2025 foi o ano em que o reggaeton ficou em segundo plano na música latina. Esse recorte pode dizer algo sobre o ano na música e cultura, como um todo

(Título gigante e nada SEO-friendly porque não nos importamos. Por outro lado, nós nos importamos com a regra de que em título não se coloca ponto final)

Veja bem, o reggaeton está longe de estar morto, mas precisamos encarar os dados: não foi ele o gênero que mais brilhou na cena latina em 2025.

Quem acompanha o nicho consegue citar alguma música de reggaeton candidata a “canção do ano” de 2025?

As principais candidatas a canção latina do ano, na minha opinião, sequer eram músicas de reggaeton.

“Baile Inolvidable” do Bad Bunny é uma salsa. “DtMF” é uma plena. “La Plena” do Beéle é, olha só!, uma plena também. Bom, “Latina Foreva” da Karol G é reggaeton mas é̶ ̶r̶u̶i̶m̶ curiosamente, “Si antes te hubiera conocido” de 2024 foi a música dela que mais seguiu bombando. E é um merengue, não um reggaeton.

A ausência de um hit em 2025 que seja claramente um reggaeton sugere uma mudança: o gênero que outrora impulsionou o boom da música latina não é mais um hitmaker automático.

Por um lado, eu sinto mesmo que o ano de 2025 foi diferente para a cena musical latina. Não só o reggaeton, mas nem mesmo a música mexicana, corridos tumbados etc geraram muitos hits entre a comunidade latina em 2025.

A cena musical latina não esfriou, de modo algum, mas me pareceu ter… outra energia. Mais lenta, talvez? Um perreo mais suave, com toques até mesmo de resgate histórico. Afinal, salsa e plena, gêneros dos principais hits latinos do ano e que informaram grandes álbuns do ano como o do Bad Bunny, Rauw Alejandro e Nathy Peluso, são gêneros mais tradicionais e carregados de história. Faz todo o sentido, pois 2025 foi sim um ano em que o orgulho latino vibrou forte na cultura pop, o que imagino que tenha sido impulsionado por uma reação ao discurso fortemente xenofóbico do Trump contra latinos e imigrantes.

Eu também me pergunto se a “baixa” do reggaeton em 2025 foi um efeito dominó do DtMF, do Bad Bunny, que foi lançado logo no início do ano. Não seria a primeira vez que algo que o coelhão lança nos primeiros dias do ano dita o tom de como o resto do ano vai ser. Ao resenhar o álbum para a PopMatters, eu escrevi:

Se você precisa de uma referência do que é um “momento cultural”, pense no (ou conheça) fenômeno que Bad Bunny criou com álbuns como Un Verano Sin Ti (2022). Ele não só quebrou recordes de streaming e gerou vários hits, como o álbum também se tornou uma marca. Coincidência ou tendência, até mesmo a cor laranja que inspirou a estética da capa do disco e a música house de “El Apagón” se tornaram tendências de moda e música, respectivamente, em 2022.

Claro, DtMF tem bastante reggaeton (inclusive a minha preferida do álbum, “KETU TeCRÉ”, é reggaeton), mas inegavelmente, as estrelas do álbum não são os reggaetons. A música-título do álbum é uma plena, e intrigantemente, logo depois do lançamento uma outra plena explodiu no mundo levando o nome de nada menos que “La Plena” (do colombiano Béele).

Será que a plena foi o reggaeton de 2025?

Eu não sei até que ponto a ausência de grandes hits de reggaeton em 2025 diz algo sobre a indústria da música latina em si, ou se sobre a indústria musical como um todo.

Pois assim como sinto que foi um ano peculiar para a música latina, foi um ano diferentão para a música como um todo, não? Fora da música latina, que super mega hits massivos tivemos, daqueles que tocam em todo todo lugar? Talvez “Abracadabra” da Lady GaGa, somente? Talvez “Gnarly”, do KATSEYE; e mais ao fim do ano, chegou “The fate of Ophelia” da Taylor Swift.

No Brasil, tivemos sim alguns hits de sertanejo, pagode, funk. Mas é interessante o quanto chamou a atenção ao final de 2024 o fato de uma música do grupo de pagode Menos é Mais desbancar hits de sertanejo e funk no charts do Spotify Brasil; e o grupo continuar performando bem nos charts em 2025.

A hegemonia do sertanejo e funk nas paradas gerais do Spotify parecia difícil de quebrar, e essa quebra foi consolidada justamente em 2025, com a música “P do Pecado” (colaboração do Menos é Mais com Simone Mendes) quebrando o récorde de música que passou mais tempo em #1 no Spotify.

Vi vários posts de redes sociais e matérias em veículos musicais sobre a ausência de hits de verão nos EUA e Europa; ou, ainda, sobre como as músicas de maior sucesso no pop não eram mais aqueles pop chicletes e dançantes. Bridget Brown escreveu para a AP News, em matéria publicada em 05/09/25:

(…) neste verão, as praias parecem mais tranquilas. As playlists parecem sem rumo. As ondas de rádio não estão sendo dominadas pelas músicas animadas e fáceis de cantar junto de sempre. Onde está a nossa música do verão?

(…) nas últimas 14 semanas, e contando, o primeiro lugar tem sido ocupado por uma balada romântica: “Ordinary”, de Alex Warren.

(…) como é que a balada romântica de Warren se manteve confortavelmente no topo das paradas durante praticamente todo o verão?

Em uma análise mais macro, Hanna Kahlert escreveu para o Midia Research, em matéria publicada em 26.08.2025, sobre a dificuldade de citar “momentos culturais” que definiram o ano de 2025, e sobre como isso, na verdade, reflete uma dificuldade de toda a década de 2020:

Ao ultrapassarmos a metade da década de 2020, os efeitos da descentralização digital tornaram-se mais evidentes.

(…) A cultura dominante em 2025 existe – mas não de uma forma fácil de comercializar ou que seja amigável para as marcas (a menos que você seja a Coinbase). Como resultado, temos mensagens semi-subversivas em lugares fora do circuito comercial, enquanto as grandes empresas disputam paletas de cores e frases de efeito perfeitas. Em resumo, não são apenas os algoritmos os culpados pela ascensão de nichos e pela ausência de gritos de guerra que definam nossa era. É porque os verdadeiros momentos definidores da década de 2020, que sustentam sua cultura, são quase impossíveis de serem explorados por grandes instituições sem comprometer seus resultados financeiros.

Talvez tenha sido só um “break” no que vinha rolando desde 2020.

Mas parece mesmo que 2025 foi uma espécie de ano de transição, o que até faz sentido, considerando que é basicamente o ponto da metade da década.

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