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  • A genial composição e produção de “Sonho Lindo”, de Armandinho e os Rubis da Princesa

    A genial composição e produção de “Sonho Lindo”, de Armandinho e os Rubis da Princesa

    Uma progressão de acordes rara, recursos de melodic answering, e uma melodia quase ostinástica fazem de “Sonho Lindo” um lambadão de composição e produção extremamente inteligentes e elegantes.

    A música “Sonho Lindo”, da banda baiana de lambadão Armandinho e os Rubis da Princesa, sempre me fascinou desde que a ouvi pela primeira vez na coletânea Cabaré da Marcinha, em meados de 2003/2004. (Essa coletânea, lançada pelo DJ Luciano em Gurupi, Tocantins – cidade na qual cresci e passei a maior parte da minha vida – merece um estudo e registro próprios. Além de ter feito muito sucesso, apresentou muitas músicas e artistas de forró e brega a Gurupi e região, moldando a cultura popular por bastante tempo no início dos anos 2000. Algum ainda eu ainda vou escrever sobre o Cabaré da Marcinha aqui no Musicazia)

    Havia algo muito simplístico na composição dela que sempre me intrigou. Sabe aquela simplicidade que engana? Aquela sofisticação de quem não quer mostrar que é sofisticado, pelo contrário, até quer que você ache que é simples e “fácil”.

    Mas não é tanto assim. Há algumas pegadas muito inteligentes na composição e produção dessa música, embora ela pareça básica sob os aspectos melódico e lírico, e pareça de produção pouco elaborada.

    Aparentemente, “Sonho Lindo” (assim como boa parte da obra da banda) só chegou às plataformas de streaming em 2020, então você deve achá-la por aí como tendo sido lançada nesse ano, mas não, ela é do início dos anos 2000, provavelmente de 2002 ou 2003, e foi lançada no álbum Vol. 3 de Armandinho e os Rubis da Princesa.

    Legal saber que discos como esse, de alcance majoritariamente regional em uma época em que música digital ainda engatinhava, não estão se perdendo; mas nesse processo de “transição”, perdemos algumas informações mais precisas.

    Mas segundo o Spotify, e essa informação parece congruente com a história da banda, o compositor de “Sonho Lindo” é Armando Custódio, o próprio “Armandinho” que dá nome à banda. Ele é um dos grandes homenageados desse texto.

    Ouvi muito essa música na minha adolescência: o Cabaré da Marcinha fez muito sucesso em Gurupi e a música “Sonho Lindo” era simplesmente a música de abertura de um de seus volumes. Então, quando ela começava a tocar, era como o anúncio do começo de uma festa: a gente já sabia que viria muita coisa legal depois; e eu, inclusive, até decorava a sequência das músicas.

    Já mais velha, redescobrindo a música, comecei a pensar em como a melodia dela me lembra as melodias de Rod Stewart, como “I don’t wanna talk about it”. Tem um quê das melodias e estruturas de músicas dos Carpenters também.

    Acho que a parte de “Sonho Lindo” da letra “Então vem viver comigo esse sonho lindo” (em 1:27) lembra muito a parte da letra “I can tell by your eyes” (0:14) de “I don’t wanna talk about it”, escute:

    Mas “Sonho Lindo” difere dessa pela falta de um refrão bem marcado e de motivos diferentes nas seções. “Sonho Lindo” tem uma certa linearidade, quase um ostinato.

    Além disso, há algo menos óbvio na harmonia (que é, basicamente, o “conjunto” de acordes musicais usados na música) de “Sonho Lindo” do que em “I don’t wanna talk about it” do Rod Stewart.

    A progressão de acordes de “Sonho Lindo” é formada pelos acordes: C – Dm – F, isto é, Dó maior – Ré menor – Fá maior.

    (Especialistas poderão defender outras “versões” dessa progressão, em outras nomenclaturas desses acordes – enarmonia” – ou em outros tons; mas eu sou bem básica quando o assunto é teoria musical, então vou considerar essa, porque foi o que eu consegui tirar de ouvido no teclado, e quando toco esses acordes no teclado, soa exatamente como a progressão de “Sonho Lindo”. E é o que importa para aqui).

    Esta é uma versão reduzida da popular progressão C – Dm – F – G (Dó maior – Ré menor – Fá maior – Sol maior), mas que elimina justamente o último acorde que “resolve” a progressão. Isto é o que se pode chamar de “unresolved chord progression”, ou progressão de acordes não resolvida.

    Essas progressões musicais comuns na música popular costumam usar uma estrutura que conduz a um ponto de resolução – geralmente por meio da função dominante (V) —, criando uma expectativa de “conclusão”, “fechamento”. Mas em “Sonho Lindo”, essa expectativa é deliberadamente suspensa. Depois do acorde F (Fá maior), que leva a expectativa lá pro alto, a música volta pro primeiro acorde, C (Dó maior).

    Há várias implicações aí.

    Primeiro, o fato de a progressão não terminar em um acorde G (Sol maior) a torna rara. Não consegui pensar, e ao pesquisar tampouco encontrei, músicas que usem a progressão formada apenas por C – Dm – F.

    Em uma pesquisinha básica usando a modalidade gratuita do site Chord Genome, não achei nada também, achei apenas algumas variações dela, mas nada igual:

    A segunda implicação da escolha dessa progressão de acordes para “Sonho Lindo” tem a ver com a sua produção.

    A produção é totalmente eletrônica, formada basicamente por:

    • um beat básico de lambadão eletrônico que se repete durante toda a música;
    • uma guitarrinha sintetizada que sola algumas vezes, mas que também aparece no “fundo” da música enquanto há vocais;
    • e um timbre de brass usado para algumas melodias bem pontuais que aparecem sobretudo nos “espaços vazios” quando não há vocais.

    Esse brass tem um papel bem importante no storytelling de “Sonho Lindo”: ele complementa as melodias e “anuncia” pequenos clímaxes da letra.

    Ou seja: a harmonia de “Sonho Lindo” pode não ter um acorde que “resolva” a progressão, mas as melodias tocadas no brass sintetizado cumpre esse papel de “fechar” clímaxes.

    Esses fillers tocados com sintetizadores em momentos de silêncio ou transição são uma técnica chamada de “melodic answering”, e é muito encontrado em músicas do ABBA e outros grupos de europop; e claro, reproduzido em outros gêneros e por outros artistas.

    O melhor exemplo desse “melodic answering” em “Sonho Lindo” é quando ele canta:

    Desde quando eu te vi… [BRASS ANUNCIANDO QUE UMA GRANDE NOTÍCIA VAI CHEGAR] eu me apaixonei“.

    É muito bom. Ouça em 0:28:

    Mas o mais legal é que o “Eu me apaixonei” não é cantado de forma triunfal, pelo contrário, a música retorna pro primeiro acorde, C, com a mesma melodia do começo. O brass faz esse papel mais eloquente, extravagante, para que o cantor siga tranquilo e calmo contando sua história.

    E de fato há um compromisso de que a história da música seja contada de forma tranquila.

    Quando a vocalista mulher entra na música, cantando “Eu também estou feliz“, ela canta com um calma quase contraditória com o que está sendo contado. Não há euforia na melodia quando cada cantor está contando sua versão da história. A euforia só vem ao final quando eles cantam juntos: “E viva o amor… E viva o nosso amor…” … mas ainda assim mantendo os mesmos acordes. Não é aquela resolução formulaica brega de “ah, agora vamos subir o tom e colocar uma acorde triunfal para celebrar o amor”. Segue calmo, tranquilo.

    Simplesmente incrível. Nenhuma Inteligência Artificial faria algo assim.

    (Mas você esperaria menor criatividade de uma banda chamada Armandinho e os Rubis da Princesa? Nunca peguei essa referência do que seriam esses rubis da princesa)

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