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  • Tô achando a história da Cacau Chuu parecida com a da PinkPantheress

    Tô achando a história da Cacau Chuu parecida com a da PinkPantheress

    Ex-gótica, ex-otaku, ex-e-girl, fã de K-pop, e estrela do funk que se recusa a ser MC, Cacau Chuu é uma matéria prima pop especialmente interessante.

    Seu próprio nome artístico já parece uma piada interna entre diversas camadas de cultura pop: “Cacau”, embora seja um diminutivo de seu nome Cauane, remete a uma sonoridade kawaii, enquanto “Chu”, segundo a própria Cacau revelou no podcast NOVAPAPO, evoca tanto Pikachu quanto a CHUU do ex-grupo de K-pop LOONA.

    Cacau Chuu, como uma trufinha da Cacau Show, é adocicada de um jeito artificial mas viciante.

    A jovem de 20 e poucos anos da Zona Leste de São Paulo é a estrela feminina em collabs produzidas e frequentemente coestreladas por homens MCs, em funks e brega funks que têm dominado o TikTok e as paradas do Spotify nos últimos meses.

    Uma dessas faixas, inclusive, chamou a atenção da cantora pop Luísa Sonza, que já tem um histórico de se inserir em músicas que nasceram em circuitos menos mainstream e ajudar a transformá-las em acontecimentos pop, como aconteceu com “Sentadona”.

    Luísa, de uma maneira muito astuta, parece tomar cada vez mais posse dessa cadeira de curadora ou aceleradora de fenômenos que já estão acontecendo por baixo de radares maiores.

    Parafraseando Travis Scott em “Sicko mode”, podemos dizer que Luísa Sonza entra em “Ai que loucura” como a cola que junta algumas estruturas caóticas, podendo alçar algo ligeiramente subcultural a um patamar mais acessível para fãs de pop chiclete. (Ou, talvez, pop trufa da Cacau Show.) E ainda adiciona o colombiano Ryan Castro.

    A dinâmica lembra um pouco outro fenômeno que, à época, pouco prometia sobre o quanto moldaria a indústria pop: “Boy’s a liar Pt. 2”, a colaboração entre PinkPantheress e Ice Spice lançada em 2023.

    À época, PinkPantheress já tinha uma carreira construída na internet e uma estética muito própria. Ice Spice, por sua vez, era naquele momento uma das novas sensações do rap americano, alçada a estrela com o sucesso dessa colaboração. “Boy’s a liar Pt. 2” juntou duas trajetórias em ascensão e criou uma faixa que ultrapassou a escala original de ambas.

    Sonza é, obviamente, bem mais consolidada do que Ice Spice e PinkPantheress eram em 2023, mas “Ai que loucura” serve menos para confirmar quem já é famoso e mais para revelar quem pode estar prestes a subir degraus.

    A beat de “Ai que loucura” parece um drum’n’bass com sintetizadores de abertura de anime fofo, desmontado e reconstruído como brega funk. Uma produção interessante do DJ Exe que lembra a sofisticação minimalista e Y2K das produções de PinkPantheress.

    (Inclusive, não parece loucura pensar que o instrumental de “Ai que loucura” seria algo que a própria PinkPantheress curtiria ou toparia lançar).

    É quase como se fosse uma cadeia de tradução cultural: um gênero mais global (drum’n’bass), filtrado por uma cena brasileira (brega funk) transformado por uma linguagem periférica, circulando por uma artista digital, remixado pelo pop mainstream (com Luísa Sonza).

    Mas o potencial da Cacau não está apenas em ser agente de potencialização desse percurso. Está também na linguagem que ela parece estar ajudando a cristalizar.

    Há, em torno dela, um universo cor de rosa, açucarada e ligeiramente delirante, em que sintetizadores lounge encontram batidas de funk e brega funk, referências de anime e K-pop embrulhando letras sexualmente explícitas…

    Um universo em que a Hello Kitty pode ser tanto uma boneca de pelúcia fofa que fica em cima da cama de uma garota para compor uma decoração doce e sonhadora, quanto para servir de objeto para essa garota se divertir um pouquinho sozinha na sua cama.

    Cacau Chuu fala de sexo sem cerimônia e sem uma entonação direcionada a causar algum impacto específico. Ela circula em uma cena musical em que a sexualidade feminina pode ser bastante explícita, mas ao mesmo tempo, sua imagem mobiliza elementos de fofura, cultura geek, música eletrônica periférica, estética de quebrada e ideais de uma feminilidade hipersexualizada mas também de uma feminilidade infantilizada.

    É uma combinação que flerta pendularmente com o problemático e com o pós-moderno — retrato bastante preciso de uma juventude para a qual tudo foi democratizado ao mesmo tempo: Pokémon, K-pop, pornografia. São experiências e iniciações (culturais, sexuais e de consumo) que há décadas atrás dependeriam de geografia, capital e idade, mas que hoje em dia cabem todos na mesma tela de um smartphone.

    É interessante pensar em como Cacau Chuu construiu esse mundo que hoje parece a sua assinatura musical.

    Muitos dos hits de Cacau Chuu têm pouco ou nada a ver com A&R: a cantora costuma disponibilizar no SoundCloud algumas faixas vocais (que ela chama de “pentes”) com diversas melodias, como um medley sem beats, e assim, DJs e produtores musicais podem usá-los como querem (embora o e-mail de Liberações disposto no perfil sugira que esses usos dependem da aprovação da equipe da cantora).

    É uma maneira bastante 2026 de construir uma carreira: em vez de esperar que as pessoas encontrem suas músicas, você dá a elas pedaços de você para colocar nas músicas delas.

    Esse modus operandi possibilitou que uma artista oriunda do funk paulista se tornasse estrela do brega funk que domina o Pernambuco, e fez com que Cacau Chuu fosse parar em várias outras músicas de gêneros e regiões diferentes, inclusive no “Passinho do Jamal”, febre do brega funk em 2026 que desafiou os funks do eixo Rio-São Paulo em seu potencial acidental de soft power brasileiro.

    Há alguma coisa quase pós-discográfica nesse modelo. Cacau não precisou trocar de cena para circular por outras, bastou deixar sua voz ser insumo.

    Isso é muito interessante, inclusive do ponto de vista da Propriedade Intelectual. O que circula não é apenas uma gravação ou um conjunto de letras e melodias: é uma assinatura artística que pode ser recortada, recombinada e reinscrita em outros contextos. Cada DJ que usa os pentes de Cacau está, de certa maneira, importando também um pouco do universo Cacau Chuu para dentro de sua própria música.

    Ela não é só uma topliner ao contrário. Com a faixa exportada do vocal vai junto o estilo dela.

    E embora todo esse pacote dialogue perfeitamente com o funk, bregafunk, trap e outros gêneros musicais populares periféricos, parece muito evidente que Cacau tem algo que excede essas linguagens musicais nas quais encontrou seu primeiro grande público.

    A própria Cacau cita como sua principal referência Anitta, hipótese-mór da funkeira que não só pivotou pro pop como deixou inequívoco que funk É uma das maneiras pelas quais o pop brasileiro acontece.

    Cacau diz ainda que não faz questão de se restringir ao funk e que sequer se vê como uma MC.

    No momento, o que Cacau parece ser é uma persona capaz de atravessar vários gêneros e cenas, mas olhando para ela com alguma distância, é difícil não enxergar uma estrela pop em formação. Ela de fato se parece menos como uma nova MC e mais um possível spoiler do pop brasileiro.

    Cacau Chuu, assim como PinkPantheress, é, ou pode vir a ser, tanto produto quanto vetor.

    PinkPantheress se tornou um dos sinais mais claros de que uma certa linguagem musical (uma nascida na internet, influenciada pela estética Y2K, minimalista e levemente inquietante) estava pronta para transitar da cultura de nicho para o vocabulário do mainstream pop, influenciando ou refletindo-se na sonoridade e estética de fenômenos pop maiores como o grupo de K-pop NEWJEANS – e que posteriormente influenciou toda uma geração de girlgroups de K-pop posteriores.

    Ela não chegou a inventar muita coisa.

    Não inventou o UK garage, o drum’n’bass, o R&B, a música eletrônica de internet ou a nostalgia pelos anos 2000.

    O que ela fez foi juntar essas coisas de uma maneira tão econômica, reconhecível e contemporânea que aquilo que parecia uma combinação de referências específicas começou a funcionar como uma linguagem pop cujos rastros e sabores são sentidos no pop/K-pop pós-pandemia.

    (E há algumas ironias e coincidências quase circulares nisso: PinkPantheress é ela própria uma apreciadora do K-pop, assim como Cacau Chuu).

    Não me surpreenderia ver Cacau Chuu provocando algumas movimentações similares, guardadas as devidas proporções, e de acordo com o seu próprio universo. Cacau Chuu é uma espécie de infraestrutura.

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  • A sina de Luísa

    A sina de Luísa

    O último grande “hit” de Luísa Sonza foi “A sina de Ofélia”, uma versão em português do sucesso de Taylor Swift “The fate of Ophelia”, feita com Inteligência Artificial por um DJ que não pediu autorização para emular a voz de Luísa (ou de Dilsinho, que “faz feat” com Luísa na música).

    Achei a versão boa, e parece que Luísa também achou, pois ela própria chegou a promovê-la de certa forma, em posts nas redes sociais.

    Mas não deixa de ser curioso que Luísa caiu nas graças do povo justamente com uma faixa que não foi feita ou idealizada por ela, e que, apesar do consentimento posterior tácito, não foi feita com ciência ou autorização dela.

    Na versão, “Luísa” canta: “Eu vou ser sempre real”… ao passo que, nas músicas escritas e cantadas pela verdadeira Luísa, as pessoas não sentem essa verdade que a Inteligência Artificial cantou e que agradou a tantos.

    Já faz algum tempo que o nome Luísa Sonza atrai atenção muito mais pelos eventos da sua vida pessoal, pela forma como ela dança e se veste (ou não se veste), do que pela sua música. O fato de ela ter hitado com uma música que lhe arrancou a voz e não lhe consultou é intrigante, quase violento.

    Se tivesse sido iniciativa da Luísa fazer uma versão da música da Taylor Swift, ela certamente seria zoada. Usariam isso como (mais uma?) evidência de que ela só copia gringos e não tem personalidade.

    É a sina de Luísa.

    É como se houvesse algo na ~ideia Luísa Sonza~ que é capaz de atrair atenção, mas que quando a própria Luísa executa, não agrada.

    Até onde se sabe e se percebe, Luísa tem relativa liberdade e autonomia criativas, mesmo tendo contratos com gravadoras e agências de imprensa de grande escalão. Então é possível partir da premissa que o que vemos e ouvimos de Luísa Sonza é fruto da mente e vontade dela, inclusive porque ela mesma costuma afirmar isso. E é quase como se isso fosse o problema mesmo. Parece que muita gente já se decidiu que não vai gostar do que Luísa decide criar e fazer.

    Nos últimos anos, Luísa tem tentado muito mostrar que é artista de verdade e isso parece que irrita ainda mais as pessoas. Seja pela postura em si, seja por ela achar que é merecedora desse status, seja porque isso supostamente contradiz a sua “outra” persona artística que canta sobre ficar de quatro e faz performances ilustrativas dessas letras.

    O problema não é que ela não sustenta essa postura da artista que diz ser; o problema é que ela exagera no quanto tem que sustentar; porque será que se ela fosse tudo isso, precisaria sustentar tanto?

    Em geral, autoafirmações quase sempre soam como necessidade de convencer sobre algo que não está totalmente evidente, mas soa menos pedante quando a realidade sustenta o que está sendo dito. Por exemplo, quando Marina Sena canta “o meu jeito é totalmente natural”, soa natural mesmo. Quando Luísa canta “eu tenho número e ainda sou artista”, como soa?

    Mas crença de quem é simplesmente é e não precisa provar que é, é às vezes uma armadilha. Essa armadilha também faz parte da sina da Luísa.

    Será que Luísa precisaria tanto gritar pro mundo que é artista de verdade se já não houvesse tantas vozes falando alto ao mesmo tempo que ela não é? Seja porque foi apresentada ao mundo como namorada do Whinderson, ou porque começou a carreira com músicas mais dançantes e despretensiosas sem grandes lapsos de criatividade ou ambição, Luísa tem sempre que lutar contra si mesma e com tudo que ela construiu, ou deixou construir, ou teve que ver ser construído, sobre si mesma.

    É a sina de Luísa.

    Não me irrita o desejo de Luísa de “ser artista”. Esse desejo quase me emociona, na verdade. Fico esperançosa em saber que saber compor, escrever e conhecer os cânones da música ainda tenha algum poder simbólico (é quase o mesmo que senti quando Jade Picon saiu do Big Brother Brasil e se mostrou super empenhada em estudar dramaturgia, querer um papel de protagonista em novela da TV Globo etc… ela já era rica da moeda corrente que é muito mais poderosa do que qualquer contrato com a TV Globo hoje em dia: marca pessoal forte e sucesso nas redes sociais. Uma mulher jovem e linda que já tem isso iria querer ser atriz da Globo por quê? Porque isso ainda tem status).

    O que pode incomodar mais é que Luísa pensa já ter chegado mais longe do que chegou como criativa e criadora.

    Mas até isso tem sua graça.

    Aparentemente de forma não intencional, Luísa tem feito desse quase-lugar um lugar per se, um que tem suas particularidades toscas, mas também interessantes, deliciosas. Quase uma quase-arte, mas como arte não tem definição nem estágio, é arte também.

    Isso se viu, sobretudo, no seu antepenúltimo álbum, Escândalo Íntimo (2023), que contou com diversas referências a MPB, Cazuza, Rita Lee etc. Quase um TCC pra mostrar que ela estudou direitinho o pop-rock brasileiro mas que também sabe criar algo e não só fazer citações.

    Escândalo Íntimo também foi o álbum em que Luísa deixa claro que ela já encontrou o lugar que quer ocupar na prateleira musical: o arquétipo do artista perturbado porém genial, uma Jack Kerouac pop star brasileira, ou uma Rita Lee que gosta de funk.

    As letras do álbum resumem quem ela quer que todos saibam que ela é:

    • eu tenho número e ainda sou artista“;
    • eu meto o louco“;
    • eu acho legal essa coisa de artista“;
    • se me der o palco pra eu cantar, desmonto e derrubo todo esse lugar

    Luísa sampleando Rita Lee em “Lança menina”, com o áudio da famosa crítica feita a uma moça “toda boazinha” e “chata pra ca[ralho], fez dela a própria chata pra caralho, excessivamente preocupada em não querer ser vista como a mocinha boazinha e “tão galera”. Sou tão porra louca e perturbada e tão genial, ui.

    (Como alguém que cresceu vendo Sandy ser colocada em um lugar de castidade e boa-mocice pela mídia e vendo esse estereótipo desmoronar na medida em que performar empoderamento focado em liberdade sexual se tornou quase requisito para ser mulher artista pop de sucesso, acho quase engraçado ver Luísa tão preocupada em deixar claro que não é santinha. Não tínhamos Sandys na cultura pop dos anos 2020, Luísa estava lutando contra o quê? Mas eu também não contava a com a “volta” do conservadorismo, da romantização das trad wifes e toda essa cultura de demonização do feminismo que tomou ainda mais fôlego com a ascensão do neopentecostalismo e do bolsonarismo no Brasil. Então, acho que a postura de Luísa até faz mais sentido nesse contexto.)

    É meio demais, mas é divertido, mais pela experiência de ver a artista se justificando do que pelo mérito artístico. Tenho a impressão de que Luísa assume o risco de gerar tipos de entretenimento que não são exatamente o que ela pretende.

    Mas mesmo assim… o que sai disso não é exatamente, ou de todo, ruim…

    Luísa sabe estudar o modelo de arte que quer fazer, consegue replicar a “fórmula”, só que às vezes sai sem alma, sem muito brilho, mas ainda assim bom. Não é mal feito o suficiente pra você dizer que tá mal feito, só não conquista muito. Mas às vezes conquista sim…

    A bossinha “Chico” me parece uma amostra muito boa disso. É uma prova muito clara de que o desejo de Luísa de ser bossa nova era maior do que qualquer inclinação natural dela para isso. Mas, veja bem, não ficou ruim, viu? É talvez a minha faixa preferida de Escândalo Íntimo. O desejo de ser artista encontrou a paixão pelo Chico Moedas e rendeu algo muito bom.

    Talvez seja, também, a sina de Luísa, a mesma de Picasso: se ela se mantiver se forçando a ser artista o tempo todo, eventualmente a inspiração encontrará essa forçação de barra e juntas elas terão filhos mestiços bem bonitos.

    Não deixa de ser algo interessante de assistir.

    Ou será que teria Luísa nascido pra ser unicamente intérprete, mas insiste em uma sina de compositora? Seriam todas as suas tentativas mal sucedidas de convencer a todos que ela é uma artista genial meras consequências da sua insistência em lutar contra esse destino? Não sei, mas caso ela tivesse acatado esse suposto determinismo de não tentar ser uma gênia, acho que teríamos perdido coisas interessantes.

    Com o lançamento de Brutal Paraíso (2026), essa discussão continua. Luísa segue usando de referências do pop-rock brasileiro para firmar seu próprio estilo a partir dele, dessa vez também bebendo da bossa nova.

    De certa forma, Brutal Paraíso parece uma boa continuação de Escândalo Íntimo. Dá até pra ignorar que há um outro álbum entre os dois: Bossa Sempre Nova (2026) não é ruim, mas é desnecessário. A Luísa Bossa Nova que deveria ter estado ali é a que está nas primeiras faixas de Brutal Paraíso: uma que faz um pop bossa nova autoral, com traços de hip hop.

    “Amor, que pena!” é uma boa faixa: Luísa achou nela um método bom pra colocar a fundação instrumental da bossa nova a serviço das melodias de pop contemporâneo e hip hop melódico. Deu certo. “E agora” já não é tão bem executada, mas ainda funciona. Ela começa bem, o pré-refrão ilude de que vai continuar no mesmo tom acertado ou talvez melhorar, mas quando chega a interpolação de “Você não me ensinou a te querer” com beat eletrônica, fica meio brega (mas antes essa breguice autoral do que se ela tivesse feito um remix de Tom Jobim, por exemplo).

    Quando o álbum chega em “Loira Gelada”, a Luísa Bossa Nova faz um pausa pra chamar a Luísa Manequim, isto é, a persona da gostosa que sabe (ou jura) que dá um chá que ninguém consegue esquecer (essa persona já aparecia em músicas como o remix “sentaDONA (Remix) s2”, de 2022, mas achei que ela se solidificou mesmo foi em “Luísa Manequim”, de 2023). O rock’n’roll deu uma licença poética interessante para extravasar esse lado e gerar letras do tipo que o povo ama odiar: “eu tô por cima / Me chama logo de tua linda / (…) eu sou o amor da tua vida / Tua paixão mal resolvida”.

    Eu gostei bastante do sample de “Louras Geladas” do RPM em “Loira Gelada”, achei o momento da inserção do sample muito inteligente, pouco óbvio, e de bom gosto. Há algo de muito interessante na escolha de samplear RPM, pois consigo ver a Luísa ao mesmo tempo como a persona perfeita de várias músicas da banda, mas também como um certo contraponto a algumas delas.

    “Loira Gelada” acaba com um pós-lúdio que traz a bossa nova de novo, antes de transicionar para mais uma faixa de pop rock, “Santa imaculada”, que depois transiciona para outra que começa como bossa nova e depois fica pop-rock de novo, “Diferentemente”.

    Até aqui, o álbum anda bem.

    “Sempre você” dá uma quebrada no fluxo, mas não fica exatamente descolada. É uma baladinha ligeiramente menos empolgante e bem menos liricamente caprichada que “Iguaria” (de Escândalo Íntimo), mas segue a mesma linha “eu quero a sorte de um amor tranquilo” e ocupa um papel importante inclusive para começar um novo bloco de Brutal Paraíso que segue outros rumos.

    A partir daí, o que vem é um bloco de músicas mais pop-funk, marcadas por letras em inglês e espanhol, com collabs e sonoridades obviamente pensadas para a carreira internacional de Luísa. Não é a parte mais interessante do álbum, mas provê um material legalzinho para Luísa apresentar ao vivo com coreografias.

    “Interlúdio – Piedade” marca mais um novo bloco no álbum, o último.

    As músicas do bloco final são um pouco mais melodramáticas, e devo admitir que mesmo quando há alguns momentos piegas, a canceriana Luísa brilha nessa faceta teatral. “Que o amor morra” é uma composição boa, um instrumental mais envolvente talvez a desse um apelo maior para ser hit. “Quando” é a “Outra vez” de Brutal Paraíso. “Depois do fim” é uma sofrência pop imensamente melhor que “Penhasco pt. 2” (de Escândalo Íntimo), por exemplo.

    O álbum acaba mal com a longa e pouco interessante faixa-título. Luísa já tem anos de carreira que justificam uma faixa confessional como essa, então a proposta até que faz sentido. “Brutal Paraíso” se encaixa de forma natural em Brutal Paraíso, que até aqui, já não perde muito por ter uma faixa de mais 7 minutos, porque quem chegou até a última faixa do álbum certamente não é alguém que está com pressa (Brutal Paraíso tem 23 faixas e mais de 1 hora, o que é raro para um long play hoje em dia). O problema da de “Brutal Paraíso” nem é a extensão, é não ter um arco melódico ou lírico cativante mesmo.

    Fico com a impressão de que há menos músicas marcantes em Brutal Paraíso que em Escândalo Íntimo, mas algumas até o superam. É um álbum legal, assim como Escândalo Íntimo também é. O processo criativo de Escândalo Íntimo me intrigou mais. Em Brutal Paraíso, estou mais intrigada pela própria pessoa da Luísa e de como isso se desdobra na faceta compositora, do que pela Luísa compositora mesmo. Não à toa, escrevo esse texto.

    Mantive a comparação entre os dois álbuns ao longo do texto porque acho que eles marcam o encontro de Luísa com um som e proposta que combinam bem o que parece ser o personagem que ela finalmente definiu pra si: essa persona de artista perturbada que compõe pop inspirado em MPB fodona mas que também curte fazer funk e música pra rebolar. Alguns temas líricos também se repetem entre os álbuns, sobretudo a antítese “sagrado/profano” (que intitula uma faixa de Escândalo Íntimo e aparece em “Quando” de Brutal Paraíso).

    Basicamente, todos esses elementos já apareciam de forma mais ou menos explícita em obras anteriores dela, como se a cada álbum ela fosse adicionando mais reforços pra consolidar essa estética e proposta.

    Em Brutal Paraíso, por exemplo, ela adicionou a camada reggaeton e a camada bossa nova, que, se formos justos, já estavam sendo construídas desde Doce 22 (“Anaconda”) e Escândalo Íntimo (“Chico”), respectivamente.

    No fim das contas, a bagunça de Luísa sempre teve alguma coerência, mas ela teve o azar de viver em uma era em que as pessoas caracterizam essas bagunças como versatilidade ou falta de personalidade de acordo com critérios que podem oscilar bastante.

    Particularmente, sou do time que não consegue encaixar multiplicidade musical excessiva na caixinha da versatilidade, por isso me agrada ver que Luísa está começando a fechar o combo de sabores da sua identidade musical. A inserção mais recente da bossa nova pareceu uma ameaça a essa possível/suposta/almejável harmonia e identidade, mas eu consigo desculpar porque achei genuína a forma como ela se instalou (acho de verdade que “Chico” foi um momento muito legal na carreira dela, musicalmente).

    Mas provavelmente, para Luísa, essas referências todas devem ser ancoradas em outros eventos da história de vida dela. O fato de ela ter cantado em banda de baile no início da carreira, por exemplo, costuma ser um coringa para ela justificar sua conexão com todo e qualquer ritmo musical. Até faz sentido, mas eventualmente acaba parecendo subjetividade a serviço da dispersão. Não a ouvi até agora dando essa cartada pra falar de nada do Brutal Paraíso, e espero não ouvir.

    Se é a sina de Luísa ser odiada por se sentir incompreendida, enquanto os outros insistem que não há tanto nela a ser compreendido, então talvez sua redenção esteja em não fazer tanta questão de ser compreendida mesmo.

    E digo mais: acho que Brutal Paraíso vai envelhecer bem. Acho que daqui alguns anos, quando conseguirem ouvir sem ranço, vão achar algumas coisas legais. E nesse dia, Luísa vai achar que teve o seu momento “aha” e se sentir validada na sua crença de que o público iria levar anos para entender uma artista tão genial quanto ela. E nesse dia, ela vai estar errada. Assim como talvez alguns de nós estejamos por odiá-la hoje.

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