Eu não odeio putaria music, mas: (1) acho que a pergunta-título desse artigo propõe uma hipótese válida; (2) eu não exatamente me empolguei com as letras do novo álbum da Bia Soull, PORNOGRAFIA AUDITIVA (2026).
O álbum tem instrumentais fenomenais. É musicalmente ambicioso, bem feito, fresco, original, tem uma produção digna de premiação. A voz e o flow de Bia Soul também estão no ponto. Ironicamente, a parte que menos me excitou foram algumas letras, não por quão diretas e explícitas são, mas pela baixa elaboração. Em alguns pontos, ficou faltando um gesto criativo que transcenda a simples descrição e converta o sexo em experiência simbólica, seja por meio de rimas engenhosas, imagens sugestivas ou percursos melódicos mais sinuosos.
Isso leva à discussão: quanto de lirismo uma obra musical sobre sexo precisa ter?
Correndo o risco de soar mais pau mole do que provavelmente você já deve ter pensado que sou por até mesmo entreter a ideia de que falar de sexo de forma literal é entediante, vou propor uma analogia com o Direito Autoral.
No campo autoral, não se protege a ideia ou a informação em si, mas a forma como ela é expressa. Essa proteção só existe quando há um mínimo de originalidade, isto é, quando o autor faz escolhas criativas que poderiam ter sido diferentes do que uma descrição literal de algo. Um texto que apenas narra fatos de maneira necessária, quase automática, dificilmente atinge esse patamar. É como se a originalidade fosse o erotismo do Direito Autoral. Transcrição de sexo: sem originalidade; adiciona uma poesinhazinha, um erotismo, uma metáfora: tem originalidade.
E é exatamente essa a minha falta de entusiasmo com parte das letras aqui: não é o tema que as empobrece, mas a execução. Ao optar por uma descrição direta, quase protocolar, abrindo mão de qualquer elaboração estética, há apenas ata de ato sexual. Música pode servir pra isso? Pode, claro. Mas tem apelo artístico?
Não acho que as letras em PORNOGRAFIA AUDITIVA sejam totalmente descritivas e genéricas (sobretudo na segunda metade do álbum, em que há um storytelling muito mais interessante), mas em muitos momentos, sobretudo os menos melódicos, as letras poderiam ter se beneficiado de mais alternância entre literalidade e poesia. No rap/funk não melódico, é legal ter um temperinho discursivo que te anime a decorar e interpretar junto, é preciso ter um discurso ou figuras de linguagem mais interessante do que algo meramente narrativo/descritivo narração pra ser empolgante.
Então, talvez a questão seja mais de alinhamento de forma com conteúdo. Por exemplo, em “Malandro touchscreen” as letras de putaria funcionam mais porque estão carregadas por melodia, isso é, é Bia cantando e não fazendo rap, tem uma corzinha sendo adicionada ao conteúdo de teor sexual.
Isto é dizer que música sobre sexo precisa oferecer algum outro atrativo pra “compensar” o fato de estar descrevendo sexo? Talvez. (Assim como, para muita gente, sexo também precisa de algo a mais pra ser prazeroso, o simples fato de ser sexo não é suficiente.)
Afinal, é de música que estamos falando, né?… E falar de sexo em música não é errado, mas se não há um esforço lírico ali, então é fala, é narração, não sobra música.
Eu curtiria mais ouvir repetidamente e cantar as músicas desse álbum se a construção lírica fosse diferente? Certamente.
As letras tornam o álbum menos interessante? De jeito nenhum.
Seria conservador da minha parte achar que há um jeito melhor ou pior de falar sexo em música? Talvez sim. Mas talvez mais um purismo musical do que costumes. É sempre legal ver uma mulher sem amarras pra falar de algo que ela é socializada a não verbalizar, mas achar que essa proposta é suficiente seria nivelar por baixo, o que não é necessário porque o que não falta no mundo é mulher que sabe fazer música boa.
O objetivo de ser explícita ou chocante não é um empecilho pra isso, como diversas outras músicas sobre sexo já lançadas provam*, e como inclusive se nota em algumas do próprio PORNOGRAFIA AUDITIVA.
*É complicado citar outros exemplos de música de putaria que considero “bem feitas” porque defender que existem jeitos melhores ou piores de cantar sobre sexo corre o risco de ser tão moralizador quanto rejeitar música que fala sobre sexo… mas vou sim citar referências, sim, porque a questão aqui é de forma e não de conteúdo. Vou citar, inclusive, obras que também são de mulheres pretas e/ou do hip hop: a opening line de “Big Mama Thing”, de Lil Kim que pra mim é um dos versos mais inteligentes e fodas da história; e o álbum inteiro Foi eu que fiz (2022) da Deize Tigrona, é bom pra caramba.
Então, exposto o primeiro ponto, que honestamente nem toma a maior parte do álbum, façamos uma análise menos microscópica do seu principal ponto de aprimoramento. PORNOGRAFIA AUDITIVA é putaria music de finíssima qualidade.
O álbum já começa se desmentindo de uma forma inteligente: a primeira faixa se chama “Preliminares”, mas a letra já começa falando de sexo oral, provando a sua própria tese de que preliminares não existem, tudo no sexo é sexo. A entonação sussurrada e timbre fininho de Bia Soull evocam a estética do funk mineiro, ao passo em que o instrumental mostra que esse será um álbum de beats igualmente finas.
E a promessa é cumprida: cada faixa que segue tem uma produção mais sofisticada que a outra, misturando funk (brasileiro e estadunidense), rap, jazz rap, boombap, future bass/R&B, house.
“Melaço” e “Desgraçadinha” são destaques absolutos, a visão de som é absurda nessas.
Algumas letras menos elaboradas funcionam bem quando há estão amarradinhas com cadências de repetição formulaicas………., como em “Sinergia”, mas honestamente, tudo fica muito melhor quando a Bia começa a inserir mais contexto nas letras.
“Boombap puto” é uma excelente …. linha spiritual girl que a Nanda Tsunami. Inclusive, o feat com a Nanda Tsunami (grande mestra do storytelling e que sabe usar erotismo e putaria nas medidas certíssimas) é um acerto gigantesco, as duas estão em perfeita sintonia em “Putinho piru rodado”.
É possível não ser conservador (isto é, não censurar e odiar putaria music? Claro que é, são duas coisas relacionadas mas não são a mesma coisa. Dito isso, ainda que fosse meu caso, seria muito difícil odiar PORNOGRAFIA AUDITIVA.
Se você gostou da música da artista, encorajamos você a comprar o projeto pelo Bandcamp ou pelo menos consumir por meio de canais oficiais da artista para que ela possa ser remunerada.
Projeto: álbum PORNOGRAFIA AUDITIVA
Artista: Bia Soull
Lançamento: 16/04/2026
Disponível em: Youtube, Spotify, Deezer, Apple Music, Amazon Music

