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  • Sertanejo: o mais latino dos gêneros brasileiros?

    Sertanejo: o mais latino dos gêneros brasileiros?

    É, musicazíacos, o Brasil não é para amadores!

    Tenho visto um monte de discussão sobre a reconciliação do Brasil com sua condição de país latinoamericano e o papel que a música tem desempenhado em tudo isso. Esse tema já é objeto de meus escritos para blogs pessoais, Remezcla e PopMatters há um bom tempo, então vou evitar me repetir a respeito.

    Mas queria contribuir com uma nova camada às discussões sobre latinidade & música, jogando na roda um gênero musical brasileiro que não tenho visto ser muito citado nelas.

    Um pouco de contexto:

    Um dos temas mais recorrentes sobre os quais tenho escrito para a Remezcla e a PopMatters desde ~2023 é como o Brasil raramente se considera um país latino, mas também, como isso pode estar mudando lentamente.

    Essa discussão teve uma grande acelerada desde o lançamento de DtMF em 2025, que gerou os primeiros “hits” do Bad Bunny no Brasil e deu início a um mini boom dele por aqui. Era um mercado onde ele ainda tinha dificuldade de entrar, mesmo sendo um rei em praticamente todos os nossos países vizinhos (e muitos mais).

    Mas com a apresentação do Bad Bunny no SuperBowl, em fevereiro/2026, e mais especificamente com os 2 shows que ele fez em São Paulo nos dias 20 e 21 de fevereiro, podemos dizer que atingimos um novo pico do hype dele no Brasil.

    Como desdobramento disso, temos visto uma série de reportagens e conteúdos sobre o impacto que o artista está tendo sobre essa nova onda de reconhecimento do brasileiro enquanto parte da América Latina. “O Bad Bunny fez o Brasil se reconhecer latino“, “Não, não foi o Bad Bunny, mas ele escancarou isso“, “Não, o Norte do Brasil já sabia que era latino muito antes” etc.

    Até aí, ok. Nenhuma dessas matérias traz novidades para quem já era fã de música latina em Espanhol. Talvez as matérias que falam das fusões da música caribenha e amazônica estrangeira com a música feita em alguns locais do Norte do Brasil (sobretudo no Estado do Pará) sejam as que mais estejam abrindo alguns olhos de quem já não era atento às cenas musicais desses locais.

    Mas o que tem chamado minha atenção são alguns desdobramentos dessas discussões na rede social X, em que se fala sobre outras representações de latinidade menos populares, tais como: a latinidade andina, a cultura do Cone Sul etc. De fato, parece que a latinidade ainda está no imaginário coletivo como associada a sazón, vestido vermelho, flor no cabelo, camisa aberta, dança de par, praia, comida apimentada.

    Existem outras representações de cultura latina, e elas podem não se enquadrar tanto assim nesses arquétipos de sensualidade e tropicalidade, porém, nem por isso são menos latinas.

    Eu gostei dessas discussões que li no X e gosto da ideia de ampliarmos o escopo do que é ou não entendido como cultura latina.

    Então, acho que estamos prontos pra conversar especificamente sobre aspectos da “latinidade brasileira” que não conversam tão bem com o ideal progressista vivido pelos entusiastas da ideia de Brasil latino… (E isso está longe de isso ser um shade; inclusive, eu sou uma dessas entusiastas) …

    … como, por exemplo, a latinidade da música sertaneja.

    Hype do discurso da latinidade = coisa de esquerda?

    Se sob o aspecto estético não é difícil entender os links entre música sertaneja brasileira e outros gêneros latinos (dos quais o de conexão natural mais fácil talvez seja a música urbana mexicana – um brasileiro que gosta de sertanejo certamente vai se sentir “em casa” ouvindo Grupo Frontera, por exemplo), essa discussão pode incomodar um pouco sob o aspecto ideológico.

    Obviamente, a identidade latina enquanto objeto de discussão e de estudos não é nem um pouco recente; mas o “hype” (que inclusive já está sendo capturado por marcas e corporações) é ligeiramente recente e é sim uma construção muito fundada em interesses de quem está do lado mais vermelho da força, e está associado com lutas decoloniais, antiimperalistas, e de resistência contra ideais mais conservadores sobre gênero, sexualidade e cultura.

    De outro lado, a música sertaneja é frequentemente associada a uma identidade neoliberal, heteronormativa e conservadora, o que o torna quase um tabu em algumas discussões progressistas sobre a cultura brasileira.

    Se podemos cravar a “coincidência” temporal de o Brasil estar começando a se entender um pouco mais como um país latino com o terceiro mandato do Presidente Lula, não é coincidência que os movimentos que têm levado a esse entendimento são sim associados à ideia de uma América Latina progressista que luta por retirar a centralidade da cultura europeia e do imperialismo estadunidense.

    Mas ideologias à parte, convenhamos: entre todos os gêneros musicais brasileiros que conversam com gêneros criados e popularizados em países latinos de língua espanhola, o sertanejo talvez seja um dos que conversa de forma mais natural e mais ampla com gêneros musicais latinos feitos fora do Brasil. Além de que, em sua essência, ele também guarda elementos em comum e influências de vários desses gêneros.

    Isso não é uma defesa nem crítica de nada nem ninguém, é apenas uma constatação que eu faço e quero destrinchar.

    As origens do sertanejo falam Espanhol

    • O bolero e a música ranchera mexicana tiveram um papel relevantíssimo na gênese da música caipira brasileira. Diversas duplas sertanejas começaram cantando esse tipo de música antes de comporem ou gravarem suas próprias “modas”. Sobre isso, destaco um interessante artigo de Danilo Cymrot chamado “Disseram que eu voltei mexicanizado: sertanejo raiz e a incorporação da canção rancheira“;
    • O sertanejo “popular” nasceu da guarânia paraguaia. A vertente que hoje chamamos de “modão” nada mais é que a guarânia;
    • Até hoje, a guarânia e o bolero são homenageados na cultura sertaneja quase que como uma reverência às origens.

    Para Allan de Paula, a mistura da música sertaneja com gêneros musicais estrangeiros – principalmente o bolero, a rancheira, a guarânia, o rasqueado e a polca – iniciou-se na segunda metade dos anos 1930, intensificou-se na década de 1940 e “tornou-se extremamente visível a partir de 1950”, a ponto de considerar a música sertaneja historicamente “um dos gêneros da música brasileira mais relacionado com elementos estrangeiros” (OLIVEIRA, 2009, p. 296-297). Rosa Nepomuceno descreve a música sertaneja do final dos anos 1950 como uma “confusão de mariachis, sanfonas e violas” (NEPOMUCENO, 1999, p. 147-148).

    (CYMROT, 2017, p. 70)

    O sertanejo “moderno” conversa com gêneros latinos de língua espanhola de forma muito natural

    • O sertanejo pós-universitário absorveu a bachata de tal forma que se tornou uma das estéticas mais usadas por artistas do gênero. Não só isso, como se associou à bachata tal forma que Gusttavo Lima (principal expoente do sertanejo bachata) já chegou a ser condecorado pela Embaixada da República Dominicana por promover o gênero no Brasil;
    • Algumas das primeiras tentativas de reggaeton no Brasil vieram no sertanejo também: Luan Santana colaborando com Enrique Iglesias em “Bailando” (2014), Simone & Simaria colaborando com Sebastian Yatra em “No Llores Más” (2021)…
    • Um dos maiores nomes do sertanejo na atualidade, e certamente o maior nome feminino, Ana Castela foi criada no Paraguai, e o reggaeton influencia a sonoridade de músicas como “Nosso quadro” e “Me gusta”. Já cheguei a entrevistá-la e ela me confirmou que a música latina em espanhol a influencia;
    • Por motivos que podemos aclamar mas também criticar, o fato é que, conforme escrevi para Remezcla em 2023, o sertanejo é “flexível para abraçar outros gêneros e rápida adaptação às necessidades da indústria musical.” Essa flexibilidade sob o aspecto estético faz com que a fusão com outros gêneros latinos faça sentido e seja natural. E a flexibilidade sob o aspecto de estratégia comercial também favorece esse intercâmbio.
    O cantor Gusttavo Lima recebendo uma condecoração da Embaixada da República Dominicana por propagar a bachata no Brasil. Créditos: Augusto Albuquerque/Divulgação

    Então… O sertanejo é o mais latino dos gêneros brasileiros?

    Quando uso “latino” como adjetivo para falar de algo brasileiro, não pretendo colocar o Brasil em uma posição de alteridade em relação à América Latina, mas me refiro a um “ideal de latinidade” que parece nortear o nosso imaginário.

    Quanto a esse ideal, talvez o sertanejo não seja tão visto como latino quanto a lambada e outros gêneros dançantes paraenses, ou como o samba ou o forró ou outros gêneros “calientes”. 

    Mas se formos falar de latinidade enquanto conexão, de muitas maneiras, o sertanejo é sim um dos gêneros mais “latinos” que o Brasil já produziu, seja pelas influências de origem, seja pela forma como seguiu incorporando influências conforme se desenvolveu, adaptou e desdobrou em subgêneros e variações.

    E vou além: comercial e esteticamente, ainda vejo o sertanejo com um dos gêneros de maior potencial pra absorver mais e mais sonoridades de outros gêneros latinos. (Escrevi um pouco sobre isso de forma bem explícita no meu blog post de 2023, “9 ideas to break Spanish-language music in Brazil“, e de forma meio esparsa no artigo 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026, ao falar de brega latino)

    Em essência, o sertanejo é tão rancheiro e caipira, quanto diversos gêneros latinos profundos mais tradicionais (bolero, guarânia, música mexicana). Em evolução e cooptação industrial, também tem laços e semelhanças com o que se vê na música de banda e regional urbana do México, o vallenato da Colômbia, a bachata da República Dominicana, entre outros exemplos.

    A conexão do Brasil com países latinos de língua espanhola, muitas vezes negligenciada ou pouco visibilizada, está evidente em um gênero musical que o país simultaneamente abraça e rejeita.

    Faz todo o sentido criticar a lógica comercial que estrutura a indústria musical sertaneja hoje em dia e até mesmo as ideologias sustentadas de forma mais ou menos explícita pelo movimento sertanejo como um todo.

    Mas gostem ou não, o sertanejo, em suas contradições e fluidez, nos convida a repensar o que achamos que sabemos sobre a música brasileira e sobre a própria América Latina.

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  • 2025 foi o ano em que o reggaeton ficou em segundo plano na música latina. Esse recorte pode dizer algo sobre o ano na música e cultura, como um todo

    2025 foi o ano em que o reggaeton ficou em segundo plano na música latina. Esse recorte pode dizer algo sobre o ano na música e cultura, como um todo

    (Título gigante e nada SEO-friendly porque não nos importamos. Por outro lado, nós nos importamos com a regra de que em título não se coloca ponto final)

    Veja bem, o reggaeton está longe de estar morto, mas precisamos encarar os dados: não foi ele o gênero que mais brilhou na cena latina em 2025.

    Quem acompanha o nicho consegue citar alguma música de reggaeton candidata a “canção do ano” de 2025?

    As principais candidatas a canção latina do ano, na minha opinião, sequer eram músicas de reggaeton.

    “Baile Inolvidable” do Bad Bunny é uma salsa. “DtMF” é uma plena. “La Plena” do Beéle é, olha só!, uma plena também. Bom, “Latina Foreva” da Karol G é reggaeton mas é̶ ̶r̶u̶i̶m̶ curiosamente, “Si antes te hubiera conocido” de 2024 foi a música dela que mais seguiu bombando. E é um merengue, não um reggaeton.

    A ausência de um hit em 2025 que seja claramente um reggaeton sugere uma mudança: o gênero que outrora impulsionou o boom da música latina não é mais um hitmaker automático.

    Por um lado, eu sinto mesmo que o ano de 2025 foi diferente para a cena musical latina. Não só o reggaeton, mas nem mesmo a música mexicana, corridos tumbados etc geraram muitos hits entre a comunidade latina em 2025.

    A cena musical latina não esfriou, de modo algum, mas me pareceu ter… outra energia. Mais lenta, talvez? Um perreo mais suave, com toques até mesmo de resgate histórico. Afinal, salsa e plena, gêneros dos principais hits latinos do ano e que informaram grandes álbuns do ano como o do Bad Bunny, Rauw Alejandro e Nathy Peluso, são gêneros mais tradicionais e carregados de história. Faz todo o sentido, pois 2025 foi sim um ano em que o orgulho latino vibrou forte na cultura pop, o que imagino que tenha sido impulsionado por uma reação ao discurso fortemente xenofóbico do Trump contra latinos e imigrantes.

    Eu também me pergunto se a “baixa” do reggaeton em 2025 foi um efeito dominó do DtMF, do Bad Bunny, que foi lançado logo no início do ano. Não seria a primeira vez que algo que o coelhão lança nos primeiros dias do ano dita o tom de como o resto do ano vai ser. Ao resenhar o álbum para a PopMatters, eu escrevi:

    Se você precisa de uma referência do que é um “momento cultural”, pense no (ou conheça) fenômeno que Bad Bunny criou com álbuns como Un Verano Sin Ti (2022). Ele não só quebrou recordes de streaming e gerou vários hits, como o álbum também se tornou uma marca. Coincidência ou tendência, até mesmo a cor laranja que inspirou a estética da capa do disco e a música house de “El Apagón” se tornaram tendências de moda e música, respectivamente, em 2022.

    Claro, DtMF tem bastante reggaeton (inclusive a minha preferida do álbum, “KETU TeCRÉ”, é reggaeton), mas inegavelmente, as estrelas do álbum não são os reggaetons. A música-título do álbum é uma plena, e intrigantemente, logo depois do lançamento uma outra plena explodiu no mundo levando o nome de nada menos que “La Plena” (do colombiano Béele).

    Será que a plena foi o reggaeton de 2025?

    Eu não sei até que ponto a ausência de grandes hits de reggaeton em 2025 diz algo sobre a indústria da música latina em si, ou se sobre a indústria musical como um todo.

    Pois assim como sinto que foi um ano peculiar para a música latina, foi um ano diferentão para a música como um todo, não? Fora da música latina, que super mega hits massivos tivemos, daqueles que tocam em todo todo lugar? Talvez “Abracadabra” da Lady GaGa, somente? Talvez “Gnarly”, do KATSEYE; e mais ao fim do ano, chegou “The fate of Ophelia” da Taylor Swift.

    No Brasil, tivemos sim alguns hits de sertanejo, pagode, funk. Mas é interessante o quanto chamou a atenção ao final de 2024 o fato de uma música do grupo de pagode Menos é Mais desbancar hits de sertanejo e funk no charts do Spotify Brasil; e o grupo continuar performando bem nos charts em 2025.

    A hegemonia do sertanejo e funk nas paradas gerais do Spotify parecia difícil de quebrar, e essa quebra foi consolidada justamente em 2025, com a música “P do Pecado” (colaboração do Menos é Mais com Simone Mendes) quebrando o récorde de música que passou mais tempo em #1 no Spotify.

    Vi vários posts de redes sociais e matérias em veículos musicais sobre a ausência de hits de verão nos EUA e Europa; ou, ainda, sobre como as músicas de maior sucesso no pop não eram mais aqueles pop chicletes e dançantes. Bridget Brown escreveu para a AP News, em matéria publicada em 05/09/25:

    (…) neste verão, as praias parecem mais tranquilas. As playlists parecem sem rumo. As ondas de rádio não estão sendo dominadas pelas músicas animadas e fáceis de cantar junto de sempre. Onde está a nossa música do verão?

    (…) nas últimas 14 semanas, e contando, o primeiro lugar tem sido ocupado por uma balada romântica: “Ordinary”, de Alex Warren.

    (…) como é que a balada romântica de Warren se manteve confortavelmente no topo das paradas durante praticamente todo o verão?

    Em uma análise mais macro, Hanna Kahlert escreveu para o Midia Research, em matéria publicada em 26.08.2025, sobre a dificuldade de citar “momentos culturais” que definiram o ano de 2025, e sobre como isso, na verdade, reflete uma dificuldade de toda a década de 2020:

    Ao ultrapassarmos a metade da década de 2020, os efeitos da descentralização digital tornaram-se mais evidentes.

    (…) A cultura dominante em 2025 existe – mas não de uma forma fácil de comercializar ou que seja amigável para as marcas (a menos que você seja a Coinbase). Como resultado, temos mensagens semi-subversivas em lugares fora do circuito comercial, enquanto as grandes empresas disputam paletas de cores e frases de efeito perfeitas. Em resumo, não são apenas os algoritmos os culpados pela ascensão de nichos e pela ausência de gritos de guerra que definam nossa era. É porque os verdadeiros momentos definidores da década de 2020, que sustentam sua cultura, são quase impossíveis de serem explorados por grandes instituições sem comprometer seus resultados financeiros.

    Talvez tenha sido só um “break” no que vinha rolando desde 2020.

    Mas parece mesmo que 2025 foi uma espécie de ano de transição, o que até faz sentido, considerando que é basicamente o ponto da metade da década.

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