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  • “O caranguejo saiu do mangue e virou gabiru”: da lama ao esgoto, dos caranguejos aos ratos, do Manguebeat à cultura ratosa, Recife segue sendo parindo manifestações culturais

    “O caranguejo saiu do mangue e virou gabiru”: da lama ao esgoto, dos caranguejos aos ratos, do Manguebeat à cultura ratosa, Recife segue sendo parindo manifestações culturais

    Fonte das reproduções/imagens usadas acima: Matéria G1: “Briga entre rato e caranguejo é flagrada em Boa Viagem; capas de álbuns de Nação Zumbi & Chico Science, e Mundo Livre S/A; reproduções dos perfis no Tik Tok @danilonjr10; @meninodorato; @riccioofc01


    Estou fascinada com o fato de que, ano passado, alguém flagrou uma briga entre um caranguejo e um rato na praia de Boa Viagem, em Recife-PE.

    Foi inevitável, para mim, assistir a essa cena como uma síntese de duas manifestações culturais produzidas por Recife: o manguebeat e a cultura ratosa.

    (Inclusive porque a matéria é de 2025 e foi também em 2025 que a cultura ratosa ganhou certa repercussão para além das fronteiras pernambucanas)

    A cultura ratosa é uma cena de MCs, dançarinos e agregados que se reúnem em um esgoto de uma região periférica de Recife para fazer festas e performances de brega funk. O ponto ficou conhecido como Ratos Bar.

    Esse grupo representa a si mesmo pela figura do rato. Os participantes se chamam de ratos (ou “ratosos”) também.

    @fofocanamao

    Influenciadores e moradores de Recife transformaram um canal de esgoto a céu aberto em ponto de encontro para festas e eventos, denominado “Ratos Bar”.#noticiastiktok #noticias #viral #ratosbar #recife

    ♬ Curious – Healing And Spirit Health & DJ Hoobidibbie

    É de um nível de insalubridade que só pode ser feito de genialidade. Fétido, perigoso, mas também peculiar e criativamente clubístico como a realidade de boa parte dos brasileiros.

    Quase dá alegria ver cenas culturais tão particulares e originais surgindo nessa época onde parece que a régua da criatividade só se mede pela capacidade de recombinar o que já foi criado.

    Ok, isso que eu acabei de dizer, se tomado literalmente, não é exatamente característico dos tempos atuais; toda cultura ou novidade artística sempre partiu de um repertório anterior.

    E inclusive, esse próprio movimento dos ratos também não foge dessa lógica de remixagem e aproveitamento do que já existe por aí, sobretudo no plano musical, já que o gênero musical que domina a cultura ratosa é o brega funk (grande destaque da cultura contemporâneo do Pernambuco).

    E ok, é fácil admirar tudo isso à distância, sem precisar pisar no esgoto que sustenta essa cena, quase que como os gringos exoticizam favela e baile funk.

    Mas é difícil não se render ao carisma e oportunismo criativo dos ratosos. Há algo artisticamente poderoso nisso tudo.

    A imagética dos esgotos e ratos informa todo o lifestyle deles. Eles usam ratos de pelúcia e miniatura nas performances, nas roupas das dançarinas. Eles têm seus próprios códigos culturais usados para demarcar os limites da cena: suas próprias gírias, seus estilos de penteados, e claro, o seu próprio “território”, um bar localizado no esgoto.

    Vai além de reciclagem estética.

    O fedor, a sujeira e o risco de contaminação deixam de ser apenas contexto e passam a operar como linguagem: uma denúncia das condições precárias de saneamento básico nos territórios onde essas performances acontecem e, ao mesmo tempo, uma afirmação de uma lógica já conhecida nas culturas de favela — a de criar a partir do que se tem, transformando limitação em estética e identidade.

    Isso tudo emerge na mesma cidade que, nos anos 1990, deu origem ao Manguebeat, um dos movimentos musicais mais relevantes da história da música brasileira, e por muitos ainda apontado como o último grande movimento musical brasileiro, considerando o sentido mais amplo do termo “movimento”, abrangendo conceito, som, estética e mensagem.

    O eixo conceitual do Manguebeat se firmava na figura do caranguejo, figura profundamente ligada aos mangues de Recife.

    Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife.

    (Trecho do manifesto “Caranguejos com Cérebro”, de 1992, texto fundador do movimento Manguebeat, de autoria de Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A)

    No Manguebeat, a lama era usada como metáfora para uma inteligência e criatividade que brotavam daquilo que, à primeira vista, parece estagnação.

    É, em outra época, outro contexto (embora na mesma cidade), e com outra iconografia, também uma manifestação sobre a capacidade do ser humano – ou, mais especificamente, do recifense – de criar e resistir no meio à sujeira e à falta de fé e de cuidado.

    Caranguejos no mangue. Ratos no esgoto. Recife negligenciada mas nunca impotente.

    Vejo de novo a reportagem sobre a briga entre o rato e caranguejo e não consigo deixar de achar graça, lembrando do trecho de “Da lama ao caos”, faixa-título do icônico álbum de 1994 de Chico Science e Nação Zumbi:

    Vi um caranguejo andando pro sul
    Saiu do mangue e virou gabiru

    (Gabiru é outro nome dado para rato)

    Isso não é uma comparação sob o aspecto da qualidade ou potencial representativo.

    Até onde sei, a cultura ratosa não chegou pra suceder nem reivindicar nenhum lugar específico entre os panteões da já riquíssima cultura de Recife.

    Quando vi o rato e o caranguejo brigando, não pensei em movimentos culturais recifenses tensionados, talvez nem mesmo em uma passagem de linguagem. Quando li sobre o rato querendo comendo comer o caranguejo, pensei muito mais em uma Recife que se alimenta de si mesma.

    É uma amálgama da capacidade de Recife de encenar a si mesma por meio de símbolos da sua natureza, e da sua capacidade de gerar cenas artísticas e culturais tão particulares e que, ao mesmo tempo, representam tantas características da vida brasileira que encontramos para além do Pernambuco, inclusive.

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