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  • “Eu vou samplear, eu vou te…” pedir autorização? O tecnobrega, quando sobe degraus na indústria nacional, “sucumbe” ao clearance

    “Eu vou samplear, eu vou te…” pedir autorização? O tecnobrega, quando sobe degraus na indústria nacional, “sucumbe” ao clearance

    Na música “Xirley”, quando Gaby Amarantos canta “Eu vou samplear, eu vou te roubar”, não é exatamente uma confissão criminal. É um manifesto cultural, é a síntese do modus operandi da cultura do tecnobrega e tecnomelody.

    Essas cenas musicais do Estado do Pará funcionam dentro de uma lógica em que o principal objetivo é fazer a música circular.

    O remix, o sample e as versões não autorizadas de sucessos internacionais são quase uma convenção cultural, decorrente não só de um cenário socioeconômico que dificulta o acesso a negociações com grandes editoras, mas também, de uma escolha, uma certa rebeldia, uma audácia.

    Muitos paraenses costumam dizer, meio de brincadeira e meio falando sério, que o brega não copia músicas internacionais: ele as melhora. Eu, particularmente, concordo.

    E essa não é a única forma de ̶v̶i̶o̶l̶a̶ç̶ã̶o̶ ̶d̶e̶ ̶d̶i̶r̶e̶i̶t̶o̶s̶ ̶a̶u̶t̶o̶r̶a̶i̶s̶ disrupção da lógica da Propriedade Intelectual e da indústria fonográfica que o tecnobrega rompe.

    A pirataria de CDs também foi, por muito tempo, uma das molas propulsoras da carreira de diversos artistas paraenses.

    É uma outra economia, outro circuito e, principalmente, outra velocidade.

    Mas quando o tecnobrega e tecnomelody começam a ocupar espaços onde as regras são diferentes, eles acabam descobrindo que fazer sucesso nacional significa, entre outras coisas, aprender a conversar com quem administra os direitos dos hits originais.

    Recentemente, com o falecimento da cantora Bonnie Tyler, ganhou destaque na mídia paraense a notícia de que a famosa versão de “Total eclipse of the heart” feita pela banda Fruto Sensual é uma versão autorizada (fonte: página Celebridades do Pará no Facebook).

    Confesso que essa informação me pegou.

    (Cheguei a checar na UBC e achei sim a obra incluindo o compositor James Richard Steinman e sua editora)

    Achei bem diva da parte da Valéria, mas quebrou um pouco o imaginário que eu tinha das músicas da banda, que, embora esteja merecidamente começando a ser mais reconhecida pelo Brasil afora, ainda é uma das mais “raiz” da cena paraense.

    A própria Gaby Amarantos contou em participação no podcast Segue o Som que precisou passar por um processo de clearance que levou quase oito anos para que o álbum Tecnoshow Vol. 1 pudesse finalmente chegar às plataformas digitais.

    Oito anos!

    Acho difícil imaginar algo menos tecnobrega do que esperar oito anos para liberar uma música.

    Mas o resultado foi proporcional ao esforço: o álbum chegou ao streaming e rendeu a Gaby o seu primeiro Grammy Latino.

    A verdade é que, por mais disruptivo e anti-sistema que o sample não autorizado seja e o quanto isso faça parte da cultura do tecnobrega, não há muito o que fazer quando o artista quer dar um passo além dessa cena regional.

    O clearance (processo de obtenção de autorização para uso de uma obra ou fonograma protegido por direitos autorais ou conexos) deixa de ser uma opção.

    O artista sai da informalidade e sucumbe à papelada.

    Para uma cena acostumada à espontaneidade e rapidez das versões e samples não autorizados, entrar no mundo das autorizações pode parecer uma rendição quase dramática, ainda que seja justamente essa rendição que abra as portas para voos maiores.

    Cheguei a mencionar isso brevemente em um artigo sobre pop amazônico para a PopMatters:

    Manu Bahtidão, que ganhou fama regional como a voz da Banda Batidão, alcançou sucesso nacional com “Daqui Pra Sempre”, uma versão em português do sucesso de Loreen no Eurovision 2023, “Tattoo”.
    Em contraste com a longa tradição do Pará de versões não autorizadas de músicas estrangeiras, a abordagem refinada de Manu sinalizou uma mudança para o pop amazônico. A cena precisava seguir regras profissionais para crescer.

    (Fonte: Viviane Batidão Sings the Sensual Joys of Amazonian Pop » PopMatters)

    Fico em dúvida sobre achar que isso é chique ou que faz perder a graça da coisa toda.

    O sample deixa de ser punk.

    “Eu vou samplear… e depois mandar um e-mail para a editora.” Convenhamos: não tem a mesma poesia que “Eu vou samplear, eu vou te roubar”.

    (Mas só uma das duas ganha um Grammy 🤷🏽‍♀️)

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