Apresentação do projeto Vereda no Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnaval do Tocantins. Créditos da imagem: @cyberj0n
Costumo dizer que ser tocantinense é ser oficialmente nortista, com origem centro-oestina e comumente confundido com nordestino.
Pra falar a verdade, o Tocantins é um pouco de tudo isso aí mesmo. Talvez, justamente por isso, nunca seja entendido por inteiro – isso quando é lembrado! Dizem que o Acre é o Estado mais misterioso do Brasil, mas ele pelo menos é lembrado por ser esquecido; e quem se lembra, costuma saber que ele fica no Norte do Brasil. Já o Tocantins…
… é Estado pequeno, jovem, ainda tentando aprender a se narrar. Centrado no mapa do Brasil, e ainda assim, parece passar despercebido.
Vou passar a falar na primeira e na terceira pessoa do plural.
É difícil descrever nossa cultura porque ela não se encaixa confortavelmente no ideário de nenhum dos muitos Estados com que faz fronteira (Goiás, Mato Grosso, Pará, Bahia, Maranhão, Piauí).
Não somos meros reprodutores da cultura goiana, Estado de onde veio nosso terreno.
Também não temos muito a ver com os demais Estados da região Norte – na verdade, somos os esquisitões da região; nossa cultura, nossas paisagens e até nosso sotaque não se parecem com os do Pará, do Amazonas, do Amapá, de Rondônia, de Roraima ou do Acre.
Somos sertanejos, indígenas, quilombolas. Somos herdeiros do cerrado, mas com cuscuz no prato; e entoamos gírias e expressões que carregam o humor e a prosódia paraense, maranhense, baiana.

Gosto de como a nossa identidade vem sendo descrita por produtores culturais da nova geração: cerrado-amazônica. A Amazônia é, sim, parte da nossa paisagem (sobretudo no norte do Tocantins) e nossa posição geopolítica nos coloca nesse contexto.
Mas a nossa relação com a identidade nortista é complicada.
Os belíssimos rios do Tocantins são de um azul e verde bastante diferentes da paleta amazônica. Por aqui, não há aquele ventinho úmido nem aquela atmosfera ribeirinha que combina tão bem com as levadas de guitarra do brega saudade. Aqui, há poeira e secura em vez da umidade amazônica; e a tropicalidade é de um calor pesado, quase punitivo. O sol que entra pela janela parece disposto a quebrar as barreiras da sua alma e se alojar dentro de você. Os ipês parecem florescer apesar em vez de por causa. Os pés de manga fornecem sombra que não é exatamente fresca, mas é sombra.
Fico pensando em como tudo isso pode se refletir na arte tocantinense.
Para mim, é quase inevitável a relação entre o nosso clima, a nossa paisagem e a nossa arte.
Aliás, qual é a nossa arte? Qual é o som do Tocantins? Quem sabe que tipo de música é feita no Tocantins?
Na verdade, talvez nem o próprio Brasil saiba o quanto o Brasil ouve o Tocantins. Do Tocantins vêm os artistas mais ouvidos do país: Henrique & Juliano. Eles colecionam bilhões de streams e há muitos anos lideram paradas de sucesso. Em 2025, foram os artistas mais ouvidos no Spotify Brasil.
Do Tocantins também vem o duo pop Anavitória, que no início da carreira se descreviam como “pop rural”, uma definição que combina com essa melancolia ensolarada, com esse romantismo de estrada quente e horizontes largos do interior daqui.
No Tocantins, naturalmente, também há várias outras duplas e sertanejas. (Quando fui digitar essa frase, sem querer escrevi “certanejas”. O que parecia só um erro ortográfico tosco acabou virando uma pista: esse sertanejo que nasce no cerrado tem mesmo algo de certão, de chão rachado, de sobrevivência, do C que crava, não do S sinuoso e leve.)
Hoje, o Tocantins já tem sua própria cena pop também, com artistas como a Duda Ruas.
Mas o Tocantins “raiz”, os gêneros genuinamente tocantinenses (como a suça, ou súcia/sussa/tão diversamente grafada quanto unicamente nossa), o Tocantins negro, o Tocantins quilombola, por exemplo, talvez só tenha chegado ao radar nacional agora, para quem presta atenção em nomes como o Paulo Vieira, que falou de tudo isso ao participar do podcast do Mano Brown e da Semayat Oliveira, e que incluiu a canção “Nóis é jeca mais é joia“, de Juraildes da Cruz (gravada por Genésio Tocantins), na série do Globoplay Pablo e Luisão.
Essa música é genial. Seu arranjo traz essa mistura caipira e forrozesca que situam bem o Tocantins como coração-eixo do cerrado e agreste. Já a letra caçoa de quem caçoa da suposta baixa intelectualidade do indivíduo do interior:
“Andam falando que nóis é caipora
Que nóis tem que aprender inglês
Que nóis tem que fazê sucesso fora
Deixe de bestagem, nóis nem sabe o português[…] Se farinha fosse americana
[se] mandioca [fosse] importada,
banquete de bacana era farinhada”.
O eu-lírico de “Nóis é jeca mais é joia” se descreve como “caipira pop”.
É isso: o tradicional pode ser pop.
Aliás, “o tradicional é pop” foi um dos slogans do Festival de Culturas Populares e Encontro de Blocos de Carnaval do Tocantins, evento realizado pelo coletivo de produção cultural Amo Meu Bloco.

Foi pensando em tudo isso que escrevi acima que compareci a esse festival, no dia 6 de dezembro de 2025, no Espaço Cultural, em Palmas, capital do Tocantins.
A programação contava com 12 atrações, entre grupos de suça, capoeira e bandas. Embora eu não tenha conseguido assistir a todas as apresentações, saí de lá com uma proposta interessante de arquétipo para o som do Tocantins.
O som do Tocantins tem um quê agresteiro. É cru. Tem cantos retos, pouca firula, muito corpo, muito pé no chão. Tem muitos batuques e cordas que parecem mais talhadas do que lapidadas, como se o som viesse direto da madeira, da terra, do couro esticado no limite.
Pode não parecer que faça sentido nessa descrição escrita, mas o som do Tocantins me lembra muito mais o Mangue Beat do que o caipiresco clássico do Centro-Oeste ou a melodicidade rebolante da lambada e do brega do Pará. Existe algo de experimental, de rústico.
Não é à toa que um dos momentos mais interessantes da noite foi a colaboração da bateria Boto Fé Nesse Carna com o coletivo Masterholic, à base de maracatu.

Outra coisa muito interessante que aconteceu no Festival foi quando a bateria Boto Fé Nesse Carna tocou aquilo que chamou de “suçamba”: a fusão da suça com samba. Combinou muito. Provou que tudo dialoga: o genuíno e ancestral do Tocantins negro com o genuíno e ancestral do Brasil negro. Nesse momento, ficou muito evidente que o Tocantins carrega algo de profundamente próprio, mesmo que ainda em processo de reconhecimento; e que o samba, já consagrado como ouro do Brasil, nasce da mesma lógica de chão, corpo, sol, matriz africana; tem a mesma musicalidade de acordes pouco adocicados mas musicados e letrados com alegria e sabedoria. Quando a suça e o samba se encontraram, houve reconhecimento e uma harmonia de naturalidade quase óbvia.
Já o coletivo Masterholic fez uma apresentação que misturava hip hop com reggae, mas com um espírito meio punk rock. Não era um rap feito pra pular de mão erguida, era um rap de quem está fincado no chão, com o pé na terra rachada, mas vivo o bastante pra insistir em brotar e romper a terra seca. Eles se descrevem como “do cerrado” e têm uma atitude bem lama ao caos. Não os conhecia. Gostei muito do som e da proposta. Quero vê-los indo longe.
Por outro lado, apesar da relação ambígua com a identidade nortista e da baixa proximidade cultural com o vizinho Pará, a banda Moiacumbia, já um dos expoentes da música alternativa tocantinense, traz esse tempero latino-amazônico que funciona, que encaixa, que amplia o horizonte sem apagar o chão. A música deles é uma delícia e insere o Tocantins no circuito de uma cena que eu acredito que vai crescer muito nos próximos anos: a cumbia brasileira.
No Festival, também teve forró, gênero que sempre caiu bem ao gosto do tocantinense, talvez porque combine com o calor que não dá trégua e com essa necessidade de dançar para sobreviver e escapar ao maçante.
No mesmo festival, ouviu-se sanfona e também a viola de buriti, um dos símbolos mais bonitos do Tocantins.
Teve roda de capoeira e apresentações de grupos de suça. Se a suça é a expressão principal da identidade afrotocantinense, a capoeira conectou o Tocantins a uma paisagem maior da cultura negra brasileira.

Teve o tambor e dança do grupo Congos e Taieiras, representando a cultura de Monte Carmo do Tocantins. É um misto de cortejo com performance que remonta há muito mais tempo do que os poucos 37 anos do Estado do Tocantins e tem raízes religiosas.
Foi bastante bonita a apresentação do Lindô, comunidade quilombola do Cocalinho, que fica no Município de Santa Fé do Araguaia. A dança deles é dinâmica; homens e mulheres se cruzam e se encontram seguindo um ritmo marcado por cantos de melodia não-melismática.
Não pude deixar de apreciar as cores da estampa das saias das mulheres e das camisas dos homens do Lindô: tinham o vermelho e amarelo-amarronzado que são muito presentes na paleta da paisagem tocantinense, e o azul profundo da bandeira do Estado. Não deve ter sido intencional, mas a possível coincidência só reforça a ideia de quando tudo brota da mesma terra, as cores acabam se reconhecendo.

Não parece acaso que tantos símbolos do Tocantins tenham cores que pertencem ao mesmo espectro: a guitarra de buriti, o capim-dourado, o pequi, o caldo do chambari, a fava de bolota. O Tocantins é ocre. É marrom. É um amarelo manga escuro.
O som do Tocantins tem essa mesma paleta. Enquanto cena musical e identidade nacionalmente reconhecida, tudo isso ainda está em formação; mas tem raiz, e já tem suas próprias cores.
