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  • [ENTREVISTA] Ouvimos o novíssimo do Edgar, REWIND, e falamos com ele sobre reggae, andanças pelo Brasil e pelo mundo, violência policial, texto e intuição artística

    [ENTREVISTA] Ouvimos o novíssimo do Edgar, REWIND, e falamos com ele sobre reggae, andanças pelo Brasil e pelo mundo, violência policial, texto e intuição artística

    Foto: Vicente Otávio

    Agradecimentos a Assessoria Bianco pela coordenação da entrevista com Edgar

    O Edgar é um daqueles artistas que vive o sonho do millennial multipotencial porém medroso (ou cansado): ele escuta todas, ou no mínimo várias, vozes da cabeça dele. Faz muita coisa e faz todas bem: é cantor, rapper, compositor, poeta, artista plástico, performer, designer de moda…

    São tantos talentos e canais que até as personas se transpõem às vezes – afinal, o nome artístico é Edgar ou Novíssimo Edgar?

    Para o trabalho musical, é Edgar mesmo, foi confirmado a nós pelo próprio.

    E, bom, aqui no Musicazia nós falamos sobre música, pelo menos como ponto de partida para outras discussões; e o próximo álbum do Edgar, REWIND (que nós pudemos ouvir antecipadamente), tem muita coisa interessante pra ser ouvida e pensada. De novíssimo, tem pouco, apesar de soar refrescante e em sintonia com o presente – é, na realidade, um álbum que viaja fundo nas raízes de Edgar.

    REWIND é um projeto focado em reggae e dub, o que parece se conectar com o zeitgeist do underground que talvez já esteja beirando o mainstream (como nós falamos no artigo 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026) – mas que, para o Edgar, nasce muito mais de um desejo de rewind mesmo do que de seguir ou liderar uma tendência.

    É um trabalho de muito tempo“, “em nenhum momento eu pensei em tendência“, ele nos contou em uma entrevista que nos deu em 03/04/26, a 4 dias do lançamento de REWIND.

    Os traços conceituais e estéticos do reggae e dub sempre estiveram presentes na produção das músicas do Edgar, seja pela forma de manipulação da voz, o uso de delays, reverbs… de tal forma que, Edgar nos conta, quando ele falou do REWIND para o curador Chico Dub, a reação dele foi: “Como assim? Pra mim, o que você faz sempre foi dub”.

    Mas esse é certamente o projeto que abraça esses gêneros e cenas, o que para Edgar tem um significado bastante pessoal.

    O sound system – mais especificamente o Djanguru, em Guarulhos -SP, cidade natal do Edgar – foi a cena que deu a ele as primeiras oportunidades de se apresentar, “de segurar um mic”, como ele mesmo nos contou.

    E foi para essa cena que ele se voltou após lidar com problemas relacionados a contratos com gravadoras, e após experimentações com música eletrônica e harpa japonesa junto à multi-instrumentista Lorena Hollander com o projeto Hotel Shiva, e até mesmo com uma certa decepção com o colapso ideológico da cena do rap e trap (“as pessoas se esqueceram que rap é compromisso”), gêneros que informavam a maior parte da música de Edgar.

    “Eu sempre falei que o reggae era meu professor, mas o rap foi meu empresário.”

    Foi após um reencontro com Jamil (fundador do Djanguru) em que Edgar mostrou músicas suas, e mediante acompanhamentos vocais com Laylah Arruda (figura também importante na cena sound system brasileira), que o REWIND começa a se desenhar melhor.

    Quando lanço Universidade Favela [em 2024], eu já estou nesse processo de dizer “tchau, um abraço” [para esse lado da carreira de rap]

    Entre diversas parcerias – inclusive com o próprio Jamil, e também com DJ Kazvmba e a cantora Matilde -, REWIND ficou pronto em julho de 2025.

    Foi uma germinação ainda discreta de um trabalho desenvolvido há algum tempo e que guardava sementes de trabalhos mais antigos ainda, como a música “Zum Zum Zum”, escrita na adolescência de Edgar.

    REWIND foi mote para diversas conversas interessantes que conseguimos ter com Edgar. Abaixo, alguns destaques:


    Guarulhos, Paris, Maranhão, Pará

    Em REWIND, Edgar anda e bebe de vários lugares e culturas, como a jamaicana e a maranhense.

    No Brasil, reggae, dub e sound system são ícones da cultura maranhense, o que me lembrou inclusive da apresentação de Edgar no Festival MADA, em 2025, em Natal-RN (show que destaquei em minha cobertura do MADA para a PopMatters), na qual ele usava uma camisa do Sampaio Correia, time de futebol do Maranhão.

    Eu já fui pro Maranhão umas 3 vezes, lá tem algo, uma musicalidade, que sempre me chama“, Edgar nos conta, dizendo que, inclusive, REWIND tem vários sotaques de reggae.”

    Mas boa parte das composições do REWIND nascem também de sua infância e adolescência em Guarulhos e da época em que morou na França: “Os jogos silábicos da letra de Zum Zum Zum vem de uma brincadeira de falar de trás pra frente, algo que existia em várias quebradas em Guarulhos e que depois percebi que existia na França também.”

    A faixa “Comme une flèche” (que Edgar descreve como “um dub mais soft, praticamente uma cantiga de ninar”) nasceu enquanto ele tocava violão no Rio de Janeiro, mas ao mesmo tempo, segue “um raciocínio jamaicano que quase negocia com o europeu“.

    Edgar cita a influência de Horace Andy, ícone do reggae roots jamaicano e integrante da banda de trip hop inglesa Massive Attack, na faixa “Jah Alone”; e cita a influência do francês Manu Chao em “Baila Loco”.

    Essa última influência vem n’um misto da ideia do vínculo com a língua francesa flertando com a latinidade, e ao mesmo tempo, pelo fato de “Baila Loco” ser uma paródia estética do reggae/dub cantado em espanhol assim como Manu Chao faz. “[Baila Loco] é uma sátira dessa ideia de a América Latina degringolando e a gente dançando.”

    No meio de tudo isso, Edgar nos conta, inclusive, que está de mudança para o oeste do Pará com sua companheira.

    A mudança não é aleatória: ritmos do Pará, como a cumbia e carimbó, já influenciam um pouco experimentações musicais dele; e claro, lá ele também já teve encontros com o reggae por meio de algumas bandas. “A música no Pará se demonstrou de forma bem fértil para mim. Além disso, é um lugar relativamente novo onde posso experimentar um outro jeito de fazer música, sem tanta pretensão mercadológica. Será muito mais um estudo de vida.” Entre os elementos da musicalidade paraense que o atraem, Edgar cita o carimbó, a guitarra e o saxofone.

    Mas talvez não seja só a música que o leva para lá. “A cidade grande tem me afetado de uma maneira estranha”, ele diz, enquanto falamos sobre um dos principais efeitos colaterais que a vida nas cidades trouxe a ele:

    Violência policial: o inimigo invisível em várias músicas de Edgar

    Um dos trabalhos mais recentemente lançados de Edgar é seu episódio no Goma Sessions (de março/2026), projeto de sessões musicais do diretor Gabriel Cupaiolo no qual Edgar participou juntamente a Sthe e Pancho Trackman, fazendo um freestyle.

    Nesse freestyle, noto notas relacionados a violência policial e conecto com o título da faixa “Cops with guns”, de REWIND.

    Pergunto a Edgar sobre a recorrência desses temas na obra dele, e a reação dele foi muito interessante:

    “Você é a primeira pessoa que identificou isso – na verdade, a segunda; a primeira fui eu. Eu também identifiquei isso, de Universidade Favela (2024) a 10 Gramas (2025).

    Até mesmo no REWIND, ainda há resquícios de um inimigo invisível; um inimigo militar, racista, [resquícios de] um pós-bolsonarismo ou talvez até mesmo de um pré-bolsonarismo… uma repressão silenciosa.

    É como se [esse inimigo invisível] estivesse me cercando. Isso é algo que eu sinto no corpo também. É como um easter egg em obras minhas… Bem louco, esse é um tema que dá até pra levar para terapia, inclusive.

    Faz tempo que não tenho problemas com a polícia, mas esses gatilhos ainda existem, talvez pelo alarme da pele escura.”

    O palavra e o texto como formas

    A obra escrita é veículo fácil para tornar mais claros eixos temáticos como esse que comentamos acima.

    Edgar é um artista de diversas mídias e formas, mas como compositor, rapper e poeta, o texto exerce papel primordial:

    “Tudo nasce do texto. Desenho e texto são muito correlacionados pra mim. O que eu não consigo dizer, escrever, eu desenho. Mas às vezes, até um desenho eu consigo escrever. Eu parto da palavra, e [escrever] às vezes é a mesma dor de um parto.”

    Essa importância é notável em REWIND, como quando Edgar cita a “escrevivência” de Conceição Evaristo na faixa “Mão pro alto”; ou até mesmo na forma de brincar com as palavras em “Zum Zum Zum”, sobre a qual já comentamos anteriormente.

    Esse jogo silábico [de “Zum Zum Zum”], esse refrão de trás pra frente, vem de quando eu e meu irmão falávamos assim de propósito para nossa mãe não nos entender, mas nessa música, isso age como um lugar seguro de linguagem para as pessoas ouvirem fumando um beck.”

    Foi interessante quando, na entrevista, Edgar citou a fase de sua vida em que se dedicou ao projeto de música instrumental Hotel Shiva, e mencionou ter encontrado em seu contrato com uma gravadora até mesmo uma amarração para esse tipo de música.

    Quando vi isso, eu pensei: Como eu fico? Eu não escrevo? Não tenho voz? Escrevo pra outra pessoa?” Edgar citou “A voz do dono e o dono da voz”, de Chico Buarque, para descrever o que sentiu nessa época.

    Interessante notar como a privação da palavra afeta até mesmo um artista que se expressa por tantos outros canais.

    Mas em REWIND, Edgar volta a explorar o potencial da palavra de forma mais livre, inclusive em diversas línguas: português, inglês, espanhol, francês; mas nem por isso mais afoita.

    REWIND é um álbum tranquilo, de escuta fácil, com poucos momentos de explosão – como em “Beija e abraça”, momento de pausa no dub para uma ida ao funk -, com melodias e letras que passeiam pela energia dos instrumentais sem muita pretensão de roubar a cena.

    Em sessão-teaser de lançamento de REWIND, disponibilizada em 17/03/26, Edgar apresenta as faixas “Je suis défoncé” e Comme une flèche”, do novo álbum

    “O artista tem uma seta”

    Quando ouvi REWIND, não pude deixar de lembrar do possível crescimento do reggae como tendência que mapeamos para 2026.

    Mas também ficou muito claro que para Edgar, a escolha do reggae para esse projeto brotava de algo muito mais orgânico.

    REWIND é uma assinatura que poderia ter saído há muito tempo atrás, mas que sai no melhor momento. É um momento mais maduro pra mim e para as parcerias que fazem esse lançamento. Em momento nenhum eu pensei em tendência. E foi engraçado ver o reggae alcançando o zeitgeist, voltando. Isso é importante pra perceber que às vezes, pensar demais no público só atrapalha. O artista tem um faro [no qual] ele precisa acreditar.”

    REWIND é descrito pelo próprio Edgar como um refresh pra si mesmo, mas que, ou pelo menos assim nos pareceu no nosso papo com ele, propicia mensagens que ele deixa para outros artistas também.

    Edgar cita seu amigo Renan Soares, artista visual com quem já trabalhou várias vezes, que diz que “o artista escuta uma música que só ele escuta“.

    E ele replica dizendo:

    “O artista enxerga uma seta que só ele enxerga.”

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