Tag: indie rock

  • Nortistas castigados pelo calor fazem boa arte — é o que mostram a amazonense Elisa Maia e a banda tocantinense Soprü

    Nortistas castigados pelo calor fazem boa arte — é o que mostram a amazonense Elisa Maia e a banda tocantinense Soprü

    “Sofre bem mais quem sofre ao sol de setembro no Norte, sem mais”, canta Elisa Maia em “Sol de Setembro”. Para quem vive no Norte, a frase dispensa explicação.

    No calendário brasileiro, setembro é o mês em que começa a primavera. Mas nos Estados do Norte, o mês não representa de forma alguma aquele intervalo agradável entre o inverno e o verão que outras regiões podem imaginar.

    Como tocantinense, setembro sempre foi um fantasma. Se julho é temporada de praias de água doce, o tocantinense se banha já se preparando pra caminhar pro corredor da morte: a dobradinha agosto-setembro é cruel, com setembro sendo o auge do calor.

    De uma maneira geral, o tocantinense é monotemático quanto ao calor mesmo: a principal característica que nos descreve e nos marca é o calor. É difícil explicar. “Calor” parece uma palavra comum e uma sensação universal; remete até mesmo a sentimentos celebratórios no Brasil; mas o calor no Tocantins é diferente… sobretudo em setembro.

    Também já virou tradição, marca, o calor de setembro no Tocantins. É um calor seco inflacionado pelas queimadas, que parece atravessar a pele até chegar ao humor. É a pior época. As viroses comem soltas, as pessoas ficam mal de tanto calor. Não é glamuroso.

    Mas recentemente, quando descobri no trabalho da cantora e compositora amazonense Elisa Maia a música “Sol de setembro” (lançada durante a pandemia), foi como sentir uma semiuniversalidade dessa experiência.

    Em entrevista exclusiva ao Musicazia, Elisa contou que já precisou contextualizar o verso quando o cantava em outros Estados. Eu, como tocantinense, apesar da distância homérica entre Palmas e Manaus, senti que a música era sobre a minha terra. Os primeiros versos, sobre alguém que não quer se levantar e ver o sol, parecem tirados de relatos meus de quando morava em Palmas. Eu abria a janela às 7 da manhã e o sol parecia dar um murro na minha cara.

    O calor tocantinense já inspirou alguns escritos artísticos meus, e ainda nessa toada de reconhecer-me na arte de outros nortistas por meio dessa experiência norte-universal, descubro que há mais arte tocantinense inspirada pelo nosso clima.

    É nesse contexto de calor de setembro que sai o álbum da banda tocantinense Soprü, Cidade do Suor (2026), ao qual o Musicazia teve acesso antecipadamente.

    Curiosamente, há no álbum uma música (“Areia no teto”) que fala do mês de agosto (e sua poeira na cidade, folhas no chão”). Gosto de pensar que o setembro tocantinense é tão temido que a banda sequer se atreveu a mencioná-lo; só a preparação para ele já é intensa o suficiente pra render música.

    Se a cantora amazonense Elisa Maia transformou o calor da capital do Amazonas em metáfora para o desgaste das relações, a banda tocantinense faz da capital do Tocantins a matéria-prima de um álbum inteiro.

    O resultado é um disco em que o suor não é apenas aquilo que escorre do corpo sob o sol: é cansaço, desejo, tédio, vontade de fugir, apego ao lugar e, sobretudo, uma maneira de existir no mundo. É um som arrastado, não no sentido de maçante ou de músicas tapa-buraco, mas no sentido de fluidez, de deixar-se levar pela poeira e entregar-se para o mormaço.

    É legal ver o indie pop e rock alternativo como matérias-prima para esses relatos; combinou. A banda goiana Boogarins já havia fundado esse precedente do rock alternativo como linguagem do cerrado. A Soprü caminha nessa mesma terra, com doçura e balanço, e com contexto lírico que justifica a unicidade do Tocantins em comparação com seu vizinho e Estado paridor.

    Há na faixa “Linguagem dos homens” uma metáfora interessantíssima comparando Palmas com Roma e o calor daquela com o incêndio que marcou a história desta. Mas apesar da menção a outra cidade de outro país, o álbum tem um aspecto quase funcional para compor a imagem de Palmas e do pouco conhecido Tocantins no imaginário coletivo do Brasil, e faz isso referenciando o capim dourado (artesanato símbolo do Estado do Tocantins), ao lago de Palmas, às araras e arraias, à poeira, ao barro, entre outros marcadores da experiência local. Cidade do Suor torna Palmas específica o suficiente para que ela se torne reconhecível por quem nunca esteve lá.

    É muito interessante ver esses elementos tão típicos de Palmas funcionando não só como paisagem, mas como ponto de vista. Isso me remete novamente a “Sol de setembro”, de Elisa Maia.

    Quando a entrevistei, ela disse uma coisa brilhante: ela percebeu que falar que estava em Manaus e comentar o calor era também uma forma de mostrar não só do quê, mas de onde ela fala.

    É quase político, ela disse, sobretudo considerando a arte feita por artistas do eixo sudestino — mas em “Sol de setembro”, quando ela subverte a lógica do arquétipo do calor como símbolo de alegria e claridade, ela coloca a sua Manaus, seu Amazonas, sua Amazônia como centro do mundo.

    Elisa disse que o Norte não é usualmente o norte de suas composições, mas em “Sol de setembro”, foi. A música foi escrita pra falar de relações e de solidão, mas o ambiente físico acabou ganhando outra dimensão retrospectivamente: sofrer sob aquele sol extremo também era cantar sobre uma experiência ambiental que o corpo já conhecia. Elisa captou magistralmente a sensação do quanto dói muito mais sofrer sob o sol que, por si só, parece brilhar pra punir e não pra iluminar.

    Porém, intrigantemente, eu não descreveria o som de “Sol de setembro” e nem de nenhuma das faixas de Cidade do Suor como tristes.

    Pelo contrário, são envolventes. “Sol de setembro” é um reggae delicioso; Cidade do Suor tem faixas mais psicodélicas e introspectivas mas algumas até bem alegres. Há até uma certa vivacidade, um sobreviver que quer viver mais e melhor, uma apreciação da estética e do potencial da paleta ocre desbotada de sol ao seu redor.

    É como se o artista nortista, apesar de não conseguir escapar do calor, também não consegue escapar da inebriação de quem é capaz de enxergar a miragem.

    Se você gostou da música dos artistas, encorajamos você a consumir por meio de canais oficiais para que eles possam ser remunerados.

    Projeto: single “Sol de setembro”

    Artista: Elisa Maia

    Lançamento: 24/09/2020

    Disponível em: Spotify, YouTube

    Projeto: álbum Cidade do Suor

    Artista: Soprü

    Lançamento: 22/09/2026

    Disponível em: Spotify

    A entrevista com Elisa Maia foi conduzida em maio de 2026, com foco na obra completa da artista. A conexão com o álbum da banda Soprü é de iniciativa do Musicazia para fins editoriais e não representa vínculo entre os artistas.

    Compartilhe este post:
  • O sensacional álbum de 2005, 静焔 (Jou En), da banda japonesa 空夜coo:ya, chega ao Spotify no dia 04/05/26, após clamores do nicho de viciados em recomendações “aleatórias” do Youtube

    O sensacional álbum de 2005, 静焔 (Jou En), da banda japonesa 空夜coo:ya, chega ao Spotify no dia 04/05/26, após clamores do nicho de viciados em recomendações “aleatórias” do Youtube

    Existe um prazer quase arqueológico em descobrir álbuns raros, músicas pouco conhecidas, artistas que não chegaram a ter estrela. Nerds de música conhecem bem essa sensação de escavar lojas de discos ou driblar os algoritmos das plataformas de streaming para encontrar alguma coisa fora da curva.

    É um prazer que, nos últimos anos, o YouTube vem reprogramando em escala, transformando achados individuais em fenômenos coletivos aparentemente aleatórios, como no caso de “Plastic Love”, da cantora japonesa Mariya Takeuchi, que desencadeou um novo mini boom de interesse em city pop mais ou menos na época da pandemia, após ter havido um upload da música no YouTube em ~2017.

    Nas últimas semanas, tenho sido abençoada com várias dessas recomendações mágicas do YouTube (mágicas no sentido de serem músicas que realmente evocam sensações quase espirituais de tão interessantes, não mágicas no sentido de coincidência; sabemos que não existe coincidência algorítmica).

    Muita coisa de rock africano, ambient music, música eletrônica e experimental, e também bastante j-rock dos anos 2000.

    Uma delas foi o álbum 静焔 (Jou En), da banda japonesa underground de dream-pop 空夜coo:ya.

    É um álbum de dream-pop com uma vibe meio sombria (a capa, inclusive, é quase macabra, mas é também uma das principais coisas que chamou a atenção de usuários do YouTube para escutar as músicasa). Ele tem alguns respiros de vibe mais positiva, mas no geral, é a atmosfera meio melancólica que o torna legal mesmo.

    O álbum é de 2005, mas a mixagem faz soar até um pouco mais antigo, de um jeito bom.

    Eu não sou tão familiar com dream pop/j-rock dos anos 2000, então algumas coisas, como a engraçadinha “Hungry Girl”, me remeteram um pouco ao indie pop-rock estadunidense dos anos 1990, o tipo que tocaria em algumas cenas de sitcom nova-iorquina em que os personagens estão indo pro trabalho ou pra faculdade, uma coisa meio Jack & Jill, Felicity etc.

    Já a mixagem de algumas faixas, como “ひまわり”, lembra um pouco The Cure, mais especificamente The Cure no álbum de 1992.

    Por volta do final, nas faixas 8 e 9, vêm algumas coisas mais cutecore, estilo moe music.

    É um álbum curto e gostoso de ser ouvido na íntegra. Você ouve e dá vontade de saber mais sobre a coo:ya.

    Ela não está mais ativa, mas seu site oficial ainda está no ar. Nele, é dito que a banda não faz(ia) apresentações ao vivo e só lança(va) algo quando os dois integrantes estão totalmente satisfeitos.

    Extrato do site: 空夜coo:ya Official Web – Profile

    Não fui a única a descobrir essa pérola musical obscura tanto em som quanto em falta de reconhecimento.

    A seção de comentários do upload não oficial do álbum no YouTube estava repleta de pessoas de diversas partes do mundo expressando o mesmo tipo de encantamento e gratidão por terem sido abençoadas pelo algoritmo de recomendação do YouTube — e também questionando por que o álbum não está no Spotify.

    Com base na quantidade de visualizações que o upload tem agora, e no que acompanhei desde que o encontrei, estimo que tenham sido mais de 200 mil visualizações em 2 semanas.

    A comoção fez algumas pessoas procurarem a vocalista e letrista da banda, Miyo, no Twitter X, que aparentemente só então ficou ciente de que alguns dos álbuns da banda não estão no Spotify e outras plataformas de streaming de áudio.

    E ela agiu rápido!

    Outro bom álbum da banda, 上弦の月 (Jougen no Tsuki), de 2002, foi colocado no Spotify essa semana, também após clamores dos novos fãs.

    Já o álbum 静焔 (Jou En), que se tornou o meu preferido, chegou no dia 04/05/2026, conforme ela própria confirmou a usuários que a perguntaram na rede social.

    Bom timing!

    Este é um daqueles casos raros em que a resposta do artista acompanha bem o viral, antes que a magia do momento se perca e o interesse se dissipe. (O que, provavelmente, se deve não só à responsividade da artista mas também por se tratar de uma banda independente, o que permitiu que a artista agisse por conta própria)

    Muitas vezes, a logística da vida real não acompanha tão bem o hype, e o que poderia ter se tornado uma nova fonte de circulação ou até mesmo de consolidação de fãs acaba se tornando só um momento efêmero mesmo.

    Que bom que não é o caso aqui.

    Se você gostou da música do artista, encorajamos você a consumir por meio de canais oficiais para que ele possa ser remunerado.

    Projeto: álbum 静焔

    Artista: coo:ya

    Lançamento: 09/12/2005

    Disponível em: Spotify, Amazon Music

    Compartilhe este post: