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  • Viola de buriti: design arcaico-futurista, potencial musical experimental e tradição tocantinense a caminho de reconhecimento

    Viola de buriti: design arcaico-futurista, potencial musical experimental e tradição tocantinense a caminho de reconhecimento

    Créditos da imagem: Emerson Silva; disponibilizada pelo projeto Café com Viola de Buriti

    Tempos atrás, descobri um álbum sensacional de uma banda de música instrumental em que um dos instrumentos foi criado pelo líder da banda: o tambo-guitarra, instrumento que o sudanês Noori Jaber criou prendendo o braço de uma guitarra elétrica a um tambor kissar. O álbum é Beja Power! Electric Soul & Brass From Sudan’s Red Sea Coast, de Noori and his Dorpa Band, lançado em 2022.

    Não é fascinante que novos instrumentos musicais ainda são inventados nos nossos tempos?

    Talvez tão incrível quanto é saber que devem existir muitos instrumentos musicais pelo mundo afora que devem estar por aí há anos, décadas, talvez mais, e que ainda não foram plenamente descobertos.

    A viola de buriti é um deles.

    Cordofone de origem tocantinense, a viola de buriti é feita com o talo do buritizeiro (palmeira típica do Estado do Tocantins e de outros Estados do cerrado) e com linhas de pesca.

    Alguns a chamam de violinha de buriti, ou violinha de vereda.

    Sua criação e consolidação é associada aos indivíduos da comunidade do Mumbuca, no leste do Estado, onde fica a turística região do Jalapão.

    A viola de buriti é artesanal, intrinsecamente veredeira, cerratense, jalapense, quilombola.

    Entre a tradição dos mestres violeiros, a inserção de nomes mais jovens, uma rala divulgação na imprensa brasileira e presença ainda franzina em discos e fonogramas, timidamente o som da viola de buriti atravessa gerações e se torna símbolo do Jalapão e do Estado do Tocantins.

    Em 2024, foi tema de uma interessante reportagem do Globo Rural, programa da TV Globo, que destacou o processo de construção da viola e sua relação com o turismo no Tocantins, sendo reprisada em janeiro de 2026.

    O músico, pesquisador e produtor cultural Diego Silva Britto tem um importante papel na propagação da viola de buriti. Além de tocar a viola, ele também se dedica a divulgá-la juntamente com outros elementos da cultura afro-tocantinense para crianças do Colégio Crispim Pereira Alencar, no distrito de Taquaruçu, Município de Palmas, por meio do projeto intitulado Vereda.

    Diego já gravou trilhas com a viola de buriti para diversos projetos musicais e audiovisuais. “Creio que eu fui o primeiro violeiro que dedicou a ampliar o uso da viola de buriti“, disse ele em entrevista exclusiva ao Musicazia.

    Diego Silva Britto com a viola de buriti; e com o Projeto Vereda. Fotos do acervo pessoal de Diego, cortesia dele próprio.

    Diego é também um arquivo vivo da história da viola de buriti (ou, pelo menos, da história mais recente). Ele compartilhou um pouco dessa história para o Musicazia:

    O primeiro violeiro que eu conheci foi o mestre Coquelino Rumão, conhecido como Coque do Buriti , que já nos deixou em 2013. Tem um documentário sobre ele, que saiu em 2007. É o primeiro trabalho “profissional” envolvendo a viola de buriti que eu tenho conhecimento.

    Depois em 2009, dois violeiros, Canhotinho da Viola e Nilo Rodrigues foram participar do encontro de culturas tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Daí apareceu também o pessoal do quilombo Mumbuca (a dupla Maurício Ribeiro e Arnon Tavares), nessa mesma época, que se tornaram os maiores nomes da viola.

    Mestre Nilo e Maurício já se foram também, infelizmente.
    Todos esses cantam o cerrado nesses estilos: músicas sertanejas (antigas modas e serestas), forrós e alguns ritmos específicos como os das folias (do Divino Espírito Santo, Folia de reis etc) e rodas (estilo musical ligado às folias).

    Destaca-se também o projeto Café com Viola de Buriti, formado por artesãos e violeiros que promovem apresentações musicais e oficinas de construção da viola.

    O artesão e violeiro Arnon Tavares com viola de buriti disponível para compra. Créditos da imagem: acervo pessoal do projeto Café com Viola de Buriti

    Apesar dessa raiz sertaneja, anti-metropolitana, a viola de buriti se materializa em uma forma de aparência arcaica que antecipa o moderno. É um objeto ancestral com vocação futurista.

    A começar pelo design minimalista dela: ela parece um objeto deliberadamente inacabado. É a forma reduzida ao essencial, é o abstrato em meio às formas brutas do cerrado, é de uma geometria silenciosa que parece querer contrastar com todo o espaço repleto de mato ao seu redor.

    O artista Rafael Naufel, que cria alguns instrumentos musicais que parecem saídos de páginas do Codex Seraphinius, captura bem essa essência revelada pela estética da viola de buriti.

    Inspirado nela, ele criou a guitarra de buriti, que tem sido um charme em diversas exposições do artista. Uma delas foi a circulação Esculturas Sonoras Tocantins, que em novembro de 2025 passou por cidades tocantinenses como Palmas, Porto Nacional e Natividade.

    Viola de buriti feita pelo artista Rafael Naufel. Créditos das fotos: Emerson Silva

    A viola de buriti é bruta, mas elegante. O som que sai dessa forma não pode ser outra coisa. É um som cítrico, bruto, agudo mas encorpado e ainda assim discreto e suave, quase harpístico.

    Tristemente, a viola de buriti ainda aparece pouco em fonogramas.

    Ela é referenciada por Almir Sater em uma faixa de 1985, o que seria talvez a faixa de maior projeção envolvendo o instrumento.

    Mas não parece haver um grande número de projetos musicais que incluem a viola de buriti na produção.

    Entre os poucos disponibilizados em plataformas de streaming de música, destacam-se 2 faixas do álbum Concerto para Vaca e Boi (2022), do violeiro Roberto Corrêa: “Boi de rosa” e “Boi babão”. Nelas, a viola de buriti divide espaço com a viola de gamba, instrumento tocado com arco que remonta à Renascença europeia.

    Outro destaque é o bonito álbum Vibração das Serras Gerais (2024), do maestro Daniel Kowalski, no qual Diego Silva Britto toca a viola de buriti. “Nele, a viola assume uma sonoridade totalmente alterada“.

    O título do álbum faz referência à região que fica entre o leste e sul do Estado do Tocantins.

    O som da viola de buriti também se destaca na trilha sonora da série O Boneco de Barro e o Rei, de 2018, reportadamente a primeira série tocantinense infantojuvenil. As trilhas foram gravadas por Diego Silva Britto, usando a viola de buriti e outros instrumentos tradicionais do Tocantins como tambores de barro, tambor roncador e rabeca de buriti.

    Apesar de sua origem e de sua relação simbiótica com o sertão-cerrado, poderia a viola de buriti infiltrar gêneros musicais ancorados em outros contextos e se expandir pelo Brasil, e quem sabe, para o mundo?

    Considerando o momento que o pop nacional vive, abraçando cada vez mais gêneros e sonoridades aqui nascidos por meio de estéticas acessíveis, seria lindo ver a viola de buriti na produção de álbuns pop. O encontro também seria perfeito com a MPB, com a cumbia, com o samba.

    A viola de buriti é um instrumento muito rico e cheio de possibilidades. Pode-se usar em qualquer estilo. Ela tem algumas limitações para fazer acordes, pois o braço é liso e não tem marcação das notas. Mas a galera tem utilizado bastante o girador.

    Diego Silva Britto

    A viola de buriti cabe na mistura, no improviso, em um campo aberto de invenção. Seria um elemento interessantíssimo para projetos experimentais do Brasil e do mundo, por que não? Poderia se aproximar da lógica estética de artistas como Björk, onde tradição, tecnologia e exploração sensorial se entrelaçam.

    Assim como o tambo-guitarra gravado no Sudão pela Noori and his Dorpa Band atingiu esta tocantinense residente em Curitiba, a viola de buriti tocantinense poderia cruzar oceanos.

    Diego Silva Britto vê com bons olhos a possibilidade de expansão da viola de buriti na música brasileira e internacional, embora tal possibilidade coexista com um risco quase que de extinção da viola de buriti.

    A viola depende das veredas, que são os brejos onde nasce a palmeira do buriti. Os incêndios criminosos e destruição do cerrado têm diminuído drasticamente as veredas. Sem buriti, não tem viola.

    Mas a viola tem ganhado o mundo. A matéria sobre a viola no Globo Rural deu a ela uma viabilidade muito boa. As vendas foram pra o Brasil e o mundo. E a viola está em processo de reconhecimento como patrimônio imaterial pelo IPHAN.

    Diego Silva Britto

    No momento em que esse artigo é escrito, o processo de registro da viola de buriti no IPHAN está em sua fase de instrução, em que é preciso entregar um dossiê fundamentado em documentos e referências bibliográficas. Diego e outros pesquisadores e violeiros trabalham na produção de dossiê juntamente a antropólogos, mapeando mestres violeiros e comunidades nas quais a viola de buriti é tocada e valorizada como parte da cultura local e da memória de um povo.

    São evidências importantes que precisam ficar gravadas em mais do que memória, são histórias que podem se perder, ao passo em que já existem tão poucos registros fonográficos da viola de buriti.

    Mas ao mesmo tempo, a viola de buriti vai desafiando os próprios limites territoriais e de memória do contexto em que está inserida.

    Diego Silva Britto conta ao Musicazia que indígenas têm adquirido a viola e que em breve devemos vê-la em outros projetos pelo mundo afora. É de se imaginar quanta inovação pode surgir desses encontros que tensionam tempos e culturas diferentes. Caminhando para ser reconhecida como patrimônio imaterial, a viola de buriti é também um ponto de partida para novas possibilidades de escuta e criação.

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