OBS.: Esse artigo foi originalmente publicado no meu blog Monoideia, em 21 de setembro de 2025.
No mundo da inovação, existe um paradoxo tão antigo quanto a própria ideia de tentar introduzir algo novo no mundo: nem sempre o pioneiro é aquele que surfa a onda da tendência que ele mesmo cria.
É o que a literatura de inovação denomina First Mover Disadvantage, ou “desvantagem do pioneiro”: nem sempre o pioneiro é quem mais sai ganhando com a sua própria inovação.
Comumente, alguma empresa que chega depois acaba se saindo melhor — seja porque tem melhores condições de desenvolver e propagar aquela inovação, seja porque ficou na cômoda posição de aprender com os erros e acertos de quem veio primeiro.
Enquanto eu estudava essa teoria nas disciplinas do meu Mestrado em Propriedade Intelectual e Inovação e lia David J. Teece mencionando empresas como Apple e IBM, o que me veio à cabeça não foi nenhuma outra empresa de tecnologia, mas a rapper e produtora Flora Matos.
Foi uma feliz serendipidade: o timing dos meus estudos cruzou com uma toada de dias em que Flora lotava o feed da rede social X com reflexões sobre como sua experimentação musical na música “Piloto” começava a ecoar em produções de artistas africanos.
Uma sincronicidade quase conspiratória, porque sempre enxerguei Flora como uma dessas “artistas-antena” que se orienta com coragem e ousadia a partir desse acesso à gênese do zeitgeist.
Em certo sentido, parece até místico. Mas meu cérebro ficou feliz ao encontrar nome e base teórica para desenvolver esse raciocínio por uma perspectiva mais mercadológica.
Na minha jornada profissional que envolve pesquisa e diversas atividades em Cultura, Comunicação e Propriedade Intelectual, muito do que faço ou tento fazer também está relacionado com essa cartografia de primeiros sinais de novos movimentos. Eu escrevo para alguns sites de jornalismo musical e frequentemente gosto de propor artigos sobre fatos e padrões novos ou recorrentes que merecem alguma atenção, seja pelo seu potencial de crescimento ou por refletirem alguma situação mais macro que já está posta.
Sinto que o jornalista cultural também é uma espécie de analista e documentador de tendências (estou tentando me desprender do termo coolhunter), alguém que tem como missão documentar pequenas cenas e fenômenos incipientes antes que eles estourem a bolha. Em uma metaperspectiva, entendo que ser um explorador e analista de tendências também envolve mapear quem é capaz de criar e influenciar essas tendências.
Para mim, a Flora sempre foi uma dessas pessoas.
Ela faz rap, canta, compõe, produz, mas acima de tudo, ela testa e incorpora ritmos, batidas e elementos melódicos com a liberdade de quem não deve satisfações a gravadoras; mas contraditoriamente, também com a vulnerabilidade de quem dificilmente será incluída na propaganda da vanguarda.
Como muitos artistas independentes, Flora influencia o mainstream, mas não consegue se posicionar na crista de clímaxes culturais que ajudou a prever ou moldar.
Nem é preciso ter muito faro para identificar essa característica nela, porque ela mesma se autoproclama assim.
Flora costuma bradar e fazer alarde nas redes sociais sobre ser copiada e ver sua estética e ideias reaparecerem em obras de artistas muito maiores que ela. Ela já chegou a dizer, literalmente, que vem sendo “roubada há pelo menos 15 anos”, que seus dados são “transferidos para algum lugar onde eles aproveitam tudo e transformam em produtos e marcas caras”, e que todas as suas ideias legais “viram produtos antes mesmo que eu conclua e faça o registro da patente”.
(Como advogada de Propriedade Intelectual, vou perdoar o uso equivocado do termo “patente” aqui, porque como pesquisadora e escritora musical, estou mais interessada em outra coisa nessa fala da Flora.)
Em um dos episódios mais controversos dessa narrativa repetida, Flora afirmou que Beyoncé teria se inspirado em sua música “Piloto” para criar “Bodyguard”. A ideia foi tratada com ironia por muitos, como se fosse impossível que uma superstar sequer soubesse da existência de uma artista brasileira independente.
Mas não é improvável.
Beyoncé é conhecida por pesquisar profundamente referências e trabalha com equipes de produtores e compositores diversos que podem, sim, ter cruzado com o trabalho de Flora.
Isso não necessariamente prova que há alguma relação entre “Piloto” e a criação de “Bodyguard”— e mesmo que houvesse, não necessariamente caracterizaria plágio.
Mesmo assim, é interessante pensar em como ideias presentes em “Piloto” podem ter inspirado a criação de outra canção que voou muito mais longe justamente porque já nasceu em melhores condições de decolagem. (Será que esse foi um jogo de palavras digno da Flora Matos?)
E o potencial de “Piloto” de inspirar outras criações pode ir muito além das melodias que se assemelham a “Bodyguard”, como percebi durante minha epifania nos estudos sobre Inovação.
No último fim de semana de Julho/2025, Flora Matos lançou uma série de posts no X sobre “a evolução da quebradeira no Amapiano, lá do outro lado do oceano”, explicando como ela explorou a célula rítmica da quebradeira (variante do pagode baiano) em “Piloto”; como disseram que ela estava sendo experimental demais ao fazer isso; e como isso agora está se refletindo no mundo.
No Instagram, ela chegou a postar alguns Stories com referências de músicas de Amapiano que exemplificavam essa situação. Não tive a destreza de tirar prints desses Stories para poder analisar mais a fundo essas referências, mas pelo menos tive o estalo de que essa poderia ser mais uma tendência que Flora teria criado ou antecipado e que valeria a pena registrar para a posterioridade.
Pensando nisso, quis conversar com Flora para escrever um artigo a respeito.
A similaridade, ou influência, da cadência da quebradeira baiana em gêneros musicais de outros países poderia ser o início de algo muito interessante. Eu queria que existisse alguma publicação sobre essa ideia ainda em fase embrionária. Seria uma forma de fazer com que mais pessoas se atentassem para essa possibilidade, de fazer com que Flora fosse desde já entendida como uma possível pioneira, ou até mesmo de que esse artigo servisse de registro histórico quando/se essa tendência evoluísse.
Fui atrás da assessoria de imprensa de Flora e propus uma entrevista sobre o assunto.
Deixei bastante claro que o foco da entrevista seria a experimentação de Flora com elementos da quebradeira e sobre estilos musicais africanos nos quais esses mesmos elementos estão começando a aparecer. Fui categórica em dizer que não precisaríamos antecipar nada sobre o novo álbum ou tocar em qualquer outro assunto além desse se Flora não quisesse. O foco seria exclusivamente criar um artigo que firmasse um precedente sobre essa possível nova tendência.
Recebi uma negativa.
Como todo jornalista que leva um não, eu inicialmente entendi essa postura como uma perda de oportunidade para a Flora. Só que nesse caso, pareceu uma perda de oportunidade ainda mais ilógica e irônica. Qual o sentido de reclamar que as pessoas não a dão o devido crédito, se quando surge uma iniciativa para tentar firmar o nome dela como pioneira, ela recusa?
Talvez, na estratégia de conceder entrevistas apenas quando fosse lançado o novo álbum, o “não” foi proferido no “piloto” automático. Talvez Flora não quisesse expor a tendência antes da hora. Ou talvez ela, como muitos pioneiros, já tivesse aprendido que pioneirismo não garante reconhecimento; e que não valia a pena investir energia nisso.
A literatura de inovação fala tanto da vantagem quanto da desvantagem daquele que dá o primeiro passo.
O “primeiro a se mover” teria a vantagem competitiva de lançar algo que chama a atenção por oferecer uma alternativa diferente, impensada, o que se refletiria na percepção de inovação que a marca alcança na mente do público, e possivelmente, em uma fidelidade.
Mas infelizmente, também existem as desvantagens de ser o primeiro a se mover, sobretudo se a inovação for fácil de copiar e se o inovador não tem acesso e domínio de todos os ativos complementares de que precisa para que sua inovação deslanche. Quem chega depois e detém mais recursos, tem melhores chances.
Essas teorias não foram necessariamente pensadas para a indústria de bens culturais, mas exemplos como o da possível apropriação das melodias de “Piloto” pelos compositores e produtores de “Bodyguard” da Beyoncé mostram como isso também ocorre nesse segmento.
Mesmo que a inspiração tenha realmente ocorrido, Beyoncé ocupa um patamar muito acima de Flora. Beyoncé tem mais fãs e mais dinheiro para investir na produção e no marketing de seus álbuns. Ao lançar uma música supostamente inspirada na de Flora, Beyoncé alcança mais pessoas e fica com o mérito de ter uma música com uma melodia incrível — que, supostamente, foi Flora quem criou.
É claro que o sucesso de uma música de Beyoncé que “copia” uma música de Flora não necessariamente “rouba” os ouvintes da música de Flora; mas priva Flora de ter o crédito (não só o autoral, mas também o social) e receitas geradas a partir da performance comercial da música.
O que artistas como Flora vivem não é apenas um caso de injustiça cultural e uma ilustração (ainda que grosseira e merecedora de várias ressalvas) de teorias comprovadas por estudiosos da Inovação, mas um fenômeno estrutural.
Também é verdade que, em alguns casos, para quem tem dom para criar e abrir caminhos, a recompensa de ser o piloto de tendências está apenas no mero prazer e possibilidade de pilotar. Não parece ser o caso de Flora, que frequentemente denuncia as apropriações de que é vítima. Mesmo assim, independente de ela algum dia conseguir o crédito que deseja e merece, é difícil imaginar que isso a impediria de seguir criando e inovando.
Veremos se estive certa ao tentar cravar que a influência da base rítmica que ela explorou em “Piloto” alcançará muito mais artistas e gêneros musicais do Brasil e do mundo.
Se permanecer no radar de quem busca identificar inovadores é alguma forma de reconhecimento para-autoral, Flora continuará tendo o meu e o de muitos.
