Ok, eu não fiz um trabalho de mapeamento de todos os grupos masculinos cariocas que lançaram discos de pop preto em maio de 2026; mas achei interessante que dois gostosíssimos álbuns lançados nesse mês tenham vindo de grupos com esse perfil: FORÇA DA JUVENTUDE, segundo álbum de estúdio d’Os Garotin de São Gonçalo, e MOMENTUM, álbum de estreia do grupo Trivia.
Belo momento para a nossa música e para essas boybands.
Sobre o termo “boyband”, inclusive, cheguei a entrevistar Os Garotin em 2024, quando eles começaram a fazer posts de brincadeira se descrevendo como “a primeira boyband de MPB”, e achei divertido saber que eles realmente não se importam em serem vistos como boyband, e abraçam esse rótulo com leveza e alegria.
Na época, eu acabei fazendo uma analogia que não entrou para a versão final do artigo publicado na Remezcla: eles parecem uma boyband de K-pop no sentido de que cada um tem sua “função” na performance, cada um tem sua carreira solo em paralelo com o grupo etc.
“Boyband” pode até ser um conceito gringo, mas a versão brasileira disso é também muito especial e temperada com coisas que você só encontra no Brasil mesmo – como a marra e o suíngue do Rio de Janeiro, ou a habilidade de misturar percussão baiana com R&B estadunidense com uma naturalidade e romantismo que só quem tem o sangue de Djavan correndo nas veias poderia.
Vamos aos comentários sobre cada um desses álbuns:
Os Garotin – FORÇA DA JUVENTUDADE
Você vai gostar se gosta de: (ah, você não conhece Os Garotin ainda? Mas ok, você vai gostar se gosta de) Seu Jorge, Fat Family, Tim Maia, James Brown, Wilson Simonal
Eu gosto do título FORÇA DA JUVENTUDE porque é um cafona estilosinho, parece saído de um programa de auditório dos anos 1970, soa como algo que um tio diria sobre jovens talentosos; mas também porque a música do grupo vive exatamente nesse encontro entre frescor e tradição.
Há também uma coisa meio Wilson Simonal de assumir uma malandragenzinha charmosa de garoto mas fazendo música de gente grande.
O legal d’Os Garotin é justamente abraçarem a juventude enquanto estado de espírito sem muitas desculpas e sem cair em uma obsessão por parecer futurista ou inovador demais. Dá pra sentir que Os Garotin sempre serão Os Garotin, mesmo quando forem velhin. Há muito suingue novo ali, mas também muito orgulho de soar como quem conhece a história da música preta brasileira, e internacional também.
Inclusive, a proposta do álbum é basicamente a mesma do álbum anterior (que foi o álbum de estreia do grupo). FORÇA DA JUVENTUDE inova pouco em relação ao som trazido em OS GAROTIN DE SÃO GONÇALO (2024). Mas, honestamente, precisava? Não precisava.
Os Garotin têm uma energia tão fresca e genuína que acho que vai levar um tempo até eles precisarem se reinventar pra não cair na mesmice. (Ou talvez eu seja culpada pelo meu cérebro condicionado a botar a régua mais baixa para artistas masculinos… mas fico pensando que, por exemplo, se o Vício Inerente fosse pouco diferente do De Primeira, talvez eu tivesse amado igual, de tão apaixonada que fiquei pela originalidade da Marina Sena.)
O álbum é cheio de R&Bs deliciosinhos, como “Deixa eu te encontrar” e “Calor e arrepio”; algumas baladinhas; alguns momentos de cartão-postal de brasilidade, como a boa dupla “Soul brasileiro” e a faixa-título.
Tudo é muito bom, mas pra mim o destaque é “Falador”, excelente momento de soul e hip hop (contendo um rap legal do 2ZDinizz). É a mais diferentezinha em termos de temática (talvez a única que não fale de juventude ou de flertes, sexo e romance), mas nem acho que tenha sido esse o mote para a música ter a estrutura e melodias mais empolgantes. As harmonias vocais do refrão e os acordes meio cabulosões fazem a faixa se destacar entre as outras. Mas claro que a letra ajuda sim, é gostoso ouvir uma expressão tão brasileira (“Falador passa mal”) no meio de umas harmonias de igreja.
O hype d’Os Garotin é totalmente merecido.
Quem ainda tem birra por achar que eles são mais do mesmo estereótipo carioca & black music brasileira precisa superar. Eles não são a repetição desses clichês; na verdade, eles são o tipo de energia e qualidade que fez esses atributos pegarem tanto a ponto de se tornarem clichês.
E no ao vivo, são melhores ainda: entregam toda a energia das gravações e muito mais.
Estou ansiosa pra ouvir algumas desse álbum ao vivo. Tive a oportunidade de vê-los ao vivo no Coolritiba, em 23/05/26 – inclusive em um encontro belíssimo e totalmente sinérgico com as meninas do Fat Family -, e eles cantaram algumas como “Se joga” e “Simples assim”; mas sinto que “Falador” ao vivo vai me ajudar a alcançar níveis mais altos de transcendência e empolgação.
Trivia – MOMENTUM
Você vai gostar se gosta de: Ryan Fidelis, Aaliyah, Destiny’s Child, as faixas R&B da Gloria Groove
O grupo de nepobaby & neponetos do Djavan faz um som interessantíssimo com uma pegada pouco explorada no nicho do pop preto/R&B brasileiros: aquele som mais Missy Elliott/Timbaland-esco que ficou popular com a Aaliyah em One in a Million (1996) e influenciou desde Destiny’s Child a Britney Spears.
Ok, não é cultura nossa, é cultura estadunidense, mas ainda assim é uma proposta musical interessante que acredito não ter ouvido tanto em artistas brasileiros; e gostei de ouvir com o Trivia.
Eles soam como se tivessem assinado com a Bad Boy Records no final dos anos 2000.
(Péssimo timing citar P. Diddy em 2026, eu sei, mas pra quem não sabe, lá pelo final dos anos 1990 e início dos anos 2000, ele chegou a produzir alguns artistas e explorar essa interseção de pop teen + R&B, rendendo alguns trabalhos bem legais, como o Down With Me do grupo de meninas – brancas – P.Y.T. Esse álbum foi a primeira referência que me veio à cabeça logo quando comecei a ouvir o MOMENTUM).
Mas o álbum também tem umas pegadas mais abrasileiradas, como um ijexá/pagode baiano em “Na beira do mar” (para acompanhar o dendê da Melly, colaboradora da faixa) e o funk Miami Bassi que lembra o funk carioca old school em “Encara”.
Vi que o álbum foi produzido por um dos membros do Trivia, Gabriel Viana, e também por seu tio Max Viana (filho de Djavan e artista também com extensa obra como a lindíssima “Canções de rei“). Gostei bastante das escolhas de produção do álbum; senti pompa, esforço, ambição.
Senti um caminho de produção interessantíssimo em “Meu jeito de amar”, tem uma guitarrinha sintetizada ali que quase soa como cordas de berimbau…
Também gostei bastante das harmonias vocais; percebo muito a vibe de “grupo”, meio diferente d’Os Garotin que parecem mais um encontro de três artistas solo (o que é, inclusive, parte da proposta deles mesmo).
Tudo no álbum passa a impressão de que foi produzido para artistas que também apostarão em performance, e honestamente, ainda não vi como eles se apresentam ou vão se apresentar; mas de todo modo, vale a pena acompanhar o Trivia.
Se você gostou da música dos artistas, encorajamos você a consumir por meio de canais oficiais para que eles possam ser remunerados.
Projeto: álbum FORÇA DA JUVENTUDE
Artista: Os Garotin
Lançamento: 15/05/2026
Disponível em: Spotify, YouTube, Deezer, Amazon Music
Projeto: álbum MOMENTUM
Artista: Trivia
Lançamento: 26/06/2026
