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  • “Tic Tac” e a Inteligência Amazônica: hit em ascensão feito com IA consolida a ideia que o tecnomelody entendeu a era algorítmica antes de todo mundo

    “Tic Tac” e a Inteligência Amazônica: hit em ascensão feito com IA consolida a ideia que o tecnomelody entendeu a era algorítmica antes de todo mundo

    Você conhece o trabalho do Ronaldo Lemos?

    Ele é um advogado, Mestre e Doutor em Direito, bastante atuante e influente na área de tecnologia e Internet, e com uma circulação bem boa na área musical também (ele é curador do festival C6 Fest). Ele fundou o Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio (pelo qual inclusive já fiz cursos muito bons) e é simplesmente o criador do Marco Civil da Internet, uma das leis mais importantes que tivemos nos últimos tempos.

    Em 2008, Ronaldo publicou um livro em coautoria com Oona Castro sobre a cena musical do tecnobrega, resultado de estudos desenvolvidos pelo Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Fundação Getúlio Vargas (da qual Ronaldo era diretor na época). O livro é bem interessante e está disponível para download gratuito no site do Repositório da FGV.

    E como é natural de alguém que pesquisa tecnologia, nos últimos anos Ronaldo também tem se destacado muito por seu trabalho relacionado a Inteligência Artificial (IA). Ele assina uma coluna na Folha de São Paulo na qual frequentemente fala sobre isso.

    Acho que agora está acontecendo uma nova virada que conecta dois ângulos interessantes do trabalho de Ronaldo.

    A IA chegou no Pará.

    Na verdade, a IA já chegou na casa dos brasileiros há algum tempo, e até mesmo o fenômeno de músicas feitas com IA não é novidade, mas acredito que estamos vendo agora as primeiras safras de tecnobrega e tecnomelody feitas com IA.

    E o fato é que… essas músicas são boas.

    Até o momento, muitas músicas feitas com IA que tenho ouvido por aí soam bem cringe, ou mesmo quando parecem atingir o mesmo patamar “técnico” de composição musical da indústria musical, não cativam tanto assim.

    As poucas exceções geralmente são versões de músicas preexistentes (como “A sina de Ofélia”), o que só prova que o mérito está menos na IA do que em quem já fazia música antes dela existir.

    Mas na semana passada, eu me deparei com a música “Tic tac” em vídeos de dança nos Reels do Instagram.

    De primeira, sequer pensei que pudesse ser uma música feita com IA, pois ela apresenta exatamente as mesmas características peculiares do tecnomelody: batida acelerada, voz superprocessada e em pitch super alto; a composição também segue as mesmas estruturas de hits do tecnomelody, desde a progressão de acordes até o estilo dos versos.

    Fiquei surpresa ao ler os comentários do post e ver gente dizendo “é IA”, “é música feita com Ia” em resposta a tantos outros que, como eu, queriam saber de quem é aquela música.

    O nome dela é “Tic tac” e aparentemente foi produzida pelo DJ Nem de Icoaraci.

    “Isso é DJ Nem de Icoaraci”?

    Como é comum na cena do tecnomelody, a música tem uma vinheta que anuncia o nome do DJ: DJ Nem de Icoaraci.

    Pelas minhas pesquisas, ele já é notório na cena de Icoaraci (distrito de Belém-PA) pelo menos desde 2020, mas sua produção parece ter se intensificado por volta de 2024. Parece ter sido mais ou menos nessa época que ele começou a produzir com IA, conforme a maioria dos seus vídeos no YouTube mostram. De lá pra cá, ele tem lançado com muito frequência músicas que seguem um mesmo padrão de produção e estilo de composição, mas variando entre tecnomelody, piseiro, forró, e variações desses gêneros que os combinam com gospel. É curioso tentar encaixar o gospel nessa lógica, mas na verdade, faz sentido. A música religiosa é muito presente na cena do tecnobrega, já sendo quase uma tradição das festas de aparelhagem tocar esse tipo de música ao final.

    (Mas respeitosamente, onde DJ Nem de Icoaraci arrasa mesmo é nos melodys apaixonados, como a própria “Tic tac” e a dramática “Alguém que já tem alguém”.)

    Nas músicas que encontrei associadas a DJ Nem de Icoaraci no Spotify (infelizmente, “Tic tac” ainda não é uma delas!), ele aparece nos créditos como compositor.

    Não há provas de que as músicas sejam compostas ou produzidas com IA, embora: 1) pareçam sim; 2) é o que os locais têm comentado. O próprio DJ Nem de Icoaraci não confirma isso nos créditos das faixas, nas legendas dos seus posts e nem nas interações com os seus seguidores e pessoas que comentam nas suas postagens nas redes sociais.

    Mas de fato, os que ele faz sugerem que há sim

    Discussões à parte sobre autoria e titularidade, o que dá pra perceber da faixas subidas pelo DJ Nem de Icoaraci nas suas páginas é que elas seguem padrão de produção (mesma “voz”) e composição.

    Então, com ajuda de IA ou não, isso é DJ Nem de Icoaraci.

    Da IA para o mundo real

    Nos comentários em alguns uploads ou reposts de “Tic tac”, pessoas falam de como a música toca fundo no coração, como estão sofrendo enquanto escutam, como as lembra de um amor que dói, ou como as fazem querer dançar, e perguntam como podem baixá-la para tocar nas festas.

    A música supostamente feita por IA é tão marcante quanto as “marcantes” (subgênero do brega) tradicionais do Pará, e uma sofrência tão eficiente quanto outras compostas, produzidas e/ou interpretadas apenas por seres humanos.

    Tic tac” ficou na minha cabeça também, e conforme os dias seguintes me mostraram, ficou na cabeça de muita gente.

    A música parece estar viralizando no YouTube, TikTok e Instagram, pelo menos dentro do nicho de músicas paraenses.

    Ela também está despertando o interesse de “cantores reais”. Só nos últimos 5 dias, o portal Sons do Pará divulgou duas cantoras cantando a música – uma delas, ninguém menos que a revelação e Artist to Watch in 2026 da Remezcla (escolhida por esta que vos escreve), Carol Lyne.

    O termo “oficial”, no contexto da cena musical paraense, não necessariamente significa que houve clearance autoral e a distribuição de um fonograma devidamente cadastrado como ISRC etc e tal – mas pode significar que um artista decidiu fazer e divulgar sua própria versão da música. Aparentemente, é o que ocorreu com a cantora Rosy Soares (embora a música ainda não esteja disponível em plataformas de streaming de áudio até o momento da publicação desse texto).

    @sitesonsdopara

    Dá IA pro mundo real, a cantora Carol Lyne canta o sucesso “Tic Tac” do Dj Nem de Icoaraci feito por inteligência artificial. 📸 Notícia

    ♬ som original – Sons do Pará

    Escrevo esse texto em momento em que “a música “Tic tac” está em franca ascensão.

    Seria esse o primeiro verdadeiro hit de IA?

    Ideologias à parte, é sem dúvidas a música feita com IA mais convincente que eu já ouvi.

    E é óbvio que não estou surpresa que a primeira cena musical do Brasil a realmente aprender a fazer música boa com IA tenha sido o tecnomelody/tecnobrega.

    Inteligência artificial ou inteligência amazônica?

    “Tic tac” apresenta alguns paradoxos interessantes: é feita com IA, mas seu título e letra referenciam o “tic tac” de um relógio, tecnologia já quase obsoleta hoje, quando as pessoas consultam o celular para saber que horas são.

    Em termos de escolha de composição, isso me faz lembrar da música “Disco arranhado”, que fez muito sucesso em 2021 e que o próprio intérprete, César Menotti (da dupla com Fabiano), duvidou que o público jovem fosse entender e gostar.

    E em termos de metalinguagem, acho engraçado pensar em uma canção possivelmente feita com IA girando em torno de uma referência analógico que hoje existe mais no imaginário coletivo do que na vida cotidiana.

    Mas talvez o paradoxo temporal mais interessante que “Tic tac” evidencia seja que o tecnomelody parece ter antecipado a era algorítmica muitos anos antes dela existir.

    E agora, a Inteligência Artificial apenas fecha um ciclo que já estava sendo desenhado nas aparelhagens paraenses, como se os gêneros musicais de produção eletrônica daquela região tivessem atravessado naturalmente da era do relógio para a era do algoritmo.

    Várias características que hoje as pessoas associam à música feita com IA já existiam no tecnomelody há décadas:

    • vozes super processadas;
    • pitch elevado;
    • aceleração;
    • loops repetitivos;
    • excesso digital;
    • sensação de hiperestimulação sonora;
    • artificialidade estética deliberada.

    De certa forma, isso sempre foi uma realidade pretendida e abraçada pelo povo que escutava essas músicas e frequentava as festas em que elas eram difundidas.

    E quanto mais penso nisso, mais intrigante fica perceber como várias tendências da Internet parecem ter sido antecipadas pelo tecnomelody sem querer.

    Antes mesmo do advento IA, mudanças tecnológicas e sociais “absorveram” um pouco da estética da música eletrônica paraense, ainda que por coincidência.

    O TikTok, por exemplo, popularizou uma estética que o tecnomelody já conhecia.

    Sobretudo na época da pandemia, vimos no TikTok um cenário em que:

    • músicas sped up viralizam;
    • vozes agudas dominaram trends;
    • áudio acelerado virou estética digital;
    • hiperestimulação sonora prendia atenção em vídeos curtos.

    Mas o tecnomelody já fazia tudo isso nos anos 2000.

    A “estética” musical do TikTok já existia no Pará muito antes do TikTok existir e muito antes da lógica algorítmica transformar velocidade em linguagem cultural.

    É quase como se a cena tivesse desenvolvido intuitivamente uma sensibilidade estética para antecipar traços da Internet contemporânea.

    Cheguei a escrever sobre isso para a PopMatters em 2025, em um artigo sobre o tecnomelody e o Festival Psica:

    […] in many ways, Amazonian pop has always anticipated digital and social media phenomena. Long before TikTok’s sped-up, pitch-shifted songs became a trend, technomelody was already spinning high-BPM instrumentals with high-pitched melodies.

    O que hoje é um traço de obra feita com Inteligência Artificial coaduna muito com traços que a cena musical periférica, amazônica, tomou pra si e orgulhosamente assumiu como traço estético há muito tempo.

    O tecnomelody e o tecnobrega já nasceram preparados para a IA, talvez porque eles também já nasceram de um outro tipo de IA: Inteligência Amazônica.

    IA + Pará = uma combinação natural

    O tecnobrega e o tecnomelody nasceram da adaptação tecnológica, da gambiarra criativa, do uso de softwares, computadores e equipamentos eletrônicos como ferramenta de sobrevivência artística e econômica.

    Produtores periféricos transformaram limitação em estética.

    A tecnologia nunca foi só instrumento no tecnobrega, ela virou identidade cultural.

    Quando estudou a indústria do tecnobrega, Ronaldo Lemos (p. 22) destacou que:

    “[…] a apropriação das novas tecnologias é chave nesse ciclo produtivo. Estúdios caseiros, por exemplo, só foram possíveis graças
    ao acesso a equipamentos e computadores. O barateamento
    dos custos de produção por meio de tecnologias e mídias, como
    CDs e DVDs, possibilitou a criação de uma rede de diversos
    agentes no cenário musical de Belém, gerando trabalho, renda
    e acesso à cultura no Pará.”

    (2008, p. 22)

    Nesse contexto, é óbvio que a IA não infiltraria o tecnomelody como um corpo estranho, mas sim, como mais uma ferramenta natural de experimentação estética e sobrevivência criativa.

    Em entrevista para mim feita no contexto da produção de um artigo sobre “Lanna”, o primeiro tecnobrega, Eduardo Barbosa também explicou que o tecnobrega foi o resultado da busca pelo barateamento dos custos de gravação. Nas palavras dele, foi “uma solução de mercado” e “não é só uma questão estética“.

    Mas acabou se tornando estética também.

    E deu certo.

    O povo gostou.

    O excesso de eletronicidade, as vozes em pitch altíssimo: no tecnomelody nada disso é tratado como defeito ou artificialidade, é linguagem.

    Talvez por isso o tecnomelody feito com IA pareça tão natural. A IA não entra nessa cena como ruptura, e sim como continuação de uma tradição.

    Quer gostem, quer não.

    Com a IA como nova fronteira da música no Pará, quais os impactos extrafonográficos disso?

    A Inteligência Artificial é apenas mais uma etapa lógica da história da música eletrônica amazônica.

    Não dá nem pra dizer que representa uma quebra na trajetória do tecnomelody e do tecnobrega, pois conceitualmente, ela no máximo representa o aprofundamento de algo que esses gêneros já faziam desde o início: experimentar futuros através da tecnologia disponível.

    Mas é inevitável pensar no quanto essa virada pode impactar outros aspectos dessa cena musical.

    Que IA não é exatamente a maior aliada da sustentabilidade, já sabemos. Como fica isso n’uma cena em que nem alguns pilares básicos da sustentabilidade eram tratados da mesma forma?

    Pirataria, gravações não autorizadas, gigs sem contratos – essa estrutura informal tem sido a base da cena do tecnomelody e tecnobrega por décadas. (Geralmente, isso só muda quando artistas tendem a querer transcender a própria cena. Manu Batidão e Gaby Amarantos são exemplos de artistas que, após atingir repercussão nacional, lançaram mediante autorização canções que até pouco tempo atrás poderiam muito bem ter lançado sem sequer solicitar liberação das obras ou fonogramas utilizados.)

    Legalmente falando, a titularidade de obras feitas com IA depende da contribuição humana. Mas se até a contribuição humana já não era um empecilho tão grande para a livre circulação, gravação e reaproveitamento de obras autorais dentro da lógica do tecnomelody e tecnobrega, quanto dessa flexibilidade tende agora a se expandir?

    Talvez a própria “Tic tac” já mostre alguns caminhos, surpreendentes até. A versão da música lançada pela cantora Rosy Soares é um “feat” com DJ Nem de Icoaraci. Seria, então, um (raro?) caso de um criador cujo nome viaja junto com o hype da música quando ela é regravada por outros artistas; o que torna isso um paradoxo até interessante com outros casos de criadores que não usaram IA e foram gravados sem autorização.

    Estou curiosa para entender como (mais) uma funcionalidade que amplia acesso e barateia produção em escala “industrial” operará nas estruturas de geração de renda de um ecossistema de tanta relativização da Propriedade
    Intelectual.

    Será que nada vai mudar? Apenas alguns tipos de players vão sumir, mas o core business continuará o mesmo? Será que a Inteligência Artificial demandará um outro tipo de Inteligência Amazônica para que essas cenas continuem operando?

    Talvez não.

    Talvez a grande questão não seja apenas quem “cria” ou quem grava a música, mas quem continua participando economicamente da cena.

    Afinal, ainda que não seja mais preciso tantos humanos pra fazer música, ainda há muitos humanos que queiram dançá-la.

    A menina que ganhava R$ 30 pra fazer a vinheta do DJ, o produtor que ganhava R$ 50 pra fazer uma beat, esses quem sabe sumam… mas as festas e shows continuarão, e pelo menos até o momento, é aí que se movimenta a maior parte do dinheiro no contexto da cena musical paraense.

    Não que a erosão de modelos tradicionais de remuneração artística seja algo que eu deseje, mas o fato é que algumas estruturas econômicas já estão consolidadas e/ou estão sendo silenciosamente redefinidas.

    A cena paraense, que já é um dos laboratórios musicais mais interessantes do Brasil, pode acabar se tornando uma chave para entender não só música generativa e inteligência artificial popular, mas também, algumas transformações mais profundas do próprio ecossistema musical na era da IA: quem produz, quem interpreta, quem distribui, quem lucra, quem se torna dispensável — e quem continua indispensável justamente porque ainda existem humanos querendo dançar, performar, consumir, compartilhar e transformar música em experiência coletiva.

    Se anos atrás, pesquisadores de fora do Pará, como Ronaldo Lemos e Lydia Gomes de Barros olharam para a cena eletrônica periférica paraense como um modelo alternativo de produção e circulação musical, talvez agora seja o momento de observar também como essa mesma cena pode contribuir para debates sobre trabalho criativo, redistribuição de renda, autoria algorítmica e reorganização dos papéis humanos dentro da indústria musical.

    É só uma questão de tempo até o Pará nos mostrar, mais uma vez, alguns futuros possíveis. Tic tac.

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  • 5 EPs que teriam entrado na lista da PopMatters de Melhores Álbuns Pop Brasileiros de 2025 se fossem álbuns

    5 EPs que teriam entrado na lista da PopMatters de Melhores Álbuns Pop Brasileiros de 2025 se fossem álbuns

    (Título confiante pois quem escreveu esse post é a mesma pessoa que faz a lista da PopMatters, kkkkkkkkkk)

    Um dos momentos que mais gosto todo ano é fazer a lista de melhores álbuns pop brasileiros da PopMatters.

    Apesar de não ser tão conhecida no Brasil fora do nicho de fãs de Metacritic, a PopMatters é um veículo bastante respeitado no nicho de jornalismo independente, crítica musical e academia nos EUA. É também um dos veículos onde mais me realizei como escritora, pois sempre tive muitas oportunidades por lá e as Editoras sempre deram um espaço muito legal para a música brasileira, inclusive música brasileira nichadíssima, como o brega paraense.

    Fiquei muito feliz quando, em 2021, propus a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros como parte do evento anual que são as listas de melhores do ano, e as editoras toparam. Desde então, só não fiz a lista em 2022.

    (Sim, existe o lado discutível de se tratar de um veículo estrangeiro querendo dar pitaco sobre o que é o melhor da música brasileira, maaaaaaaaaaaasssssss se quem faz a lista é uma brasileira, então temos legitimidade, não? O veículo é apenas o veículo. Nesse caso, desculpe-me McLuhan, mas o meio é só parte da mensagem. E, se bobear, o fato de eu como brasileira só achar esse espaço em um veículo estrangeiro talvez seja também uma mensagem.)

    Senti que 2025 não foi um super ano para o pop no Brasil. Tivemos grandes álbuns de rap, MPB, música alternativa etc.

    Mas houve sim algumas iniciativas muito grandiosas, como o Rock Doido da Gaby Amarantos (que eu não só resenhei muito fervorosamente, como também coloquei em #1 na lista anual), e alguns projetos menos ambiciosos que eu torci muito para desembocarem em álbuns, pois tenho certeza que entrariam na lista de álbuns.

    Mas não rolou. Muitos desses projetos permaneceram como EPs.

    Eu acho que há certo mérito em manter essa hierarquia entre álbuns e EPs sim, sobretudo conforme produtos musicais vão ficando cada vez mais orientados ao lançamento e consumo rápidos; então, nem me passou pela cabeça propor uma lista de EPs ou qualquer coisa do tipo.

    Mesmo assim, em 2025 ouvi alguns EPs de música pop (e ritmos e linguagens adjacentes) que são legais demais pra não serem destacados.

    Então vou escrever sobre eles aqui.

    Tenho certeza que, se esses EPs tivessem virado álbuns ainda em 2025, meu trabalho de fazer a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros da PopMatters teria sido muito mais difícil.

    Layse – Música Mundana

    Nossa, como eu queria que fosse álbum. Confesso que cheguei a mandar uma DM para a Layse dizendo que daria tempo de fazer isso acontecer e ela arrasar em listas anuais. (Não façam isso que eu fiz! Não estressem o artista. Fui desnecessária, mas é que Música Mundana realmente me empolgou.)

    Esse EP é genial! Brega-cult de uma finesse rara.

    É coerente, bem amarrado, tem uma produção gostosa que exalra brega e tecnobrega de uma forma interessantemente menos megalomaníaca e estridente. Não que o mérito do EP seja em “suavizar” o brega, mas sim, em fazê-lo de um jeito que a gente não está tão acostumado a ouvir, e que ainda assim soou muito legal, sobretudo porque o timbre e jeito de cantar da Layse são mais puxados pra MPB do que pro pop melódico. É uma voz mais Anna di Oliveira do que Viviane Batidão.

    Meu destaque musical vai para “Voando com o J. Som” mesmo; mas meu destaque pessoal vai para “Extrago”. É um brega-bolerinho genial que eu certamente usaria como bio do meu perfil no Orkut, se em vez de “cerveja” a letra falasse em “cachaça”, e se eu bebesse cachaça na época em que ainda existia Orkut. Amei muito a exaltação da mulher poeta que sente prazer na sua própria companhia e se sente vive deliciando a própria companhia na presença de terceiros.

    myha e ILLANES – Furduncim

    Difícil classificar o(s) gênero(s) musical(is) desse EP, mas super encaixo em pop pois acho que a linguagem como um todo é essa. Esse é um trabalho extremamente interessante e notável de uma dupla de produtores de Minas Gerais, que juntos, criaram fusões muito legais de brega, brega funk, forró, piseiro, pagodão, cantos e cantigas, dub, trance, dance/EDM etc.

    Que delícia! Isso é o futuro.

    Aliás, já falei bastante desse EP no artigo 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026, e até ilustrei o artigo com a capa desse EP, pois acho que ele reúne tanta coisa legal que eu sinto como elemento estrutural do pop brasileiro contemporâneo e ao mesmo tempo sintomático do que podemos esperar que cresça em um futuro próximo.

    O fato de o álbum ser aberto por uma parceria com o divertidíssimo e criativo Cabra Guaraná diz muito, diz tudo. Tem um quê de piada, de vinheta, de versão musical de linguagem de Internet às vezes. Por esse motivo eu inseri esse estilo musical no “gênero” colagem eletrobrega.

    Mas sei lá se essa expressão é suficiente, sei lá como definir o som desses caras, só sei que é algo em que devemos prestar atenção e que dá pra curtir horrores.

    (E essa capa ótima? Só ela já mereceria estar em uma lista.)

    DOUM – DOUM

    Não conhecia esse duo de Salvador, mas ando muito entusiasta do que venho chamando de “pop baiano” (e apesar das possíveis limitações do rótulo, eu vou continuar usando porque acho que o pop que tem sido feito por alguns artistas baiano tem peculiariades e um charme específico que merecem sim ser entendidos como um universo à parte), e nesse sentido, adorei o tipo de música que eles fazem.

    É quase MPB, mas pop demais pra isso, tem um suíngue próprio (levemente próximos ao hip hop/trap melódico) e elementos de axé.

    Mas quem ouvir “Querendo Bis” pode achar que DOUM é uma espécie de versão baiana d’Os Garotin.

    Gostem ou não de comparações, meu veredito é que os garotos têm potencial. O EP é uma delícia e cheio de estilo.

    Sofia Pitta – Molho

    É, mais pop baiano, vou fazer o quê?

    Essa cantora é muito boa. Com o crescimento da Rachel Reis e da Melly, acho que um bom espaço pode se abrir pra ela. Não que ela seja uma cópia, mas é certamente do mesmo grupinho. Não é ruim estar em tão boa companhia. Espero que ela saiba explorar isso da melhor forma (pelo que já vi nas redes sociais, ela tem uma forma de se comunicar bem divertida e autêntica).

    Enfim, é aquele som praiano e suingado que grita molho baiano (não à toa o EP é aberto por uma faixa chamada “Molho” mesmo), mas com uma pegada mais suavinha na maior parte do tempo, só com um tempero levemente mais rebolativo em “Vixe Maria.”

    Como a própria Sofia canta em “Tempo voa”: “Um amor com esse calor só se vê em Salvador”.

    Duda Beat – esse delírio vol. 1

    A Duda é complicada, não consigo não me interessar por qualquer coisa que ela lance (exceto, talvez, as “versões”, como a que ela lançou recentemente de “Messy” da Lola Young). Ela, a Pabllo e a Marina são meu sonho de princesa de fã de música pop nacional. É sempre muito difícil não incluir projetos da Duda em listas de melhores porque sempre se destacam entre os demais. São bem feitos, têm personalidade, têm proposta, tem execução legal, têm melodias e letras muito autênticas que não só caminham bem na linha tênue entre alternativo e mainstream: elas desfilam, rebolam, fazem performance sensual nessa linha.

    Esse EP ficou muito bom, traz uma Duda mais próxima àquele lounge pop psicodélico que fez o álbum de estreia dela render comparações com Kali Uchis. Não à toa, tem até collab com a banda de rock psicodélico Boogarins.

    Muita gente achou “Casa” pretensiosa. Eu não achei (mas certamente ainda teria amado se fosse, curto pretensões musicais se o artista pesquisa e sustenta). Eu amei. Amo a Duda experimental.

    O fato de o título do EP mencionar “vol. I” já me deixa feliz. Quero muito conferir o Vol. II e/ou o projeto completo.

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