Ele é um advogado, Mestre e Doutor em Direito, bastante atuante e influente na área de tecnologia e Internet, e com uma circulação bem boa na área musical também (ele é curador do festival C6 Fest). Ele fundou o Instituto de Tecnologia & Sociedade do Rio (pelo qual inclusive já fiz cursos muito bons) e é simplesmente o criador do Marco Civil da Internet, uma das leis mais importantes que tivemos nos últimos tempos.
Em 2008, Ronaldo publicou um livro em coautoria com Oona Castro sobre a cena musical do tecnobrega, resultado de estudos desenvolvidos pelo Centro de Tecnologia e Sociedade (CTS) da Fundação Getúlio Vargas (da qual Ronaldo era diretor na época). O livro é bem interessante e está disponível para download gratuito no site do Repositório da FGV.
E como é natural de alguém que pesquisa tecnologia, nos últimos anos Ronaldo também tem se destacado muito por seu trabalho relacionado a Inteligência Artificial (IA). Ele assina uma coluna na Folha de São Paulo na qual frequentemente fala sobre isso.
Acho que agora está acontecendo uma nova virada que conecta dois ângulos interessantes do trabalho de Ronaldo.
A IA chegou no Pará.
Na verdade, a IA já chegou na casa dos brasileiros há algum tempo, e até mesmo o fenômeno de músicas feitas com IA não é novidade, mas acredito que estamos vendo agora as primeiras safras de tecnobrega e tecnomelody feitas com IA.
E o fato é que… essas músicas são boas.
Até o momento, muitas músicas feitas com IA que tenho ouvido por aí soam bem cringe, ou mesmo quando parecem atingir o mesmo patamar “técnico” de composição musical da indústria musical, não cativam tanto assim.
As poucas exceções geralmente são versões de músicas preexistentes (como “A sina de Ofélia”), o que só prova que o mérito está menos na IA do que em quem já fazia música antes dela existir.
Mas na semana passada, eu me deparei com a música “Tic tac” em vídeos de dança nos Reels do Instagram.
De primeira, sequer pensei que pudesse ser uma música feita com IA, pois ela apresenta exatamente as mesmas características peculiares do tecnomelody: batida acelerada, voz superprocessada e em pitch super alto; a composição também segue as mesmas estruturas de hits do tecnomelody, desde a progressão de acordes até o estilo dos versos.
Fiquei surpresa ao ler os comentários do post e ver gente dizendo “é IA”, “é música feita com Ia” em resposta a tantos outros que, como eu, queriam saber de quem é aquela música.
O nome dela é “Tic tac” e aparentemente foi produzida pelo DJ Nem de Icoaraci.
“Isso é DJ Nem de Icoaraci”?
Como é comum na cena do tecnomelody, a música tem uma vinheta que anuncia o nome do DJ: DJ Nem de Icoaraci.
Pelas minhas pesquisas, ele já é notório na cena de Icoaraci (distrito de Belém-PA) pelo menos desde 2020, mas sua produção parece ter se intensificado por volta de 2024. Parece ter sido mais ou menos nessa época que ele começou a produzir com IA, conforme a maioria dos seus vídeos no YouTube mostram. De lá pra cá, ele tem lançado com muito frequência músicas que seguem um mesmo padrão de produção e estilo de composição, mas variando entre tecnomelody, piseiro, forró, e variações desses gêneros que os combinam com gospel. É curioso tentar encaixar o gospel nessa lógica, mas na verdade, faz sentido. A música religiosa é muito presente na cena do tecnobrega, já sendo quase uma tradição das festas de aparelhagem tocar esse tipo de música ao final.
(Mas respeitosamente, onde DJ Nem de Icoaraci arrasa mesmo é nos melodys apaixonados, como a própria “Tic tac” e a dramática “Alguém que já tem alguém”.)
Nas músicas que encontrei associadas a DJ Nem de Icoaraci no Spotify (infelizmente, “Tic tac” ainda não é uma delas!), ele aparece nos créditos como compositor.
Não há provas de que as músicas sejam compostas ou produzidas com IA, embora: 1) pareçam sim; 2) é o que os locais têm comentado. O próprio DJ Nem de Icoaraci não confirma isso nos créditos das faixas, nas legendas dos seus posts e nem nas interações com os seus seguidores e pessoas que comentam nas suas postagens nas redes sociais.
Mas de fato, os que ele faz sugerem que há sim
Discussões à parte sobre autoria e titularidade, o que dá pra perceber da faixas subidas pelo DJ Nem de Icoaraci nas suas páginas é que elas seguem padrão de produção (mesma “voz”) e composição.
Então, com ajuda de IA ou não, isso é DJ Nem de Icoaraci.
Da IA para o mundo real
Nos comentários em alguns uploads ou reposts de “Tic tac”, pessoas falam de como a música toca fundo no coração, como estão sofrendo enquanto escutam, como as lembra de um amor que dói, ou como as fazem querer dançar, e perguntam como podem baixá-la para tocar nas festas.
A música supostamente feita por IA é tão marcante quanto as “marcantes” (subgênero do brega) tradicionais do Pará, e uma sofrência tão eficiente quanto outras compostas, produzidas e/ou interpretadas apenas por seres humanos.
Tic tac” ficou na minha cabeça também, e conforme os dias seguintes me mostraram, ficou na cabeça de muita gente.
A música parece estar viralizando no YouTube, TikTok e Instagram, pelo menos dentro do nicho de músicas paraenses.
O termo “oficial”, no contexto da cena musical paraense, não necessariamente significa que houve clearance autoral e a distribuição de um fonograma devidamente cadastrado como ISRC etc e tal – mas pode significar que um artista decidiu fazer e divulgar sua própria versão da música. Aparentemente, é o que ocorreu com a cantora Rosy Soares (embora a música ainda não esteja disponível em plataformas de streaming de áudio até o momento da publicação desse texto).
Escrevo esse texto em momento em que “a música “Tic tac” está em franca ascensão.
Seria esse o primeiro verdadeiro hit de IA?
Ideologias à parte, é sem dúvidas a música feita com IA mais convincente que eu já ouvi.
E é óbvio que não estou surpresa que a primeira cena musical do Brasil a realmente aprender a fazer música boa com IA tenha sido o tecnomelody/tecnobrega.
Inteligência artificial ou inteligência amazônica?
“Tic tac” apresenta alguns paradoxos interessantes: é feita com IA, mas seu título e letra referenciam o “tic tac” de um relógio, tecnologia já quase obsoleta hoje, quando as pessoas consultam o celular para saber que horas são.
Em termos de escolha de composição, isso me faz lembrar da música “Disco arranhado”, que fez muito sucesso em 2021 e que o próprio intérprete, César Menotti (da dupla com Fabiano), duvidou que o público jovem fosse entender e gostar.
E em termos de metalinguagem, acho engraçado pensar em uma canção possivelmente feita com IA girando em torno de uma referência analógico que hoje existe mais no imaginário coletivo do que na vida cotidiana.
Mas talvez o paradoxo temporal mais interessante que “Tic tac” evidencia seja que o tecnomelody parece ter antecipado a era algorítmica muitos anos antes dela existir.
E agora, a Inteligência Artificial apenas fecha um ciclo que já estava sendo desenhado nas aparelhagens paraenses, como se os gêneros musicais de produção eletrônica daquela região tivessem atravessado naturalmente da era do relógio para a era do algoritmo.
Várias características que hoje as pessoas associam à música feita com IA já existiam no tecnomelody há décadas:
vozes super processadas;
pitch elevado;
aceleração;
loops repetitivos;
excesso digital;
sensação de hiperestimulação sonora;
artificialidade estética deliberada.
De certa forma, isso sempre foi uma realidade pretendida e abraçada pelo povo que escutava essas músicas e frequentava as festas em que elas eram difundidas.
E quanto mais penso nisso, mais intrigante fica perceber como várias tendências da Internet parecem ter sido antecipadas pelo tecnomelody sem querer.
Antes mesmo do advento IA, mudanças tecnológicas e sociais “absorveram” um pouco da estética da música eletrônica paraense, ainda que por coincidência.
O TikTok, por exemplo, popularizou uma estética que o tecnomelody já conhecia.
Sobretudo na época da pandemia, vimos no TikTok um cenário em que:
músicas sped up viralizam;
vozes agudas dominaram trends;
áudio acelerado virou estética digital;
hiperestimulação sonora prendia atenção em vídeos curtos.
Mas o tecnomelody já fazia tudo isso nos anos 2000.
A “estética” musical do TikTok já existia no Pará muito antes do TikTok existir e muito antes da lógica algorítmica transformar velocidade em linguagem cultural.
É quase como se a cena tivesse desenvolvido intuitivamente uma sensibilidade estética para antecipar traços da Internet contemporânea.
[…] in many ways, Amazonian pop has always anticipated digital and social media phenomena. Long before TikTok’s sped-up, pitch-shifted songs became a trend, technomelody was already spinning high-BPM instrumentals with high-pitched melodies.
O que hoje é um traço de obra feita com Inteligência Artificial coaduna muito com traços que a cena musical periférica, amazônica, tomou pra si e orgulhosamente assumiu como traço estético há muito tempo.
O tecnomelody e o tecnobrega já nasceram preparados para a IA, talvez porque eles também já nasceram de um outro tipo de IA: Inteligência Amazônica.
IA + Pará = uma combinação natural
O tecnobrega e o tecnomelody nasceram da adaptação tecnológica, da gambiarra criativa, do uso de softwares, computadores e equipamentos eletrônicos como ferramenta de sobrevivência artística e econômica.
Produtores periféricos transformaram limitação em estética.
A tecnologia nunca foi só instrumento no tecnobrega, ela virou identidade cultural.
Quando estudou a indústria do tecnobrega, Ronaldo Lemos (p. 22) destacou que:
“[…] a apropriação das novas tecnologias é chave nesse ciclo produtivo. Estúdios caseiros, por exemplo, só foram possíveis graças ao acesso a equipamentos e computadores. O barateamento dos custos de produção por meio de tecnologias e mídias, como CDs e DVDs, possibilitou a criação de uma rede de diversos agentes no cenário musical de Belém, gerando trabalho, renda e acesso à cultura no Pará.”
(2008, p. 22)
Nesse contexto, é óbvio que a IA não infiltraria o tecnomelody como um corpo estranho, mas sim, como mais uma ferramenta natural de experimentação estética e sobrevivência criativa.
Em entrevista para mim feita no contexto da produção de um artigo sobre “Lanna”, o primeiro tecnobrega, Eduardo Barbosa também explicou que o tecnobrega foi o resultado da busca pelo barateamento dos custos de gravação. Nas palavras dele, foi “uma solução de mercado” e “não é só uma questão estética“.
O excesso de eletronicidade, as vozes em pitch altíssimo: no tecnomelody nada disso é tratado como defeito ou artificialidade, é linguagem.
Talvez por isso o tecnomelody feito com IA pareça tão natural. A IA não entra nessa cena como ruptura, e sim como continuação de uma tradição.
Quer gostem, quer não.
Com a IA como nova fronteira da música no Pará, quais os impactos extrafonográficos disso?
A Inteligência Artificial é apenas mais uma etapa lógica da história da música eletrônica amazônica.
Não dá nem pra dizer que representa uma quebra na trajetória do tecnomelody e do tecnobrega, pois conceitualmente, ela no máximo representa o aprofundamento de algo que esses gêneros já faziam desde o início: experimentar futuros através da tecnologia disponível.
Mas é inevitável pensar no quanto essa virada pode impactar outros aspectos dessa cena musical.
Que IA não é exatamente a maior aliada da sustentabilidade, já sabemos. Como fica isso n’uma cena em que nem alguns pilares básicos da sustentabilidade eram tratados da mesma forma?
Pirataria, gravações não autorizadas, gigs sem contratos – essa estrutura informal tem sido a base da cena do tecnomelody e tecnobrega por décadas. (Geralmente, isso só muda quando artistas tendem a querer transcender a própria cena. Manu Batidão e Gaby Amarantos são exemplos de artistas que, após atingir repercussão nacional, lançaram mediante autorização canções que até pouco tempo atrás poderiam muito bem ter lançado sem sequer solicitar liberação das obras ou fonogramas utilizados.)
Legalmente falando, a titularidade de obras feitas com IA depende da contribuição humana. Mas se até a contribuição humana já não era um empecilho tão grande para a livre circulação, gravação e reaproveitamento de obras autorais dentro da lógica do tecnomelody e tecnobrega, quanto dessa flexibilidade tende agora a se expandir?
Talvez a própria “Tic tac” já mostre alguns caminhos, surpreendentes até. A versão da música lançada pela cantora Rosy Soares é um “feat” com DJ Nem de Icoaraci. Seria, então, um (raro?) caso de um criador cujo nome viaja junto com o hype da música quando ela é regravada por outros artistas; o que torna isso um paradoxo até interessante com outros casos de criadores que não usaram IA e foram gravados sem autorização.
Estou curiosa para entender como (mais) uma funcionalidade que amplia acesso e barateia produção em escala “industrial” operará nas estruturas de geração de renda de um ecossistema de tanta relativização da Propriedade Intelectual.
Será que nada vai mudar? Apenas alguns tipos de players vão sumir, mas o core business continuará o mesmo? Será que a Inteligência Artificial demandará um outro tipo de Inteligência Amazônica para que essas cenas continuem operando?
Talvez não.
Talvez a grande questão não seja apenas quem “cria” ou quem grava a música, mas quem continua participando economicamente da cena.
Afinal, ainda que não seja mais preciso tantos humanos pra fazer música, ainda há muitos humanos que queiram dançá-la.
A menina que ganhava R$ 30 pra fazer a vinheta do DJ, o produtor que ganhava R$ 50 pra fazer uma beat, esses quem sabe sumam… mas as festas e shows continuarão, e pelo menos até o momento, é aí que se movimenta a maior parte do dinheiro no contexto da cena musical paraense.
Não que a erosão de modelos tradicionais de remuneração artística seja algo que eu deseje, mas o fato é que algumas estruturas econômicas já estão consolidadas e/ou estão sendo silenciosamente redefinidas.
A cena paraense, que já é um dos laboratórios musicais mais interessantes do Brasil, pode acabar se tornando uma chave para entender não só música generativa e inteligência artificial popular, mas também, algumas transformações mais profundas do próprio ecossistema musical na era da IA: quem produz, quem interpreta, quem distribui, quem lucra, quem se torna dispensável — e quem continua indispensável justamente porque ainda existem humanos querendo dançar, performar, consumir, compartilhar e transformar música em experiência coletiva.
Se anos atrás, pesquisadores de fora do Pará, como Ronaldo Lemos e Lydia Gomes de Barros olharam para a cena eletrônica periférica paraense como um modelo alternativo de produção e circulação musical, talvez agora seja o momento de observar também como essa mesma cena pode contribuir para debates sobre trabalho criativo, redistribuição de renda, autoria algorítmica e reorganização dos papéis humanos dentro da indústria musical.
É só uma questão de tempo até o Pará nos mostrar, mais uma vez, alguns futuros possíveis. Tic tac.
Uma progressão de acordes rara, recursos de melodic answering, e uma melodia quase ostinástica fazem de “Sonho Lindo” um lambadão de composição e produção extremamente inteligentes e elegantes.
A música “Sonho Lindo”, da banda baiana de lambadão Armandinho e os Rubis da Princesa, sempre me fascinou desde que a ouvi pela primeira vez na coletânea Cabaré da Marcinha, em meados de 2003/2004. (Essa coletânea, lançada pelo DJ Luciano em Gurupi, Tocantins – cidade na qual cresci e passei a maior parte da minha vida – merece um estudo e registro próprios. Além de ter feito muito sucesso, apresentou muitas músicas e artistas de forró e brega a Gurupi e região, moldando a cultura popular por bastante tempo no início dos anos 2000. Algum ainda eu ainda vou escrever sobre o Cabaré da Marcinha aqui no Musicazia)
Havia algo muito simplístico na composição dela que sempre me intrigou. Sabe aquela simplicidade que engana? Aquela sofisticação de quem não quer mostrar que é sofisticado, pelo contrário, até quer que você ache que é simples e “fácil”.
Mas não é tanto assim. Há algumas pegadas muito inteligentes na composição e produção dessa música, embora ela pareça básica sob os aspectos melódico e lírico, e pareça de produção pouco elaborada.
Aparentemente, “Sonho Lindo” (assim como boa parte da obra da banda) só chegou às plataformas de streaming em 2020, então você deve achá-la por aí como tendo sido lançada nesse ano, mas não, ela é do início dos anos 2000, provavelmente de 2002 ou 2003, e foi lançada no álbum Vol. 3 de Armandinho e os Rubis da Princesa.
Legal saber que discos como esse, de alcance majoritariamente regional em uma época em que música digital ainda engatinhava, não estão se perdendo; mas nesse processo de “transição”, perdemos algumas informações mais precisas.
Mas segundo o Spotify, e essa informação parece congruente com a história da banda, o compositor de “Sonho Lindo” é Armando Custódio, o próprio “Armandinho” que dá nome à banda. Ele é um dos grandes homenageados desse texto.
Ouvi muito essa música na minha adolescência: o Cabaré da Marcinha fez muito sucesso em Gurupi e a música “Sonho Lindo” era simplesmente a música de abertura de um de seus volumes. Então, quando ela começava a tocar, era como o anúncio do começo de uma festa: a gente já sabia que viria muita coisa legal depois; e eu, inclusive, até decorava a sequência das músicas.
Já mais velha, redescobrindo a música, comecei a pensar em como a melodia dela me lembra as melodias de Rod Stewart, como “I don’t wanna talk about it”. Tem um quê das melodias e estruturas de músicas dos Carpenters também.
Acho que a parte de “Sonho Lindo” da letra “Então vem viver comigo esse sonho lindo” (em 1:27) lembra muito a parte da letra “I can tell by your eyes” (0:14) de “I don’t wanna talk about it”, escute:
Mas “Sonho Lindo” difere dessa pela falta de um refrão bem marcado e de motivos diferentes nas seções. “Sonho Lindo” tem uma certa linearidade, quase um ostinato.
Além disso, há algo menos óbvio na harmonia (que é, basicamente, o “conjunto” de acordes musicais usados na música) de “Sonho Lindo” do que em “I don’t wanna talk about it” do Rod Stewart.
A progressão de acordes de “Sonho Lindo” é formada pelos acordes: C – Dm – F, isto é, Dó maior – Ré menor – Fá maior.
(Especialistas poderão defender outras “versões” dessa progressão, em outras nomenclaturas desses acordes – “enarmonia” – ou em outros tons; mas eu sou bem básica quando o assunto é teoria musical, então vou considerar essa, porque foi o que eu consegui tirar de ouvido no teclado, e quando toco esses acordes no teclado, soa exatamente como a progressão de “Sonho Lindo”. E é o que importa para aqui).
Esta é uma versão reduzida da popular progressão C – Dm – F – G (Dó maior – Ré menor – Fá maior– Sol maior), mas que elimina justamente o último acorde que “resolve” a progressão. Isto é o que se pode chamar de “unresolved chord progression”, ou progressão de acordes não resolvida.
Essas progressões musicais comuns na música popular costumam usar uma estrutura que conduz a um ponto de resolução – geralmente por meio da função dominante (V) —, criando uma expectativa de “conclusão”, “fechamento”. Mas em “Sonho Lindo”, essa expectativa é deliberadamente suspensa. Depois do acorde F(Fá maior), que leva a expectativa lá pro alto, a música volta pro primeiro acorde, C (Dó maior).
Há várias implicações aí.
Primeiro, o fato de a progressão não terminar em um acorde G (Sol maior) a torna rara. Não consegui pensar, e ao pesquisar tampouco encontrei, músicas que usem a progressão formada apenas por C – Dm – F.
Em uma pesquisinha básica usando a modalidade gratuita do site Chord Genome, não achei nada também, achei apenas algumas variações dela, mas nada igual:
A segunda implicação da escolha dessa progressão de acordes para “Sonho Lindo” tem a ver com a sua produção.
A produção é totalmente eletrônica, formada basicamente por:
um beat básico de lambadão eletrônico que se repete durante toda a música;
uma guitarrinha sintetizada que sola algumas vezes, mas que também aparece no “fundo” da música enquanto há vocais;
e um timbre de brass usado para algumas melodias bem pontuais que aparecem sobretudo nos “espaços vazios” quando não há vocais.
Esse brass tem um papel bem importante no storytelling de “Sonho Lindo”: ele complementa as melodias e “anuncia” pequenos clímaxes da letra.
Ou seja: a harmonia de “Sonho Lindo” pode não ter um acorde que “resolva” a progressão, mas as melodias tocadas no brass sintetizado cumpre esse papel de “fechar” clímaxes.
Esses fillers tocados com sintetizadores em momentos de silêncio ou transição são uma técnica chamada de “melodic answering”, e é muito encontrado em músicas do ABBA e outros grupos de europop; e claro, reproduzido em outros gêneros e por outros artistas.
O melhor exemplo desse “melodic answering” em “Sonho Lindo” é quando ele canta:
“Desde quando eu te vi… [BRASS ANUNCIANDO QUE UMA GRANDE NOTÍCIA VAI CHEGAR] eu me apaixonei“.
É muito bom. Ouça em 0:28:
Mas o mais legal é que o “Eu me apaixonei” não é cantado de forma triunfal, pelo contrário, a música retorna pro primeiro acorde, C, com a mesma melodia do começo. O brass faz esse papel mais eloquente, extravagante, para que o cantor siga tranquilo e calmo contando sua história.
E de fato há um compromisso de que a história da música seja contada de forma tranquila.
Quando a vocalista mulher entra na música, cantando “Eu também estou feliz“, ela canta com um calma quase contraditória com o que está sendo contado. Não há euforia na melodia quando cada cantor está contando sua versão da história. A euforia só vem ao final quando eles cantam juntos: “E viva o amor… E viva o nosso amor…” … mas ainda assim mantendo os mesmos acordes. Não é aquela resolução formulaica brega de “ah, agora vamos subir o tom e colocar uma acorde triunfal para celebrar o amor”. Segue calmo, tranquilo.
(Mas você esperaria menor criatividade de uma banda chamada Armandinho e os Rubis da Princesa? Nunca peguei essa referência do que seriam esses rubis da princesa)
Se você gostou da música do artista, encorajamos você a comprar o projeto pelo Bandcamp ou pelo menos consumir por meio de canais oficiais do artista para que ele possa ser remunerado.
(Título confiante pois quem escreveu esse post é a mesma pessoa que faz a lista da PopMatters, kkkkkkkkkk)
Um dos momentos que mais gosto todo ano é fazer a lista de melhores álbuns pop brasileiros da PopMatters.
Apesar de não ser tão conhecida no Brasil fora do nicho de fãs de Metacritic, a PopMatters é um veículo bastante respeitado no nicho de jornalismo independente, crítica musical e academia nos EUA. É também um dos veículos onde mais me realizei como escritora, pois sempre tive muitas oportunidades por lá e as Editoras sempre deram um espaço muito legal para a música brasileira, inclusive música brasileira nichadíssima, como o brega paraense.
Fiquei muito feliz quando, em 2021, propus a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros como parte do evento anual que são as listas de melhores do ano, e as editoras toparam. Desde então, só não fiz a lista em 2022.
(Sim, existe o lado discutível de se tratar de um veículo estrangeiro querendo dar pitaco sobre o que é o melhor da música brasileira, maaaaaaaaaaaasssssss se quem faz a lista é uma brasileira, então temos legitimidade, não? O veículo é apenas o veículo. Nesse caso, desculpe-me McLuhan, mas o meio é só parte da mensagem. E, se bobear, o fato de eu como brasileira só achar esse espaço em um veículo estrangeiro talvez seja também uma mensagem.)
Senti que 2025 não foi um super ano para o pop no Brasil. Tivemos grandes álbuns de rap, MPB, música alternativa etc.
Mas houve sim algumas iniciativas muito grandiosas, como o Rock Doido da Gaby Amarantos (que eu não só resenhei muito fervorosamente, como também coloquei em #1 na lista anual), e alguns projetos menos ambiciosos que eu torci muito para desembocarem em álbuns, pois tenho certeza que entrariam na lista de álbuns.
Mas não rolou. Muitos desses projetos permaneceram como EPs.
Eu acho que há certo mérito em manter essa hierarquia entre álbuns e EPs sim, sobretudo conforme produtos musicais vão ficando cada vez mais orientados ao lançamento e consumo rápidos; então, nem me passou pela cabeça propor uma lista de EPs ou qualquer coisa do tipo.
Mesmo assim, em 2025 ouvi alguns EPs de música pop (e ritmos e linguagens adjacentes) que são legais demais pra não serem destacados.
Então vou escrever sobre eles aqui.
Tenho certeza que, se esses EPs tivessem virado álbuns ainda em 2025, meu trabalho de fazer a lista de Melhores Álbuns Pop Brasileiros da PopMatters teria sido muito mais difícil.
Layse – Música Mundana
Nossa, como eu queria que fosse álbum. Confesso que cheguei a mandar uma DM para a Layse dizendo que daria tempo de fazer isso acontecer e ela arrasar em listas anuais. (Não façam isso que eu fiz! Não estressem o artista. Fui desnecessária, mas é que Música Mundana realmente me empolgou.)
Esse EP é genial! Brega-cult de uma finesse rara.
É coerente, bem amarrado, tem uma produção gostosa que exalra brega e tecnobrega de uma forma interessantemente menos megalomaníaca e estridente. Não que o mérito do EP seja em “suavizar” o brega, mas sim, em fazê-lo de um jeito que a gente não está tão acostumado a ouvir, e que ainda assim soou muito legal, sobretudo porque o timbre e jeito de cantar da Layse são mais puxados pra MPB do que pro pop melódico. É uma voz mais Anna di Oliveira do que Viviane Batidão.
Meu destaque musical vai para “Voando com o J. Som” mesmo; mas meu destaque pessoal vai para “Extrago”. É um brega-bolerinho genial que eu certamente usaria como bio do meu perfil no Orkut, se em vez de “cerveja” a letra falasse em “cachaça”, e se eu bebesse cachaça na época em que ainda existia Orkut. Amei muito a exaltação da mulher poeta que sente prazer na sua própria companhia e se sente vive deliciando a própria companhia na presença de terceiros.
myha e ILLANES – Furduncim
Difícil classificar o(s) gênero(s) musical(is) desse EP, mas super encaixo em pop pois acho que a linguagem como um todo é essa. Esse é um trabalho extremamente interessante e notável de uma dupla de produtores de Minas Gerais, que juntos, criaram fusões muito legais de brega, brega funk, forró, piseiro, pagodão, cantos e cantigas, dub, trance, dance/EDM etc.
Que delícia! Isso é o futuro.
Aliás, já falei bastante desse EP no artigo 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer no Brasil em 2026, e até ilustrei o artigo com a capa desse EP, pois acho que ele reúne tanta coisa legal que eu sinto como elemento estrutural do pop brasileiro contemporâneo e ao mesmo tempo sintomático do que podemos esperar que cresça em um futuro próximo.
O fato de o álbum ser aberto por uma parceria com o divertidíssimo e criativo Cabra Guaraná diz muito, diz tudo. Tem um quê de piada, de vinheta, de versão musical de linguagem de Internet às vezes. Por esse motivo eu inseri esse estilo musical no “gênero” colagem eletrobrega.
Mas sei lá se essa expressão é suficiente, sei lá como definir o som desses caras, só sei que é algo em que devemos prestar atenção e que dá pra curtir horrores.
(E essa capa ótima? Só ela já mereceria estar em uma lista.)
DOUM – DOUM
Não conhecia esse duo de Salvador, mas ando muito entusiasta do que venho chamando de “pop baiano” (e apesar das possíveis limitações do rótulo, eu vou continuar usando porque acho que o pop que tem sido feito por alguns artistas baiano tem peculiariades e um charme específico que merecem sim ser entendidos como um universo à parte), e nesse sentido, adorei o tipo de música que eles fazem.
É quase MPB, mas pop demais pra isso, tem um suíngue próprio (levemente próximos ao hip hop/trap melódico) e elementos de axé.
Mas quem ouvir “Querendo Bis” pode achar que DOUM é uma espécie de versão baiana d’Os Garotin.
Gostem ou não de comparações, meu veredito é que os garotos têm potencial. O EP é uma delícia e cheio de estilo.
Sofia Pitta – Molho
É, mais pop baiano, vou fazer o quê?
Essa cantora é muito boa. Com o crescimento da Rachel Reis e da Melly, acho que um bom espaço pode se abrir pra ela. Não que ela seja uma cópia, mas é certamente do mesmo grupinho. Não é ruim estar em tão boa companhia. Espero que ela saiba explorar isso da melhor forma (pelo que já vi nas redes sociais, ela tem uma forma de se comunicar bem divertida e autêntica).
Enfim, é aquele som praiano e suingado que grita molho baiano (não à toa o EP é aberto por uma faixa chamada “Molho” mesmo), mas com uma pegada mais suavinha na maior parte do tempo, só com um tempero levemente mais rebolativo em “Vixe Maria.”
Como a própria Sofia canta em “Tempo voa”: “Um amor com esse calor só se vê em Salvador”.
Duda Beat – esse delírio vol. 1
A Duda é complicada, não consigo não me interessar por qualquer coisa que ela lance (exceto, talvez, as “versões”, como a que ela lançou recentemente de “Messy” da Lola Young). Ela, a Pabllo e a Marina são meu sonho de princesa de fã de música pop nacional. É sempre muito difícil não incluir projetos da Duda em listas de melhores porque sempre se destacam entre os demais. São bem feitos, têm personalidade, têm proposta, tem execução legal, têm melodias e letras muito autênticas que não só caminham bem na linha tênue entre alternativo e mainstream: elas desfilam, rebolam, fazem performance sensual nessa linha.
Esse EP ficou muito bom, traz uma Duda mais próxima àquele lounge pop psicodélico que fez o álbum de estreia dela render comparações com Kali Uchis. Não à toa, tem até collab com a banda de rock psicodélico Boogarins.
Muita gente achou “Casa” pretensiosa. Eu não achei (mas certamente ainda teria amado se fosse, curto pretensões musicais se o artista pesquisa e sustenta). Eu amei. Amo a Duda experimental.
O fato de o título do EP mencionar “vol. I” já me deixa feliz. Quero muito conferir o Vol. II e/ou o projeto completo.
(Capa do EP Furduncim, de myha e ILLANES, lançado em 2025. Escolhi essa capa para ilustrar o artigo sobretudo porque há ma música nesse EP que sinto que sintetiza vários elementos que mapeio nesse artigo: forró, reggae, cantos e cantigas, eletrônico etc… É a “Trem de Dub”)
Eu adoro previsões e mapeamento de tendências!
Claro que nem sempre acerto (e claro que esse tipo de análise sempre é um pouco enviesada), mas gosto do exercício. Gosto de tentar captar sinais ainda difusos que parecem dialogar com algo maior e tentar entender quais ideias estão mais propícias a germinar em determinado momento. Já falei sobre isso no meu artigo Flora Matos e a desvantagem do piloto.
Ao longo de 2025 e também nesses primeiros dias de 2026, mapeei alguns caminhos que me parecem especialmente promissores para a música brasileira nesse ano.
Quis, especificamente, identificar gêneros “novos” ou emergentes — a ideia aqui não foi dizer que o funk, o pagode etc vão continuar em alta, mas sim, tentar identificar coisas razoavelmente novas que podem começar a crescer, mesmo que não atinjam seu ápice em 2026.
Ao organizá-los, notei várias interseções e pontos em comum, tanto que tive dificuldade de separar alguns. O acordeão do batidão gaúcho e os sintetizadores do noia dance têm a ver com o tribal guarachero; o reggae e suas vertentes aparecem como pano de fundo ou beat principal tanto do arrocha reggae quanto do funkhall etc. Elementos como esses aparecem de formas diferentes nos gêneros que selecionei.
Após o exercício de identificar, separar gêneros que compartilham elementos em comum, “nomear” , cheguei a 13 gêneros.
O que vem abaixo não é um ranking nem uma profecia cravada: é só um retrato possível de um momento em formação.
Seguem meus palpites sobre 13 gêneros musicais emergentes que podem crescer em 2026, sem ordem particular de “relevância”, preferência, nem nada:
Noia dance
Arrocha reggae / Seresta reggae
Manguebeat (revival contemporâneo) / tecnocangaço
Funkhall / Funk dancehall
Art pop / Art pop folk
Brega latino
Tribal guarachero (talvez com outro nome)
Colagem eletrobrega
Slow deconstructed funk (algum nome mais interessante e original deve surgir)
Cumbia brasileira
Cantos ancestrais e/ou tradicionais no pop
Batidão gaúcho
House mandinga / Afro-lounge brasileiro
Vamos conhecer melhor cada um deles.
Noia dance
O que é:
Música eletrônica que mistura dutch house, funk e até alguns elementos de moonbathon e outros gêneros urbanos de inspiração afrolatinas.
Costuma ter uma melodia de buzininha ou um hook feito com algum tipo de sintetizador (Na primeira vez que escutei noia dance, a primeira coisa que essas melodias das buzininhas me trouxeram à mente foi o hookzinho de guitarra que o Pharell Williams colocou no instrumental do remix de Boys que ele fez para a Britney Spears).
Onde surgiu: Criado nas periferias de Porto Velho, Rondônia, no Norte do Brasil, na década de ~2010, mas ganhando maior relevância por volta de 2024.
Onde já está rolando: Forte em Porto Velho-RO e começando a ganhar outros Estados por meio do TikTok. Apesar de ainda estar muito abaixo do radar nacional, o noia dance já circula amplamente no ambiente digital.
Além disso, segundo reportagem do G1 Rondônia, em 2025 o noia dance chegou a mais de 150 países, um dado que diz muito sobre como cenas periféricas conseguem hoje furar fronteiras sem necessariamente passar pelo centro do mercado brasileiro.
Em quem prestar atenção: Zequinha Oliveira, Felipe Morais, Yuri Lorenzo e outros DJs do Canal Remix
Quem pode levar adiante essa tendênciapara o resto do Brasil: Naturalmente, os DJs e produtores rondonienses — mas além deles, acredito que outros DJs de fora do Estado que estão em nichos parecidos têm potencial. O DJ Guuga, por exemplo, tocou noia dance quando se apresentou em Porto Velho em 2025 e aparentemente já está lançando coisas nesse estilo:
Também aposto que o DJ Lorran sustentaria um noia dance.
E claro, quando o ritmo começar a estourar a bolha, deve chegar ao Pedro Sampaio, haha
Projeções abertas e comentários finais:
Se 2025 foi marcado pelo destaque da música eletrônica periférica paraense (sobretudo o tecnobrega e o rock doido), 2026 pode ser o ano em que o Brasil passe a reconhecer também criações eletrônicas periféricas vindas de outros estados da região Norte.
O noia dance é muito divertido e dialoga muito bem com vertentes mais lúdicas e despretensiosas do funk brasileiro — especialmente aquelas ligadas à zoeira, ao humor etc, como o passinho do romano do Rio de Janeiro; ou ao funk MTG de Minas Gerais. Acho que tem um potencial bem grande de fazer sucesso no Brasil todo.
Essa é uma oportunidade excelente de Rondônia lançar para o Brasil uma tendência cultural pra chamar de sua — e uma chance para o Brasil finalmente conhecer algo da região Norte que não seja Pará nem Amazonas.
Arrocha reggae / Seresta reggae
O que é:
Arrocha, seresta, brega etc com influências bem marcadas de reggae e cultura rasta no canto e nas letras, não só nas batidas.
Onde surgiu:
É razoável cravar a bandeira no interior da Bahia, mais especificamente em Feira de Santana, porque é de lá que vem o projeto Seresta do Rasta, protagonista do estilo.
Aliás, a Bahia também é a terra onde nasceu o arrocha, então faz sentido.
Onde já está rolando: No Nordeste, em zonas onde forró, arrocha, seresta e reggae convivem há décadas.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O próprio Seresta do Rasta, Nadson Ferinha, Cleiton Rasta, Bruxo
Quem pode levar adiante essa tendência:
Artistas que têm transitado bem na seresta e no arrocha-brega romântico, como Klessinha e Yasmim Sensação.
Em um nível mais mainstream, achei que o ritmo tem a leveza e bom humor que artistas como o Nattan e Grelo sustentariam bem, e talvez o próprio João Gomes, que já está conversando um pouco com reggae.
Projeções abertas e comentários finais:
O arrocha reggae ou seresta reggae é uma mistura que conecta pontos extremos do Nordeste: o reggae que faz sucesso no + o arrocha da Bahia, mas que tem tudo pra ganhar o Brasil.
Com certeza pode crescer ainda mais no no Pará, onde o reggae já é abraçado e o brega já é um estilo de vida: vai casar perfeitamente.
Forró, piseiro e arrocha são vetores naturais dessa fusão, especialmente por sua força no interior do país; mas acredito que o gênero também tem um potencial “praiano” muito forte e pode extrapolar o litoral nordestino.
Manguebeat (revival contemporâneo) / tecnocangaço
O que é:
Versões contemporâneas do manguebeat e até infusionadas com elementos de outras regiões agrésticas do manguebeat, como o tecnocangaço, termo criado pelo produtor Limaothesound.
Onde surgiu: O manguebeat surgiu em Pernambuco, nos anos 1990, com Chico Science & Nação Zumbi. Mas nos últimos anos,
Onde já está rolando: Pernambuco e Alagoas, mais como chamado simbólico do que como cena consolidada.
Em 2025, surgiram lançamentos que retomam o espírito do manguebeat sob uma ótica contemporânea, misturando referências originais com pop e produção atual, como o álbum de estreia dos pernambucanos Barbarize, que reimagina o manguebeat à luz do funk, dance, reggaeton etc.
Além disso, o alagoano Limaothesound criou a sua própria versão contemporânea da mistura do tropical com agreste: “tecnocangaço”.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O duo pernambucano Barbarize, o produtor alagoano Limaothesound, o coletivo tocantinense Masterholic.
O manguebeat pode ressurgir não apenas como um resgate nostálgico, mas como uma nova cara da música nordestina (e adjacentes — já que citei o Tocantins) que mantém vivo seu passado de disrupção musical e inovação vinda do sertão, ao mesmo tempo em que dá a tudo isso uma nova cara.
Funkhall / Funk dancehall
O que é:
Autoexplicativo: é a fusão do nosso funk brasileiro com batidas de dancehall (gênero jamaicano).
Onde surgiu: Em São Paulo, mas como fusão digital e transnacional também. Pioneirizado pelo Pump Killa, que é um dos principais nomes do dancehall no Brasil e se define hoje como “Soldado do Funkhall“.
A fusão de funk & dancehall enquanto um gênero só ganhou maior destaque agora no ano de 2025, sobretudo a partir do lançamento da mixtape Funkhall Vol. 1, da Rua B Records.
Onde já está rolando: Entre os principais ouvintes da Rua B Records estão São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba.
Mas por meio do YouTube, Spotify, TikTok, o funkhall já até extrapolou as fronteiras brasileiras. Alguns estrangeiros o chamam de brazilian dancehall funk.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência Yuri Redicopa, DJ Seth, e claro, Pump Killa
Quem pode levar adiante essa tendência Artistas de pop e funk que transitam bem entre esses territórios do funk brasileiro e gêneros de origem jamaicana.
Em um âmbito mais mainstream, apostaria no Mc Cabelinho, que inclusive já está abertamente se dedicando ao reggae, com o lançamento de “Rastafari” em 2025.
O funkhall também tem muito potencial no pop (pense em algo do tipo “Pon de Replay” da Rihanna mas mais puxado pro funk), por meio de artistas como a POCAH (que inclusive aparece no EP Funkhall Vol. 1, na faixa “Lindo com dinheiro”) e a IZA, que sempre foi influenciada pelo reggae e aparentemente o terá como inspiração principal em seu próximo álbum.
Projeções abertas e comentários finais:
Acho que podemos ver coisas muito interessantes vindas de produtores de funk atentos às tendências globais e artistas que já dialogam com reggae e dancehall.
Mais uma vez, o reggae aparece como matriz que se infiltra e gera novos híbridos.
Art pop / Art pop folk
O que é:
Estética musical da música pop com uma ambição de experimentação artística.
Onde surgiu: Artistas como a Duda Beat já têm trabalhado essa proposta desde sempre, com destaque para o álbum Te Amo Lá Fora (2022). Em 2025, álbuns internacionais como Lux (da espanhola Rosalía) e Elíade (da chilena Javiera Electra) podem ser referências.
Onde já está rolando: No Brasil, ainda aparece mais como intenção estética do que como “gênero” ou cena consolidada.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência
Duda Beat (já é o principal nome do gênero/movimento, na minha opinião);
Gaby Amarantos, Urias (o álbum Purakê de 2021 da Gaby, e o álbum Carranca de 2025 da Urias, já são um pouco disso);
Liniker (está n’um momento de consolidação como estrela pop e já se provou como excelente compositora; não me espantaria se quisesse sofisticar também as suas produções cada vez mais ou torná-las mais experimentais);
Julia Mestre, Ana Frango Elétrico (embora sejam um pouco mais indie, já trabalham com essa proposta também, e podem crescer).
Quem pode levar adiante essa tendência: Artistas pop midstream e mainstream interessados em sofisticar arranjos, melodias e conceitos visuais, aproximando a música pop de uma lógica mais contemplativa, quase museológica.
Sobretudo, e com certeza, a Duda Beat.
Projeções abertas e comentários finais:
Essa é uma aposta ainda preliminar, mas coerente com o momento de refinamento pelo qual passa o pop brasileiro. Nos últimos anos, tivemos álbuns pop brasileiros bastante ambiciosos e glamurosos; e é natural esperar que artistas que lançaram esses álbuns queiram “subir cada vez mais o nível”.
Brega latino
O que é:
Híbrido que explora conexões entre ritmos brasileiros de “sofrência” e dança a dois (como o brega, arrocha, sertanejo, piseiro) e ritmos latinoamericanos de estética similar (como bachata, corrido, reggaeton), inclusive podendo conter letras em espanhol.
Onde surgiu:
Sobretudo no Norte, Nordeste e Centro Oeste, os gêneros locais sempre se fusionaram com outros ritmos de países sulamericanos, caribenhos e mexicanos:
o Pará e o Amapá ouvem cumbia, bachata, salsa, merengue;
o Maranhão ouve reggae;
a axé music bebe da rumba;
o arrocha baiano se assemelha à bachata;
o sertanejo abraçou a bachata e tem raízes na guarania e na música urbana mexicana.
De 2022 pra cá, sinto que esse intercâmbio Brasil+outros países latinos está se intensificando, somado a uma narrativa de que o Brasil está se redescobrindo como parte da América Latina. Isso está se refletindo na música.
Onde já está rolando: Nas regiões citadas acima: no arrocha, no brega contemporâneo, em versões latinas de músicas brasileiras como as que têm feito as venezuelanas Estefany e Gabriely.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência Di Paulla El Nuevo (tocantinense que faz uma mistura muito interessante e bem humorada de piseiro, salsa, reggaeton, brega); Lucas LM (brasileiro que canta em espanhol); as venezuelanas Estefany e Gabriely (que fazem versões interessantes de músicas sertanejas e bregas brasileiras em espanhol, mas também cantam originais em português); MC Papo e Dedé Santaklaus(que em 2025 lançaram um álbum que se propõe a reunir o funk mineiro com os corridos mexicanos e o sertanejo brasileiro, Modão Malado).
Interessante acompanhar como isso pode se manifestar também no pagode e outros gêneros menos obviamente conectados com a música dos nossos hermanos.
Quem pode levar adiante essa tendência: No pop: Pablo Vittar, Anitta, Marina Sena, Leoa, que já bebem muito de fontes latinas
No brega paraense/tecnobrega: praticamente todo e qualquer artista, né? Pois “brega” e “latino” já são parte estrutural da música feita lá.
No pagode: Menos é Mais, que recentemente lançou versões de sucesso de músicas latinas como “UN X100TO” (do mexicano Grupo Frontera com participação de Bad Bunny) e o clássico “Corazón partío”.
No axé/pagodão baiano: Ivete Sangalo, Psirico, Tony Salles (que inclusive lançou muito recentemente uma faixa que interpola o clássico cubano “Guantanamera”)
No sertanejo: Ana Castela (que já faz uma ponte interessante, apesar de esporádica, com o reggaeton e a guarania paraguaia), Zé Felipe (que vai lançar uma música com a colombiana Karol G em breve), Gusttavo Lima (que, de certa forma, já faz isso)… mas honestamente, qualquer outro artista sertanejo que fizer bem feito também tem potencial. O sertanejo é um dos ritmos que mais efetivamente absorve e amplifica esse tipo de fusão (o que foi provado com a expansão da bachata por meio do Gusttavo Lima), e ele guarda uma conexão e ponte muito orgânica com alguns desses gêneros, como a música mexicana, por exemplo. (Fico triste pensando no quanto a Marília Mendonça poderia ter sido gigante no México)
No forró/arrocha/piseiro: Mari Fernandez, Felipe Amorim, Natanzinho Lima, Henry Freitas. Essa mistura vai combinar muito. Um exemplo que gostei muito foi a música abaixo (e que inclusive está entre as 50 mais viralizadas em Portugal no momento em que escrevo esse artigo, em 11/01/26):
Projeções abertas e comentários finais:
Aqui eu vou ter que me conter pra não escrever demais. Sou uma grande entusiasta das misturas de gêneros latinos de língua espanhola com os gêneros nascidos no Brasil, sobretudo os gêneros populares do Norte e Nordeste. Inclusive, em 2023, escrevi um artigo chamado 9 ideas to break Spanish-language music in Brazil, e uma dessas 9 ideias era explorar essa conexão entre gêneros desses locais.
Acho que está começando a rolar.
Também não posso deixar de analisar essa tendência sob o aspecto sociopolítico também.
De um lado, a fusão de gêneros musicais brasileiros com gêneros latinos de países de língua espanhola tem um viés muito impulsionado por artistas e fãs de música associados a uma discurso mais progressista sobre latinidade, irmandade latinoamericana e decolonialidade.
Mas o potencial da fusão é tão grande que provavelmente pode ser impulsionada até mesmo por artistas e fãs que não compartilham desse discurso.
Como eu disse acima, o sertanejo, que não é exatamente um aliado progressista, tem um poder enorme de furar bolhas e já tem um histórico de intercâmbio com gêneros latinos.
Tribal guarachero (talvez até mesmo com outro nome)
O que é:
Música eletrônica com elementos de gêneros musicais locais de origem indígena e afro.
Onde surgiu: Na América Latina, a partir da mistura de guaracha, cumbia e música eletrônica, tendo como ápice músicas como “Pepas” do Farruko.
Onde já está rolando: Fora do Brasil, especialmente em cenas eletrônicas latinas; e gradualmente crescendo na cena eletrônica do Brasil também.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: João Lágrima de Ouro, mary d
Quem pode levar adiante essa tendência: Produtores e DJs brasileiros que saibam incorporar instrumentos e referências locais e criando uma versão genuinamente brasileira dessa estética.
Acredito que há potencial de muitos hits grudentos do tipo “Stereo Love” se soubermos fazer isso de um jeito bem brasileiro.
No tribal guarachero feito na Colômbia, por exemplo, o acordeão (que também é típico do europop, dance romeno etc) da cumbia fez bastante sentido.
Será que no Brasil faríamos algo com o acordeão do forró, por exemplo? Ou talvez algo no estilo do “Movimento da Sanfoninha” da Anitta mas mais puxado pro dance music? Ou talvez as metaleiras dos paredões de forró, piseiro, quebradeira?
Projeções abertas e comentários finais:
Certa vez, no Trends Brasil Conference 2023, ouvi o compositor Pablo Bispo dizer uma coisa que me marcou: “o Brasil sempre vai passar a sua régua (sobre tendências e estilos de fora)”. Quando o Brasil absorve algo de fora, faz do seu próprio jeito. Estou curiosa para ver como o tribal guarachero pode passar por esse processo por aqui.
Embora alguns DJs brasileiros já trabalhem usando essa expressão, acredito que novos nomes podem surgir para o tribal guarachero no Brasil.
Colagem eletrobrega
O que é:
Mistura de brega, tecnobrega, forró, piseiro, pagodão etc com batidas de dance music, house music e letras e samples puxadas para a comicidade e malandragem.
Seria um eletrobrega mais debochado, com influências de cultura de Internet, uma estética desconstruída feita de colagens (vinhetas, samples, ou simples inserções de hooks que soam “aleatórios”), com pegada bem-humorada das letras e da proposta de fazer um certo tipo de piada ou deboche.
Onde surgiu: O eletrobrega é presente há anos no Pará e no Nordeste, em versões híbridas, consolidados por nomes como a Banda Uó, Gang do Eletro etc.
Mas a vertente que prevejo agora é menos melodicizada, com menos estrutura de composiçã pop, com uma proposta mais recortada, com colagens, vocais não cantados.
Onde já está rolando: Em cenas de festas com proposta brega, brasilidade profunda e bem humorada, como a festa Baile da Cabra e a festa Furduncim.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O DJ Cabra Guaraná e o duo myha & ILLANES.
Quem pode levar adiante essa tendência: Artistas pop com identidade regional forte e gêneros populares dispostos a absorver novas influências.
Certamente, Pabllo Vittar, Viviane Batidão e Gaby Amarantos são bons nomes; elas já exploram esses ritmos e têm lançado letras cada vez mais bem humoradas, irreverentes e debochadas que casam com essa proposta.
Projeções abertas e comentários finais:
O eletrobrega ao qual me refiro aqui é aquele tipo que parece ter nascido como mero mashup de Internet feito pra causar riso, mas acaba virando música legal de verdade.
As produções do DJ Cabra Guaraná são exatamente isso, mas ele está ficando cada vez melhor.
No EP Furduncim (2025) dos produtores myha e ILLANES, eu vejo uma proposta musical menos voltada para o humor, mas que eu também não encaixaria em outros gêneros mapeados aqui. Inclusive, “Trem de dub” sintetiza várias das tendências que mapeio nesse artigo: forró com reggae, cantos e cantigas, acordeão de guarachero etc… Mas há sim um certo humor, deboche, nas letras das faixas que têm vocais.
De uma forma geral, esse eletrobrega explora a raiz eletrônica de muitos gêneros populares (como o brega, arrocha etc tocados em teclado) mas puxam suavemente para a dance music de pista.
O risco desse gênero é não ser tão evergreen; as vinhetas e colagens das faixas, que conversam muito com cultura de Internet, podem não se sustentar bem no médio e longo prazo. Mas no presente, são um retrato muito legal de um Brasil que não relega esse tipo de música à categoria de guilty pleasure.
Slow deconstructed funk (algum nome mais interessante e original deve surgir)
O que é:
Funk mineiro e/ou funk com batidas desmontadas em um bpm mais lento e vocais emo. Algo como a faixa “Baile do Bruxo”, do EP financiado por Ronaldinho Gaúcho, mas talvez mais lento.
Onde surgiu: Não é um gênero consolidado ainda, é muito mais um caminho que visualizo que pode ser traçado e que tem origens no funk mineiro, funk MTG e no Brazilian phonk.
Onde já está rolando: Minas Gerais e fora do Brasil também… Curiosamente, o DJ e produtor da faixa que linkei acima, 4kbatu, é turco.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: DJ WS da Igrejinha; DJs e MCs mineiros e do funk underground de São Paulo.
Quem pode levar adiante essa tendência: Acho que o Mc Livinho se daria super bem, tem os vocais adequados pra isso.
Projeções abertas e comentários finais:
Sendo bem sincera, o universo do funk é tão grande que às vezes me perco; são tantas variantes, subgêneros, nichos que é difícil acompanhar.
Mas para essa possível tendência, em especial, estou apostando nas versões mais lentas desse estilo de funk levemente melódico e sombrio que se popularizou em Minas Gerais, e que tenho ouvido se propagar em versões lentas:
Cumbia brasileira
O que é:
Não há muito o que dizer. É a cumbia nascida na Colômbia, mas feita com o tempero brasileiro.
Onde surgiu: Já se faz cumbia no Brasil há algum tempo, sobretudo no Pará. Também se destaca a banda pernambucana Academia da Berlinda, cuja “Cumbia da Praia” (2011) é um dos exemplares brasileiros mais populares do gênero; e o BaianaSystem, que mistura a cumbia com guitarra baiana, rock e outros gêneros.
Onde já está rolando: Em cenas regionais no Norte e Nordeste (com foco no Pará, Bahia e Pernambuco) e em festas e eventos do nicho de cumbia que têm crescido em São Paulo e em todo o Brasil.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O Cheiro do Queijo, Leoa, Felipe Cordeiro, Saulo Duarte, Felix Robatto, Mari Jasca, Amanda Magalhães, Samuca e a Selva, Moiacumbia.
Quem pode levar adiante essa tendência: Obviamente, BaianaSystem e artistas paraenses que já têm ou estão alcançando renome nacional, como Gaby Amarantos e Joelma.
Para um vetor mais pop, artistas mais abertos a latinidades, como a Marina Sena e Rachel Reis.
E eu não me espantaria de ouvir cumbia no sertanejo também (Marilia Mendonça já regravou “Cumbia do amor”…) ou na fusão com MPB por meio de artistas como o Seu Jorge (cujo último álbum, Baile à Baiana, bebeu bastante dessas latinidades dançantes como o merengue e a rumba) ou Luedji Luna (que flertou com esse estilo em “Banho de folhas”).
Projeções abertas e comentários finais:
Em 2024 e 2025, países sulamericanos como Colômbia e Peru se agarraram à cumbia quase que como um manifesto tanto de resgate quanto de propagação.
Alguns nichos até espalharam a frase “cumbia is the new punk”, puxados pela música de mesmo título, da banda Son Rompe Pera.
Outro grande marco desse novo mini boom da cumbia foi a inclusão dos pioneiros da cumbia amazônica, os peruanos Los Mirlos, no festival Coachella em 2025, que impulsionou a carreira da banda entre novas gerações e gerou colaborações com Adidas e Johnnie Walker.
Com essa cena crescendo em âmbito macro, vi algo similar ocorrendo no Brasil: mais pessoas se interessando por cumbia, mais DJs e festas de cumbia surgindo (destaco a festa Cumbieros, em Curitiba), e artistas incluindo isso no seu som também.
Acho que a tendência é crescer, com cada vez mais nuances de brasilidade — o que, entre artistas baianos, eu já vejo por meio da agregação da guitarra baiana. Estou curiosa para ver o que outros artistas vão incorporar também.
Cantos ancestrais e/ou tradicionais no pop
O que é:
Melodias dos cantos e cantigas oriundos de tradições e/ou religiões populares do Brasil sendo usados, como sample ou parte estrutural da composição, em músicas de artistas pop.
São cantos agrícolas, cantos religiosos (como pontos de umbanda), cantos de aboio, cantos indígenas, cantos de boiadeiro etc… Ou seja: cantigas que vêm do sertão, da fazenda, da floresta, do terreiro, que representam o Brasil profundo, e que não têm necessariamente uma destinação performática específica ou uma autoria rastreável, e que são marcados por vocais mais retos, não melismáticos.
Onde surgiu: Eu traçaria essa tendência de volta até o álbum de 2022 da Duda Beat, Te amo lá fora, que é aberto por uma faixa que segue essa proposta: “Tu e eu”, influenciada por coco e que conta inclusive com Cila do Coco como colaboradora.
Onde já está rolando: Em 2025, destaco o álbum do pernambucano Gomes e a faixa “Ai Ai, meu Deus”, em colaboração com As Ceguinhas de Campina Grande.
De certa forma, dá pra destacar também o remix “Copo de Veneno”, da DJ Meury, que usa vocais de um ponto de umbanda para fazer uma produção de tecnobrega. A ideia é essa mesmo: usar esses vocais mais retos, não essencialmente cancioneiros, em produções pop.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O pernambucano Gomes, DJs e artistas experimentais atentos ao folclore e à ancestralidade.
Quem pode levar adiante essa tendência: Artistas pop mainstream ou alternativos que já dialogam com tradição popular, como Duda Beat, Juliette, Kaê Guajajara, Gaby Amarantos, Daniela Mercury.
Projeções abertas e comentários finais:
Esse movimento dialoga com uma tendência global de resgate folclórico reinterpretado à luz do presente.
“É uma tendência global, na Espanha por exemplo tem um movimento muito forte de folclore regional trazido aos dias de hoje, muitos grupos: o galego Baiuca, o asturiano Rogrigo Cuevas, os cántabros Casapalma, muitos grupos em Castilla e muitos na Andalucía e por todo o território, fazendo música contemporânea com seus próprios folclores. É muito interessante e no caso do Brasil vai ser incrível, com essa riqueza cultural inmensa!” – @ireneatienza_musica (sic)
Concordo que há uma tendência de resgate do tradicional e que isso pode influenciar cada vez mais nossa música pop.
Mistura de música tradicional gaúcha com dance music e diversas vertentes da música eletrônica.
Esse comentário aqui do YouTube no vídeo linkado acima trouxe uma definição engraçadíssima: “Uma mistura de Gaúcho da fronteira com Genival Lacerda no ritmo DJ Malboro“
Onde surgiu: Rio Grande do Sul, em uma tentativa de fazer música gaúcha que chegasse também a jovens, crianças, e com uma pegada bem humorada.
Onde já está rolando: Em todos os Estados da região Sul do Brasil, e também em São Paulo.
A música “Mega Répi do Guasca”, do Xirú Missioneiro, viralizou no TikTok e no Youtube (onde acumulou mais de 3 milhões de visualizações em 1 mês); já extrapolou as fronteiras do Rio Grande do Sul, chegando inclusive a Portugal.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O próprio Xirú Missioneiro.
Quem pode levar adiante essa tendência:
Duplas sertanejas do Rio Grande do Sul, DJs e artistas gaúchos.
Projeções abertas e comentários finais: Esse gênero me parece o que teria ocorrido se o “Ai se eu te pego” de Michel Teló tivesse encontrado exatamente o tipo de EDM que fazia sucesso na época em que ela estourou.
Acho que tem um potencial interessante para a região Sul, toda a região comum da cultura pampa do Cone Sul, e até algumas interseções com o vaneirão e sertanejo.
(Interessantemente, quando ouvi o “Mega Répi do Guasca” me lembrei um pouco de “Descer pra BC”, acho que são estilos que conversam.)
House mandinga / Afro-lounge brasileiro
O que é:
Diálogo entre ritmos de origem africana, música eletrônica minimalista e estética lounge. Talvez uma versão mais chill daquilo que muita gente já chama de “afrobeat brasileiro”.
Onde surgiu: Tenho sentido isso mais forte agora na década de 2020, com o surgimento de artistas como a Melly, Yan Cloud e Rachel Reis, que transitam entre o R&B e o afrobeat, pagodão baiano, ijexá etc.
Onde já está rolando: Bahia e Rio de Janeiro, principalmente.
Em quem prestar atenção na evolução da tendência: O grupo Mandinga Beat.
Quem pode levar adiante essa tendência: Aposto muito na Flora Matos como possível exploradora desse território. Ela já é bastante ligada em afrobeat, amapiano, pop e R&B afro, e faz conexões bastante interessante desses gêneros com gêneros baianos e percussão afro.
Acho que Deepkapz também tirariam de letra.
Projeções abertas e comentários finais:
Esse estilo mais chill lounge, lentinho, suave, como pano de fundo para estilos musicais bastante característicos de uma região já é uma tendência mundial.
Vejo isso no afrobeat (músicas calminhas como “Dream Girl” e “Slow Down”, que foram sucesso mundial) e também no hip dut (gênero indonésio que mescla o bedroom trap com o dandgut, gênero tradicional do país). Em menor escala, sinto que isso também está acontecendo ou em vias de acontecer com o gênero plena, que teve um boom em 2025 por causa do álbum DtMF do Bad Bunny e das músicas do colombiano Béele.
Com certeza, a “versão brasileira” disso teria um pezinho no terreiro, nos elementos musicais das religiões de matriz africana, e nas percussões de gêneros da negritude, como o axé, o pagodão etc. Pensei em algo como uma versão ainda mais lenta e minimalista de “Praia do Futuro” do BaianaSystem com Seu Jorge.
Bônus: 2 gêneros que *não* são emergentes mas que podem ter um boom em 2026
Reggae
Tudo indica que pode viver um novo pico de relevância em 2026, seja como gênero principal, seja como matriz de fusões (como de fato é em vários dos gêneros mapeados que identifiquei acima).
Alguns sinais apontam para isso:
Em 2025, o reggae voltou a ganhar força em lineups de festivais de música e no pop mainstream, impulsionado tanto por artistas consagrados do gênero (como Edson Gomes e Núbia) quanto por cantores populares que passaram a flertar com sua batida;
Inclusive no mercado latino fora do Brasil, o reggae tem sido motor de alguns hits: enquanto escrevo esse artigo, a música “La Villa” (colaboração de Kapo e Ryan Castro que enfatiza o reggae de REGGAEton) está em #1 no Spotify da Colômbia;
No Brasil, artistas como IZA e Mc Cabelinho lançaram projetos de reggae em 2025. A IZA, em especial, continua investindo no gênero e tudo indica que seu próximo álbum terá esse foco;
Segundo o Spotify Brasil, o Brasil foi o segundo país do mundo que mais ouviu reggae em 2025, somando mais de 5,5 bilhões de streams por aqui; com um aumento especial entre junho a novembro, de 41%,;
Esse aumento cria terreno fértil não só para o próprio gênero em vertentes mais puras brilhar ainda mais; mas também para se mesclar e informar outras variantes. Aliás, como meu amigo Julio Aguiar bem humoradamente me lembrou (de uma forma despretensiosa, mas que eu enxergo como pedacinho de sinal), a colaboração entre IZA e João Gomes no show da virada 2025/2026 em Copacabana já sinaliza um possível caminho que vem sendo confirmado por outros lançamentos e movimentos: a união do reggae com o forró, piseiro etc. Não à toa, mapeei o seresta reggae/arrocha reggae como tendência.
Um outro sinalizador que vejo como potencializador do crescimento do reggae é o potencial turístico de São Luís, capital do Maranhão onde o reggae é um dos gêneros reis. Vejo um movimento interessante de conhecimento e interesse nessa cidade, e não me espantaria se em breve ela tivesse um mini hype similar ao que Belém do Pará vem tendo.
Dance / EDM melódico
“2026 é o novo 2016”, muita gente tem dito. É engraçado ouvir esse tipo de coisa: há algum tempo, o EDM e dance music de 2010-2016 eram certo motivo de piada, considerado “farofa”, cafona etc. Hoje, existe uma certa nostalgia por esse tipo de música.
Acredito que o momento é propício para um revival desse tipo de música eletrônica com estrutura de canção pop, algo no estilo David Guetta mas com uma pegada brasileira.
De certa forma, alguns dos gêneros que mapeei acima já respondem a isso (tribal guarachero, eletrobrega etc).
E de certa forma, o Pedro Sampaio já faz algo assim também. Mas também acredito que a “volta” desse dance e EDM com canção pop seria algo mais puxado para o Alok do que para o funk.
Ou talvez seja um dance com conversas mais orgânicas com outros gêneros brasileiros que já são mais próximos dele, como o tecnomelody. Acredito que a cantora paraense Carol Lyne possa representar algo assim.
Já tivemos divas pop que tentaram emplacar esse tipo de EDM pop por aqui e não deu tãoooooo certo, mas acho que com um toque mais particular, mais abrasileirado de uma forma natural, como as músicas da Carol Lyme, pode vingar.