Se o meio é a mensagem, como disse o teórico da comunicação Marshal McLuhan, então o funk bruxaria já seria, por si só, uma escolha interessante de gênero musical para um projeto musical que pretende apresentar algum futuro distópico.
Mas a DJ Urutau (codinome usado no novo projeto musical da produtora paulistana Lua Viana) foi além e adicionou algumas camadas simbólicas e estéticas ainda mais interessantes ao subgênero mais sombrios do funk, no seu disco de estreia, Ornitofagia (2026).
Esse projeto dá continuidade à pesquisa que Lua desenvolve em outros trabalhos (como o Antropoceno) e à ideia de “Futuro Ancestral”, obra do autor indígena Ailton Krenak.
Ornitofagia parte de uma premissa tão estranha quanto fértil: afetado pelo fenômeno climático El Niño, o pássaro urutau passa a devorar outras aves, incorporando seus cantos, espíritos e conhecimentos, até transformar a destruição ambiental provocada pelos humanos em desejo de vingança.
Musicalmente, essa narrativa se materializa em uma combinação de sons de cantos de aves, glitch e batidas e elementos de música eletrônica, funk, capoeira e até mesmo referências a gêneros como samba.
O resultado sonoro é sinistro (adjetivo que uso aqui tanto no seu sentido literal como no sentido de gíria noventista elogiosa), um apocalipse passarinheiro.
A faixa “Engoli um Bem-te-vi (Na Onda do El Niño)”,por exemplo, parece o som de um mobbing.
Ornitofagia é uma obra sobre a crise climática, mas engraçadamente (e esperançosamente não desrespeitosamente) funcionaria como experimentalidade nonsense que tem sido vista por aí em tantos projetos eletrônicos de produtores de funk que bebem da estética da colagem internetesca (como alguns que já resenhamos por aqui: Quebradeira Pura, de Marcelinho MeteBala; e BRVXARIA CYBERTRONICA 巫师 VOL.1, do BRVXO).
O funk bruxaria contribui para essa operação não só esteticamente, mas como linguagem também. Ele, por si só, com suas batidas industriais, secas, e elementos estéticos que formam uma atmosfera sombria, funciona como uma boa metáfora para um fim do mundo causado pelas agruras do capitalismo.
Em vez de funcionar apenas como uma embalagem contemporânea para uma mensagem ambiental, sua estética de distorção, excesso e caos parece oferecer ao álbum uma forma sonora para uma crise que já não cabe em uma linguagem exclusivamente racional ou documental.
Ainda assim, fora o estético, se nos dedicarmos a explorar as premissas conceituais do álbum, elas podem nos conduzir a pensamentos até mais interessantes.
Por exemplo: o que acontece quando a antropofagia brasileira deixa de ser uma metáfora para a formação da identidade nacional e passa a ser uma metáfora para a vingança da natureza contra o humano?
A própria ideia de “ornitofagia” parece deslocar a tradição antropofágica do Modernismo brasileiro (“engolir” a cultura estrangeira dominante e transformá-la em algo genuinamente brasileiro) para uma perspectiva ecológica: em vez de apenas incorporar o outro para produzir algo novo, o sujeito humano se torna ele próprio incorporado pela criatura que inventou.
É radicalizadora a ideia do pássaro como sujeito “mau”, vingativo.
Mas os cantos das aves em Ornitofagia também representam memória, conhecimento, identidade e poder.
Isso permite pensar Ornitofagia como uma experiência de descentralização do humano, enquanto, ao mesmo tempo, inevitavelmente se contradiz ao tentar produzir uma estética não antropocêntrica a partir de uma linguagem criada por humanos.
E é nessa collab não-fraterna que Ornitofagia brilha, confrontando beleza natural e criatividade humana com sinais trocados, apenas para descobrir que o pássaro também sabe ser feio e que o homem, apesar de tudo, sabe fazer coisas bonitas. (O humano pode até produzir algo criativamente sofisticado, mas no funk bruxaria, cria algo sonoramente “sujo”; enquanto a ave é uma criatura bela e pode cantar belamente, mas sua vocalização em Ornitofagia é transformada em algo incômodo.)
É beat, tambor e pio de pássaro, tudo no mesmo bolo sonoro, mas com a intenção de deixar claro que não estão todos no mesmo barco, e que, desta vez, é o humano quem vai afundar.
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Projeto: álbum Ornitofagia
Artista: DJ Urutau
Lançamento: 31/08/2026
Disponível em: Spotify, YouTube, Soundcloud
