que nós mulheres legitimássemos nossa força no fato de sentir dor mesmo, e depois superar mesmo, ou não, e seguir a vida, mas sem ter que recorrer à nossa posição de ser sexual e desejável como certificado imediato de poder.
Enfim… aqui estou eu criticando uma postura recorrente das músicas da Nicki Minaj e marcante da música da Nanda justamente após tê-las usado de referência. A contradição também marca o discurso feminino, porque em verdade, marca a experiência de ser humano.
E aliás, é nesse ponto que eu quero entrar pra explicar boa parte do meu incômodo com a discussão sobre homens não ouvirem rap feminino sob a justificativa de não se identificarem com as letras escritas por mulheres.
O rap feminino é visto como nichado demais porque a vivência feminina também é
A mulher não se torna sujeito universal no rap, na literatura, na arte em geral, porque não pretende ser neutra. O que acontece no rap “de mulher” é outra operação: a mulher se afirma como sujeito situado. Não como universal abstrato, mas como centro da própria narrativa.
Quando um homem diz que “não se identifica” com rap feminino que fala de experiências de mulheres, mas nunca precisou se identificar biologicamente para ouvir rap masculino, ele está reproduzindo a lógica de que arte feita por homens é lido como experiência humana geral, enquanto a arte que representa experiências de mulheres é nichado, específico, “delas”.
O desconforto de alguns homens diante do rap feminino não se dá apenas por falta de identificação, mas também, pela perda da posição confortável de centro.
Identificação não precisa ser literal, nem completa. Identificação não necessariamente é espelhamento.
Mulheres sempre aprenderam a se identificar com narrativas masculinas porque foram socializadas a considerar o masculino como referência geral. Homens, por outro lado, muitas vezes não foram treinados a fazer o movimento inverso.
Isso é cultural.
E é algo ainda mais problemático quando a gente deixa de considerar assuntos afetos à materialidade de um corpo feminino, e passa a pensar também em assuntos culturalmente associados ao gênero feminino.
É extremamente forte a forma como Flora fala da posição vulnerável em que se colocou nas músicas do Eletrocardiograma. Não é uma vulnerabilidade performática. É tão honesta que poderia ser desconfortável se não fosse a dignidade e até o certo orgulho com que a Flora fala a respeito (e o flow e entrega dela tornam tudo melhor). Quando a gente canta, a letra se torna forte, não soa como uma coitada falando.
Se a Flora consegue fazer isso tão bem, por que é tão raro ver homens falando sob esse mesmo ponto de vista?
Eu tenho idade suficiente pra me lembrar de como era o hip hop pré-Drake. É claro que já existia hip hop mais melódico e que falava de amor romântico antes dele, mas era bem raro o rap “confessional” masculino nesse sentido.
O Drake popularizou o arquétipo do sadboy no rap. A geração mais nova talvez nem se lembre de um hip hop em que isso não fosse comum. Mas mesmo essa melancolia masculina costuma vir protegida, parte de outro olhar, parece que é uma vulnerabilidade menos vulnerável.
Não consigo me lembrar de letras de rap masculino em que o cara assume que foi otário, ou se assume como o rejeitado, o trocado. Além disso, no rap masculino, quando um homem sofre porque não foi correspondido, ele raramente precisa se defender preventivamente contra a acusação de ser “dramático demais”. Quando mulheres falam disso, existe sempre o risco simbólico de virar estereótipo.
Em “Pq vc não me liga?”, a Nanda Tsunami fica procurando hipóteses para o cara não ter procurado ela. É de uma coragem e honestidade gigantescos ela se questionar até mesmo sobre seu corpo, seu peso e o quanto isso pode ter impactado o interesse do cara por ela (sem contar que ela ainda se aproveita disso pra fazer uma metáfora extremamente foda).
Alguém aí consegue imaginar um rap de homem com letras em que o eu-lírico se questina se talvez foi rejeitado porque a mina não curtiu tanto assim o corpo dele? (Não vou nem perguntar se alguém imaginaria uma música de um rapper homem sofrendo porque a mina não curtiu o tamanho do pau…)
Claro que não estamos pedindo por nada tão explícito (mas se quiser, pode); mas é evidente que o nível de franqueza e vulnerabilidade no rap masculino é bem mais baixo que o encontrado no rap feminino. Isso não prova que homens não sentem insegurança, mas mostra que, culturalmente, dificilmente são encorajados a falar disso nos mesmos termos abertos e reflexivos que as mulheres no rap têm feito.
E, vale destacar: no hip hop, performar força e confiança tem um peso bem diferente do que tem em arte que surge em contextos historicamente menos afetados pela desigualdade e exclusão social. Mas isso não muda o fato de que os estereótipos de gênero também atravessam esses espaços e definem quem pode ser vulnerável sem pagar um preço simbólico alto demais por isso.
Se eu fosse mais magrinha pros seus braços darem a volta Talvez seria mais difícil pra você conseguir ir embora
Esse site se propõe a falar de música, mas é difícil não fazer um paralelo entre arte e vivências pessoais.
A falta de arte feita por homens que reflete o mesmo nível de vulnerabilidade que encontramos em arte feita por mulheres reflete algo muito mais estrutural: na nossa sociedade, ainda é da mulher o trabalho de processar o sentimento.
Mulheres não só sentem, elas precisam sustentar a legitimidade do que sentem.
Talvez por isso a frase “não me identifico com letras de mulheres” irrite tanto.
O que incomoda não é só o fato de os caras não quererem consumir trabalho de mulher, ouvir voz de mulher, apoiar mulher. O que incomoda é ver que os caras se recusam a participar desse trabalho emocional coletivo que hoje em dia é atribuído somente à mulher.
A gente quer esses sons circulando fora da bolha feminina. A gente quer que os caras escutem música sobre TPM, xota, lace, maquiagem. A gente quer que esse repertório circule normalmente entre os nichos dos caras e que eles escutem histórias sobre isso sem se sentirem deslocados.
Mas a gente também quer que quando essas músicas falem sobre carência, insegurança, ciúmes, sentimento de insuficiência, elas não sejam tratadas como nicho. Eu não queria que essas dores e a coragem de falar delas continuassem ficando só nas nossas costas.
Porque, por mais que a mulher esteja no centro dessas narrativas, muitos desses sentimentos não são exclusiva ou essencialmente femininos. Só foram classificados como tal.
(Título confiante pois quem escreveu esse post é a mesma pessoa que faz a lista da PopMatters, kkkkkkkkkk)
Um dos momentos que mais gosto todo ano é fazer a lista de melhores álbuns pop brasileiros da PopMatters.
Apesar de não ser tão conhecida no Brasil fora do nicho de fãs de Metacritic, a PopMatters é um veículo bastante respeitado no nicho de jornalismo independente, crítica musical e academia nos EUA. É também um dos veículos onde mais me realizei como escritora, pois sempre tive muitas oportunidades por lá e as Editoras sempre deram um espaço muito legal para a música brasileira, inclusive música brasileira nichadíssima, como o brega paraense.
Fiquei muito feliz quando, em 2021, propus a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros como parte do evento anual que são as listas de melhores do ano, e as editoras toparam. Desde então, só não fiz a lista em 2022.
(Sim, existe o lado discutível de se tratar de um veículo estrangeiro querendo dar pitaco sobre o que é o melhor da música brasileira, maaaaaaaaaaaasssssss se quem faz a lista é uma brasileira, então temos legitimidade, não? O veículo é apenas o veículo. Nesse caso, desculpe-me McLuhan, mas o meio é só parte da mensagem. E, se bobear, o fato de eu como brasileira só achar esse espaço em um veículo estrangeiro talvez seja também uma mensagem.)
Senti que 2025 não foi um super ano para o pop no Brasil. Tivemos grandes álbuns de rap, MPB, música alternativa etc.
Mas houve sim algumas iniciativas muito grandiosas, como o Rock Doido da Gaby Amarantos (que eu não só resenhei muito fervorosamente, como também coloquei em #1 na lista anual), e alguns projetos menos ambiciosos que eu torci muito para desembocarem em álbuns, pois tenho certeza que entrariam na lista de álbuns.
Mas não rolou. Muitos desses projetos permaneceram como EPs.
Eu acho que há certo mérito em manter essa hierarquia entre álbuns e EPs sim, sobretudo conforme produtos musicais vão ficando cada vez mais orientados ao lançamento e consumo rápidos; então, nem me passou pela cabeça propor uma lista de EPs ou qualquer coisa do tipo.
Mesmo assim, em 2025 ouvi alguns EPs de música pop (e ritmos e linguagens adjacentes) que são legais demais pra não serem destacados.
Então vou escrever sobre eles aqui.
Tenho certeza que, se esses EPs tivessem virado álbuns ainda em 2025, meu trabalho de fazer a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros da PopMatters teria sido muito mais difícil.
Layse – Música Mundana
Nossa, como eu queria que fosse álbum. Confesso que cheguei a mandar uma DM para a Layse dizendo que daria tempo de fazer isso acontecer e ela arrasar em listas anuais. (Não façam isso que eu fiz! Não estressem o artista. Fui desnecessária, mas é que Música Mundana realmente me empolgou.)
Esse EP é genial! Brega-cult de uma finesse rara.
É coerente, bem amarrado, tem uma produção gostosa que exalra brega e tecnobrega de uma forma interessantemente menos megalomaníaca e estridente. Não que o mérito do EP seja em “suavizar” o brega, mas sim, em fazê-lo de um jeito que a gente não está tão acostumado a ouvir, e que ainda assim soou muito legal, sobretudo porque o timbre e jeito de cantar da Layse são mais puxados pra MPB do que pro pop melódico. É uma voz mais Anna di Oliveira do que Viviane Batidão.
Meu destaque musical vai para “Voando com o J. Som” mesmo; mas meu destaque pessoal vai para “Extrago”. É um brega-bolerinho genial que eu certamente usaria como bio do meu perfil no Orkut, se em vez de “cerveja” a letra falasse em “cachaça”, e se eu bebesse cachaça na época em que ainda existia Orkut. Amei muito a exaltação da mulher poeta que sente prazer na sua própria companhia e se sente vive deliciando a própria companhia na presença de terceiros.
myha e ILLANES – Furduncim
Difícil classificar o(s) gênero(s) musical(is) desse EP, mas super encaixo em pop pois acho que a linguagem como um todo é essa. Esse é um trabalho extremamente interessante e notável de uma dupla de produtores de Minas Gerais, que juntos, criaram fusões muito legais de brega, brega funk, forró, piseiro, pagodão, cantos e cantigas, dub, trance, dance/EDM etc.
Que delícia! Isso é o futuro.
Aliás, já falei bastante desse EP no artigo 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026, e até ilustrei o artigo com a capa desse EP, pois acho que ele reúne tanta coisa legal que eu sinto como elemento estrutural do pop brasileiro contemporâneo e ao mesmo tempo sintomático do que podemos esperar que cresça em um futuro próximo.
O fato de o álbum ser aberto por uma parceria com o divertidíssimo e criativo Cabra Guaraná diz muito, diz tudo. Tem um quê de piada, de vinheta, de versão musical de linguagem de Internet às vezes. Por esse motivo eu inseri esse estilo musical no “gênero” colagem eletrobrega.
Mas sei lá se essa expressão é suficiente, sei lá como definir o som desses caras, só sei que é algo em que devemos prestar atenção e que dá pra curtir horrores.
(E essa capa ótima? Só ela já mereceria estar em uma lista.)
DOUM – DOUM
Não conhecia esse duo de Salvador, mas ando muito entusiasta do que venho chamando de “pop baiano” (e apesar das possíveis limitações do rótulo, eu vou continuar usando porque acho que o pop que tem sido feito por alguns artistas baiano tem peculiariades e um charme específico que merecem sim ser entendidos como um universo à parte), e nesse sentido, adorei o tipo de música que eles fazem.
É quase MPB, mas pop demais pra isso, tem um suíngue próprio (levemente próximos ao hip hop/trap melódico) e elementos de axé.
Mas quem ouvir “Querendo Bis” pode achar que DOUM é uma espécie de versão baiana d’Os Garotin.
Gostem ou não de comparações, meu veredito é que os garotos têm potencial. O EP é uma delícia e cheio de estilo.
Sofia Pitta – Molho
É, mais pop baiano, vou fazer o quê?
Essa cantora é muito boa. Com o crescimento da Rachel Reis e da Melly, acho que um bom espaço pode se abrir pra ela. Não que ela seja uma cópia, mas é certamente do mesmo grupinho. Não é ruim estar em tão boa companhia. Espero que ela saiba explorar isso da melhor forma (pelo que já vi nas redes sociais, ela tem uma forma de se comunicar bem divertida e autêntica).
Enfim, é aquele som praiano e suingado que grita molho baiano (não à toa o EP é aberto por uma faixa chamada “Molho” mesmo), mas com uma pegada mais suavinha na maior parte do tempo, só com um tempero levemente mais rebolativo em “Vixe Maria.”
Como a própria Sofia canta em “Tempo voa”: “Um amor com esse calor só se vê em Salvador”.
Duda Beat – esse delírio vol. 1
A Duda é complicada, não consigo não me interessar por qualquer coisa que ela lance (exceto, talvez, as “versões”, como a que ela lançou recentemente de “Messy” da Lola Young). Ela, a Pabllo e a Marina são meu sonho de princesa de fã de música pop nacional. É sempre muito difícil não incluir projetos da Duda em listas de melhores porque sempre se destacam entre os demais. São bem feitos, têm personalidade, têm proposta, tem execução legal, têm melodias e letras muito autênticas que não só caminham bem na linha tênue entre alternativo e mainstream: elas desfilam, rebolam, fazem performance sensual nessa linha.
Esse EP ficou muito bom, traz uma Duda mais próxima àquele lounge pop psicodélico que fez o álbum de estreia dela render comparações com Kali Uchis. Não à toa, tem até collab com a banda de rock psicodélico Boogarins.
Muita gente achou “Casa” pretensiosa. Eu não achei (mas certamente ainda teria amado se fosse, curto pretensões musicais se o artista pesquisa e sustenta). Eu amei. Amo a Duda experimental.
O fato de o título do EP mencionar “vol. I” já me deixa feliz. Quero muito conferir o Vol. II e/ou o projeto completo.
(Título gigante e nada SEO-friendly porque não nos importamos. Por outro lado, nós nos importamos com a regra de que em título não se coloca ponto final)
Veja bem, o reggaeton está longe de estar morto, mas precisamos encarar os dados: não foi ele o gênero que mais brilhou na cena latina em 2025.
Quem acompanha o nicho consegue citar alguma música de reggaeton candidata a “canção do ano” de 2025?
As principais candidatas a canção latina do ano, na minha opinião, sequer eram músicas de reggaeton.
“Baile Inolvidable” do Bad Bunny é uma salsa. “DtMF” é uma plena. “La Plena” do Beéle é, olha só!, uma plena também. Bom, “Latina Foreva” da Karol G é reggaeton mas é̶ ̶r̶u̶i̶m̶ curiosamente, “Si antes te hubiera conocido” de 2024 foi a música dela que mais seguiu bombando. E é um merengue, não um reggaeton.
A ausência de um hit em 2025 que seja claramente um reggaeton sugere uma mudança: o gênero que outrora impulsionou o boom da música latina não é mais um hitmaker automático.
Por um lado, eu sinto mesmo que o ano de 2025 foi diferente para a cena musical latina. Não só o reggaeton, mas nem mesmo a música mexicana, corridos tumbados etc geraram muitos hits entre a comunidade latina em 2025.
A cena musical latina não esfriou, de modo algum, mas me pareceu ter… outra energia. Mais lenta, talvez? Um perreo mais suave, com toques até mesmo de resgate histórico. Afinal, salsa e plena, gêneros dos principais hits latinos do ano e que informaram grandes álbuns do ano como o do Bad Bunny, Rauw Alejandro e Nathy Peluso, são gêneros mais tradicionais e carregados de história. Faz todo o sentido, pois 2025 foi sim um ano em que o orgulho latino vibrou forte na cultura pop, o que imagino que tenha sido impulsionado por uma reação ao discurso fortemente xenofóbico do Trump contra latinos e imigrantes.
Eu também me pergunto se a “baixa” do reggaeton em 2025 foi um efeito dominó do DtMF, do Bad Bunny, que foi lançado logo no início do ano. Não seria a primeira vez que algo que o coelhão lança nos primeiros dias do ano dita o tom de como o resto do ano vai ser. Ao resenhar o álbum para a PopMatters, eu escrevi:
Se você precisa de uma referência do que é um “momento cultural”, pense no (ou conheça) fenômeno que Bad Bunny criou com álbuns como Un Verano Sin Ti (2022). Ele não só quebrou recordes de streaming e gerou vários hits, como o álbum também se tornou uma marca. Coincidência ou tendência, até mesmo a cor laranja que inspirou a estética da capa do disco e a música house de “El Apagón” se tornaram tendências de moda e música, respectivamente, em 2022.
Claro, DtMF tem bastante reggaeton (inclusive a minha preferida do álbum, “KETU TeCRÉ”, é reggaeton), mas inegavelmente, as estrelas do álbum não são os reggaetons. A música-título do álbum é uma plena, e intrigantemente, logo depois do lançamento uma outra plena explodiu no mundo levando o nome de nada menos que “La Plena” (do colombiano Béele).
Será que a plena foi o reggaeton de 2025?
Eu não sei até que ponto a ausência de grandes hits de reggaeton em 2025 diz algo sobre a indústria da música latina em si, ou se sobre a indústria musical como um todo.
Pois assim como sinto que foi um ano peculiar para a música latina, foi um ano diferentão para a música como um todo, não? Fora da música latina, que super mega hits massivos tivemos, daqueles que tocam em todo todo lugar? Talvez “Abracadabra” da Lady GaGa, somente? Talvez “Gnarly”, do KATSEYE; e mais ao fim do ano, chegou “The fate of Ophelia” da Taylor Swift.
No Brasil, tivemos sim alguns hits de sertanejo, pagode, funk. Mas é interessante o quanto chamou a atenção ao final de 2024 o fato de uma música do grupo de pagode Menos é Mais desbancar hits de sertanejo e funk no charts do Spotify Brasil; e o grupo continuar performando bem nos charts em 2025.
A hegemonia do sertanejo e funk nas paradas gerais do Spotify parecia difícil de quebrar, e essa quebra foi consolidada justamente em 2025, com a música “P do Pecado” (colaboração do Menos é Mais com Simone Mendes) quebrando o récorde de música que passou mais tempo em #1 no Spotify.
Vi vários posts de redes sociais e matérias em veículos musicais sobre a ausência de hits de verão nos EUA e Europa; ou, ainda, sobre como as músicas de maior sucesso no pop não eram mais aqueles pop chicletes e dançantes. Bridget Brown escreveu para a AP News, em matéria publicada em 05/09/25:
(…) neste verão, as praias parecem mais tranquilas. As playlists parecem sem rumo. As ondas de rádio não estão sendo dominadas pelas músicas animadas e fáceis de cantar junto de sempre. Onde está a nossa música do verão?
(…) nas últimas 14 semanas, e contando, o primeiro lugar tem sido ocupado por uma balada romântica: “Ordinary”, de Alex Warren.
(…) como é que a balada romântica de Warren se manteve confortavelmente no topo das paradas durante praticamente todo o verão?
Em uma análise mais macro, Hanna Kahlert escreveu para o Midia Research, em matéria publicada em 26.08.2025, sobre a dificuldade de citar “momentos culturais” que definiram o ano de 2025, e sobre como isso, na verdade, reflete uma dificuldade de toda a década de 2020:
Ao ultrapassarmos a metade da década de 2020, os efeitos da descentralização digital tornaram-se mais evidentes.
(…) A cultura dominante em 2025 existe – mas não de uma forma fácil de comercializar ou que seja amigável para as marcas (a menos que você seja a Coinbase). Como resultado, temos mensagens semi-subversivas em lugares fora do circuito comercial, enquanto as grandes empresas disputam paletas de cores e frases de efeito perfeitas. Em resumo, não são apenas os algoritmos os culpados pela ascensão de nichos e pela ausência de gritos de guerra que definam nossa era. É porque os verdadeiros momentos definidores da década de 2020, que sustentam sua cultura, são quase impossíveis de serem explorados por grandes instituições sem comprometer seus resultados financeiros.
Talvez tenha sido só um “break” no que vinha rolando desde 2020.
Mas parece mesmo que 2025 foi uma espécie de ano de transição, o que até faz sentido, considerando que é basicamente o ponto da metade da década.
(Capa do EP Furduncim, de myha e ILLANES, lançado em 2025. Escolhi essa capa para ilustrar o artigo sobretudo porque há ma música nesse EP que sinto que sintetiza vários elementos que mapeio nesse artigo: forró, reggae, cantos e cantigas, eletrônico etc… É a “Trem de Dub”)
Eu adoro previsões e mapeamento de tendências!
Claro que nem sempre acerto (e claro que esse tipo de análise sempre é um pouco enviesada), mas gosto do exercício. Gosto de tentar captar sinais ainda difusos que parecem dialogar com algo maior e tentar entender quais ideias estão mais propícias a germinar em determinado momento. Já falei sobre isso no meu artigo Flora Matos e a desvantagem do piloto.
Ao longo de 2025 e também nesses primeiros dias de 2026, mapeei alguns caminhos que me parecem especialmente promissores para a música brasileira nesse ano.
Quis, especificamente, identificar gêneros “novos” ou emergentes — a ideia aqui não foi dizer que o funk, o pagode etc vão continuar em alta, mas sim, tentar identificar coisas razoavelmente novas que podem começar a crescer, mesmo que não atinjam seu ápice em 2026.
Ao organizá-los, notei várias interseções e pontos em comum, tanto que tive dificuldade de separar alguns. O acordeão do batidão gaúcho e os sintetizadores do noia dance têm a ver com o tribal guarachero; o reggae e suas vertentes aparecem como pano de fundo ou beat principal tanto do arrocha reggae quanto do funkhall etc. Elementos como esses aparecem de formas diferentes nos gêneros que selecionei.
Após o exercício de identificar, separar gêneros que compartilham elementos em comum, “nomear” , cheguei a 13 gêneros.
O que vem abaixo não é um ranking nem uma profecia cravada: é só um retrato possível de um momento em formação.
Seguem meus palpites sobre 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer em 2026, sem ordem particular de “relevância”, preferência, nem nada:
Noia dance
Arrocha reggae / Seresta reggae
Manguebeat (revival contemporâneo) / tecnocangaço
Funkhall / Funk dancehall
Art pop / Art pop folk
Brega latino
Tribal guarachero (talvez com outro nome)
Colagem eletrobrega
Slow deconstructed funk (algum nome mais interessante e original deve surgir)
Cumbia brasileira
Cantos ancestrais e/ou tradicionais no pop
Batidão gaúcho
House mandinga / Afro-lounge brasileiro
Vamos conhecer melhor cada um deles.
Noia dance
O que é:
Música eletrônica que mistura dutch house, funk e até alguns elementos de moonbathon e outros gêneros urbanos de inspiração afrolatinas.
Costuma ter uma melodia de buzininha ou um hook feito com algum tipo de sintetizador (Na primeira vez que escutei noia dance, a primeira coisa que essas melodias das buzininhas me trouxeram à mente foi o hookzinho de guitarra que o Pharell Williams colocou no instrumental do remix de Boys que ele fez para a Britney Spears).
Onde surgiu: Criado nas periferias de Porto Velho, Rondônia, no Norte do Brasil, na década de ~2010, mas ganhando maior relevância por volta de 2024.
Onde já está rolando: Forte em Porto Velho-RO e começando a ganhar outros Estados por meio do TikTok. Apesar de ainda estar muito abaixo do radar nacional, o noia dance já circula amplamente no ambiente digital.
Além disso, segundo reportagem do G1 Rondônia, em 2025 o noia dance chegou a mais de 150 países, um dado que diz muito sobre como cenas periféricas conseguem hoje furar fronteiras sem necessariamente passar pelo centro do mercado brasileiro.
Em quem prestar atenção: Zequinha Oliveira, Felipe Morais, Yuri Lorenzo e outros DJs do Canal Remix
Quem pode levar adiante essa tendênciapara o resto do Brasil: Naturalmente, os DJs e produtores rondonienses — mas além deles, acredito que outros DJs de fora do Estado que estão em nichos parecidos têm potencial. O DJ Guuga, por exemplo, tocou noia dance quando se apresentou em Porto Velho em 2025 e aparentemente já está lançando coisas nesse estilo:
Também aposto que o DJ Lorran sustentaria um noia dance.
E claro, quando o ritmo começar a estourar a bolha, deve chegar ao Pedro Sampaio, haha
Projeções abertas e comentários finais:
Se 2025 foi marcado pelo destaque da música eletrônica periférica paraense (sobretudo o tecnobrega e o rock doido), 2026 pode ser o ano em que o Brasil passe a reconhecer também criações eletrônicas periféricas vindas de outros estados da região Norte.
O noia dance é muito divertido e dialoga muito bem com vertentes mais lúdicas e despretensiosas do funk brasileiro — especialmente aquelas ligadas à zoeira, ao humor etc, como o passinho do romano do Rio de Janeiro; ou ao funk MTG de Minas Gerais. Acho que tem um potencial bem grande de fazer sucesso no Brasil todo.
Essa é uma oportunidade excelente de Rondônia lançar para o Brasil uma tendência cultural pra chamar de sua — e uma chance para o Brasil finalmente conhecer algo da região Norte que não seja Pará nem Amazonas.
Arrocha reggae / Seresta reggae
O que é:
Arrocha, seresta, brega etc com influências bem marcadas de reggae e cultura rasta no canto e nas letras, não só nas batidas.
Onde surgiu:
É razoável cravar a bandeira no interior da Bahia, mais especificamente em Feira de Santana, porque é de lá que vem o projeto Seresta do Rasta, protagonista do estilo.
Aliás, a Bahia também é a terra onde nasceu o arrocha, então faz sentido.
Onde já está rolando: No Nordeste, em zonas onde forró, arrocha, seresta e reggae convivem há décadas.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O próprio Seresta do Rasta, Nadson Ferinha, Cleiton Rasta, Bruxo
Quem pode levar adiante essa tendência:
Artistas que têm transitado bem na seresta e no arrocha-brega romântico, como Klessinha e Yasmim Sensação.
Em um nível mais mainstream, achei que o ritmo tem a leveza e bom humor que artistas como o Nattan e Grelo sustentariam bem, e talvez o próprio João Gomes, que já está conversando um pouco com reggae.
Projeções abertas e comentários finais:
O arrocha reggae ou seresta reggae é uma mistura que conecta pontos extremos do Nordeste: o reggae que faz sucesso no + o arrocha da Bahia, mas que tem tudo pra ganhar o Brasil.
Com certeza pode crescer ainda mais no no Pará, onde o reggae já é abraçado e o brega já é um estilo de vida: vai casar perfeitamente.
Forró, piseiro e arrocha são vetores naturais dessa fusão, especialmente por sua força no interior do país; mas acredito que o gênero também tem um potencial “praiano” muito forte e pode extrapolar o litoral nordestino.
Manguebeat (revival contemporâneo) / tecnocangaço
O que é:
Versões contemporâneas do manguebeat e até infusionadas com elementos de outras regiões agrésticas do manguebeat, como o tecnocangaço, termo criado pelo produtor Limaothesound.
Onde surgiu: O manguebeat surgiu em Pernambuco, nos anos 1990, com Chico Science & Nação Zumbi. Mas nos últimos anos,
Onde já está rolando: Pernambuco e Alagoas, mais como chamado simbólico do que como cena consolidada.
Em 2025, surgiram lançamentos que retomam o espírito do manguebeat sob uma ótica contemporânea, misturando referências originais com pop e produção atual, como o álbum de estreia dos pernambucanos Barbarize, que reimagina o manguebeat à luz do funk, dance, reggaeton etc.
Além disso, o alagoano Limaothesound criou a sua própria versão contemporânea da mistura do tropical com agreste: “tecnocangaço”.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O duo pernambucano Barbarize, o produtor alagoano Limaothesound, o coletivo tocantinense Masterholic.
O manguebeat pode ressurgir não apenas como um resgate nostálgico, mas como uma nova cara da música nordestina (e adjacentes — já que citei o Tocantins) que mantém vivo seu passado de disrupção musical e inovação vinda do sertão, ao mesmo tempo em que dá a tudo isso uma nova cara.
Funkhall / Funk dancehall
O que é:
Autoexplicativo: é a fusão do nosso funk brasileiro com batidas de dancehall (gênero jamaicano).
Onde surgiu: Em São Paulo, mas como fusão digital e transnacional também. Pioneirizado pelo Pump Killa, que é um dos principais nomes do dancehall no Brasil e se define hoje como “Soldado do Funkhall“.
A fusão de funk & dancehall enquanto um gênero só ganhou maior destaque agora no ano de 2025, sobretudo a partir do lançamento da mixtape Funkhall Vol. 1, da Rua B Records.
Onde já está rolando: Entre os principais ouvintes da Rua B Records estão São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba.
Mas por meio do YouTube, Spotify, TikTok, o funkhall já até extrapolou as fronteiras brasileiras. Alguns estrangeiros o chamam de brazilian dancehall funk.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência Yuri Redicopa, DJ Seth, e claro, Pump Killa
Quem pode levar adiante essa tendência Artistas de pop e funk que transitam bem entre esses territórios do funk brasileiro e gêneros de origem jamaicana.
Em um âmbito mais mainstream, apostaria no Mc Cabelinho, que inclusive já está abertamente se dedicando ao reggae, com o lançamento de “Rastafari” em 2025.
O funkhall também tem muito potencial no pop (pense em algo do tipo “Pon de Replay” da Rihanna mas mais puxado pro funk), por meio de artistas como a POCAH (que inclusive aparece no EP Funkhall Vol. 1, na faixa “Lindo com dinheiro”) e a IZA, que sempre foi influenciada pelo reggae e aparentemente o terá como inspiração principal em seu próximo álbum.
Projeções abertas e comentários finais:
Acho que podemos ver coisas muito interessantes vindas de produtores de funk atentos às tendências globais e artistas que já dialogam com reggae e dancehall.
Mais uma vez, o reggae aparece como matriz que se infiltra e gera novos híbridos.
Art pop / Art pop folk
O que é:
Estética musical da música pop com uma ambição de experimentação artística.
Onde surgiu: Artistas como a Duda Beat já têm trabalhado essa proposta desde sempre, com destaque para o álbum Te Amo Lá Fora (2022). Em 2025, álbuns internacionais como Lux (da espanhola Rosalía) e Elíade (da chilena Javiera Electra) podem ser referências.
Onde já está rolando: No Brasil, ainda aparece mais como intenção estética do que como “gênero” ou cena consolidada.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência
Duda Beat (já é o principal nome do gênero/movimento, na minha opinião);
Gaby Amarantos, Urias (o álbum Purakê de 2021 da Gaby, e o álbum Carranca de 2025 da Urias, já são um pouco disso);
Liniker (está n’um momento de consolidação como estrela pop e já se provou como excelente compositora; não me espantaria se quisesse sofisticar também as suas produções cada vez mais ou torná-las mais experimentais);
Julia Mestre, Ana Frango Elétrico (embora sejam um pouco mais indie, já trabalham com essa proposta também, e podem crescer).
Quem pode levar adiante essa tendência: Artistas pop midstream e mainstream interessados em sofisticar arranjos, melodias e conceitos visuais, aproximando a música pop de uma lógica mais contemplativa, quase museológica.
Sobretudo, e com certeza, a Duda Beat.
Projeções abertas e comentários finais:
Essa é uma aposta ainda preliminar, mas coerente com o momento de refinamento pelo qual passa o pop brasileiro. Nos últimos anos, tivemos álbuns pop brasileiros bastante ambiciosos e glamurosos; e é natural esperar que artistas que lançaram esses álbuns queiram “subir cada vez mais o nível”.
Brega latino
O que é:
Híbrido que explora conexões entre ritmos brasileiros de “sofrência” e dança a dois (como o brega, arrocha, sertanejo, piseiro) e ritmos latinoamericanos de estética similar (como bachata, corrido, reggaeton), inclusive podendo conter letras em espanhol.
Onde surgiu:
Sobretudo no Norte, Nordeste e Centro Oeste, os gêneros locais sempre se fusionaram com outros ritmos de países sulamericanos, caribenhos e mexicanos:
o Pará e o Amapá ouvem cumbia, bachata, salsa, merengue;
o Maranhão ouve reggae;
a axé music bebe da rumba;
o arrocha baiano se assemelha à bachata;
o sertanejo abraçou a bachata e tem raízes na guarania e na música urbana mexicana.
De 2022 pra cá, sinto que esse intercâmbio Brasil+outros países latinos está se intensificando, somado a uma narrativa de que o Brasil está se redescobrindo como parte da América Latina. Isso está se refletindo na música.
Onde já está rolando: Nas regiões citadas acima: no arrocha, no brega contemporâneo, em versões latinas de músicas brasileiras como as que têm feito as venezuelanas Estefany e Gabriely.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência Di Paulla El Nuevo (tocantinense que faz uma mistura muito interessante e bem humorada de piseiro, salsa, reggaeton, brega); Lucas LM (brasileiro que canta em espanhol); as venezuelanas Estefany e Gabriely (que fazem versões interessantes de músicas sertanejas e bregas brasileiras em espanhol, mas também cantam originais em português); MC Papo e Dedé Santaklaus(que em 2025 lançaram um álbum que se propõe a reunir o funk mineiro com os corridos mexicanos e o sertanejo brasileiro, Modão Malado).
Interessante acompanhar como isso pode se manifestar também no pagode e outros gêneros menos obviamente conectados com a música dos nossos hermanos.
Quem pode levar adiante essa tendência: No pop: Pablo Vittar, Anitta, Marina Sena, Leoa, que já bebem muito de fontes latinas
No brega paraense/tecnobrega: praticamente todo e qualquer artista, né? Pois “brega” e “latino” já são parte estrutural da música feita lá.
No pagode: Menos é Mais, que recentemente lançou versões de sucesso de músicas latinas como “UN X100TO” (do mexicano Grupo Frontera com participação de Bad Bunny) e o clássico “Corazón partío”.
No axé/pagodão baiano: Ivete Sangalo, Psirico, Tony Salles (que inclusive lançou muito recentemente uma faixa que interpola o clássico cubano “Guantanamera”)
No sertanejo: Ana Castela (que já faz uma ponte interessante, apesar de esporádica, com o reggaeton e a guarania paraguaia), Zé Felipe (que vai lançar uma música com a colombiana Karol G em breve), Gusttavo Lima (que, de certa forma, já faz isso)… mas honestamente, qualquer outro artista sertanejo que fizer bem feito também tem potencial. O sertanejo é um dos ritmos que mais efetivamente absorve e amplifica esse tipo de fusão (o que foi provado com a expansão da bachata por meio do Gusttavo Lima), e ele guarda uma conexão e ponte muito orgânica com alguns desses gêneros, como a música mexicana, por exemplo. (Fico triste pensando no quanto a Marília Mendonça poderia ter sido gigante no México)
No forró/arrocha/piseiro: Mari Fernandez, Felipe Amorim, Natanzinho Lima, Henry Freitas. Essa mistura vai combinar muito. Um exemplo que gostei muito foi a música abaixo (e que inclusive está entre as 50 mais viralizadas em Portugal no momento em que escrevo esse artigo, em 11/01/26):
Projeções abertas e comentários finais:
Aqui eu vou ter que me conter pra não escrever demais. Sou uma grande entusiasta das misturas de gêneros latinos de língua espanhola com os gêneros nascidos no Brasil, sobretudo os gêneros populares do Norte e Nordeste. Inclusive, em 2023, escrevi um artigo chamado 9 ideas to break Spanish-language music in Brazil, e uma dessas 9 ideias era explorar essa conexão entre gêneros desses locais.
Acho que está começando a rolar.
Também não posso deixar de analisar essa tendência sob o aspecto sociopolítico também.
De um lado, a fusão de gêneros musicais brasileiros com gêneros latinos de países de língua espanhola tem um viés muito impulsionado por artistas e fãs de música associados a uma discurso mais progressista sobre latinidade, irmandade latinoamericana e decolonialidade.
Mas o potencial da fusão é tão grande que provavelmente pode ser impulsionada até mesmo por artistas e fãs que não compartilham desse discurso.
Como eu disse acima, o sertanejo, que não é exatamente um aliado progressista, tem um poder enorme de furar bolhas e já tem um histórico de intercâmbio com gêneros latinos.
Tribal guarachero (talvez até mesmo com outro nome)
O que é:
Música eletrônica com elementos de gêneros musicais locais de origem indígena e afro.
Onde surgiu: Na América Latina, a partir da mistura de guaracha, cumbia e música eletrônica, tendo como ápice músicas como “Pepas” do Farruko.
Onde já está rolando: Fora do Brasil, especialmente em cenas eletrônicas latinas; e gradualmente crescendo na cena eletrônica do Brasil também.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: João Lágrima de Ouro, mary d
Quem pode levar adiante essa tendência: Produtores e DJs brasileiros que saibam incorporar instrumentos e referências locais e criando uma versão genuinamente brasileira dessa estética.
Acredito que há potencial de muitos hits grudentos do tipo “Stereo Love” se soubermos fazer isso de um jeito bem brasileiro.
No tribal guarachero feito na Colômbia, por exemplo, o acordeão (que também é típico do europop, dance romeno etc) da cumbia fez bastante sentido.
Será que no Brasil faríamos algo com o acordeão do forró, por exemplo? Ou talvez algo no estilo do “Movimento da Sanfoninha” da Anitta mas mais puxado pro dance music? Ou talvez as metaleiras dos paredões de forró, piseiro, quebradeira?
Projeções abertas e comentários finais:
Certa vez, no Trends Brasil Conference 2023, ouvi o compositor Pablo Bispo dizer uma coisa que me marcou: “o Brasil sempre vai passar a sua régua (sobre tendências e estilos de fora)”. Quando o Brasil absorve algo de fora, faz do seu próprio jeito. Estou curiosa para ver como o tribal guarachero pode passar por esse processo por aqui.
Embora alguns DJs brasileiros já trabalhem usando essa expressão, acredito que novos nomes podem surgir para o tribal guarachero no Brasil.
Colagem eletrobrega
O que é:
Mistura de brega, tecnobrega, forró, piseiro, pagodão etc com batidas de dance music, house music e letras e samples puxadas para a comicidade e malandragem.
Seria um eletrobrega mais debochado, com influências de cultura de Internet, uma estética desconstruída feita de colagens (vinhetas, samples, ou simples inserções de hooks que soam “aleatórios”), com pegada bem-humorada das letras e da proposta de fazer um certo tipo de piada ou deboche.
Onde surgiu: O eletrobrega é presente há anos no Pará e no Nordeste, em versões híbridas, consolidados por nomes como a Banda Uó, Gang do Eletro etc.
Mas a vertente que prevejo agora é menos melodicizada, com menos estrutura de composiçã pop, com uma proposta mais recortada, com colagens, vocais não cantados.
Onde já está rolando: Em cenas de festas com proposta brega, brasilidade profunda e bem humorada, como a festa Baile da Cabra e a festa Furduncim.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O DJ Cabra Guaraná e o duo myha & ILLANES.
Quem pode levar adiante essa tendência: Artistas pop com identidade regional forte e gêneros populares dispostos a absorver novas influências.
Certamente, Pabllo Vittar, Viviane Batidão e Gaby Amarantos são bons nomes; elas já exploram esses ritmos e têm lançado letras cada vez mais bem humoradas, irreverentes e debochadas que casam com essa proposta.
Projeções abertas e comentários finais:
O eletrobrega ao qual me refiro aqui é aquele tipo que parece ter nascido como mero mashup de Internet feito pra causar riso, mas acaba virando música legal de verdade.
As produções do DJ Cabra Guaraná são exatamente isso, mas ele está ficando cada vez melhor.
No EP Furduncim (2025) dos produtores myha e ILLANES, eu vejo uma proposta musical menos voltada para o humor, mas que eu também não encaixaria em outros gêneros mapeados aqui. Inclusive, “Trem de dub” sintetiza várias das tendências que mapeio nesse artigo: forró com reggae, cantos e cantigas, acordeão de guarachero etc… Mas há sim um certo humor, deboche, nas letras das faixas que têm vocais.
De uma forma geral, esse eletrobrega explora a raiz eletrônica de muitos gêneros populares (como o brega, arrocha etc tocados em teclado) mas puxam suavemente para a dance music de pista.
O risco desse gênero é não ser tão evergreen; as vinhetas e colagens das faixas, que conversam muito com cultura de Internet, podem não se sustentar bem no médio e longo prazo. Mas no presente, são um retrato muito legal de um Brasil que não relega esse tipo de música à categoria de guilty pleasure.
Slow deconstructed funk (algum nome mais interessante e original deve surgir)
O que é:
Funk mineiro e/ou funk com batidas desmontadas em um bpm mais lento e vocais emo. Algo como a faixa “Baile do Bruxo”, do EP financiado por Ronaldinho Gaúcho, mas talvez mais lento.
Onde surgiu: Não é um gênero consolidado ainda, é muito mais um caminho que visualizo que pode ser traçado e que tem origens no funk mineiro, funk MTG e no Brazilian phonk.
Onde já está rolando: Minas Gerais e fora do Brasil também… Curiosamente, o DJ e produtor da faixa que linkei acima, 4kbatu, é turco.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: DJ WS da Igrejinha; DJs e MCs mineiros e do funk underground de São Paulo.
Quem pode levar adiante essa tendência: Acho que o Mc Livinho se daria super bem, tem os vocais adequados pra isso.
Projeções abertas e comentários finais:
Sendo bem sincera, o universo do funk é tão grande que às vezes me perco; são tantas variantes, subgêneros, nichos que é difícil acompanhar.
Mas para essa possível tendência, em especial, estou apostando nas versões mais lentas desse estilo de funk levemente melódico e sombrio que se popularizou em Minas Gerais, e que tenho ouvido se propagar em versões lentas:
Cumbia brasileira
O que é:
Não há muito o que dizer. É a cumbia nascida na Colômbia, mas feita com o tempero brasileiro.
Onde surgiu: Já se faz cumbia no Brasil há algum tempo, sobretudo no Pará. Também se destaca a banda pernambucana Academia da Berlinda, cuja “Cumbia da Praia” (2011) é um dos exemplares brasileiros mais populares do gênero; e o BaianaSystem, que mistura a cumbia com guitarra baiana, rock e outros gêneros.
Onde já está rolando: Em cenas regionais no Norte e Nordeste (com foco no Pará, Bahia e Pernambuco) e em festas e eventos do nicho de cumbia que têm crescido em São Paulo e em todo o Brasil.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O Cheiro do Queijo, Leoa, Felipe Cordeiro, Saulo Duarte, Felix Robatto, Mari Jasca, Amanda Magalhães, Samuca e a Selva, Moiacumbia.
Quem pode levar adiante essa tendência: Obviamente, BaianaSystem e artistas paraenses que já têm ou estão alcançando renome nacional, como Gaby Amarantos e Joelma.
Para um vetor mais pop, artistas mais abertos a latinidades, como a Marina Sena e Rachel Reis.
E eu não me espantaria de ouvir cumbia no sertanejo também (Marilia Mendonça já regravou “Cumbia do amor”…) ou na fusão com MPB por meio de artistas como o Seu Jorge (cujo último álbum, Baile à Baiana, bebeu bastante dessas latinidades dançantes como o merengue e a rumba) ou Luedji Luna (que flertou com esse estilo em “Banho de folhas”).
Projeções abertas e comentários finais:
Em 2024 e 2025, países sulamericanos como Colômbia e Peru se agarraram à cumbia quase que como um manifesto tanto de resgate quanto de propagação.
Alguns nichos até espalharam a frase “cumbia is the new punk”, puxados pela música de mesmo título, da banda Son Rompe Pera.
Outro grande marco desse novo mini boom da cumbia foi a inclusão dos pioneiros da cumbia amazônica, os peruanos Los Mirlos, no festival Coachella em 2025, que impulsionou a carreira da banda entre novas gerações e gerou colaborações com Adidas e Johnnie Walker.
Com essa cena crescendo em âmbito macro, vi algo similar ocorrendo no Brasil: mais pessoas se interessando por cumbia, mais DJs e festas de cumbia surgindo (destaco a festa Cumbieros, em Curitiba), e artistas incluindo isso no seu som também.
Acho que a tendência é crescer, com cada vez mais nuances de brasilidade — o que, entre artistas baianos, eu já vejo por meio da agregação da guitarra baiana. Estou curiosa para ver o que outros artistas vão incorporar também.
Cantos ancestrais e/ou tradicionais no pop
O que é:
Melodias dos cantos e cantigas oriundos de tradições e/ou religiões populares do Brasil sendo usados, como sample ou parte estrutural da composição, em músicas de artistas pop.
São cantos agrícolas, cantos religiosos (como pontos de umbanda), cantos de aboio, cantos indígenas, cantos de boiadeiro etc… Ou seja: cantigas que vêm do sertão, da fazenda, da floresta, do terreiro, que representam o Brasil profundo, e que não têm necessariamente uma destinação performática específica ou uma autoria rastreável, e que são marcados por vocais mais retos, não melismáticos.
Onde surgiu: Eu traçaria essa tendência de volta até o álbum de 2022 da Duda Beat, Te amo lá fora, que é aberto por uma faixa que segue essa proposta: “Tu e eu”, influenciada por coco e que conta inclusive com Cila do Coco como colaboradora.
Onde já está rolando: Em 2025, destaco o álbum do pernambucano Gomes e a faixa “Ai Ai, meu Deus”, em colaboração com As Ceguinhas de Campina Grande.
De certa forma, dá pra destacar também o remix “Copo de Veneno”, da DJ Meury, que usa vocais de um ponto de umbanda para fazer uma produção de tecnobrega. A ideia é essa mesmo: usar esses vocais mais retos, não essencialmente cancioneiros, em produções pop.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O pernambucano Gomes, DJs e artistas experimentais atentos ao folclore e à ancestralidade.
Quem pode levar adiante essa tendência: Artistas pop mainstream ou alternativos que já dialogam com tradição popular, como Duda Beat, Juliette, Kaê Guajajara, Gaby Amarantos, Daniela Mercury.
Projeções abertas e comentários finais:
Esse movimento dialoga com uma tendência global de resgate folclórico reinterpretado à luz do presente.
“É uma tendência global, na Espanha por exemplo tem um movimento muito forte de folclore regional trazido aos dias de hoje, muitos grupos: o galego Baiuca, o asturiano Rogrigo Cuevas, os cántabros Casapalma, muitos grupos em Castilla e muitos na Andalucía e por todo o território, fazendo música contemporânea com seus próprios folclores. É muito interessante e no caso do Brasil vai ser incrível, com essa riqueza cultural inmensa!” – @ireneatienza_musica (sic)
Concordo que há uma tendência de resgate do tradicional e que isso pode influenciar cada vez mais nossa música pop.
Mistura de música tradicional gaúcha com dance music e diversas vertentes da música eletrônica.
Esse comentário aqui do YouTube no vídeo linkado acima trouxe uma definição engraçadíssima: “Uma mistura de Gaúcho da fronteira com Genival Lacerda no ritmo DJ Malboro“
Onde surgiu: Rio Grande do Sul, em uma tentativa de fazer música gaúcha que chegasse também a jovens, crianças, e com uma pegada bem humorada.
Onde já está rolando: Em todos os Estados da região Sul do Brasil, e também em São Paulo.
A música “Mega Répi do Guasca”, do Xirú Missioneiro, viralizou no TikTok e no Youtube (onde acumulou mais de 3 milhões de visualizações em 1 mês); já extrapolou as fronteiras do Rio Grande do Sul, chegando inclusive a Portugal.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O próprio Xirú Missioneiro.
Quem pode levar adiante essa tendência:
Duplas sertanejas do Rio Grande do Sul, DJs e artistas gaúchos.
Projeções abertas e comentários finais: Esse gênero me parece o que teria ocorrido se o “Ai se eu te pego” de Michel Teló tivesse encontrado exatamente o tipo de EDM que fazia sucesso na época em que ela estourou.
Acho que tem um potencial interessante para a região Sul, toda a região comum da cultura pampa do Cone Sul, e até algumas interseções com o vaneirão e sertanejo.
(Interessantemente, quando ouvi o “Mega Répi do Guasca” me lembrei um pouco de “Descer pra BC”, acho que são estilos que conversam.)
House mandinga / Afro-lounge brasileiro
O que é:
Diálogo entre ritmos de origem africana, música eletrônica minimalista e estética lounge. Talvez uma versão mais chill daquilo que muita gente já chama de “afrobeat brasileiro”.
Onde surgiu: Tenho sentido isso mais forte agora na década de 2020, com o surgimento de artistas como a Melly, Yan Cloud e Rachel Reis, que transitam entre o R&B e o afrobeat, pagodão baiano, ijexá etc.
Onde já está rolando: Bahia e Rio de Janeiro, principalmente.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O grupo Mandinga Beat.
Quem pode levar adiante essa tendência: Aposto muito na Flora Matos como possível exploradora desse território. Ela já é bastante ligada em afrobeat, amapiano, pop e R&B afro, e faz conexões bastante interessante desses gêneros com gêneros baianos e percussão afro.
Acho que Deepkapz também tirariam de letra.
Projeções abertas e comentários finais:
Esse estilo mais chill lounge, lentinho, suave, como pano de fundo para estilos musicais bastante característicos de uma região já é uma tendência mundial.
Vejo isso no afrobeat (músicas calminhas como “Dream Girl” e “Slow Down”, que foram sucesso mundial) e também no hip dut (gênero indonésio que mescla o bedroom trap com o dandgut, gênero tradicional do país). Em menor escala, sinto que isso também está acontecendo ou em vias de acontecer com o gênero plena, que teve um boom em 2025 por causa do álbum DtMF do Bad Bunny e das músicas do colombiano Béele.
Com certeza, a “versão brasileira” disso teria um pezinho no terreiro, nos elementos musicais das religiões de matriz africana, e nas percussões de gêneros da negritude, como o axé, o pagodão etc. Pensei em algo como uma versão ainda mais lenta e minimalista de “Praia do Futuro” do BaianaSystem com Seu Jorge.
Bônus: 2 gêneros que *não* são emergentes mas que podem ter um boom em 2026
Reggae
Tudo indica que pode viver um novo pico de relevância em 2026, seja como gênero principal, seja como matriz de fusões (como de fato é em vários dos gêneros mapeados que identifiquei acima).
Alguns sinais apontam para isso:
Em 2025, o reggae voltou a ganhar força em lineups de festivais de música e no pop mainstream, impulsionado tanto por artistas consagrados do gênero (como Edson Gomes e Núbia) quanto por cantores populares que passaram a flertar com sua batida;
Inclusive no mercado latino fora do Brasil, o reggae tem sido motor de alguns hits: enquanto escrevo esse artigo, a música “La Villa” (colaboração de Kapo e Ryan Castro que enfatiza o reggae de REGGAEton) está em #1 no Spotify da Colômbia;
No Brasil, artistas como IZA e Mc Cabelinho lançaram projetos de reggae em 2025. A IZA, em especial, continua investindo no gênero e tudo indica que seu próximo álbum terá esse foco;
Segundo o Spotify Brasil, o Brasil foi o segundo país do mundo que mais ouviu reggae em 2025, somando mais de 5,5 bilhões de streams por aqui; com um aumento especial entre junho a novembro, de 41%,;
Esse aumento cria terreno fértil não só para o próprio gênero em vertentes mais puras brilhar ainda mais; mas também para se mesclar e informar outras variantes. Aliás, como meu amigo Julio Aguiar bem humoradamente me lembrou (de uma forma despretensiosa, mas que eu enxergo como pedacinho de sinal), a colaboração entre IZA e João Gomes no show da virada 2025/2026 em Copacabana já sinaliza um possível caminho que vem sendo confirmado por outros lançamentos e movimentos: a união do reggae com o forró, piseiro etc. Não à toa, mapeei o seresta reggae/arrocha reggae como tendência.
Um outro sinalizador que vejo como potencializador do crescimento do reggae é o potencial turístico de São Luís, capital do Maranhão onde o reggae é um dos gêneros reis. Vejo um movimento interessante de conhecimento e interesse nessa cidade, e não me espantaria se em breve ela tivesse um mini hype similar ao que Belém do Pará vem tendo.
Dance / EDM melódico
“2026 é o novo 2016”, muita gente tem dito. É engraçado ouvir esse tipo de coisa: há algum tempo, o EDM e dance music de 2010-2016 eram certo motivo de piada, considerado “farofa”, cafona etc. Hoje, existe uma certa nostalgia por esse tipo de música.
Acredito que o momento é propício para um revival desse tipo de música eletrônica com estrutura de canção pop, algo no estilo David Guetta mas com uma pegada brasileira.
De certa forma, alguns dos gêneros que mapeei acima já respondem a isso (tribal guarachero, eletrobrega etc).
E de certa forma, o Pedro Sampaio já faz algo assim também. Mas também acredito que a “volta” desse dance e EDM com canção pop seria algo mais puxado para o Alok do que para o funk.
Ou talvez seja um dance com conversas mais orgânicas com outros gêneros brasileiros que já são mais próximos dele, como o tecnomelody. Acredito que a cantora paraense Carol Lyne possa representar algo assim.
Já tivemos divas pop que tentaram emplacar esse tipo de EDM pop por aqui e não deu tãoooooo certo, mas acho que com um toque mais particular, mais abrasileirado de uma forma natural, como as músicas da Carol Lyme, pode vingar.
Apresentação do projeto Vereda no Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnaval do Tocantins. Créditos da imagem: @cyberj0n
Costumo dizer que ser tocantinense é ser oficialmente nortista, com origem centro-oestina e comumente confundido com nordestino.
Pra falar a verdade, o Tocantins é um pouco de tudo isso aí mesmo. Talvez, justamente por isso, nunca seja entendido por inteiro – isso quando é lembrado! Dizem que o Acre é o Estado mais misterioso do Brasil, mas ele pelo menos é lembrado por ser esquecido; e quem se lembra, costuma saber que ele fica no Norte do Brasil. Já o Tocantins…
… é Estado pequeno, jovem, ainda tentando aprender a se narrar. Centrado no mapa do Brasil, e ainda assim, parece passar despercebido.
Vou passar a falar na primeira e na terceira pessoa do plural.
É difícil descrever nossa cultura porque ela não se encaixa confortavelmente no ideário de nenhum dos muitos Estados com que faz fronteira (Goiás, Mato Grosso, Pará, Bahia, Maranhão, Piauí).
Não somos meros reprodutores da cultura goiana, Estado de onde veio nosso terreno.
Também não temos muito a ver com os demais Estados da região Norte – na verdade, somos os esquisitões da região; nossa cultura, nossas paisagens e até nosso sotaque não se parecem com os do Pará, do Amazonas, do Amapá, de Rondônia, de Roraima ou do Acre.
Somos sertanejos, indígenas, quilombolas. Somos herdeiros do cerrado, mas com cuscuz no prato; e entoamos gírias e expressões que carregam o humor e a prosódia paraense, maranhense, baiana.
Cena capturada no Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnaval do Tocantins. Créditos da imagem: @cyberj0n
Gosto de como a nossa identidade vem sendo descrita por produtores culturais da nova geração: cerrado-amazônica. A Amazônia é, sim, parte da nossa paisagem (sobretudo no norte do Tocantins) e nossa posição geopolítica nos coloca nesse contexto.
Mas a nossa relação com a identidade nortista é complicada.
Os belíssimos rios do Tocantins são de um azul e verde bastante diferentes da paleta amazônica. Por aqui, não há aquele ventinho úmido nem aquela atmosfera ribeirinha que combina tão bem com as levadas de guitarra do brega saudade. Aqui, há poeira e secura em vez da umidade amazônica; e a tropicalidade é de um calor pesado, quase punitivo. O sol que entra pela janela parece disposto a quebrar as barreiras da sua alma e se alojar dentro de você. Os ipês parecem florescer apesar em vez de por causa. Os pés de manga fornecem sombra que não é exatamente fresca, mas é sombra.
Fico pensando em como tudo isso pode se refletir na arte tocantinense.
Para mim, é quase inevitável a relação entre o nosso clima, a nossa paisagem e a nossa arte.
Aliás, qual é a nossa arte? Qual é o som do Tocantins? Quem sabe que tipo de música é feita no Tocantins?
Na verdade, talvez nem o próprio Brasil saiba o quanto o Brasil ouve o Tocantins. Do Tocantins vêm os artistas mais ouvidos do país: Henrique & Juliano. Eles colecionam bilhões de streams e há muitos anos lideram paradas de sucesso. Em 2025, foram os artistas mais ouvidos no Spotify Brasil.
Do Tocantins também vem o duo pop Anavitória, que no início da carreira se descreviam como “pop rural”, uma definição que combina com essa melancolia ensolarada, com esse romantismo de estrada quente e horizontes largos do interior daqui.
No Tocantins, naturalmente, também há várias outras duplas e sertanejas. (Quando fui digitar essa frase, sem querer escrevi “certanejas”. O que parecia só um erro ortográfico tosco acabou virando uma pista: esse sertanejo que nasce no cerrado tem mesmo algo de certão, de chão rachado, de sobrevivência, do C que crava, não do S sinuoso e leve.)
Hoje, o Tocantins já tem sua própria cena pop também, com artistas como a Duda Ruas.
Mas o Tocantins “raiz”, os gêneros genuinamente tocantinenses (como a suça, ou súcia/sussa/tão diversamente grafada quanto unicamente nossa), o Tocantins negro, o Tocantins quilombola, por exemplo, talvez só tenha chegado ao radar nacional agora, para quem presta atenção em nomes como o Paulo Vieira, que falou de tudo isso ao participar do podcast do Mano Brown e da Semayat Oliveira, e que incluiu a canção “Nóis é jeca mais é joia“, de Juraildes da Cruz (gravada por Genésio Tocantins), na série do Globoplay Pablo e Luisão.
Essa música é genial. Seu arranjo traz essa mistura caipira e forrozesca que situam bem o Tocantins como coração-eixo do cerrado e agreste. Já a letra caçoa de quem caçoa da suposta baixa intelectualidade do indivíduo do interior:
“Andam falando que nóis é caipora Que nóis tem que aprender inglês Que nóis tem que fazê sucesso fora Deixe de bestagem, nóis nem sabe o português
[…] Se farinha fosse americana
[se] mandioca [fosse] importada,
banquete de bacana era farinhada”.
O eu-lírico de “Nóis é jeca mais é joia” se descreve como “caipira pop”.
É isso: o tradicional pode ser pop.
Aliás, “o tradicional é pop” foi um dos slogans do Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnavaldo Tocantins, evento realizado pelo coletivo de produção cultural Amo Meu Bloco.
Crédito da foto: Ana Clara Ribeiro
Foi pensando em tudo isso que escrevi acima que compareci a esse festival, no dia 6 de dezembro de 2025, no Espaço Cultural, em Palmas, capital do Tocantins.
A programação contava com 12 atrações, entre grupos de suça, capoeira e bandas. Embora eu não tenha conseguido assistir a todas as apresentações, saí de lá com uma proposta interessante de arquétipo para o som do Tocantins.
O som do Tocantins tem um quê agresteiro. É cru. Tem cantos retos, pouca firula, muito corpo, muito pé no chão. Tem muitos batuques e cordas que parecem mais talhadas do que lapidadas, como se o som viesse direto da madeira, da terra, do couro esticado no limite.
Pode não parecer que faça sentido nessa descrição escrita, mas o som do Tocantins me lembra muito mais o Mangue Beat do que o caipiresco clássico do Centro-Oeste ou a melodicidade rebolante da lambada e do brega do Pará. Existe algo de experimental, de rústico.
Não é à toa que um dos momentos mais interessantes da noite foi a colaboração da bateria Boto Fé Nesse Carna com o coletivo Masterholic, à base de maracatu.
Bateria Boto Fé nesse Carna e Masterholic (ao fundo) em uma colaboração envolvendo maracatu, rap e bateria carnavalesca. Créditos da imagem: @cyberj0n
Outra coisa muito interessante que aconteceu no Festival foi quando a bateria Boto Fé Nesse Carna tocou aquilo que chamou de “suçamba”: a fusão da suça com samba. Combinou muito. Provou que tudo dialoga: o genuíno e ancestral do Tocantins negro com o genuíno e ancestral do Brasil negro. Nesse momento, ficou muito evidente que o Tocantins carrega algo de profundamente próprio, mesmo que ainda em processo de reconhecimento; e que o samba, já consagrado como ouro do Brasil, nasce da mesma lógica de chão, corpo, sol, matriz africana; tem a mesma musicalidade de acordes pouco adocicados mas musicados e letrados com alegria e sabedoria. Quando a suça e o samba se encontraram, houve reconhecimento e uma harmonia de naturalidade quase óbvia.
Já o coletivo Masterholic fez uma apresentação que misturava hip hop com reggae, mas com um espírito meio punk rock. Não era um rap feito pra pular de mão erguida, era um rap de quem está fincado no chão, com o pé na terra rachada, mas vivo o bastante pra insistir em brotar e romper a terra seca. Eles se descrevem como “do cerrado” e têm uma atitude bem lama ao caos. Não os conhecia. Gostei muito do som e da proposta. Quero vê-los indo longe.
Por outro lado, apesar da relação ambígua com a identidade nortista e da baixa proximidade cultural com o vizinho Pará, a banda Moiacumbia, já um dos expoentes da música alternativa tocantinense, traz esse tempero latino-amazônico que funciona, que encaixa, que amplia o horizonte sem apagar o chão. A música deles é uma delícia e insere o Tocantins no circuito de uma cena que eu acredito que vai crescer muito nos próximos anos: a cumbia brasileira.
No Festival, também teve forró, gênero que sempre caiu bem ao gosto do tocantinense, talvez porque combine com o calor que não dá trégua e com essa necessidade de dançar para sobreviver e escapar ao maçante.
No mesmo festival, ouviu-se sanfona e também a viola de buriti, um dos símbolos mais bonitos do Tocantins.
Teve roda de capoeira e apresentações de grupos de suça. Se a suça é a expressão principal da identidade afrotocantinense, a capoeira conectou o Tocantins a uma paisagem maior da cultura negra brasileira.
Grupo Sussa Tia Ângela. Crédito da imagem: @cyberj0n
Teve o tambor e dança do grupo Congos e Taieiras, representando a cultura de Monte Carmo do Tocantins. É um misto de cortejo com performance que remonta há muito mais tempo do que os poucos 37 anos do Estado do Tocantins e tem raízes religiosas.
Foi bastante bonita a apresentação do Lindô, comunidade quilombola do Cocalinho, que fica no Município de Santa Fé do Araguaia. A dança deles é dinâmica; homens e mulheres se cruzam e se encontram seguindo um ritmo marcado por cantos de melodia não-melismática.
Não pude deixar de apreciar as cores da estampa das saias das mulheres e das camisas dos homens do Lindô: tinham o vermelho e amarelo-amarronzado que são muito presentes na paleta da paisagem tocantinense, e o azul profundo da bandeira do Estado. Não deve ter sido intencional, mas a possível coincidência só reforça a ideia de quando tudo brota da mesma terra, as cores acabam se reconhecendo.
Lindô. Crédito da imagem: @cyberj0n
Não parece acaso que tantos símbolos do Tocantins tenham cores que pertencem ao mesmo espectro: a guitarra de buriti, o capim-dourado, o pequi, o caldo do chambari, a fava de bolota. O Tocantins é ocre. É marrom. É um amarelo manga escuro.
O som do Tocantins tem essa mesma paleta. Enquanto cena musical e identidade nacionalmente reconhecida, tudo isso ainda está em formação; mas tem raiz, e já tem suas próprias cores.