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  • 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026

    13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026

    (Capa do EP Furduncim, de myha e ILLANES, lançado em 2025. Escolhi essa capa para ilustrar o artigo sobretudo porque há ma música nesse EP que sinto que sintetiza vários elementos que mapeio nesse artigo: forró, reggae, cantos e cantigas, eletrônico etc… É a “Trem de Dub”)

    Eu adoro previsões e mapeamento de tendências!

    Claro que nem sempre acerto (e claro que esse tipo de análise sempre é um pouco enviesada), mas gosto do exercício. Gosto de tentar captar sinais ainda difusos que parecem dialogar com algo maior e tentar entender quais ideias estão mais propícias a germinar em determinado momento. Já falei sobre isso no meu artigo Flora Matos e a desvantagem do piloto.

    Ao longo de 2025 e também nesses primeiros dias de 2026, mapeei alguns caminhos que me parecem especialmente promissores para a música brasileira nesse ano.

    Quis, especificamente, identificar gêneros “novos” ou emergentes — a ideia aqui não foi dizer que o funk, o pagode etc vão continuar em alta, mas sim, tentar identificar coisas razoavelmente novas que podem começar a crescer, mesmo que não atinjam seu ápice em 2026.

    Ao organizá-los, notei várias interseções e pontos em comum, tanto que tive dificuldade de separar alguns. O acordeão do batidão gaúcho e os sintetizadores do noia dance têm a ver com o tribal guarachero; o reggae e suas vertentes aparecem como pano de fundo ou beat principal tanto do arrocha reggae quanto do funkhall etc. Elementos como esses aparecem de formas diferentes nos gêneros que selecionei.

    Após o exercício de identificar, separar gêneros que compartilham elementos em comum, “nomear” , cheguei a 13 gêneros.

    O que vem abaixo não é um ranking nem uma profecia cravada: é só um retrato possível de um momento em formação.

    Seguem meus palpites sobre 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer em 2026, sem ordem particular de “relevância”, preferência, nem nada:

    1. Noia dance
    2. Arrocha reggae / Seresta reggae
    3. Manguebeat (revival contemporâneo) / tecnocangaço
    4. Funkhall / Funk dancehall
    5. Art pop / Art pop folk
    6. Brega latino
    7. Tribal guarachero (talvez com outro nome)
    8. Colagem eletrobrega
    9. Slow deconstructed funk (algum nome mais interessante e original deve surgir)
    10. Cumbia brasileira
    11. Cantos ancestrais e/ou tradicionais no pop
    12. Batidão gaúcho
    13. House mandinga / Afro-lounge brasileiro

    Vamos conhecer melhor cada um deles.

    Noia dance

    O que é:

    Música eletrônica que mistura dutch house, funk e até alguns elementos de moonbathon e outros gêneros urbanos de inspiração afrolatinas.

    Costuma ter uma melodia de buzininha ou um hook feito com algum tipo de sintetizador (Na primeira vez que escutei noia dance, a primeira coisa que essas melodias das buzininhas me trouxeram à mente foi o hookzinho de guitarra que o Pharell Williams colocou no instrumental do remix de Boys que ele fez para a Britney Spears).

    Onde surgiu:
    Criado nas periferias de Porto Velho, Rondônia, no Norte do Brasil, na década de ~2010, mas ganhando maior relevância por volta de 2024.

    Onde já está rolando:
    Forte em Porto Velho-RO e começando a ganhar outros Estados por meio do TikTok. Apesar de ainda estar muito abaixo do radar nacional, o noia dance já circula amplamente no ambiente digital.

    Além disso, segundo reportagem do G1 Rondônia, em 2025 o noia dance chegou a mais de 150 países, um dado que diz muito sobre como cenas periféricas conseguem hoje furar fronteiras sem necessariamente passar pelo centro do mercado brasileiro.

    Em quem prestar atenção:
    Zequinha Oliveira, Felipe Morais, Yuri Lorenzo e outros DJs do Canal Remix

    Quem pode levar adiante essa tendência para o resto do Brasil:
    Naturalmente, os DJs e produtores rondonienses — mas além deles, acredito que outros DJs de fora do Estado que estão em nichos parecidos têm potencial. O DJ Guuga, por exemplo, tocou noia dance quando se apresentou em Porto Velho em 2025 e aparentemente já está lançando coisas nesse estilo:

    Também aposto que o DJ Lorran sustentaria um noia dance.

    E claro, quando o ritmo começar a estourar a bolha, deve chegar ao Pedro Sampaio, haha

    Projeções abertas e comentários finais:

    Se 2025 foi marcado pelo destaque da música eletrônica periférica paraense (sobretudo o tecnobrega e o rock doido), 2026 pode ser o ano em que o Brasil passe a reconhecer também criações eletrônicas periféricas vindas de outros estados da região Norte.

    O noia dance é muito divertido e dialoga muito bem com vertentes mais lúdicas e despretensiosas do funk brasileiro — especialmente aquelas ligadas à zoeira, ao humor etc, como o passinho do romano do Rio de Janeiro; ou ao funk MTG de Minas Gerais. Acho que tem um potencial bem grande de fazer sucesso no Brasil todo.

    Essa é uma oportunidade excelente de Rondônia lançar para o Brasil uma tendência cultural pra chamar de sua — e uma chance para o Brasil finalmente conhecer algo da região Norte que não seja Pará nem Amazonas.

    Arrocha reggae / Seresta reggae

    O que é:

    Arrocha, seresta, brega etc com influências bem marcadas de reggae e cultura rasta no canto e nas letras, não só nas batidas.

    Onde surgiu:

    É razoável cravar a bandeira no interior da Bahia, mais especificamente em Feira de Santana, porque é de lá que vem o projeto Seresta do Rasta, protagonista do estilo.

    Aliás, a Bahia também é a terra onde nasceu o arrocha, então faz sentido.

    Onde já está rolando:
    No Nordeste, em zonas onde forró, arrocha, seresta e reggae convivem há décadas.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O próprio Seresta do Rasta, Nadson Ferinha, Cleiton Rasta, Bruxo

    Quem pode levar adiante essa tendência:

    Artistas que têm transitado bem na seresta e no arrocha-brega romântico, como Klessinha e Yasmim Sensação.

    Em um nível mais mainstream, achei que o ritmo tem a leveza e bom humor que artistas como o Nattan e Grelo sustentariam bem, e talvez o próprio João Gomes, que já está conversando um pouco com reggae.

    Projeções abertas e comentários finais:

    O arrocha reggae ou seresta reggae é uma mistura que conecta pontos extremos do Nordeste: o reggae que faz sucesso no + o arrocha da Bahia, mas que tem tudo pra ganhar o Brasil.

    Com certeza pode crescer ainda mais no no Pará, onde o reggae já é abraçado e o brega já é um estilo de vida: vai casar perfeitamente.

    Forró, piseiro e arrocha são vetores naturais dessa fusão, especialmente por sua força no interior do país; mas acredito que o gênero também tem um potencial “praiano” muito forte e pode extrapolar o litoral nordestino.

    Manguebeat (revival contemporâneo) / tecnocangaço

    O que é:

    Versões contemporâneas do manguebeat e até infusionadas com elementos de outras regiões agrésticas do manguebeat, como o tecnocangaço, termo criado pelo produtor Limaothesound.

    Onde surgiu:
    O manguebeat surgiu em Pernambuco, nos anos 1990, com Chico Science & Nação Zumbi. Mas nos últimos anos,

    Onde já está rolando:
    Pernambuco e Alagoas, mais como chamado simbólico do que como cena consolidada.

    Em 2025, surgiram lançamentos que retomam o espírito do manguebeat sob uma ótica contemporânea, misturando referências originais com pop e produção atual, como o álbum de estreia dos pernambucanos Barbarize, que reimagina o manguebeat à luz do funk, dance, reggaeton etc.

    Além disso, o alagoano Limaothesound criou a sua própria versão contemporânea da mistura do tropical com agreste: “tecnocangaço”.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O duo pernambucano Barbarize, o produtor alagoano Limaothesound, o coletivo tocantinense Masterholic.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Os artistas acima, e além disso, o próprio Nação Zumbi, que tem promovido ativamente o aniversário de 30 anos do álbum Da Lama ao Caos, inclusive com João Gomes, que tem incorporado homenagens a Chico Science na medida em que se consolida como novo ídolo popular do Estado do Pernambuco.

    Projeções abertas e comentários finais:

    O manguebeat pode ressurgir não apenas como um resgate nostálgico, mas como uma nova cara da música nordestina (e adjacentes — já que citei o Tocantins) que mantém vivo seu passado de disrupção musical e inovação vinda do sertão, ao mesmo tempo em que dá a tudo isso uma nova cara.

    Funkhall / Funk dancehall

    O que é:

    Autoexplicativo: é a fusão do nosso funk brasileiro com batidas de dancehall (gênero jamaicano).

    Onde surgiu:
    Em São Paulo, mas como fusão digital e transnacional também. Pioneirizado pelo Pump Killa, que é um dos principais nomes do dancehall no Brasil e se define hoje como “Soldado do Funkhall.

    A fusão de funk & dancehall enquanto um gênero só ganhou maior destaque agora no ano de 2025, sobretudo a partir do lançamento da mixtape Funkhall Vol. 1, da Rua B Records.

    Onde já está rolando:
    Entre os principais ouvintes da Rua B Records estão São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba.

    Mas por meio do YouTube, Spotify, TikTok, o funkhall já até extrapolou as fronteiras brasileiras. Alguns estrangeiros o chamam de brazilian dancehall funk.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência
    Yuri Redicopa, DJ Seth, e claro, Pump Killa

    Quem pode levar adiante essa tendência
    Artistas de pop e funk que transitam bem entre esses territórios do funk brasileiro e gêneros de origem jamaicana.

    Em um âmbito mais mainstream, apostaria no Mc Cabelinho, que inclusive já está abertamente se dedicando ao reggae, com o lançamento de “Rastafari” em 2025.

    O funkhall também tem muito potencial no pop (pense em algo do tipo “Pon de Replay” da Rihanna mas mais puxado pro funk), por meio de artistas como a POCAH (que inclusive aparece no EP Funkhall Vol. 1, na faixa “Lindo com dinheiro”) e a IZA, que sempre foi influenciada pelo reggae e aparentemente o terá como inspiração principal em seu próximo álbum.

    Projeções abertas e comentários finais:

    Acho que podemos ver coisas muito interessantes vindas de produtores de funk atentos às tendências globais e artistas que já dialogam com reggae e dancehall.

    Mais uma vez, o reggae aparece como matriz que se infiltra e gera novos híbridos.

    Art pop / Art pop folk

    O que é:

    Estética musical da música pop com uma ambição de experimentação artística.

    Onde surgiu:
    Artistas como a Duda Beat já têm trabalhado essa proposta desde sempre, com destaque para o álbum Te Amo Lá Fora (2022). Em 2025, álbuns internacionais como Lux (da espanhola Rosalía) e Elíade (da chilena Javiera Electra) podem ser referências.

    Onde já está rolando:
    No Brasil, ainda aparece mais como intenção estética do que como “gênero” ou cena consolidada.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência

    • Duda Beat (já é o principal nome do gênero/movimento, na minha opinião);
    • Gaby Amarantos, Urias (o álbum Purakê de 2021 da Gaby, e o álbum Carranca de 2025 da Urias, já são um pouco disso);
    • Liniker (está n’um momento de consolidação como estrela pop e já se provou como excelente compositora; não me espantaria se quisesse sofisticar também as suas produções cada vez mais ou torná-las mais experimentais);
    • Julia Mestre, Ana Frango Elétrico (embora sejam um pouco mais indie, já trabalham com essa proposta também, e podem crescer).

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Artistas pop midstream e mainstream interessados em sofisticar arranjos, melodias e conceitos visuais, aproximando a música pop de uma lógica mais contemplativa, quase museológica.

    Sobretudo, e com certeza, a Duda Beat.

    Projeções abertas e comentários finais:

    Essa é uma aposta ainda preliminar, mas coerente com o momento de refinamento pelo qual passa o pop brasileiro. Nos últimos anos, tivemos álbuns pop brasileiros bastante ambiciosos e glamurosos; e é natural esperar que artistas que lançaram esses álbuns queiram “subir cada vez mais o nível”.

    Brega latino

    O que é:

    Híbrido que explora conexões entre ritmos brasileiros de “sofrência” e dança a dois (como o brega, arrocha, sertanejo, piseiro) e ritmos latinoamericanos de estética similar (como bachata, corrido, reggaeton), inclusive podendo conter letras em espanhol.

    Onde surgiu:

    Sobretudo no Norte, Nordeste e Centro Oeste, os gêneros locais sempre se fusionaram com outros ritmos de países sulamericanos, caribenhos e mexicanos:

    • o Pará e o Amapá ouvem cumbia, bachata, salsa, merengue;
    • o Maranhão ouve reggae;
    • a axé music bebe da rumba;
    • o arrocha baiano se assemelha à bachata;
    • o sertanejo abraçou a bachata e tem raízes na guarania e na música urbana mexicana.

    De 2022 pra cá, sinto que esse intercâmbio Brasil+outros países latinos está se intensificando, somado a uma narrativa de que o Brasil está se redescobrindo como parte da América Latina. Isso está se refletindo na música.

    Onde já está rolando:
    Nas regiões citadas acima: no arrocha, no brega contemporâneo, em versões latinas de músicas brasileiras como as que têm feito as venezuelanas Estefany e Gabriely.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência
    Di Paulla El Nuevo (tocantinense que faz uma mistura muito interessante e bem humorada de piseiro, salsa, reggaeton, brega); Lucas LM (brasileiro que canta em espanhol); as venezuelanas Estefany e Gabriely (que fazem versões interessantes de músicas sertanejas e bregas brasileiras em espanhol, mas também cantam originais em português); MC Papo e Dedé Santaklaus (que em 2025 lançaram um álbum que se propõe a reunir o funk mineiro com os corridos mexicanos e o sertanejo brasileiro, Modão Malado).

    Interessante acompanhar como isso pode se manifestar também no pagode e outros gêneros menos obviamente conectados com a música dos nossos hermanos.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    No pop: Pablo Vittar, Anitta, Marina Sena, Leoa, que já bebem muito de fontes latinas

    No brega paraense/tecnobrega: praticamente todo e qualquer artista, né? Pois “brega” e “latino” já são parte estrutural da música feita lá.

    No pagode: Menos é Mais, que recentemente lançou versões de sucesso de músicas latinas como “UN X100TO” (do mexicano Grupo Frontera com participação de Bad Bunny) e o clássico “Corazón partío”.

    No axé/pagodão baiano: Ivete Sangalo, Psirico, Tony Salles (que inclusive lançou muito recentemente uma faixa que interpola o clássico cubano “Guantanamera”)

    No sertanejo: Ana Castela (que já faz uma ponte interessante, apesar de esporádica, com o reggaeton e a guarania paraguaia), Zé Felipe (que vai lançar uma música com a colombiana Karol G em breve), Gusttavo Lima (que, de certa forma, já faz isso)… mas honestamente, qualquer outro artista sertanejo que fizer bem feito também tem potencial. O sertanejo é um dos ritmos que mais efetivamente absorve e amplifica esse tipo de fusão (o que foi provado com a expansão da bachata por meio do Gusttavo Lima), e ele guarda uma conexão e ponte muito orgânica com alguns desses gêneros, como a música mexicana, por exemplo. (Fico triste pensando no quanto a Marília Mendonça poderia ter sido gigante no México)

    No forró/arrocha/piseiro: Mari Fernandez, Felipe Amorim, Natanzinho Lima, Henry Freitas. Essa mistura vai combinar muito. Um exemplo que gostei muito foi a música abaixo (e que inclusive está entre as 50 mais viralizadas em Portugal no momento em que escrevo esse artigo, em 11/01/26):

    Projeções abertas e comentários finais:

    Aqui eu vou ter que me conter pra não escrever demais. Sou uma grande entusiasta das misturas de gêneros latinos de língua espanhola com os gêneros nascidos no Brasil, sobretudo os gêneros populares do Norte e Nordeste. Inclusive, em 2023, escrevi um artigo chamado 9 ideas to break Spanish-language music in Brazil, e uma dessas 9 ideias era explorar essa conexão entre gêneros desses locais.

    Acho que está começando a rolar.

    Também não posso deixar de analisar essa tendência sob o aspecto sociopolítico também.

    De um lado, a fusão de gêneros musicais brasileiros com gêneros latinos de países de língua espanhola tem um viés muito impulsionado por artistas e fãs de música associados a uma discurso mais progressista sobre latinidade, irmandade latinoamericana e decolonialidade.

    Mas o potencial da fusão é tão grande que provavelmente pode ser impulsionada até mesmo por artistas e fãs que não compartilham desse discurso.

    Como eu disse acima, o sertanejo, que não é exatamente um aliado progressista, tem um poder enorme de furar bolhas e já tem um histórico de intercâmbio com gêneros latinos.

    Tribal guarachero (talvez até mesmo com outro nome)

    O que é:

    Música eletrônica com elementos de gêneros musicais locais de origem indígena e afro.

    Onde surgiu:
    Na América Latina, a partir da mistura de guaracha, cumbia e música eletrônica, tendo como ápice músicas como “Pepas” do Farruko.

    Onde já está rolando:
    Fora do Brasil, especialmente em cenas eletrônicas latinas; e gradualmente crescendo na cena eletrônica do Brasil também.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    João Lágrima de Ouro, mary d

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Produtores e DJs brasileiros que saibam incorporar instrumentos e referências locais e criando uma versão genuinamente brasileira dessa estética.

    Acredito que há potencial de muitos hits grudentos do tipo “Stereo Love” se soubermos fazer isso de um jeito bem brasileiro.

    No tribal guarachero feito na Colômbia, por exemplo, o acordeão (que também é típico do europop, dance romeno etc) da cumbia fez bastante sentido.

    Será que no Brasil faríamos algo com o acordeão do forró, por exemplo? Ou talvez algo no estilo do “Movimento da Sanfoninha” da Anitta mas mais puxado pro dance music? Ou talvez as metaleiras dos paredões de forró, piseiro, quebradeira?

    Projeções abertas e comentários finais:

    Certa vez, no Trends Brasil Conference 2023, ouvi o compositor Pablo Bispo dizer uma coisa que me marcou: “o Brasil sempre vai passar a sua régua (sobre tendências e estilos de fora)”. Quando o Brasil absorve algo de fora, faz do seu próprio jeito. Estou curiosa para ver como o tribal guarachero pode passar por esse processo por aqui.

    Embora alguns DJs brasileiros já trabalhem usando essa expressão, acredito que novos nomes podem surgir para o tribal guarachero no Brasil.

    Colagem eletrobrega

    O que é:

    Mistura de brega, tecnobrega, forró, piseiro, pagodão etc com batidas de dance music, house music e letras e samples puxadas para a comicidade e malandragem.

    Seria um eletrobrega mais debochado, com influências de cultura de Internet, uma estética desconstruída feita de colagens (vinhetas, samples, ou simples inserções de hooks que soam “aleatórios”), com pegada bem-humorada das letras e da proposta de fazer um certo tipo de piada ou deboche.

    Onde surgiu:
    O eletrobrega é presente há anos no Pará e no Nordeste, em versões híbridas, consolidados por nomes como a Banda Uó, Gang do Eletro etc.

    Mas a vertente que prevejo agora é menos melodicizada, com menos estrutura de composiçã pop, com uma proposta mais recortada, com colagens, vocais não cantados.

    Onde já está rolando:
    Em cenas de festas com proposta brega, brasilidade profunda e bem humorada, como a festa Baile da Cabra e a festa Furduncim.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O DJ Cabra Guaraná e o duo myha & ILLANES.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Artistas pop com identidade regional forte e gêneros populares dispostos a absorver novas influências.

    Certamente, Pabllo Vittar, Viviane Batidão e Gaby Amarantos são bons nomes; elas já exploram esses ritmos e têm lançado letras cada vez mais bem humoradas, irreverentes e debochadas que casam com essa proposta.

    Projeções abertas e comentários finais:

    O eletrobrega ao qual me refiro aqui é aquele tipo que parece ter nascido como mero mashup de Internet feito pra causar riso, mas acaba virando música legal de verdade.

    As produções do DJ Cabra Guaraná são exatamente isso, mas ele está ficando cada vez melhor.

    No EP Furduncim (2025) dos produtores myha e ILLANES, eu vejo uma proposta musical menos voltada para o humor, mas que eu também não encaixaria em outros gêneros mapeados aqui. Inclusive, “Trem de dub” sintetiza várias das tendências que mapeio nesse artigo: forró com reggae, cantos e cantigas, acordeão de guarachero etc… Mas há sim um certo humor, deboche, nas letras das faixas que têm vocais.

    De uma forma geral, esse eletrobrega explora a raiz eletrônica de muitos gêneros populares (como o brega, arrocha etc tocados em teclado) mas puxam suavemente para a dance music de pista.

    O risco desse gênero é não ser tão evergreen; as vinhetas e colagens das faixas, que conversam muito com cultura de Internet, podem não se sustentar bem no médio e longo prazo. Mas no presente, são um retrato muito legal de um Brasil que não relega esse tipo de música à categoria de guilty pleasure.

    Slow deconstructed funk (algum nome mais interessante e original deve surgir)

    O que é:

    Funk mineiro e/ou funk com batidas desmontadas em um bpm mais lento e vocais emo. Algo como a faixa “Baile do Bruxo”, do EP financiado por Ronaldinho Gaúcho, mas talvez mais lento.

    Onde surgiu:
    Não é um gênero consolidado ainda, é muito mais um caminho que visualizo que pode ser traçado e que tem origens no funk mineiro, funk MTG e no Brazilian phonk.

    Onde já está rolando:
    Minas Gerais e fora do Brasil também… Curiosamente, o DJ e produtor da faixa que linkei acima, 4kbatu, é turco.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    DJ WS da Igrejinha; DJs e MCs mineiros e do funk underground de São Paulo.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Acho que o Mc Livinho se daria super bem, tem os vocais adequados pra isso.

    Projeções abertas e comentários finais:

    Sendo bem sincera, o universo do funk é tão grande que às vezes me perco; são tantas variantes, subgêneros, nichos que é difícil acompanhar.

    Mas para essa possível tendência, em especial, estou apostando nas versões mais lentas desse estilo de funk levemente melódico e sombrio que se popularizou em Minas Gerais, e que tenho ouvido se propagar em versões lentas:

    Cumbia brasileira

    O que é:

    Não há muito o que dizer. É a cumbia nascida na Colômbia, mas feita com o tempero brasileiro.

    Onde surgiu:
    Já se faz cumbia no Brasil há algum tempo, sobretudo no Pará. Também se destaca a banda pernambucana Academia da Berlinda, cuja “Cumbia da Praia” (2011) é um dos exemplares brasileiros mais populares do gênero; e o BaianaSystem, que mistura a cumbia com guitarra baiana, rock e outros gêneros.

    Onde já está rolando:
    Em cenas regionais no Norte e Nordeste (com foco no Pará, Bahia e Pernambuco) e em festas e eventos do nicho de cumbia que têm crescido em São Paulo e em todo o Brasil.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O Cheiro do Queijo, Leoa, Felipe Cordeiro, Saulo Duarte, Felix Robatto, Mari Jasca, Amanda Magalhães, Samuca e a Selva, Moiacumbia.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Obviamente, BaianaSystem e artistas paraenses que já têm ou estão alcançando renome nacional, como Gaby Amarantos e Joelma.

    Para um vetor mais pop, artistas mais abertos a latinidades, como a Marina Sena e Rachel Reis.

    E eu não me espantaria de ouvir cumbia no sertanejo também (Marilia Mendonça já regravou “Cumbia do amor”…) ou na fusão com MPB por meio de artistas como o Seu Jorge (cujo último álbum, Baile à Baiana, bebeu bastante dessas latinidades dançantes como o merengue e a rumba) ou Luedji Luna (que flertou com esse estilo em “Banho de folhas”).

    Projeções abertas e comentários finais:

    Em 2024 e 2025, países sulamericanos como Colômbia e Peru se agarraram à cumbia quase que como um manifesto tanto de resgate quanto de propagação.

    Alguns nichos até espalharam a frase “cumbia is the new punk”, puxados pela música de mesmo título, da banda Son Rompe Pera.

    Outro grande marco desse novo mini boom da cumbia foi a inclusão dos pioneiros da cumbia amazônica, os peruanos Los Mirlos, no festival Coachella em 2025, que impulsionou a carreira da banda entre novas gerações e gerou colaborações com Adidas e Johnnie Walker.

    Com essa cena crescendo em âmbito macro, vi algo similar ocorrendo no Brasil: mais pessoas se interessando por cumbia, mais DJs e festas de cumbia surgindo (destaco a festa Cumbieros, em Curitiba), e artistas incluindo isso no seu som também.

    Acho que a tendência é crescer, com cada vez mais nuances de brasilidade — o que, entre artistas baianos, eu já vejo por meio da agregação da guitarra baiana. Estou curiosa para ver o que outros artistas vão incorporar também.

    Cantos ancestrais e/ou tradicionais no pop

    O que é:

    Melodias dos cantos e cantigas oriundos de tradições e/ou religiões populares do Brasil sendo usados, como sample ou parte estrutural da composição, em músicas de artistas pop.

    São cantos agrícolas, cantos religiosos (como pontos de umbanda), cantos de aboio, cantos indígenas, cantos de boiadeiro etc… Ou seja: cantigas que vêm do sertão, da fazenda, da floresta, do terreiro, que representam o Brasil profundo, e que não têm necessariamente uma destinação performática específica ou uma autoria rastreável, e que são marcados por vocais mais retos, não melismáticos.

    Onde surgiu:
    Eu traçaria essa tendência de volta até o álbum de 2022 da Duda Beat, Te amo lá fora, que é aberto por uma faixa que segue essa proposta: “Tu e eu”, influenciada por coco e que conta inclusive com Cila do Coco como colaboradora.

    Onde já está rolando:
    Em 2025, destaco o álbum do pernambucano Gomes e a faixa “Ai Ai, meu Deus”, em colaboração com As Ceguinhas de Campina Grande.

    De certa forma, dá pra destacar também o remix “Copo de Veneno”, da DJ Meury, que usa vocais de um ponto de umbanda para fazer uma produção de tecnobrega. A ideia é essa mesmo: usar esses vocais mais retos, não essencialmente cancioneiros, em produções pop.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O pernambucano Gomes, DJs e artistas experimentais atentos ao folclore e à ancestralidade.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Artistas pop mainstream ou alternativos que já dialogam com tradição popular, como Duda Beat, Juliette, Kaê Guajajara, Gaby Amarantos, Daniela Mercury.

    Projeções abertas e comentários finais:

    Esse movimento dialoga com uma tendência global de resgate folclórico reinterpretado à luz do presente.

    Gostaria de destacar esse comentário da artista Irene Atienza que vi em um post no perfil do Instagram @f.eio, justamente em um post que dizia que “a próxima tendência da música pop brasileira é o nacionalismo”:

    “É uma tendência global, na Espanha por exemplo tem um movimento muito forte de folclore regional trazido aos dias de hoje, muitos grupos: o galego Baiuca, o asturiano Rogrigo Cuevas, os cántabros Casapalma, muitos grupos em Castilla e muitos na Andalucía e por todo o território, fazendo música contemporânea com seus próprios folclores. É muito interessante e no caso do Brasil vai ser incrível, com essa riqueza cultural inmensa!” – @ireneatienza_musica (sic)

    Concordo que há uma tendência de resgate do tradicional e que isso pode influenciar cada vez mais nossa música pop.

    (Curiosamente, o primeiro programa do Globo Rural exibido nesse ano de 2026 foi justamente sobre cantos de trabalho e cantorias agrícola do interior do Brasil; e quando assisti, pareceu uma validação dessa tendência que estava intuindo.)

    Batidão gaúcho

    O que é:

    Mistura de música tradicional gaúcha com dance music e diversas vertentes da música eletrônica.

    Esse comentário aqui do YouTube no vídeo linkado acima trouxe uma definição engraçadíssima: “Uma mistura de Gaúcho da fronteira com Genival Lacerda no ritmo DJ Malboro

    Onde surgiu:
    Rio Grande do Sul, em uma tentativa de fazer música gaúcha que chegasse também a jovens, crianças, e com uma pegada bem humorada.

    Onde já está rolando:
    Em todos os Estados da região Sul do Brasil, e também em São Paulo.

    A música “Mega Répi do Guasca”, do Xirú Missioneiro, viralizou no TikTok e no Youtube (onde acumulou mais de 3 milhões de visualizações em 1 mês); já extrapolou as fronteiras do Rio Grande do Sul, chegando inclusive a Portugal.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O próprio Xirú Missioneiro.

    Quem pode levar adiante essa tendência:

    Duplas sertanejas do Rio Grande do Sul, DJs e artistas gaúchos.

    Projeções abertas e comentários finais:
    Esse gênero me parece o que teria ocorrido se o “Ai se eu te pego” de Michel Teló tivesse encontrado exatamente o tipo de EDM que fazia sucesso na época em que ela estourou.

    Acho que tem um potencial interessante para a região Sul, toda a região comum da cultura pampa do Cone Sul, e até algumas interseções com o vaneirão e sertanejo.

    (Interessantemente, quando ouvi o “Mega Répi do Guasca” me lembrei um pouco de “Descer pra BC”, acho que são estilos que conversam.)

    House mandinga / Afro-lounge brasileiro

    O que é:

    Diálogo entre ritmos de origem africana, música eletrônica minimalista e estética lounge. Talvez uma versão mais chill daquilo que muita gente já chama de “afrobeat brasileiro”.

    Onde surgiu:
    Tenho sentido isso mais forte agora na década de 2020, com o surgimento de artistas como a Melly, Yan Cloud e Rachel Reis, que transitam entre o R&B e o afrobeat, pagodão baiano, ijexá etc.

    Onde já está rolando:
    Bahia e Rio de Janeiro, principalmente.

    Em quem prestar atenção na evolução da tendência:
    O grupo Mandinga Beat.

    Quem pode levar adiante essa tendência:
    Aposto muito na Flora Matos como possível exploradora desse território. Ela já é bastante ligada em afrobeat, amapiano, pop e R&B afro, e faz conexões bastante interessante desses gêneros com gêneros baianos e percussão afro.

    Acho que Deepkapz também tirariam de letra.

    Projeções abertas e comentários finais:

    Esse estilo mais chill lounge, lentinho, suave, como pano de fundo para estilos musicais bastante característicos de uma região já é uma tendência mundial.

    Vejo isso no afrobeat (músicas calminhas como “Dream Girl” e “Slow Down”, que foram sucesso mundial) e também no hip dut (gênero indonésio que mescla o bedroom trap com o dandgut, gênero tradicional do país). Em menor escala, sinto que isso também está acontecendo ou em vias de acontecer com o gênero plena, que teve um boom em 2025 por causa do álbum DtMF do Bad Bunny e das músicas do colombiano Béele.

    Com certeza, a “versão brasileira” disso teria um pezinho no terreiro, nos elementos musicais das religiões de matriz africana, e nas percussões de gêneros da negritude, como o axé, o pagodão etc. Pensei em algo como uma versão ainda mais lenta e minimalista de “Praia do Futuro” do BaianaSystem com Seu Jorge.

    Bônus: 2 gêneros que *não* são emergentes mas que podem ter um boom em 2026

    Reggae


    Tudo indica que pode viver um novo pico de relevância em 2026, seja como gênero principal, seja como matriz de fusões (como de fato é em vários dos gêneros mapeados que identifiquei acima).

    Alguns sinais apontam para isso:

    • Em 2025, o reggae voltou a ganhar força em lineups de festivais de música e no pop mainstream, impulsionado tanto por artistas consagrados do gênero (como Edson Gomes e Núbia) quanto por cantores populares que passaram a flertar com sua batida;
    • Inclusive no mercado latino fora do Brasil, o reggae tem sido motor de alguns hits: enquanto escrevo esse artigo, a música “La Villa” (colaboração de Kapo e Ryan Castro que enfatiza o reggae de REGGAEton) está em #1 no Spotify da Colômbia;
    • No Brasil, artistas como IZA e Mc Cabelinho lançaram projetos de reggae em 2025. A IZA, em especial, continua investindo no gênero e tudo indica que seu próximo álbum terá esse foco;
    • Segundo o Spotify Brasil, o Brasil foi o segundo país do mundo que mais ouviu reggae em 2025, somando mais de 5,5 bilhões de streams por aqui; com um aumento especial entre junho a novembro, de 41%,;
    • Esse aumento cria terreno fértil não só para o próprio gênero em vertentes mais puras brilhar ainda mais; mas também para se mesclar e informar outras variantes. Aliás, como meu amigo Julio Aguiar bem humoradamente me lembrou (de uma forma despretensiosa, mas que eu enxergo como pedacinho de sinal), a colaboração entre IZA e João Gomes no show da virada 2025/2026 em Copacabana já sinaliza um possível caminho que vem sendo confirmado por outros lançamentos e movimentos: a união do reggae com o forró, piseiro etc. Não à toa, mapeei o seresta reggae/arrocha reggae como tendência.
    • Um outro sinalizador que vejo como potencializador do crescimento do reggae é o potencial turístico de São Luís, capital do Maranhão onde o reggae é um dos gêneros reis. Vejo um movimento interessante de conhecimento e interesse nessa cidade, e não me espantaria se em breve ela tivesse um mini hype similar ao que Belém do Pará vem tendo.

    Dance / EDM melódico

    “2026 é o novo 2016”, muita gente tem dito. É engraçado ouvir esse tipo de coisa: há algum tempo, o EDM e dance music de 2010-2016 eram certo motivo de piada, considerado “farofa”, cafona etc. Hoje, existe uma certa nostalgia por esse tipo de música.

    Acredito que o momento é propício para um revival desse tipo de música eletrônica com estrutura de canção pop, algo no estilo David Guetta mas com uma pegada brasileira.

    De certa forma, alguns dos gêneros que mapeei acima já respondem a isso (tribal guarachero, eletrobrega etc).

    E de certa forma, o Pedro Sampaio já faz algo assim também. Mas também acredito que a “volta” desse dance e EDM com canção pop seria algo mais puxado para o Alok do que para o funk.

    Ou talvez seja um dance com conversas mais orgânicas com outros gêneros brasileiros que já são mais próximos dele, como o tecnomelody. Acredito que a cantora paraense Carol Lyne possa representar algo assim.

    Já tivemos divas pop que tentaram emplacar esse tipo de EDM pop por aqui e não deu tãoooooo certo, mas acho que com um toque mais particular, mais abrasileirado de uma forma natural, como as músicas da Carol Lyme, pode vingar.

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  • O Cheiro do Queijo vão ser os próximos Mamonas Assassinas?

    O Cheiro do Queijo vão ser os próximos Mamonas Assassinas?

    O show mais punk do Festival MADA 2025 veio de um grupo de palhaços do interior do Ceará que atualiza a fórmula do humor como arma, com uma vestimenta rap-rock-Nordestilatina

    No papel, a proposta d’O Cheiro do Queijo é boa: um “circo rap”, como eles mesmos se definem. Tem humor, tem hip hop, tem palhaçaria.

    No Spotify, o álbum de 2024, Sound Circo, soa divertido: é uma colagem sonora com uma pegada de rádio popular, que remete ao projeto potiguar Pegadinha do Mução e à irreverência do humor nordestino clássico de nomes como Batoré e Tom Cavalcante.

    Mas a coisa muda quando você vê – ou melhor, sente – O Cheiro do Queijo ao vivo. No palco, o conceito toma outra vida. Quem chegou cedo ao segundo dia de Festival MADA em 2025 e escolheu o afastado Palco TIM pôde perceber isso.

    O show d’O Cheiro do Queijo começa como quem não quer ir muito além da proposta circense deles: nariz de palhaço, cambalhotas, brincadeiras, vinhetas absurdas, uma mise-en-scène de picadeiro que a princípio pode parecer apenas lúdica.

    Quando o rap-rock entra, a energia muda. O que parecia apenas bufão revela um discurso feroz. A  mesa de som do DJ do grupo traz os dizeres sound circo (fusão de sound system com circo) e a performance dos vocalistas principais faz jus ao nome: eles sampleiam vinhetas, improvisam, subvertem o próprio papel de artistas. Riem do Brasil, da indústria musical, da plateia, e deles mesmos.

    Assistindo ao show no MADA, a comparação era inevitável: foi como estar posicionado em um show dos Mamonas Assassinas em Guarulhos no início da década de 1990, antes de eles estourarem no Brasil todo. 

    Ao entrevistar os membros d’O Cheiro do Queijo após o show, eles mesmos fizeram menção à banda de Guarulhos mesmo sem eu ter comentado primeiro: “Nós não inventamos nada, o que nós estamos fazendo não é muito diferente do humor que artistas como os Mamonas Assassinas já fizeram, por exemplo”, o palhaço/rapper Abu da Pereba me diz.

    De fato, o espírito escrachado, a zombaria de si e dos outros, o uso do palavrão como catarse, o equilibrismo entre algo infantil e algo proibido para menores – toda essa essência estética dos Mamonas Assassinas está presente n’O Cheiro do Queijo também.

    Mas não é uma cópia. Algumas coisas separam uma banda da outra e são detalhes que fazem toda a diferença.

    Se nos anos 1990, a lucidez em forma de gozação germinou para gerar um fenômeno pop advindo do Sudeste, com os Mamonas Assassinas, é claro que, se houvesse um fenômeno similar hoje, ele não poderia nascer nas mesmas circunstâncias.

    Não seria um grupo de São Paulo, com formação majoritariamente branca, nem seria simplesmente uma repetição do que já existiu.

    O projeto O Cheiro do Queijo nasce em Maracanaú, cidade cearense de pouco mais de 230 mil habitantes. Se os Mamonas Assassinas satirizavam a sátira do Nordeste e do brasileiro pobre em músicas como “Jumento Celestino”, O Cheiro do Queijo é o próprio Nordeste rindo de si, mas acima de tudo, rindo de quem ri do Nordeste.

    Faz todo o sentido. Cada fenômeno geracional adiciona degraus de subversão à subversão já pavimentada pelos seus antecessores. É como se a sucessão inevitável da irreverência pop tivesse encontrado o endereço certo para florescer nos anos 2020.

    Em tempos de artista-empreendedor, música independente cavando seu próprio sucesso no midstream e no mainstream, é óbvio que a crítica social d’O Cheiro do Queijo tem esse quê metalinguístico: sua arte critica “Aburocracia” exigida dos artistas (“Eu só queria ser um artista / Tive que tirar CNPJ / Ter certidão negativa em dias / Emitir nota em cima de nota”), seu show no MADA contém uma parada silenciosa específica em que aparece no telão a mensagem: “O ECAD não autorizou”.

    É palhaçada, mas também manifesto. A música d’O Cheiro do Queijo contém denúncias literais, mas por vezes a denúncia vem apenas na encenação do próprio caos.

    Show d’O Cheiro do Queijo no Festival MADA 2025. Créditos da foto: Ana Clara Ribeiro (esta mesma que vos escreve!)

    Mas não se engane: não é só performance. A música funciona por si só também.

    O rock (em som, mas principalmente em essência) é presença forte, e sua mistura com o forró e o reggae da cultura sound system presente em vários Estados do Nordeste denotam que o rock brasileiro é exatamente isso: é guitarra e espírito, mas tem sotaque daqui.

    A comparação com o BaianaSystem eventualmente também chega – e é validada pela própria banda baiana, que alegadamente se inspira n’O Cheiro do Queijo e colabora musicalmente com eles.

    A verdadeira sensação de apadrinhamento público veio quando o BaianaSystem (que era um dos principais headliners do MADA) os chamou ao palco. Foi um dos pontos altos do festival.

    O BaianaSystem pode estar longe do seu fim, talvez até mesmo do seu auge, mas quando Russo Passapusso chamou os palhaços para apresentar suas próprias composições ao som das batidas e das guitarras de “Balacobaco” em um dos palcos principais do MADA, pareceu um ato de curadoria da próxima geração de rap-rock-“Nordestilatino”.

    A conexão faz todo o sentido. Assim como a crítica social ao neoliberalismo e ao colonialismo, o orgulho nordestino, e a mistura de elementos da cultura hip hop com o espírito punk rock, O Cheiro do Queijo compartilha do mesmo desejo do BaianaSystem de reconectar o Brasil – e em especial, o Nordeste – ao resto da América Latina.

    É preciso reconhecer a sensibilidade do curador do Festival MADA, DJ Val Pescador, que entendeu o diálogo possível entre esses universos e colocou no mesmo evento tanto os mestres quanto seus herdeiros. 

    No show d’O Cheiro do Queijo no MADA, houve até espaço para cumbia. É um gesto político, estético, e uma das pistas do futuro da música brasileira: mostrar com som e mensagem que o Brasil, mesmo falando português, é parte dessa irmandade de resistência e de ritmos mestiços que fluem nos países latinoamericanos de língua espanhola.  

    Em entrevista concedida a mim após o show, os palhaços rappers d’O Cheiro do Queijo resumiram o momento com humor: “Estamos nos sentindo o Chaves em Acapulco.” Difícil achar uma analogia melhor. É a alegria simples de quem, depois de anos de estrada, percebe que a própria sorte pode estar mudando. Mas além da expectativa, o que eles pareciam mesmo eram estar se divertindo à beça com o mero acontecido, ou o mero potencial do que está por vir.  

    Talvez o nome do grupo contenha sua própria metáfora: O Cheiro do Queijo soa infantil, quase ingênuo, como a isca que atrai o rato. Mas por trás da promessa de simplesmente encontrar algo engraçadinho, há armadilha, há caos.

    É isso que faz deles um fenômeno em potencial: por baixo da maquiagem de palhaço, pulsa uma fúria profundamente nordestina, séria em seu deboche, bufônica mas também subversiva – e acima de tudo, irresistível. Não é à toa que, mesmo em um show com público razoavelmente pequeno, o grupo conseguiu entoar uma roda de polga com intensa participação da plateia (quase que ecoando retroativamente a roda de polga que aconteceria mais tarde no show do BaianaSystem em proporções bem maiores).

    Pode ser que tudo isso seja só o riso de um circo que entretém, mexe com a plateia, mas não consegue força suficiente para ocupar espaço fora do picadeiro. Mas também pode ser que estejamos assistindo o nascimento de um novo fenômeno. Por via de dúvidas, vale a pena seguir o rastro do cheiro desse queijo.

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    Show d’O Cheiro do Queijo no Festival MADA 2025. Créditos da foto: Carcará Audiovisual

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