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  • Experimentação é uma atitude ou uma estética? 
Mc Luanna e a arte de não levar a sério a arte de não se levar a sério

    Experimentação é uma atitude ou uma estética? Mc Luanna e a arte de não levar a sério a arte de não se levar a sério

    Nessa semana, a rapper Mc Luanna lançou um projeto de arrocha. Ou melhor, de rap versão arrocha.

    Muitos chamaram de forró, piseiro, brega etc… não é nada disso, mas não é nessa intercambialidade que se inicia a minha irritação ainda, pois de fato esses são gêneros musicais e universos culturais conectados (por exemplo, dias atrás li Jonas Medeiros chamando o brega de “língua franca” do Norte e Nordeste, e gostei dessa definição).

    O single é a faixa “Papel de otária”, e seu lançamento tem também um “medley” de raps dela em formato de arrocha daqueles feitos pra tocar em paredão.

    “Papel de otária” começa com a letra “Como se nada”, mas não é que esse EP tenha sido lançado exatamente do nada. Luanna é baiana, terra onde nasceu o arrocha e a pisadinha, e já tinha demonstrado algumas vezes que curtia esses gêneros e queria brincar com eles.

    Pois bem, ela foi lá e fez. E a repercussão tem sido engraçada.

    Muitas pessoas disseram que ficou horrível. Criticaram a qualidade da música e riram do vídeo de “Papel de otária”, em que Luanna aparece com um figurino de cantora de forró pop, e o produtor Mello Santana assume o papel do tecladista, que é basicamente o guitarrista das bandas de forró eletrônico, piseiro etc.

    “Papel de otária” não está muito longe das reais inspirações de Luanna, que parecem ser justamente os “Fulano e os Teclados” da vida, os grupos musicais de forró e brega que às vezes acabam chegando ao status de um Calcinha Preta ou um Barões do Pisadinha, mas na maioria dos casos, seguem sobrevivendo à base de shows enxutos em cidades do interior do Norte e Nordeste ou casas de show periféricas do eixo Rio-SP onde moram pessoas do Norte e Nordeste que ajudaram a colocar o eixo Rio-SP de pé.

    É verdade que o forró e o brega passaram nos últimos ~10 anos por um processo de abraçamento pelo mainstream e pela cultura popular das redes sociais, aculturados sob a bandeira da estética “camp”, ou exaltados por um misto de nostalgia e bandeira identitária dos millenials nortistas e nordestinos que conseguiram vencer nesse Brasil Sudeste-centrado.

    Isso é mérito de muita gente e inclusive do Governo Lula que deu dignidade a muitas dessas pessoas. Artistas como Pabllo Vittar, que prepararam a cama para que Dudas Beats e Marinas Senas pudessem deitar. Mas também de artistas mais underground, como Banda Uó, Gang do Eletro, Luísa e os Alquimistas, que não alcançaram o mesmo nível de reconhecimento, mas que estavam ali bem de boa e consistentes construindo uma estética musical fundada nos seus contextos geográfico-culturais com alguns ganchos que o mid/mainstream conseguiu pegar para transformar em versões mais palatáveis para outros públicos.

    (( Eu me lembro, em 2021, quando fiz pela primeira vez a lista dos 10 Melhores Álbuns Pop Brasileiros da PopMatters, que uma pessoa no Twitter X ironizou a presença do álbum Marmota do Getúlio Abelha, dizendo que não era mainstream pra estar naquela lista. Não consigo achar esse post agora, mas lembro que Getúlio Abelha sabiamente respondeu: “Se você soubesse o quanto o que os artistas underground fazem é importante pro mainstream!”. ))

    Também é verdade que alguns desses gêneros musicais já não são mais tão vistos com aquele olhar elitista e xenofóbico que foram ou seriam no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 (o que diria Ariano Suassuna, que chamou a Banda Calypso de “feia e brega”, sobre João Gomes?). Na verdade, o piseiro já tá quase sendo reconhecido como MPB, sobretudo depois que o Sudeste caiu de amores por João Gomes, o que ele astutamente respondeu com mais e mais piseiro Sudeste-friendly.

    Não faço essas considerações com deboche nem reclamação. A inserção dos gêneros populares do Brasil profundo e periférico no pop é um dos motivos pelos quais o pop brasileiro ganhou mais identidade, cor e tempero nos últimos anos. Vejo zero problema na existência de uma versão gourmet desses gêneros.

    Mas a versão raiz continua existindo, é muito viva e não é só matéria-prima para o gourmet.

    @mcluanna

    PRA BATER NOS PAREDÕES • PRÉVIA PAPEL DE OTÁRIA

    ♬ som original – MC LUANNA

    A Mc Luanna poderia ter feito um arrocha supostamente higienizadinho, mas quis fazer algo mais próximo do que seria se ela realmente tivesse n’um bar do Centro de SP ou de alguma rua perdida de Salvador e tivesse que, ela mesma, Mc Luanna, rapper, improvisar um vocal para um cara que foi ali pra tocar um arrochinha no teclado. Ela optou por não se levar muito a sério, e não se levou mesmo.

    Produtores musicais costumam dizer que o momento de saber que uma faixa está pronta é quando eles simplesmente decidem parar de trabalhar nela. Talvez dê pra dizer que Mc Luanna e Mello Santana pararam cedo. Mas no fim das contas, aventurar-se, brincar, experimentar, era pra ser isso, também.

    É verdade que há algumas estranhezas estéticas em “Papel de otária”: na mixagem, nos vocais. Felipe Maia no Twitter X trouxe para a discussão um comentário pertinente sobre como Mc Luanna usa uma entonação/prosódia muito típica do rap, não seguindo muito a cartilha do estilo forró de cantar. Basicamente: ela termina os versos muito rápido, como rapper mesmo jogando o verso pra você “digerir”, sem melodizar muito os versos e sem conectar os espaços entre um verso e outro. Já estou perdendo a memória da primeira impressão que tive de “Papel de otária” (já ouvi mais de dez vezes), mas lembro de também ter sentido um certo “descasamento” entre o que estava ouvindo e o tipo de vocal que eu esperaria ouvir por cima de um instrumental como aquele. Mas achei que esse seria um charme da faixa também. E é.

    Essa música teria sido mais aceita se tivesse uma produção mais elaborada? Mc Luanna teria sido menos criticada se, em vez desse EP produzido e lançado desse jeito, tivesse feito um verso para uma música do João Gomes ou para um piseiro pop da Duda Beat?

    Tenho certeza que sim.

    E teria soado mais natural?

    Talvez sim, no sentido de ser mais próximo daquilo que esperaríamos do que uma rapper do midstream pra cima faria.

    Ouso dizer que talvez soasse mais natural até para quem é do mundo do forró/brega/arrocha/piseiro/paredão, que teriam curtido o instrumental e melodia mas teriam achado que essa vocalista ainda precisa comer algum feijão com arroz.

    Mas pra quem transita entre esses dois mundos, tenho certeza que soou no mínimo muito ok, e com alguma abertura, extremamente viciante.

    Independente dos vocais e da letra, Mc Luanna usou uma progressão de acordes que não tem erro. Eu tenho uma teoria que defendo há anos, de que existem certas progressões de acordes que conseguem fazer uma música ser no mínimo gostosinha de continuar escutando independente da força da melodia e/ou da letra; e eu sigo firme nessa teoria. Não dá pra não ser grudante com uma progressão de acordes dessa.

    Fora que o instrumental de teclado em “Papel de otária” é muito bom também; ele é o que pretende ser e o que precisa ser pra ser um arrocha. O sintetizadorzinho tá matador.

    Muitas vezes, mesmo quando a gente vê um artista se “aventurando” em estéticas, gêneros, propostas artísticas diferentes sob o argumento de que quer se divertir e não se levar tanto a sério, essa despretensiosidade costuma estar muito mais na proposta inicial do que na execução, né?

    Ou, pior ainda, o conceito de levar a sério muitas vezes é esperado que equivalha a produzir a versão mais sofisticada possível de algo que era pra ser só um experimento divertido. O problema é que a sofisticação muitas vezes é só um eufemismo para mascarar gostos e predileções que são moldados por muitas coisas, inclusive preconceitos.

    No caso da Mc Luanna, deu pra ver que ela realmente quis se divertir e focou nisso e parou nisso, não ficou pirando em buscar uma master perfeita, um vocal cheio de vibrato a la Solange Almeida.

    Ficou levemente tosco, mas não é uma paródia. É, esteticamente, uma v1 (e não a v1_final_FINAL_É ESSAA) de uma gravação de uma rapper cantando arrocha.

    Se você gostou da música do artista, encorajamos você a consumir por meio de canais oficiais para que ele possa ser remunerado.

    Projeto: single PAPEL DE OTÁRIA + MEDLEY 4×4 

    Artista: Mc Luanna

    Lançamento: 12/08/2026

    Disponível em: Spotify, YouTube

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  • Tô achando a história da Cacau Chuu parecida com a da PinkPantheress

    Tô achando a história da Cacau Chuu parecida com a da PinkPantheress

    Ex-gótica, ex-otaku, ex-e-girl, fã de K-pop, e estrela do funk que se recusa a ser MC, Cacau Chuu é uma matéria prima pop especialmente interessante.

    Seu próprio nome artístico já parece uma piada interna entre diversas camadas de cultura pop: “Cacau”, embora seja um diminutivo de seu nome Cauane, remete a uma sonoridade kawaii, enquanto “Chu”, segundo a própria Cacau revelou no podcast NOVAPAPO, evoca tanto Pikachu quanto a CHUU do ex-grupo de K-pop LOONA.

    Cacau Chuu, como uma trufinha da Cacau Show, é adocicada de um jeito artificial mas viciante.

    A jovem de 20 e poucos anos da Zona Leste de São Paulo é a estrela feminina em collabs produzidas e frequentemente coestreladas por homens MCs, em funks e brega funks que têm dominado o TikTok e as paradas do Spotify nos últimos meses.

    Uma dessas faixas, inclusive, chamou a atenção da cantora pop Luísa Sonza, que já tem um histórico de se inserir em músicas que nasceram em circuitos menos mainstream e ajudar a transformá-las em acontecimentos pop, como aconteceu com “Sentadona”.

    Luísa, de uma maneira muito astuta, parece tomar cada vez mais posse dessa cadeira de curadora ou aceleradora de fenômenos que já estão acontecendo por baixo de radares maiores.

    Parafraseando Travis Scott em “Sicko mode”, podemos dizer que Luísa Sonza entra em “Ai que loucura” como a cola que junta algumas estruturas caóticas, podendo alçar algo ligeiramente subcultural a um patamar mais acessível para fãs de pop chiclete. (Ou, talvez, pop trufa da Cacau Show.) E ainda adiciona o colombiano Ryan Castro.

    A dinâmica lembra um pouco outro fenômeno que, à época, pouco prometia sobre o quanto moldaria a indústria pop: “Boy’s a liar Pt. 2”, a colaboração entre PinkPantheress e Ice Spice lançada em 2023.

    À época, PinkPantheress já tinha uma carreira construída na internet e uma estética muito própria. Ice Spice, por sua vez, era naquele momento uma das novas sensações do rap americano, alçada a estrela com o sucesso dessa colaboração. “Boy’s a liar Pt. 2” juntou duas trajetórias em ascensão e criou uma faixa que ultrapassou a escala original de ambas.

    Sonza é, obviamente, bem mais consolidada do que Ice Spice e PinkPantheress eram em 2023, mas “Ai que loucura” serve menos para confirmar quem já é famoso e mais para revelar quem pode estar prestes a subir degraus.

    A beat de “Ai que loucura” parece um drum’n’bass com sintetizadores de abertura de anime fofo, desmontado e reconstruído como brega funk. Uma produção interessante do DJ Exe que lembra a sofisticação minimalista e Y2K das produções de PinkPantheress.

    (Inclusive, não parece loucura pensar que o instrumental de “Ai que loucura” seria algo que a própria PinkPantheress curtiria ou toparia lançar).

    É quase como se fosse uma cadeia de tradução cultural: um gênero mais global (drum’n’bass), filtrado por uma cena brasileira (brega funk) transformado por uma linguagem periférica, circulando por uma artista digital, remixado pelo pop mainstream (com Luísa Sonza).

    Mas o potencial da Cacau não está apenas em ser agente de potencialização desse percurso. Está também na linguagem que ela parece estar ajudando a cristalizar.

    Há, em torno dela, um universo cor de rosa, açucarada e ligeiramente delirante, em que sintetizadores lounge encontram batidas de funk e brega funk, referências de anime e K-pop embrulhando letras sexualmente explícitas…

    Um universo em que a Hello Kitty pode ser tanto uma boneca de pelúcia fofa que fica em cima da cama de uma garota para compor uma decoração doce e sonhadora, quanto para servir de objeto para essa garota se divertir um pouquinho sozinha na sua cama.

    Cacau Chuu fala de sexo sem cerimônia e sem uma entonação direcionada a causar algum impacto específico. Ela circula em uma cena musical em que a sexualidade feminina pode ser bastante explícita, mas ao mesmo tempo, sua imagem mobiliza elementos de fofura, cultura geek, música eletrônica periférica, estética de quebrada e ideais de uma feminilidade hipersexualizada mas também de uma feminilidade infantilizada.

    É uma combinação que flerta pendularmente com o problemático e com o pós-moderno — retrato bastante preciso de uma juventude para a qual tudo foi democratizado ao mesmo tempo: Pokémon, K-pop, pornografia. São experiências e iniciações (culturais, sexuais e de consumo) que há décadas atrás dependeriam de geografia, capital e idade, mas que hoje em dia cabem todos na mesma tela de um smartphone.

    É interessante pensar em como Cacau Chuu construiu esse mundo que hoje parece a sua assinatura musical.

    Muitos dos hits de Cacau Chuu têm pouco ou nada a ver com A&R: a cantora costuma disponibilizar no SoundCloud algumas faixas vocais (que ela chama de “pentes”) com diversas melodias, como um medley sem beats, e assim, DJs e produtores musicais podem usá-los como querem (embora o e-mail de Liberações disposto no perfil sugira que esses usos dependem da aprovação da equipe da cantora).

    É uma maneira bastante 2026 de construir uma carreira: em vez de esperar que as pessoas encontrem suas músicas, você dá a elas pedaços de você para colocar nas músicas delas.

    Esse modus operandi possibilitou que uma artista oriunda do funk paulista se tornasse estrela do brega funk que domina o Pernambuco, e fez com que Cacau Chuu fosse parar em várias outras músicas de gêneros e regiões diferentes, inclusive no “Passinho do Jamal”, febre do brega funk em 2026 que desafiou os funks do eixo Rio-São Paulo em seu potencial acidental de soft power brasileiro.

    Há alguma coisa quase pós-discográfica nesse modelo. Cacau não precisou trocar de cena para circular por outras, bastou deixar sua voz ser insumo.

    Isso é muito interessante, inclusive do ponto de vista da Propriedade Intelectual. O que circula não é apenas uma gravação ou um conjunto de letras e melodias: é uma assinatura artística que pode ser recortada, recombinada e reinscrita em outros contextos. Cada DJ que usa os pentes de Cacau está, de certa maneira, importando também um pouco do universo Cacau Chuu para dentro de sua própria música.

    Ela não é só uma topliner ao contrário. Com a faixa exportada do vocal vai junto o estilo dela.

    E embora todo esse pacote dialogue perfeitamente com o funk, bregafunk, trap e outros gêneros musicais populares periféricos, parece muito evidente que Cacau tem algo que excede essas linguagens musicais nas quais encontrou seu primeiro grande público.

    A própria Cacau cita como sua principal referência Anitta, hipótese-mór da funkeira que não só pivotou pro pop como deixou inequívoco que funk É uma das maneiras pelas quais o pop brasileiro acontece.

    Cacau diz ainda que não faz questão de se restringir ao funk e que sequer se vê como uma MC.

    No momento, o que Cacau parece ser é uma persona capaz de atravessar vários gêneros e cenas, mas olhando para ela com alguma distância, é difícil não enxergar uma estrela pop em formação. Ela de fato se parece menos como uma nova MC e mais um possível spoiler do pop brasileiro.

    Cacau Chuu, assim como PinkPantheress, é, ou pode vir a ser, tanto produto quanto vetor.

    PinkPantheress se tornou um dos sinais mais claros de que uma certa linguagem musical (uma nascida na internet, influenciada pela estética Y2K, minimalista e levemente inquietante) estava pronta para transitar da cultura de nicho para o vocabulário do mainstream pop, influenciando ou refletindo-se na sonoridade e estética de fenômenos pop maiores como o grupo de K-pop NEWJEANS – e que posteriormente influenciou toda uma geração de girlgroups de K-pop posteriores.

    Ela não chegou a inventar muita coisa.

    Não inventou o UK garage, o drum’n’bass, o R&B, a música eletrônica de internet ou a nostalgia pelos anos 2000.

    O que ela fez foi juntar essas coisas de uma maneira tão econômica, reconhecível e contemporânea que aquilo que parecia uma combinação de referências específicas começou a funcionar como uma linguagem pop cujos rastros e sabores são sentidos no pop/K-pop pós-pandemia.

    (E há algumas ironias e coincidências quase circulares nisso: PinkPantheress é ela própria uma apreciadora do K-pop, assim como Cacau Chuu).

    Não me surpreenderia ver Cacau Chuu provocando algumas movimentações similares, guardadas as devidas proporções, e de acordo com o seu próprio universo. Cacau Chuu é uma espécie de infraestrutura.

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