Disclaimer: esse post não pretende provocar nenhuma associação política entre Rashid e o Presidente Lula. Apenas conectamos dois acontecimentos nos quais enxergamos algumas semelhanças.
Esse não era um crossover que eu estava esperando.
Aliás, não chega a ser um crossover. Só não quero desperdiçar o fato de que o mês de Julho entregou dois raps fodas, ambos com teor biográfico, por parte de dois caras que, gostem ou não deles, são grandes mestres de suas artes.
No começo do mês, Rashid apareceu com “Yowa”, um rap autobiográfico em que ele resume sua trajetória das ruas ao estrelato, seguindo o mesmo motivo lírico que é comum no hip hop mas que parece que tem sido cada vez menos feito, ou menos bem feito…
Não que Rashid precisasse dessa autodefesa da sua caneta, mas dentro do projeto do qual “Yowa” faz parte, a defesa que Rashid faz de si mesmo acaba sendo uma defesa do rap como um todo; um manifesto.
Na verdade, a missão de querer salvar o rap nacional é quase literal nesse novo trabalho do Rashid. “Yowa” é o single que antecipa seu próximo álbum, CUMULONIMBUS, que fará parte do lançamento de algo muito maior: o movimento Defensores da Arte do Gueto (D.A.G.).
A faixa conta com versos pesados e amassantes como “Me inscrevendo no Grammy enquanto esses boys torciam pra eu me inscrever na Catho”, e várias referências a tradições ancestrais.
A própria palavra “yowa” tem origem nos povos bakongo e se refere aos ciclos da vida e do tempo — tema sobre o qual o Rashid já mostrou ter uma certa obsessão, sobretudo no álbum Portal (2024).
Em um momento em que muita gente sente falta de grandes narrativas dentro da cena do rap nacional (ou, pelo menos, do rap masculino…), é muito revigorante ver um dos seus veteranos com toda essa fome de botar ordem na casa, botando uma banca que ele consegue sustentar e com muita técnica.
Aí chega o fim do mês e simplesmente o Presidente Lula também “lança” “seu” “rap”, também com tons biográficos.
Um rap que, na verdade, não é dele.
Que na verdade, é mais um funk que um rap.
E que, na verdade, é um jingle para a sua campanha presidencial.
O jingle é uma versão do “Rap do Silva”, funk de 1996 do Mc Bob Rum que conta a história de um homem que era pai de família, mas era funkeiro, ou era funkeiro, mas era pai de família.
Na versão sobre Lula, a letra destaca sua trajetória como trabalhador e figura política.
Segundo a assessoria de comunicação do Presidente Lula (em apuração feita por nós diretamente junto a ela), a adaptação da letra do “Rap do Silva” foi um trabalho coletivo da equipe de criação da campanha, que obteve os direitos para adaptação e gravação da obra.
Vi muitas pessoas nas redes sociais pedindo pra colocarem a música nas plataformas de streaming de música. Vi até um cantor querendo cantá-la em seus shows.
Óbvio que isso não é só comportamento de consumo de música; há um viés político e eleitoral fortíssimo na conduta de quem está a fim de botar o jingle do Lula no Top 50 do Spotify Brasil, mas… cara, a música realmente ficou legal a ponto de dar pra ouvir de boa fora do contexto de propaganda política mesmo. Dá pra atravessar o campo da propaganda política e entrar no território da música.
Independentemente das posições de cada eleitor, é difícil ignorar quando um jingle consegue conversar ao mesmo tempo com quem viveu os anos 1990 e com quem nasceu décadas depois, usando referências que fazem sentido para públicos completamente diferentes.
Dá uma fezinha ver dois gigantes ainda com essa vontade toda de trabalhar e mostrar que não estão há décadas no game por aleatoriedade.

